Custo do tratamento hospitalar da litíase urinária para o Sistema Único de Saúde brasileiro

Custo do tratamento hospitalar da litíase urinária para o Sistema Único de Saúde brasileiro

Autores:

Fernando Korkes,
Jarques Lúcio da Silva II,
Ita Pfeferman Heilberg

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.9 no.4 São Paulo out./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082011gs2143

INTRODUÇÃO

Dados epidemiológicos sobre a litíase urinária no Brasil são escassos e não há estudos populacionais precisos sobre a incidência ou a prevalência de urolitíase. Contudo, a litíase urinária é uma afecção altamente frequente, que acomete cerca de 11% da população geral em algum momento da vida(1). Em um país de dimensões continentais, com uma população de 185,7 milhões de habitantes(2), é previsto um elevado impacto econômico associado ao diagnóstico, tratamento e afastamento de dias de trabalho em decorrência da litíase urinária, principalmente por ser uma afecção mais comum em indivíduos adultos, em idade produtiva. Contudo, até onde sabemos, não existem estudos para avaliar os custos associados à litíase no Brasil.

OBJETIVO

Avaliar os custos associados ao tratamento hospitalar da litíase urinária no sistema público de saúde brasileiro. Como objetivos secundários, observamos também as tendências epidemiológicas associadas às internações por litíase urinária no sistema público de saúde brasileiro.

MÉTODOS

Foram avaliados dados do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil, obtidos por meio do Departamento de Informática do SUS (DATASUS)(3). Avaliaram-se dados epidemiológicos entre os anos 1996 e 2010, bem como dados referentes aos custos durante o ano de 2010, buscando-se pacientes internados por diagnóstico principal de litíase urinária por meio dos códigos internacionais de doenças (CID) N20.-, N21.-, N23.- (litíase do trato urinário superior, inferior e cólica renal). Como base populacional para comparação, foram utilizados os dados do último censo nacional realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010(2).

As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o software Statistical Package for the Social Science (SPSS) 13 para Mac OS X, sendo utilizado o teste de Fisher para as variáveis não paramétricas, considerando-se a significância estatística para p < 0,05.

RESULTADOS

Segundo dados do IBGE, a população brasileira, em 2010, era de 185.712.713 habitantes(2). Desse total, cerca de 70% recebiam atendimento à saúde exclusivamente pelo SUS, correspondendo a aproximadamente 130 milhões de brasileiros(2).

De acordo com o DATASUS, houve 69.039 admissões hospitalares diretamente associadas à litíase urinária durante o ano de 2010(3). Esses números corresponderam a 0,61% das internações hospitalares no SUS durante o ano de 2010. O custo médio dessas internações hospitalares foi de R$ 423,42, culminando em um gasto total de R$ 29.232.682,56.

Ao se avaliar o número de internações por litíase urinária, observou-se um aumento de 43.176 para 69.309 internações entre os anos de 1996 e 2010 (Figura 1) sendo que, nesse mesmo período, houve uma redução do número total de internações pelo SUS (11.932.654 versus 11.347.729). Assim, proporcionalmente, houve um aumento de 69% no número de internações hospitalares por litíase urinária, que passaram de 0,36% em 1996 a 0,61% em 2010 (p < 0,001, OR = 1,69), a partir do total de internações pelo SUS. Durante o ano de 2010, observou-se ainda que o número de internações hospitalares foi 5% maior durante os meses mais quentes (Dezembro a Março) em comparação aos mais frios (Junho a Setembro) do ano (35.290 versus 33.749, p < 0,001, OR = 1,1).

Figura 1 Distribuição das internações hospitalares por diagnóstico de litíase urinária no Brasil segundo dados do Sistema Único de Saúde, 1996 a 2010(3) 

Na tabela 1 são apresentadas as internações hospitalares de acordo com as distintas regiões geográficas do país. O número total de internações nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste foi proporcionalmente maior do que o das regiões Norte e Nordeste, mesmo quando corrigido pela densidade populacional (p < 0,005; OR = 1,7).

