Curvas de referência do índice de adiposidade corporal de adolescentes e sua relação com variáveis antropométricas

Curvas de referência do índice de adiposidade corporal de adolescentes e sua relação com variáveis antropométricas

Autores:

Renata Rago Frignani,
Maria Aparecida Zanetti Passos,
Gerson Luis de Moraes Ferrari,
Sheila Rejane Niskier,
Mauro Fisberg,
Isa de Pádua Cintra

ARTIGO ORIGINAL

Jornal de Pediatria

versão impressa ISSN 0021-7557versão On-line ISSN 1678-4782

J. Pediatr. (Rio J.) vol.91 no.3 Porto Alegre maio/jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2014.07.009

Introdução

Nas últimas décadas, a prevalência de sobrepeso e obesidade tem aumentado de forma preocupante em todo o mundo, sendo considerado, um problema de saúde pública.1 and 2 O período de maior risco para incidência da obesidade é a transição entre a adolescência e as etapas precoces da vida adulta, em ambos os sexos e em vários grupos étnicos,3além também de ser um fator de risco importante para doenças cardiovasculares.4 Embora as manifestações clínicas dessas doenças ocorram na maturidade, estudos mostraram que comorbidades, como as dislipidemias, hipertensão arterial e resistência à insulina, podem estar presentes na infância e na adolescência,4 sendo responsáveis pelo aumento de risco de morbimortalidade na vida adulta.5

Além do excesso de peso na infância aumentar as chances de obesidade na idade adulta,3 and 4 a sua forte associação com alterações metabólicas (perfil lipídico e pressão arterial) motivou o desenvolvimento de várias técnicas (pesagem hidrostática e absorção de raio-x de dupla energia) para determinar precisamente a adiposidade corporal, porém a maioria são métodos complexos, demorados e caros para serem aplicados rotineiramente.6 and 7 Assim, a avaliação antropométrica constitui-se em importante método de diagnóstico, de fácil realização, baixo custo, não invasiva, universalmente aplicável, com boa aceitação da população, sendo universalmente aceito e proposto pela Organização Mundial de Saúde.8 and 9 Além da medição do peso corporal, e do percentual de gordura corporal (%GC), o índice de massa corporal (IMC) é a abordagem mais comumente utilizados para caracterizar obesidade em sujeitos individuais.7 , 8 and 9

Apesar do IMC ser utilizado para caracterizar o crescimento corporal de crianças, essa medida é rotineiramente aplicada, não só em estudos epidemiológicos, mas também na prática clínica.1 , 9 and 10 Quando usado de maneira indiscriminada pode nos levar a falsos resultados, já que é uma medida ainda muito discutida, além de ser particularmente difícil determinar a adiposidade corporal em crianças.10 and 11

Bergman et al. propuseram o Índice de Adiposidade Corporal (IAC) para indivíduos adultos, um novo parâmetro para avaliar a composição corporal a partir de duas medidas antropométricas, ambas, de fácil reprodutibilidade - estatura, em metros, e circunferência do quadril (CQ), em centímetros. 7 O IAC tem sido desenvolvido e aplicado em adultos de diversos países, 6 and 7 porém ainda é escasso a aplicação desse índice em adoelscentes brasileiros.

Com isso, o objetivo deste estudo foi desenvolver curvas de referência do IAC para população pediátrica, tendo como modelo, adolescentes da cidade de São Paulo, Brasil, bem como verificar a sua relação com o IMC e %GC.

Métodos

População de estudo e amostragem das escolas

O presente estudo integra uma pesquisa sobre os hábitos de vida e o estado nutricional de adolescentes, intitulado "Perfil Nutricional de Adolescentes de escolas Públicas e Privadas de São Paulo". O Projeto foi coordenado por pesquisadores do Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da Disciplina de Especialidades Pediátricas do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

O estudo avaliou adolescentes que estavam matriculados entre a 5a a 8a séries de 43 escolas públicas e privadas selecionadas aleatoriamente. A randomização levou em consideração o número de escolas públicas e particulares de cada região, contendo no mínimo 200 alunos de 5a a 8a séries de turnos matutinos e/ou vespertinos, tendo sido verificada uma relação de proporcionalidade entre as mesmas de 2 para 1. Devido a dificuldade de concordância na aplicação das pranchas de Tanner por parte das escolas particulares e como este dado era importante para o trabalho, a nossa relação de proporcionalidade final foi de 4 escolas públicas para 1 particular, representando 28% de perda. Estes, foram randomicamente selecionados em 31 escolas (25 públicas e 6 particulares) das diferentes regiões (norte, sul, leste e oeste) da cidade de São Paulo, Brasil.

