Das portarias aos bloquinhos: arte e apoio institucional ao Projeto Mais Médicos para o Brasil

Das portarias aos bloquinhos: arte e apoio institucional ao Projeto Mais Médicos para o Brasil

Autores:

Heloísa Germany,
Luciano Bedin da Costa,
Flavia Liberman,
Henrique Caetano Nardi

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.21 supl.1 Botucatu 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622016.0355

ABSTRACT

This essay presents experiences lived by a visual artist belonging to an Education Ministry institutional support team for the More Doctors for Brazil Project (MDBP). This program is an inter-ministry proposal based on combining work processes and professional training in health and education. Using the notion of the obtuse meaning, proposed by Roland Barthes, and hyphographic methodology, we investigate the lightness and reinvention of actions in the field of public health at the interface of art as an educational process experimented with for two years in the MDBP. Writings on little block notes produced individually and collectively by a group of supporters reveal a singular and sensible process that contributes to the discussion of strengthening collectivities, primary care networks, education in the Brazilian National Health System, and construction of political and poetic perspectives on the MDBP.

Keywords: More Doctors for Brazil Project; Institutional support; Art; Education

RESUMEN

Este ensayo presenta experiencias vividas por una artista visual integrante del equipo de Apoyo Institucional del Ministerio de Educación para el Proyecto Más Médicos para Brasil (PMMB), una propuesta interministerial que aproxima de forma significativa procesos de trabajo y formación relacionados a la salud y a la educación. Por medio de lo que Roland Barthes llama de obtuso y por medio de una metodología hifográfica, se invierte en la levedad y reinvención de acciones en el campo de la Salud Colectiva en la interfaz de las artes como procesos educativos sensibles experimentados en el transcursos de dos años juntamente con el PMMB. Por medio de pequeños blocks de notas producidos individualmente y por un colectivo de apoyadores, se delinea un proceso singular y sensible, contribuyendo en la discusión sobre el fortalecimiento de las colectividades, de las redes de Atención Básica, de la formación para el Sistema Brasileño de Salud y de la composición de miradas poético-políticas sobre el PMMB.

Palabras clave: Proyecto Más Médicos para Brasil; Apoyo institucional; Arte; Educación

Para iniciar uma conversa pelo olhar periférico

Mudar o nível da percepção: trata-se de um solavanco que abala o mundo classificado, o mundo nomeado (o mundo reconhecido), e, por conseguinte, liberta uma verdadeira energia alucinatória1. (p. 220)

Porque estamos a falar de mais de um lugar em um só tempo e de mais de um tempo em um só lugar. Uma volta ao mundo em 80 dias ou, como tão bem anuncia Cortázar, uma volta ao dia em 80 mundos2. Um lugar: o apoio institucional ao Projeto Mais Médicos para o Brasil (PMMB). Um tempo: dois anos de trabalho com o projeto. Os lugares: da Arte, da Educação, da Saúde. Os tempos: de sermos artistas, de sermos apoiadoras, de sermos militantes, de sermos usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), de sermos um alguém qualquer. Nessas voltas e mundos corremos incansavelmente atrás desse saber “saúde” que não foi e nunca será o suficiente. A cada nova investida, novos problemas se abrem, resultando em uma nova saúde a ser reinventada. Talvez porque essa corrida não esteja relacionada a um ponto de chegada, mas sim a um processo de se colocar em movimento, apostar nos encontros, agregar gestos de potência e produzir-se em novos olhares.

Figura 1 Registro da artista-apoiadora em bloco de anotações 

Ainda que sejamos apoiadora(e)s, ou ainda gestora(e)s, psicóloga(o)s, terapeutas ocupacionais, médica(o)s, prezamos por uma cadência profissional ética tanto quanto por um olhar obtuso e periférico3. Em decorrência da velocidade contemporânea da informação e de toda produção discursiva ao redor do PMMB desde sua implementação, uma questão que nos parece pertinente é pensar outras estratégias de olhar, provocando, quiçá, perspectivas outras de avaliação. Muito se falou e ainda se fala – slogans, manchetes, notícias, fatos e factoides –, camadas de discursos que, por vezes, vestemnos como corpulentos e enfadonhos capotes. No entanto, mesmo parecendo um tanto tolo diante de macroindicadores em Saúde (e talvez assim o seja), pensamos ser necessário trabalhar igualmente na captura de instantes, detalhes e minúcias com o PMMB. Este ensaio pretende, pois, dar visibilidade aos encontros produzidos por uma artista visual pertencente à equipe de Apoio Institucional, tendo como preocupação constituir uma paisagem sensível composta de anotações e registros produzidos individualmente e junto com um coletivo de apoiadores de vários estados brasileiros. Como mais um dos frutos desse processo de criação junto com o apoio institucional, é apresentado ao fim deste ensaio uma proposta artística que culminou em uma exposição realizada no Ministério da Educação, em Brasília.