Tabela 1 Distribuição das internações hospitalares no Sistema Único de Saúde devido ao diagnóstico de litíase urinária segundo as distintas regiões geográficas do Brasil, em comparação com a população total de cada região, durante o ano de 2010(2,3) 

Região Internações hospitalares por litíase urinária(3) População total(2)
n % Milhões %
Norte 3.707 5,37 15,80 8,28
Nordeste 13.590 19,68 53,07 27,82
Centro-oeste 8.655 12,54 14,26 7,48
Sudeste 31.266 45,29 80,30 42,10
Sul 11.821 17,21 27,30 14,31
Total 69.039 100 190,73 100

Quanto à distribuição por gênero, observou-se equivalência das internações hospitalares por urolitíase entre homens e mulheres (49,9 versus 50,1%; p = 0,60), dado este que se mantem estável desde 1998, quando tais informações já eram disponíveis.

A distribuição de acordo com as faixas etárias encontra-se expressa na figura 2. Do total de pacientes internados em 2010, 62,2% apresentavam idade entre 20 e 49 anos. De acordo com a etnia, 63,2% eram brancos, 35,8% negros, 0,7% asiáticos e 0,2% indígenas. Observou-se risco proporcional 79% maior de internação por litíase urinária para os indivíduos brancos (63,2% brancos versus 35,8% negros; p < 0,0001; OR = 1,79) quando ponderado para as devidas proporções populacionais brasileiras, e 75% maior quando ponderado pela proporção do total de internações no SUS durante 2010 (p = 0,02; OR = 1,75).

Figura 2 Distribuição das internações hospitalares no Sistema Único de Saúde de acordo com a faixa etária, Brasil, 2010 

Em 2010, as internações hospitalares foram diretamente responsáveis por 236.402 dias de absenteísmo ao trabalho; o período médio de internação foi de 3,4 dias e houve 201 mortes entre os pacientes internados por urolitíase (taxa de mortalidade de 0,29%). O custo despendido com o tratamento desses pacientes internados foi de R$ 29,2 milhões em 2010.

DISCUSSÃO

Impacto financeiro da litíase no Brasil

A doença litiásica representa um número expressivo do orçamento da saúde devido à sua elevada prevalência e recorrência na população(4). Durante o ano de 2010, as internações hospitalares por urolitíase foram responsáveis por 0,61% do total de internações da população brasileira atendida pelo SUS. Esses números tornam-se ainda mais impressionantes ao considerarmos que a maioria dos cálculos urinários são tratados de forma ambulatorial, e não em regime hospitalar. Desse modo, esses dados também não levaram em consideração os custos resultantes de consultas ambulatoriais, exames laboratoriais, exames de imagem e medicamentos utilizados para tratar esses pacientes. Assim, estima-se que a doença litiásica represente um elevado impacto econômico na saúde pública nacional.

Adicionalmente, mais de 60% do total de pacientes internados em 2010 na população brasileira apresentava idade entre 20 e 49 anos, ou seja, em faixas etárias de maior produtividade profissional. Um estudo em nosso meio, que avaliou pacientes ambulatoriais com litíase urinária, observou que a idade média de ocorrência dos primeiros sintomas era aos 36,9 anos(5). De forma similar, em um grande estudo multicêntrico nacional envolvendo 1.320 pacientes litiásicos provenientes de 8 diferentes Estados brasileiros (Bahia, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Alagoas, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo) revelou que a idade média era de 42 ± 13 anos(6).

Além das elevadas taxas de absenteísmo ao trabalho no ano de 2010 (236.402 dias), se levarmos em consideração os dias de repouso domiciliar a que esses pacientes foram submetidos posteriormente à alta hospitalar e o número de mortes durantes essas internações (n = 201) o impacto social e econômico é muito grande.

