Cultura e meio ambiente: o intercâmbio biológico e o cultivo do arroz nas Américas

Cultura e meio ambiente: o intercâmbio biológico e o cultivo do arroz nas Américas

Autores:

Sandro Dutra e Silva

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 supl.1 Rio de Janeiro dez. 2019 Epub 27-Jan-2020

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000500017

Finalmente é publicada em língua portuguesa a obra Arroz negro: as origens africanas do cultivo de arroz nas Américas , de Judith Carney (2018) . A versão editada em inglês ( Carney, 2001 ) atraiu a atenção de leitores mundo afora pela originalidade e abrangência multidisciplinar na mais clara representação da tradição na qual a autora se insere. Seu trabalho reflete a tradição da geografia cultural de Carl Sauer em Berkeley. Esse background pode ser percebido de forma significativa na transposição de barreiras disciplinares e na utilização de modelos metodológicos que hoje são norteadores de muitas práticas investigativas no campo das humanidades ambientais ( Carney, 2016 , 2017 ). Nessa obra, Carney revive essa importante tradição ao transitar com fluidez e pertinência científica em diferentes campos do conhecimento.

O leitor atento perceberá a forma confortável como a autora utiliza as explicações culturalistas e a interação entre sociedade e natureza. Dessa forma, a interação entre os ambientes sociais e naturais foi fortemente considerada na produção de manifestações e patrimônios culturais. No caso específico de Arroz negro , destacamos a forma como a autora aborda as evidências de uma cultura específica, que ela chama de “cultura do arroz”, fundamentada em relação a um contexto geográfico distinto na África Ocidental e sua transposição para outros territórios e paisagens nas Américas. O roteiro metodológico em construir a “cultura do arroz” e suas origens africanas nas Américas, sobretudo na região da Carolina do Sul, revela práticas e processos históricos do comércio atlântico e do complexo intercâmbio colombiano ( Crosby, 1972 , 2009 ), que envolvia uma troca biológica e cultural de sementes, culturas, etnias e saberes, entre outras. Nesse sentido, a autora procura dar ênfase a essa faceta do intercâmbio colombiano nas Américas, abordando, além dos EUA, exemplos na América Central e no Brasil.

Como o título nos apresenta, esse trabalho tem como objetivo central analisar, por meio de vasta pesquisa documental, as origens africanas da cultura do arroz nas Américas. Como cultura considera as origens da orizicultura, indo além das fronteiras históricas das práticas agrícolas, revelando a complexidade metodológica do que a autora considera a “cultura do arroz”. Para ela, a cultura do arroz pode ser concebida analisando o uso de tecnologias e hábitos que abrangem processos de plantio, pilagem e outras práticas culturais relacionadas ao uso do arroz como principal alimento nas sociedades africanas ocidentais. Ao mesmo tempo, essa cultura é também reveladora, no sentido de destacar técnicas de domesticação das sementes e processos históricos da diáspora africana, escravidão, gênero, comércio atlântico e outros fatores culturais que evidenciam a complexa relação entre sociedade e natureza entre os séculos XVI e XIX. Essas questões ganham originalidade no trabalho de Carney, indo além da descrição da cultura meramente agrícola.

O estudo se fundamenta, principalmente, no processo de domesticação e dispersão da espécie Oryza glaberrima (arroz de origem africana) e os processos históricos de sua domesticação e seu cultivo na costa da África Ocidental. Ao analisar essa espécie em particular, analisa a migração do O. glaberrima e o seu papel nas Américas, no momento histórico de consolidação desse cultivar como commodity global durante o comércio atlântico.

