DE CORPOS E TRAVESSIAS: UMA ANTROPOLOGIA DE CORPOS E AFETOS

DE CORPOS E TRAVESSIAS: UMA ANTROPOLOGIA DE CORPOS E AFETOS

Autores:

Janaína Alves da Silveira Hallais,
Nelson Filice de Barros

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.31 no.5 Rio de Janeiro maio 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XRE020515

Espetaculares são os afetos e afecções produzidos pelo livro De Corpos e Travessias: Antropologia de Corpos e Afetos, de Pedro Paulo Gomes Pereira, publicado pela Annablume, como parte da Coleção Queer. Organizado em três partes compostas por oito artigos escritos no decorrer de uma década, este “livro-experiência” apresenta os itinerários, as travessias e os debates travados com corpos-interlocutores em diferentes contextos socioespaciais, que se deslocam, escapam e vazam sob a atuação dos biopoderes.

Possivelmente, a primeira parte, composta pelos três capítulos iniciais, pode ser qualificada da seguinte forma:

Temos um movimento ambíguo: junção de uma vida que se deve proteger a todo custo, a invenção de outros que ameaçam a vida, e o surgimento de vidas que não merecem ser vividas. Assim, se estamos numa época em que há uma supervalorização e proteção à vida, ao mesmo tempo existem zonas nas quais pessoas são deixadas para morrer” (p. 81).

Assim, no primeiro capítulo, O Silêncio e A Voz, o autor apresenta o confinamento e submissão vivenciados pelos internos de um abrigo para portadores de AIDS, para discutir o silenciamento imposto aos soropositivos e como se dá a construção do “sujeito contaminante” como seres abjetos. Nessa trama, surgem os que representam e “falam por” aqueles que foram silenciados e violentamente desapropriados de autonomia e direitos. Diante disso, o autor propõe “falar com”, compartilhando as experiências de dor, sofrimento e isolamento dos indivíduos infectados.

No capítulo 2, Nas Tramas de um Debate, são analisadas as disputas entre os “dissidentes da AIDS” e atores “oficiais da AIDS”. O grupo dissidente contesta a etiologia da doença, os testes e tratamentos convencionais, colocando em xeque sua eficácia e a objetividade/verdade que ignora a história colonial da África, transformada em metáfora para se falar da doença. Diante disso, Pereira reflete sobre os “processos de essencialização e estigmatização do corpo negro”, estabelecendo uma relação causal entre raça, sexo e doença, para ir além dos discursos institucionais e assumir a produção de sentidos, desejos, reivindicações e significados dos sujeitos que experimentam a doença.

No capítulo 3, Em Torno da Vida, o autor confronta seus dados etnográficos com formulações de Michel Foucault, Giorgio Agamben e Paul Rabinow, para demonstrar como as artimanhas dos dispositivos de controle (como o Estado, a partir das políticas públicas, e o mercado, por meio da indústria farmacêutica) podem determinar a inclusão/exclusão dos sujeitos na dinâmica política e social. Contudo, aprofunda a reflexão sobre os limites dos conceitos de biopoder e biopolítica em contextos não europeus, advertindo sobre as especificidades dos projetos políticos para a saúde no Brasil e a resistência das subjetividades, que mesmo subordinadas manifestam-se.

Outra vez, possivelmente, a epígrafe para a segunda parte do livro, também composta por três capítulos, possa ser: “Assim, aqui do lado de cá do Equador, há que se pensar em afetos e afecções que possam deslocar essas teorias universalizantes e alheias às histórias locais” (p. 152).

O capítulo 4, A Grande Divisão e o Campo da Saúde, discorre sobre as tensões, negociações e mediações que envolvem a presença de cientistas sociais no campo dominado pelo saber biomédico. Redimensiona os estranhamentos na divisão entre natureza-cultura e propõe um avanço para além da dualidade objetividade-subjetividade, compondo um contínuo emaranhado de fios que se intercruzam. A recomendação do autor é que os cientistas sociais no campo da saúde repensem as sintaxes próprias de sua ciência, de modo que os conceitos sejam projetados para afetarem e serem afetados pelas experiências subjetivas. De forma que, a operação com conceitos, como de corpo, gênero e sexo, operem muito mais do que como tecnologias de normatização da vida orientadas para reduzir e oprimir a múltiplas manifestações.

Em Violência e Tecnologias de Gênero, Pereira discute como as páginas policiais de jornais impressos narram a violência cometida por homens das camadas populares e da classe alta, assim como casos em que as mulheres são vítimas ou autoras de crimes. Operando com o conceito de cronotopo, pontua como “as páginas policiais são complexas tecnologias de interpretação, representação e criação de mundos ‘reais’” (p. 118), nas quais a história de vida, o tempo e o espaço são trabalhados de maneira diferente segundo a classe social e o gênero, de forma que a alteridade desaparece em meio à anulação dos corpos, quase sempre suprimidos de seus contextos sociais, marcados pela indistinção, naturalização da violência e da “homogeneização” do outro.

O capítulo 6, Queer nos Trópicos, as potencialidades e limitações da Teoria Queer para o contexto brasileiro são discutidas, sobretudo por dimensionar visibilidade aos invisíveis, indicando deslocamento e reconfiguração, constituindo-se como uma política da diferença. Com base nos itinerários dos travestis pelas instituições de saúde e casas de santo, Pereira tece considerações sobre o “queer nos trópicos” e suas traduções, afirmando que mais importante que uma tradução assertiva, esta categoria deve moldar-se às experiências dos sujeitos-agentes.

A última parte do livro, composta por dois capítulos, possivelmente, pode ser epigrafada com o seguinte trecho: “as afecções, embora aconteçam de uma só vez, são efeitos de um corpo sobre outro no espaço; os afetos são os efeitos de um determinado corpo sobre uma duração – variações de potência” (p. 178).

Com essa perspectiva, o capítulo Limites, Traduções e Afetos propõe uma antropologia dos afetos que ultrapasse a reificação e o poder da biomedicina, para visualizar as potências de transformação que resultam dos encontros complexos entre profissionais de saúde e povos indígenas assistidos pelo Projeto Xingu. Assim, baseando-se na narrativa de duas profissionais de saúde e questionando a visão unilateral e limitada da biomedicina diante de outra cosmologia, Pereira discute a força normativa e intervencionista das ações dos profissionais de saúde. No entanto, vai além para explorar como a abertura para o outro e a incorporação de novos fazeres e saberes tornaram possíveis outros afetos e afecções para aquelas profissionais de saúde.

O capítulo final, Variações em Torno d’Água, problematiza variações conceituais do corpo, cuidado e terapêutica, com base em depoimentos de profissionais de saúde ligados ou não ao Projeto Xingu. O desafio é perceber os limites das práticas de saúde – que tendem a ser etnocêntricas – e a urgência da alteridade, indispensável para a superação da “comunicação precária” e esvaziada de afetos que geralmente caracterizam os encontros com os povos indígenas. O autor pontua as restrições e armadilhas do termo “respeitar”, que, embora seja comumente invocado pelas políticas públicas, não indica um movimento de transformação ou de envolvimento, significando meramente tolerância sem solidariedade ou envolvimento afetivo, de forma a eliminar a potencialidade intersubjetiva, para compor um “distanciamento confortável”.

Conclusivamente, este é um livro necessário para aqueles que buscam romper com conceitos fixados, para realizar a imersão nas experiências e subjetividades dos múltiplos atores sociais que compõem o campo da saúde.

Janaína Alves da Silveira Hallais
Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil.
jhallais@gmail.com
Nelson Filice de Barros
Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil.
nelfel@uol.com.br
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