Muito embora não tenhamos dados relacionados ao tratamento extra-hospitalar de pacientes com litíase urinária, se considerarmos os custos intra-hospitalares de R$ 29,2 milhões/ano durante 2010, podemos estimar valores baseando-nos em estudos norte-americanos(7). Aplicando as mesmas proporções de gastos lá encontrados podemos especular sobre um gasto aproximado de R$ 18,2 milhões/ano com tratamento ambulatorial, R$ 14,7 milhões/ano com tratamento em caráter emergencial, representando o montante total de R$ 62,1 milhões/ano despendidos diretamente com o tratamento da litíase urinária no SUS.

O SUS reúne 64 mil estabelecimentos credenciados, realizando cerca de 2,3 bilhões de procedimentos ambulatoriais por ano (254 milhões de consultas e 11,3 milhões de internações). São gastos com o SUS 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, representando um orçamento de R$ 40 bilhões/ano. Dessa forma, estima-se que o tratamento da litíase urinária consumiu 0,22% de todos os gastos do sistema público de saúde brasileiro durante o ano de 2010. Segundo estudo prévio realizado em Ribeirão Preto (SP)(5), as internações devido ao diagnóstico de urolitíase consumiram 3,37% do valor total despendido com internações hospitalares – um número ainda mais expressivo do que o encontrado no presente estudo, em âmbito nacional. Esses dados ressaltam a importância de haver medidas de saúde pública bem estruturadas e efetivas, para permitir a otimização do tratamento e, possivelmente, redução dos custos associados à litíase urinária.

Tendências epidemiológicas associadas à litíase urinária

Quando avaliamos o número de internações no SUS entre os anos de 1996 e 2010, houve um aumento significativo, o que se contrapõe com os dados de outros autores fora do país, que observaram uma tendência à estabilidade ou discreto aumento no número de internações em grandes estudos epidemiológicos(8,9). Enquanto Mandel et al.(8) demonstraram taxas constantes de internação durante a última década nos Estados Unidos entre o grupo de veteranos(8), Pearle et al.(10) encontraram inclusive, um decréscimo de 15% no número de internações por litíase entre 1994 e 2000 naquele país(10). Nossos achados podem ser atribuídos a um aumento na incidência de urolitíase, de acordo com o sugerido por alguns autores(11), mas não se pode descartar a possibilidade de que tais achados simplesmente reflitam outros fatores, tais como a melhoria na coleta de dados epidemiológicos e no acesso da população ao SUS, ou, ainda, a melhoria nos métodos diagnósticos de litíase renal, por meio de exames de imagem, conforme já observado por outros investigadores(12).

Segundo dados do IBGE, a população brasileira é representada por 49,7% de brancos e 49,5% de negros(2). Ao avaliarmos o total de internações no SUS durante o ano de 2010, essas proporções são mantidas (49,7% brancos versus 49,1% negros). Ao avaliarmos as internações por litíase urinária de acordo com a etnia, observamos um risco entre 75 e 79% maior de internação por litíase urinária para os indivíduos brancos. Esses achados sugerem que, de forma similar ao observado em outros países(11), haja também no Brasil tendência dos indivíduos brancos apresentarem maior prevalência de doença litiásica do que os negros.

Fatores ambientais e climáticos

De forma semelhante ao demonstrado previamente nos Estados Unidos(13) e em outras regiões do mundo(4), onde se observa grande variabilidade geográfica da doença litiásica(4), especula-se de que o mesmo ocorra no Brasil. Em estudos de menor magnitude em âmbito nacional(6), observou-se uma grande variação nas distintas regiões do Brasil na frequência de litíase. Isso ocorre pelas diferentes condições climáticas, pelos hábitos dietéticos, pelas ocupações e pelos distúrbios metabólicos(6,13).