Um dado importante é a descrição das origens investigativas desse tema na trajetória acadêmica de Carney. Segundo a autora, o primeiro contato com uma fonte documental relativa a isso foi uma “referência de 1823, que proclamava entusiasticamente que, em termos de produção de arroz, a Gâmbia poderia rivalizar com a Carolina” ( Carney, 2018 , p.21). Esse primeiro contato com a documentação havia ocorrido em 1984, durante a coleta de dados para uma pesquisa de doutoramento sobre gênero e cultura orizícola na Gâmbia. Outros incidentes foram direcionando sua pesquisa para a relação entre o sistema de plantações na Carolina do Sul e a costa da África Ocidental. Esse dado reforça o papel da sensibilidade acadêmica do pesquisador na produção do conhecimento científico. Ao mesmo tempo simboliza perfeitamente o valor das subjetividades no campo das humanidades, na sintonia ideal entre sujeito e objeto.

O trabalho de Carney também se insere em outra importante categoria, relacionada à vontade crescente de trabalhos acadêmicos em evidenciar a importante contribuição da cultura africana no Novo Mundo. Esse tema negligenciado foi debatido com muita controvérsia, mas o posicionamento de Carney é evidente em defender a contribuição africana na cultura do arroz nas Américas. Nesse sentido, os trabalhos de Peter Wood (1974) e Daniel C. Littlefield (1981) figuram como importantes referências para Carney, sobretudo no debate sobre o pioneirismo da difusão do conhecimento orizícola africano nos EUA. Caminho semelhante seguiu Carney, ao incluir a “cultura do arroz” nas Américas, aliando questões de ordem tecnológica, ambiental e de gênero nos estudos de história ambiental e geografia cultural.

A versão traduzida para a língua portuguesa traz, além dos seis capítulos da versão original em língua inglesa, um prefácio escrito pelo historiador Leopoldo Amado e um posfácio da autora. Segundo o tradutor José Filipe Fonseca (2018 , p.9), a importância de ter essa obra traduzida para o português refletiu a “vontade comum de contar objetivamente como os escravos africanos transferiram o arroz para as Américas e como determinaram o seu estabelecimento e desenvolvimento naquele continente”. Muito mais, na verdade, evidencia o protagonismo da cultura africana na formação histórica do Novo Mundo, negligenciado pela historiografia tradicional.

Em alguns momentos o texto pode parecer repetitivo, sobretudo na retomada do tema relacionado ao papel histórico da escravidão da costa ocidental africana para a cultura orizícola nas Américas. Esse legado, no entanto, é o enfoque central da obra e é compreensível o diálogo permanente dessa abordagem em toda a narrativa. E a autora mais uma vez reforça essa perspectiva em seu posfácio. Assim, afirmo que o trabalho de Carney não é apenas cativante, mas fascinante e fundamental pelo escopo interdisciplinar pelo qual transita, ao relacionar cultura e natureza com pertinência e pelo valoroso papel social que a ciência tem em rever paradigmas e preconceitos.

REFERÊNCIAS

CARNEY, Judith A. Arroz negro: as origens africanas do cultivo de arroz nas Américas. Bissau: Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas. 2018.
CARNEY, Judith A. O arroz africano na história do Novo Mundo. Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science , v.6, n.2, p.182-197. 2017.
CARNEY, Judith A. Between land and sea: mangroves and mollusks along Brazil’s mangal coast. Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science , v.5, n.3, p.17-38. 2016.
CARNEY, Judith A. Black rice: the African origins of rice cultivation in the Americas. Cambridge: Harvard University Press. 2001.
CROSBY, Alfred W. Ecological imperialism: the biological expansion of Europe, 900-1900. New York: Cambridge University Press. 2009.
CROSBY, Alfred W. The Columbian exchange: biological and cultural consequences of 1492. Westpost: Greenwood Press. 1972.
FONSECA, José Filipe. [Nota do tradutor]. In: Carney, Judith A. Arroz negro: as origens africanas do cultivo de arroz nas Américas. Bissau: Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas. p.9. 2018.
LITTLEFIELD, Daniel C. Rice and slaves. Baton Rouge: Louisiana State University Press. 1981.
WOOD, Peter. Black majority. New York: Knopf. 1974.
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