Mesmo considerando a importância de determinados indicadores relativos ao método, lógica, eficácia, estatística, economia e gestão, trataremos, aqui, em vislumbrar respeito também aos saberes de que se propõem nossas vísceras, das relações viandantes com tempos outros e da grande razão que se desprende dessa coisa chamada corpo. Como pequenas e frágeis epifanias, tais imagens pretendem aludir a uma possível poética política junto com o PMMB, mostrando que determinados protocolos de trabalho (mesmo os mais burocráticos) são capazes de acionar desejos e disparar processos de criação.

O apoio institucional do PMMB como tessitura interministerial

Implementado em 2013, o Projeto Mais Médicos para o Brasil surge a partir de um amplo debate entre a sociedade civil e instâncias representativas do Estado4. Foi impulsionado por uma série de reivindicações populares de usuária(o)s e gestora(e)s municipais e estaduais, que clamaram pela criação de políticas públicas nacionais que pudessem ampliar a quantidade de médica(o)s para o SUS, garantindo maior equidade na distribuição ao longo do território nacional. Com o provimento, iniciouse também um movimento de reflexão sobre a necessidade de investimento e reformulação no que diz respeito à formação desses profissionais. Desse modo, o PMMB passa a transcender o setor da Saúde, assumindo uma dimensão interministerial para a vigência de suas bases legais e cumprimento efetivo de sua complexidade. Além do Ministério da Saúde, sua gestão é assumida igualmente pelo Ministério da Educação (MEC), hibridizando lugares, saberes e práticas ainda hoje estanques ou de difícil mistura. A proposição dessa nova tessitura de gestão implicou na necessidade de criação de instâncias que pudessem dar conta dos processos educativos singulares relacionados ao PMMB. A formação de uma equipe de apoio institucional foi uma iniciativa da Diretoria de Desenvolvimento de Educação em Saúde (DDES) da Secretaria de Ensino Superior (Sesu), implementada em março de 2014 com o objetivo de ampliar as ações do MEC nos territórios de atuação do PMMB. Trata-se de uma estratégia para o fortalecimento da supervisão acadêmica em apoio à tutoria nos processos de planejamento, monitoramento e promoção de espaços de diálogo entre seus diferentes agentes. Desde sua implementação, o trabalho de apoio institucional descentralizado tem acompanhado processos de planejamento, coleta de dados e supervisão em cada estado da União, corroborando para o fortalecimento dos momentos de educação permanente e oferta das práticas pedagógicas junto com o projeto.

Dessa forma, enquanto apoiadora(e)s do MEC, a atuação acontece em prol da horizontalidade dos processos de trabalho, integração e diálogo constante com a(o)s profissionais envolvida(o)s no PMMB em todos os estados do país. Trata-se de uma tarefa nada fácil frente a tantas divergências, conflitos de interesse, disputas de poder e atravessamentos que inevitavelmente ocorrem nos territórios. Nesse sentido, é necessário também que a(o)s apoiadora(e)s sejam apoiada(o)s. Para dar conta dessa grande rede de apoio, a equipe de Apoio Institucional MEC (Aimec) passou a realizar encontros bimestrais em Brasília e com a(o)s demais integrantes da DDES. Trata-se de momentos nos quais sensações e experiências são compartilhadas, assim como a apreensão de novas tecnologias de trabalho, resultando na qualificação dessas ações em relação aos estados. E esse diálogo se dá a partir de diversos formatos, como rodas de conversa, grupos de trabalho, leitura de textos, seminários, coffee break, etc.

Figura 2 Registro da artista-apoiadora em bloco de anotações 

Descolando-se hifograficamente

Texto quer dizer Tecido; mas enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia. Se gostássemos dos neologismos, poderíamos definir a teoria do texto como uma hifologia (hyphos é o tecido e a teia da aranha)5. (p. 74-75)

Como a tal aranha que se desfaz nas secreções construtivas de sua própria teia, a artista lança sua hifografia ao PMMB, do qual faz parte enquanto apoiadora institucional. Todavia, mais do que um método de pesquisa, a hifografia se mostra como método para habitar o mundo, uma forma de ler, ver e tecer realidades outras diante do império de signos estereotipados, das palavras de ordem e clichês agenciados ao longo desses últimos anos a respeito do PMMB. Antes de mera intelecção crítica, trata-se de colocar o corpo em jogo, um corpo que lê os macro e microacontecimentos, que a eles também se enreda, para então rabiscar algo, alguns vagueios, zigue-zagues, rumores.