As internações hospitalares por litíase conhecidamente oscilam de acordo com as variações climáticas(13). No Brasil, há duas estações climáticas mais delimitadas. No período avaliado, houve um aumento de 5% nas internações durante os meses mais quentes do ano. Contudo, ao se avaliarem as internações hospitalares nas distintas regiões do país durante o ano de 2010, observou-se uma nítida preponderância nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, áreas que apresentam clima mais frio durante todo o ano. Contudo, essas áreas também correspondem às de maior desenvolvimento socioeconômico, portanto mais dotadas de centros hospitalares e maior acesso da população aos serviços médicos, o que pode explicar tais diferenças. Adicionalmente, sabe-se que a migração de indivíduos de outras regiões mais carentes para realização de tratamentos de saúde nas regiões mais desenvolvidas deve contribuir também para elevar as cifras dessas últimas regiões. A associação dessas observações poderia e deveria auxiliar no estabelecimento de políticas públicas de prevenção e otimização do tratamento da doença litiásica. Indivíduos brancos e principalmente durante os meses de verão caracterizam a população sob maior risco de internação devido à doença litiásica.

Não podemos, entretanto, deixar de relatar algumas limitações do presente estudo. Os dados disponibilizados pelo DATASUS são obtidos a partir do CID principal, reportado na internação. Para permitir uma análise adequada, incluímos todos os códigos relacionados à litíase urinária (N20.-, N21.-, N23.-), mas a distinção entre esses não foi realizada, pois poderia trazer imprecisões. Adicionalmente, internações realizadas por outras causas, mas que resultaram em necessidade de intervenções cirúrgicas por litíase urinária, também não foram consideradas nos dados obtidos. Contudo, a magnitude dos dados e a escassez de dados prévios, torna essas limitações pouco representativas.

CONCLUSÃO

As internações por litíase urinária determinaram elevado impacto na saúde pública, com um gasto total de 29,2 milhões/ano. O número de internações devido à doença litiásica foi maior nos meses quentes e essas internações têm ocorrido com maior frequência na última década, especialmente na população de raça branca. Todas essas informações são extremamente úteis e podem auxiliar na estruturação e na otimização de programas de saúde pública voltados à prevenção e ao tratamento da litíase urinária no Brasil.

REFERÊNCIAS

1. Worcester EM, Coe FL. Clinical practice. Calcium kidney stones. N Engl J Med. 2011;363(10):954-63.
2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Governo Federal do Brasil [Internet]. 2010 [citado 2011 Nov 1]. Disponível em:
3. Departamento de Informática do SUS (DATASUS) [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011 [citado 2011 Nov 1]. Disponível em:
4. Pak CY, Resnick MI, Preminger GM. Ethnic and geographic diversity of stone disease. Urology. 1997;50(4):504-7.
5. Vannucchi MTI, Geleilete TJM, Bessa EL. Urolithiasis in public health services – aprevention protocol for outpatients. J Bras Nefrol. 2003;25(4):165-71.
6. Heilberg IP, Teixeira SH, Novoa CG, Barros E, Ferreira-Filho SR, Melo MEA, et al. The Brazilian multicentric study of nephrolithiasis (MULTILIT). In: Pak CYC, Resnick MI, Preminger GM, editors. Urolithiasis 1996. Proceedings of the 8th International Symposium on Urolithiasis. Dallas, TX: Millet the printer, Inc.; 1996. p. 498-9.
7. Lotan Y. Economics and cost of care of stone disease. Adv Chronic Kidney Dis. 2009;16(1):5-10.
8. Mandel NS, Mandel GS. Urinary tract stone disease in the United States veteran population. I. Geographical frequency of occurrence. J Urol. 1989;142(6):1513-5.
9. Stamatelou KK, Francis ME, Jones CA, Nyberg LM, Curhan GC. Time trends in reported prevalence of kidney stones in the United States: 1976-1994. Kidney Int. 2003;63(5):1817-23.
10. Pearle MS, Calhoun EA, Curhan GC. Urologic diseases in America project: urolithiasis. J Urol. 2005;173(3):848-57.
11. Curhan GC. Epidemiology of stone disease. Urol Clin North Am. 2007; 34(3):287-93.
12. Bansal AD, Hui J, Goldfarb DS. Asymptomatic nephrolithiasis detected by ultrasound. Clin J Am Soc Nephrol. 2009;4(3):680-4.
13. Soucie JM, Coates RJ, McClellan W, Austin H, Thun M. Relation between geographic variability in kidney stones prevalence and risk factors for stones. Am J Epidemiol. 1996;143(5):487-95.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.