Para compor a amostra deste estudo, foi analisado um banco de dados composto por mais de 8.020 escolares de ambos os sexos que deveriam atender os seguintes critérios de inclusão: (a) ter os dados completos das variáveis incluídas no estudo (b) ter entre 10 e 15 anos de idade; (c) estar regularmente matriculado na rede de ensino público e particular do município de São Paulo; (d) e os responsáveis deveriam assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O protocolo do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da UNIFESP sob o protocolo 0977/03. Grávidas adolescentes foram excluídas do estudo.

Participaram deste estudo 4.686 adolescentes, dos quais 45,5% (n=2130) eram do masculino e 54,5% (n = 2556) eram do sexo feminino e, com idade entre 10 anos e um dia a 15 anos 11 meses e 29 dias, representando uma fração amostral de 1,3% dos 360.000 alunos matriculados nas escolas públicas e privadas de São Paulo. Nenhuma fórmula foi utilizada para estimar o tamanho da amostra pois optamos por uma abordagem probabilística. Os dados foram coletados entre setembro de 2004 e junho de 2005.

A distribuição etária dos estudantes do sexo feminino e masculino foi, respectivamente, a seguinte: 646 e 554 com idade entre 10 e 11 anos; 1308 e 1053 com idade entre 12 e 13 anos; e 602 e 523 com idade entre 14 e 15 anos.

Medidas antropométricas

Uma equipe de quatro pesquisadoras treinadas coordenaram a realização de todas as medidas, as quais foram previamente treinadas quanto às técnicas e a padronização dos métodos utilizados, com objetivo de obter maior precisão dos dados coletados.

A massa corporal foi aferida em uma balança digital portátil (Seca(r), CA, EUA) com capacidade de 150 kg. Os adolescentes foram pesados de pé no centro da plataforma, em posição ortostática de costas para a escala da balança, com afastamento lateral dos pés e o peso do corpo uniformemente distribuído entre ambos os pés, descalços, com roupas leves e em posição firme com os braços ao longo do corpo.12

A estatura foi determinada por meio de estadiômetro digital de parede (Seca(r), CA, EUA), com o adolescente descalço ou de meias finas e usando poucas roupas, de modo que o posicionamento do corpo pudesse ser visto pelo avaliador. O adolescente ficou sobre uma superfície plana com o peso distribuído uniformemente em ambos os pés, com um olhar perpendicular ao corpo. Os braços ficaram soltos ao lado do corpo e a cabeça, nádegas e costas em contato com a placa vertical. A mensuração foi feita em uma inspiração profunda com o corpor totalmente ereto.12

O IMC foi calculado dividindo o peso, em quilogramas, pela estatura, em metros quadrados (kg/m2), conforme as curvas propostas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de acordo com idade e sexo.9 Essa classificação tem sido utilizada para identificar o risco ou a condição efetiva de obesidade em populações.7 , 8 and 9

Para a aferição da CQ foi utilizada uma fita métrica inelástica (Seca(r), CA, EUA), com o adolescente de pés juntos, com o peso distribuído uniformemente em ambos os pés. A medida foi registrada na área de maior circunferência da região glútea.13Tanto a estatura quanto a CQ foram feitas três medidas consecutivas, considerando a média aritmética como o valor final. A partir dessas duas medidas citadas anteriormente, foi obtido o IAC, em que se divide a CQ pela estatura multiplicada pela raiz quadrada da estatura menos 18:7

Para o cálculo do %GC, foram utilizadas as medidas das dobras cutâneas Triciptal (DCT), no ponto que compreende a metade da distância entre a borda súperolateral do acrômio e o olécrano, e a Subescapular (DCSE), medida executada obliquamente em relação ao eixo longitudinal, sendo localizada a dois centímetros abaixo do ângulo inferior da escápula, por meio das equações de Slaughter et al.14 Para a interpretação dos resultados, foram considerados aceitáveis valores de gordura corporal proposta por Lohman et al. 15

Para a determinação da maturação sexual foi utilizado o estadiamento puberal de Tanner16 mediante a técnica de auto-avaliação do desenvolvimento das mamas (M1, M2, M3, M4 e M5) para meninas e genitália (G1, G2, G3, G4 e G5) para meninos, validado anteriormente,17 tendo sido agrupado em pré-púbere (M1 e G1), púbere (M2 a M4 e G2 a G4) e pós-púbere (M5 e G5).