Corpo que se constrói à medida que se perde, que vacila, que junta os pedaços e que experimenta traços e palavras que possam dar língua à miríade de afetos produzidos. Para isso, tomamos a relação barthesiana entre óbvio e obtuso1, que parece garantir um certo respiro ao discurso. Tratase de constituir algo entre a obviedade das cenas apontadas e aquilo que a elas resiste, um trabalho eminentemente sensível e por parte daquele que se propõe à aventura de olhar com o corpo todo. Por meio da hifografia, interessa-nos pensar o PMMB a partir dos três níveis de sentido apontados por Barthes1: um nível informativo, no qual se concentram os elementos reconhecíveis do PMMB (histórico e legais); um nível simbólico, relativo à significação, no qual o que interessa é menos o significado dos elementos, mas aquilo a que estes representam; e um terceiro sentido (insituável), que surge a partir da resistência àquilo que busca de forma imediata visibilidade e significação.

Será tudo? Não, pois ainda não posso separar-me da imagem. Leio, recebo (provavelmente, em primeiro lugar), evidente, errático, teimoso, um terceiro sentido. Eu não sei qual é o seu significado, pelo menos não consigo nomeá-lo, mas vejo bem os traços, os acidentes significantes de que este signo, desde então incompleto, é composto […] não sei se a leitura deste terceiro sentido tem fundamento1. (p. 48)

Será este “não saber” ao que chamaremos de obtuso, que fará interrogação à leitura e permitirá a captação poética de uma cena (no nosso caso, de cenas vivenciadas no PMMB). Trata-se deste um terceiro sentido, um suplemento sígnico capaz de rumorejar certezas ou convicções prévias. Enquanto os dois primeiros níveis, ainda que em graus diferentes, pertençam ao nível do óbvio (obvius, “que vem à frente”), o terceiro é o que se abre ao infinito do sentido, tão desconcertante quanto um ângulo obtuso de 130°.

Figura 3 Registro da artista-apoiadora em bloco de anotações 

Enquanto o eixo horizontal garante certa sustentabilidade, o vertical despenca diagonalmente, apontando para um infinito. Mas existe ali uma falácia em 90º, uma outra linha (não tão linha) que comporta uma fenda – ou (dobra) do papel. Um tal eixo y que não é eixo, mas sim costura6. (p. 29)

Enveredar-se pelo obtuso, por esse terceiro sentido, é, pois, ampliar a teia de verbos relativa a uma pesquisa: ver, ler, escrever e também escutar.

No paradigma clássico dos cinco sentidos, o terceiro sentido é a audição (considerado o mais importante pelos medievais); é uma coincidência feliz pois trata-se mesmo de uma escuta […] a escuta (sem referência à foné única) detém em potência a metáfora que melhor convém ao <<textual>>: a orquestração, o contraponto, a estereofonia1. (p. 48)

Tendo consigo leis, portarias, dados e planilhas para consulta, a artista-apoiadora também faz uso de instrumentos poéticos. Ao lado do que costumeiramente chamamos de política (esta calcada nas normativas, resoluções e documentos institucionais), interessa-lhe a literatura dos momentos, as palavras que se fazem à luz das ranhuras, que lhe chegam sempre um pouco antes ou depois. Por meio de bloquinhos confeccionados pela artista, também distribuídos a um grupo de apoiadores do Brasil, delineia-se uma sutil cartografia de acontecimentos e percepções micropolíticas, a trama hifográfica de fios quase imperceptíveis que também compõem o PMMB.