Para efeitos de cálculos, os adolescentes foram divididos de acordo com a idade biológica em: adolescência precoce: 10 a 12 anos e adolescência média: 13 a 15 anos.18

Análise estatística

Foi utilizada a análise descritiva média e desvio padrão. A normalidade dos dados contínuos foi avaliado por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. Para comparar os sexos com as variáveis dependentes (massa corporal, estatura, IMC, CQ, IAC e %GC) foi aplicada a análise de variância com dois fatores (sexo e idade: cronológica e biológica) seguido pelo método de comparações múltiplas de Bonferroni.19

Para o desenvolvimento das curvas de referência do IAC, utilizamos a idade dos adolescents em forma centesimal e o método LMS foi usado para definir a distribuição e os pontos de corte do IAC de acordo com o sexo, com os seguintes valores de percentis: 3, 5, 10, 15, 25, 50, 75, 85, 90, 95 e 97.20 O diagrama de dispersão de Bland-Altamn foi utilizado para verificar a concordância absoluta entre IAC e IMC e %GC.21 Esse procedimento permite visualizar as diferenças médias e os limites extremos de concordância, no caso de dois devios-padrões da diferença. Assim, o Bland-Altman pode fornecer informações úteis no que diz respeito aos intervalos de valores para os quais os dois métodos são mais concordante / discordante.21 Para verificar a associação entre IAC com IMC e %GC foi feito a correlação de Pearson. Os cálculos foram realizados pelo software SPSS, versão 20.0 (IBM Corp, 2011. IBM SPSS Statistics for Windows, NY, EUA) e o nível de significância adotado foi de p < 0,01.19

Resultados

A caracterização da amostra é apresentada na tabela 1, de acordo com as variáveis analisadas. É possível verificar que nos meninos houve um aumento da massa corporal, estatura, IMC e CQ com o avanço da idade e do estágio de Tanner. Já em relação às meninas, essa mesma observação ocorreu em todas as variáveis analisadas no presente estudo.

Tabela 1. Tamanho da amostra, média e desvio-padrão para massa corporal, estatura, IMC, CQ, IAC e %GC de adolescentes de São Paulo de acordo com a idade e estágio de Tanner 

Sexo Idade (anos) Massa corporal (kg) Estatura (cm) IMC (kg/m2) CQ (cm) IAC %GC
Meninos 10-12 (n = 1087) 43,11 ± 10,61 and 149,60 ± 8,17 and 19,09 ± 3,59b 79,44 ± 8,76 and 25,42 ± 3,94 and 20,22 ± 8,89b
13-15 (n = 1043) 54,75 ± 12,65a 163,77 ± 9,20a 20,26 ± 3,68a 86,66 ± 8,88a 23,40 ± 3,85a 18,88 ± 8,06a
Meninas 10-12 (n = 1311) 45,08 ± 10,90b 151,58 ± 7,79b 19,46 ± 3,75b 83,18 ± 9,34b 26,55 ± 3,97b 20,95 ± 7,55b
13-15 (n = 1245) 52,84 ± 10,10 159,08 ± 6,34 20,84 ± 3,56 90,28 ± 8,02 27,04 ± 3,95 23,06 ± 6,85
Estágio de Tanner Massa corporal (kg) Estatura(cm) IMC (kg/m2) CQ (cm) IAC %GC
Meninos Pré-Púbere (n = 115) 44,01 ± 12,26, and 149,47 ± 8,75 and 19,43 ± 3,87a 80,72 ± 9,81a 26,13 ± 3,92 and 21,04 ± 9,34
Púbere (n = 1998) 49,01 ± 12,98e 156,84 ± 11,13 and 19,67 ± 3,68a 83,07 ± 9,49a 24,36 ± 4,00a 19,50 ± 8,48a
Pós-Púbere (n = 17) 57,56 ± 14,29 169,17 ± 13,30a 19,88 ± 3,15 87,37 ± 9,34 21,83 ± 3,54a 16,84 ± 6,15a
Meninas Pré-Púbere (n = 115) 38,31 ± 10,38 and 146,12 ± 8,87 and 17,74 ± 3,56 and 76,77 ± 8,53 and 25,47 ± 3,72 and 18,56 ± 7,55 and
Púbere (n = 2365) 49,11 ± 10,94e 155,57 ± 7,75 20,17 ± 3,68e 86,89 ± 9,16e 26,79 ± 3,95e 22,01 ± 7,22e
Pós-Púbere (n = 76) 57,21 ± 10,12 158,62 ± 6,97 22,68 ± 3,33 93,72 ± 7,96 28,96 ± 3,88 26,28 ± 6,63

IMC, índice de massa corporal; CQ, circunferência do quadril; IAC, índice de adiposidade corporal; %GC, porcentagem de gordura corporal.

ap < 0,05 diferenças entre os sexos.

bp < 0,05 diferenças entre idade.

cp < 0,05 diferenças entre pré-púbere e púbere.

dp < 0,05 diferenças entre pré-púbere e pós-púbere.

ep < 0,05 diferenças entre púbere e pós-púbere.

Em relação ao sexo (tabela 1), nota-se que os meninos mais novos (10-12 anos) possuem valores médios significantemente menores de massa corporal, estatura, CQ e IAC do que as meninas da mesma idade (p < 0,001). Entre os mais velhos (13-15 anos), isso acontece para todas as variáveis (p < 0,001). Em ambos os sexos, os mais novos tiveram valores médios significantemente diferentes quando comparado aos mais velhos (p < 0,001), isso para todas as variáveis analisadas.

Os resultados da tabela 1 mostraram que na análise comparativa entre os sexos, nos pré-púberes foi encontrada diferença significante na massa corporal, IMC e CQ (p < 0,001). Nos púberes, somente a massa corporal não apresentou diferença entre os sexos (p = 0,06). Já nos pós-púberes, somente estatura, IAC e %GC tiveram valores estatisticamente diferentes (p < 0,001).

Na comparação entre os estágios de Tanner, os meninos pré-púberes tiveram valores médios significantemente inferiores aos púberes e pós-púberes na massa corporal, estatura e IAC. Na comparação dos púberes com os pós-púberes, os valores médios obtidos nos meninos foram significantemente inferiores na massa corporal e estatura (p < 0,001).

As meninas pré-púberes tiveram valores médios significantemente inferiores às meninas púberes e pós-púberes em todas as variáveis (p < 0,001). Na comparação dos púberes com os pós-púberes, os valores médios obtidos nas meninas, somente a estatura não teve diferença (p = 0,08).

A tabela 2 estabelece os percentis de classificação do IAC de acordo com a idade e estágio de Tanner dos adolescentes. Nota-se que, entre os sexos, a diferença dos valores nos adolescentes de 10 a 12 anos é menor que entre os de 13 a 15 anos.

Tabela 2. IAC de acordo com o percentil, sexo, idade e estágio de Tanner de adolescentes de São Paulo de 10 a 15 anos 

Sexo Idade (anos) 3% 5% 10% 15% 25% 50% 75% 85% 90% 95% 97%
Meninos 10-12 (n = 1087) 19,50 19,98 21,02 21,71 22,67 24,75 27,60 29,28 30,87 32,92 34,20
13-15 (n = 1043) 17,39 18,00 19,13 19,67 20,70 22,88 25,50 27,47 28,64 30,81 32,41
Meninas 10-12 (n = 1311) 20,46 21,20 22,08 22,75 23,95 26,01 28,58 30,63 31,89 33,97 35,48
13-15 (n = 1245) 20,55 21,31 22,49 23,28 24,41 26,72 29,16 30,57 31,89 34,26 36,06
Sexo Estágio de Tanner 3% 5% 10% 15% 25% 50% 75% 85% 90% 95% 97%
Meninos Pré (n = 115) 19,62 20,28 21,85 22,34 23,22 25,73 29,09 30,31 32,01 33,48 34,76
Púbere (n = 1998) 18,09 18,88 19,78 20,51 21,60 23,77 26,69 28,36 29,74 32,10 33,04
Pós (n = 17) 15,58 15,58 17,05 17,70 19,13 22,50 24,85 26,35 26,93 - -
Meninas Pré
(n = 115)
20,56 20,94 21,51 22,10 22,94 25,09 27,26 28,87 29,84 32,23 33,36
Púbere (n = 2365) 20,49 21,23 22,27 23,02 24,21 26,35 28,91 30,52 31,87 34,22 35,62
Pós (n = 76) 23,75 24,28 24,84 25,19 26,48 28,15 31,07 32,94 33,26 36,63 40,02

Pré, pré-púbere; Pós, Pós-púbere.