Figura 4 Registro da artista-apoiadora em bloco de anotações 

A arte/teia ampliada e os bloquinhos

O recurso do bloquinho como registro cotidiano é uma prática corriqueira entre artistas. São cadernos de diversos tamanhos e modelos, adquiridos em qualquer papelaria, livraria ou mesmo feitos em casa. De capa dura, mole ou em tecido, com páginas de maior ou menor gramatura, funcionam como superfícies sensíveis e de fácil portabilidade. Alguns desses bloquinhos, confeccionados artesanalmente pela artista-apoiadora, foram compartilhados com outros apoiadores durante um encontro nacional do PMMB, realizado no ano 2015 em Brasília. Juntamente com canetinhas, pincel, grafite e carvão, tais blocos circularam durante os três dias do encontro, nos quais cada apoiador era convidado a se expressar livremente. Cerca de 15 bloquinhos foram distribuídos ao grande grupo, sendo que apenas alguns retornaram (e com algumas folhas em branco). É absolutamente compreensível que, diante de uma agenda intensa em Brasília e com questões urgentes pulsando, fosse realmente difícil se desligar do óbvio. No entanto, deu-se a inscrição de pequenos e anônimos registros, que configuram, a nosso ver, uma sutil hifografia relativa ao PMMB naquele momento.

Figura 5 Registro de apoiado(a)r descentralizado(a) em bloco de anotações 

Algumas vezes, durante a trajetória de artista-apoiadora, escutou-se a seguinte pergunta: “mas e o que tu estás fazendo aqui?”. Em outras, o rechaço nos olhos e até mesmo na fala de alguns médicos e profissionais de Saúde que pareciam não entender como poderia uma cidadã não médica, e ainda artista, querer dialogar também sobre essa temática. Pois então, talvez a pergunta não seja mais sobre o que se faz no PMMB, mas sim sobre o que é possível provocar a partir dessa estranheza produzida sempre que um nós é acionado.

Figuras 6 e 7 Registro de apoiado(a)r descentralizado(a) em bloco de anotações 

Em exposição (um caminho improvável)

Em 2015, na manhã do primeiro dia de mais um encontro técnico da equipe do Apoio Institucional no Ministério da Educação em Brasília, estava lá, no saguão a caminho do auditório onde seriam realizadas as atividades, uma exposição de desenhos produzidos pela artista-apoiadora. Foi um convite à travessia de um caminho improvável com intervenção visual no momento de chegada dos colegas, com objetivo de promover um acolhimento sensível e, ao mesmo tempo, causar certo estranhamento diante de tal ação artística como ruptura estética de um espaço rijo e burocrático por essência.

Figura 8 Registro fotográfico da exposição produzida pela artista-apoiadora 

Ali, sobre as frias pastilhas azulejadas de uma instituição, estavam expostos corpos desenhados com café e nanquim.

São estes. delineados, sombreados, mas não menos reais. Corpos expostos.

Aqui, não nomeados.

Curvados, eretos.

Altivos, quebradiços. Em queda.

Desejantes, tímidos.

Andrógenos.

Sentados, dançantes.

Homoafetivos, meditantes.

Fálicos.

Amarelos, cinzas.

Mutilados, em risco.

Multi-risco de caneta nanquim.

Manchados, aguados, cafeinados.

Em fundo branco.

Corpo esse, qualquer, que merece cuidado. Meu, teu.

Nosso.

De todos6. (p. 83)

 

Figura 10 Desenho da artista-apoiadora em bloco de anotações 

Contornos finais…

Como já apontado, escrever sobre o apoio institucional no PMMB é algo desafiador. Estamos latentes, fervilhantes, em foco. Não é fácil falar de algo tão disruptivo quando ainda não temos um distanciamento histórico-temporal razoável. No entanto, a história não é somente a dos tempos demasiadamente pretéritos. Do presente é possível acessarmos um calor todo especial, aquele que por vezes se confunde ebriamente com os fatos, mas que necessariamente convoca os corpos a dizer ou a fazer algo. Foi essa nossa aposta com este ensaio. Em outro momento, certamente nossa hifografia seria outra. Diríamos e rabiscaríamos outras coisas. E nunca seria o suficiente.

Figura 11 Registro da artista-apoiadora em bloco de anotações 

REFERÊNCIAS

1. Barthes R. O óbvio e o obtuso. Trad. Isabel Pascoal. Lisboa: Edições 70; 2009.
2. Cortázar J. A volta ao dia em 80 mundos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2010.
3. Germany H. De um olhar periférico: nublado, embaçado e desfocado [trabalho de conclusão de curso]. Porto Alegre: Programa de Pós Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2013.
4. Portaria Interministerial nº 1.369, de 8 de julho de 2013. Dispõe sobre a implementação do Projeto Mais Médicos. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Sec. 3, n. 219, p. 204.
5. Barthes R. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva; 2010.
6. Germany H. Há também de se falar de outras formas: arte e apoio institucional na gestão do Projeto Mais Médicos para o Brasil [dissertação]. Porto Alegre: Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2016.
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