É possível verificar que, na comparação entre os sexos, do percentil 3 até o percentil 75 ocorreu um aumento da diferença dos valores encontrados conforme o avanço do estágio maturacional. A partir do percentil 85, os meninos pré-púberes obtiveram valores maiores que as meninas de mesma classificação.

Nota-se que o comportamento do IAC é diferente de acordo com o sexo e idade, uma vez que os valores médios dos meninos diminuem com o avanço da idade e os valores médios das meninas tiveram um ligeiro aumento com o avanço da idade (fig. 1).

Figura 1. Curvas dos percentis do IAC de acordo com a idade e sexo de adolescentes do municício de São Paulo. 

Referente a associação entre as variáveis, a figura 2 mostra a associação significante entre o IAC com o IMC e %GC de adolescentes de ambos os sexos da cidade de São Paulo (p < 0,001). Além disso, a figura 2 apresenta o diagrama de Bland-Altman com elevada concordância entre IAC com IMC e %GC em ambos os sexos. No sexo masculino, a diferença média (IAC-IMC) foi igual a 4,73 ± 3,21, com limites de concordância que variaram (+ 2DP) 11,03 a (-2DP) -1,57. Já para %GC-IAC, a diferença média foi igual a -4,83 ± 6,37, com limites de concordância que variaram (+ 2DP) 7,66 a (-2DP) -17,31 (fig. 2: A, B).

Figura 2. Gráfico de Bland-Altman para verificar o grau de concordância entre o IAC com IMC e %GC de adolescentes (Meninos: A, B; Meninas: C, D) de São Paulo de 10 a 15 anos. 

Já no sexo feminino, a diferença média (IAC-IMC) foi igual a 6,65 ± 2,43, com limites de concordância que variaram (+ 2DP) 11,40 a (-2DP) 1,90. Já para %GC-IAC, a diferença média foi igual a -4,81 ± 5,43, com limites de concordância que variaram (+ 2DP) 5,84 a (-2DP) -15,46 (fig. 2: C, D).

Discussão

Neste artigo, apresentamos dados e curvas de percentis para o IAC de adolescentes de 10 a 15 anos, tendo sido utilizada estatura e circunferência do quadril para esta avaliação. Embora esta técnica tenha sido validada e considerada de extrema utilidade em estudos epidemiológicos de adultos devido à facilidade na sua medida e ao seu baixo custo, Bergman et al., 7 destacam uma predição de erro de 3%. O IAC é uma estimativa direta da %GC e ao contrário do IMC, o IAC fornece dados de %GC sem correção estatística e não requer a medida de massa corporal. 7

Os valores do IAC podem ser utilizados para a prevenção da obesidade como uma ferramenta de avaliação específica, visto que somente o IMC representa um valor bruto para a gordura corporal sem diferenciação de sexo e estadiamento puberal, podendo facilmente induzir ao erro de classificação.22

No presente estudo, verificou-se que na adolescência (10-12 anos e 13-15 anos), foi observada diferença estatística entre o sexo e grupo etário em relação ao IMC, IAC e %GC. No entanto, na adolescência média (13-15 anos), apesar dos meninos serem mais altos e com maior massa corporal, eles apresentam menor valor de IMC, CQ, IAC, e %GC do que as meninas do mesmo grupo etário.

Anteriormente, o IAC foi utilizado e validado em diferentes faixas etárias e grupos étnicos.7 and 23 Devido o número crescente de obesidade infantil e pelo fato da população pediátrica obesa ter grandes chances de ser tornar adultos obesos24 e com elevados riscos de doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2 e hipertensão,25 consideramos de extrema relevância dados e curvas do IAC para a população pediátrica de acordo com a idade e maturação sexual. Para Bergman et al., é crítico examinar o comportamento do IAC de escolares pré-púberes e pós-púberes de ambos os sexos e diferentes etnias. 7 Os mesmos autores deixam claro que seria importante verificar a relação do IAC com adiposidade corporal, fato realizado no presente estudo.

Um dos resultados surpreendentes encontrado foi a elevada associação do IAC com %GC, não havendo assim a necessidade da utilização de um instrumento específico e/ou eletrônico para a medição do %GC. Assim, mesmo em ambientes onde apenas as ferramentas mais simples e menos dispendiosas estão disponíveis (a fita métrica), uma estimativa confiável de adiposidade pode ser obtida.

Em relação aos estágios de maturação sexual, tanto os valores do IAC como do %GC tiveram comportamento semelhante em ambos os sexos. Nos meninos, as médias dessas duas variáveis tiveram redução significativa e nas meninas, as médias foram maiores com o avanço dos estágios de Tanner. Resultados similares referente ao %GC têm sido demonstrados por outros autores11 , 26 and 27 sendo importante destacar que, durante a puberdade, as meninas ganham mais gordura corporal enquanto os meninos mais massa muscular.18 Ressalte-se que a puberdade se caracteriza pelo surgimento de mudanças hormonais drásticas, que induzem a importantes modificações no crescimento, na massa óssea e na composição corpórea. Essas modificações se associam a variações em alguns parâmetros bioquímicos, verdadeiros "marcadores", que regulam o turnover ósseo e os níveis de leptina, refletindo mudanças, respectivamente, no crescimento ósseo e na massa gorda. 28

Quando analisamos os valores dos percentis de IAC dos escolares de acordo com o grupo etário e estágio de Tanner, podemos notar que nos meninos as médias dos valores diminuíam com o avanço do estágio de Tanner, fato inverso ocorreu nas meninas.

A relação entre a %GC e risco cardiovascular para doença está bem documentada.3 and 4 No entanto, há evidências convincentes de que o conteúdo de gordura visceral29 pode ser um preditor mais forte do risco cardiovascular do que a adiposidade em geral, mesmo sabendo que nesse estudo analisamos somente a %GC geral. Nesse momento, não temos condições de determinar se o IAC pode ser mais prejudicial a gordura visceral ou hepática, mas no futuro, será de interesse comparar o IAC com depósitos de gordura selecionados.

Embora não há consenso na literatura sobre o diagnóstico da obesidade por meio do %GC e IAC em adolescentes, alguns autores definiram os percentis 85th e 95th como excesso de gordura corporal e obesidade, respectivamente.11 and 27

Quando avaliamos os percentis 85 e 95 do IAC de acordo com a maturação sexual, verificamos que nos meninos pré-púberes e púberes houve uma elevação, em torno de 10 e 17%, respectivamente. Já nas meninas, o maior aumento foi naquelas classificadas como pós-púberes. Estes dados demonstram a importância da avaliação da maturação sexual e a sua influência sobre a composição corporal dos adolescentes. Quando comparado aos grupos de 10 a 12 anos e de 13 a 15 anos, os meninos tiveram maior aumento no grupo etário 10-12 anos, já nas meninas, o maior aumento aconteceu no grupo etário 13-15 anos. Como na população estudada, os meninos apresentaram maior excesso de peso e esta mesma tendência tem sido observada na nossa experiência clínica, consideramos importante a utilização destes dados na avaliação de adolescentes de São Paulo.

Muitos estudos populacionais têm focado o IAC em populações estrangeiras e de outras etnias.23 Até o presente momento, nenhum estudo brasileiro tem apresentado os valores do IAC de acordo com o sexo, idade e maturação sexual, o que torna imprescindível durante a adolescência, uma vez que há uma grande variação dos eventos puberais em indivíduos de mesmo sexo e na mesma idade cronológica. Além disso, tem sido demonstrado um aumento do IMC em cada estágio de maturação sexual,30 portanto, este trabalho apresenta uma contribuição adicional para a avaliação da composição corporal de adolescentes, tornando mais fidedigna a avaliação deste parâmetro nesta faixa etária.

Uma limitação do estudo é que, ao separar os adolescentes, com idades de 10-15 anos, de acordo com a maturação sexual, a maioria foi classificada como púberes e que havia poucos adolescentes pré-púberes (predominantemente adolescentes do sexo masculino) e pós-púberes (predominantemente feminino). O tamanho da amostra também pode influenciar os nossos resultados. Em estudos posteriores, será necessário incluir uma amostra maior em todos estágios de maturação sexual.

Este é o primeiro estudo que fornece dados do IAC para adolescentes de acordo com sexo, idade e maturação sexual, permitindo uma avaliação mais adequada ao estagio puberal, uma vez que a idade cronológica nesta fase apresenta grande variabilidade, propiciando assim uma importante ferramenta para avaliação de adiposidade na adolescência.

O IAC parece refletir bem os fenômenos do dismorfismo sexual na adolescência, sendo um método de fácil realização que deveria ser mais utilizado em amostras populacionais, sendo que estudos posteriores poderão, junto com este, realizar uma curva de normalidade, que seria de grande utilidade para a prática clínica.

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