Dependência para a realização de atividades relacionadas à alimentação em idosos

Dependência para a realização de atividades relacionadas à alimentação em idosos

Autores:

Isabel Oliveira Bierhals,
Fernanda de Oliveira Meller,
Maria Cecília Formoso Assunção

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.21 no.4 Rio de Janeiro abr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015214.12922015

Introdução

O envelhecimento populacional é definido como uma mudança na estrutura etária da população, no qual se observa aumento do número de pessoas acima de determinada idade, considerada como definidora do início da velhice1. Em todo o mundo, a proporção de pessoas idosas está crescendo mais rapidamente do que a de qualquer outra faixa etária2. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no período entre 1970 e 2025, espera-se um crescimento mundial de 223,0% ou em torno de 694 milhões no número de pessoas idosas2.

Como consequência desta nova característica demográfica, doenças e condições próprias do envelhecimento passaram a ganhar atenção das políticas e ações em saúde3,4. Estas passaram a se concentrar, principalmente, na prevenção e no tratamento das doenças crônicas não transmissíveis comuns nesta faixa etária5, uma vez que são capazes de gerar um processo incapacitante, dificultando ou impedindo o desempenho de suas atividades cotidianas de forma independente6.

A incapacidade funcional, além de ser um processo dinâmico e progressivo, decorrente de condições de saúde e de mudanças fisiológicas associadas ao envelhecimento, pode ser modulada pelo status cognitivo e psicológico, e também pelo gênero, nível educacional, suporte social, estilo de vida e fatores ambientais7,8. Esta condição, ainda, pode afetar de forma importante o estado nutricional da pessoa idosa, pois é sabido que existem fatores que podem afetar de forma importante os padrões das refeições e a ingestão de nutrientes na velhice e, entre eles, encontram-se os fatores físicos, como a capacidade funcional para realizar as atividades diárias9.

Algumas incapacidades específicas como, por exemplo, a dificuldade em adquirir e preparar alimentos e a dependência para alimentar-se podem estar mais diretamente relacionadas a este contexto, restringindo ou limitando uma ingestão adequada de nutrientes10,11. Além disso, considerando que os idosos apresentam características próprias que os tornam um grupo especialmente vulnerável, a dificuldade em realizar estas atividades de forma autônoma, acaba gerando um risco iminente de deficiência nutricional e, consequentemente, maior fragilidade12, comprometendo o estado de saúde geral do idoso, aumentando a suscetibilidade a quedas e fraturas, hospitalizações, cuidados institucionalizados e morte7,13.

Apesar da relevância, estudos específicos sobre avaliação funcional das atividades relacionadas à alimentação em idosos são escassos no Brasil14 e se concentram, principalmente, na literatura internacional10,15. Desta forma, o presente estudo teve por objetivo descrever a dependência relacionada às atividades de alimentação em idosos não institucionalizados residentes na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.

Métodos

Pelotas é um município de médio porte localizado no sul do estado do Rio Grande do Sul (RS) contando com aproximadamente 330 mil habitantes. Quinze por cento de sua população é composta por indivíduos de 60 anos de idade ou mais16. Estudo transversal de base populacional foi realizado na zona urbana com o objetivo de conhecer características da saúde de idosos não institucionalizados. Esse trabalho foi realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas através de esforço conjunto que resultou em um trabalho de campo único, denominado consórcio de pesquisa17, onde todos os mestrandos participaram e do qual puderam obter dados para suas dissertações.

Inicialmente, verificou-se o número de domicílios necessários para atender aos objetivos de todos os integrantes da pesquisa. Considerando uma relação de 0,4 idosos por domicilio16, para identificar o número destes, suficiente para contemplar as amostras necessárias a todos os estudos (1.649 idosos), seria necessário identificar 3.745 residências da zona urbana desse município. O processo amostral foi realizado em dois estágios. Inicialmente, os setores censitários foram ordenados, em ordem crescente de acordo com a renda média para a realização do sorteio, sendo selecionados sistematicamente 133 setores. Posteriormente, estes foram visitados para atualização do número de domicílios. Após, foram selecionados, sistematicamente, 31 domicílios por setor, para possibilitar a identificação de cerca de 12 idosos em cada um dos mesmos. Desta forma, foram eleitos 4.123 domicílios para a pesquisa.

Neste estudo, calculou-se como necessário estudar 1.192 idosos. Utilizou-se para este cálculo as prevalências encontradas por Del Duca et al.18 de 1,3% para dependência para a atividade de comer, 11,9% para comprar e 8,7% para preparar alimentos, considerando um erro aceitável de 0,7 na dependência para comer e um efeito de delineamento amostral (DEF) de 1,1.

A coleta de dados foi realizada de janeiro a agosto de 2014 por entrevistadoras treinadas e através de um questionário previamente testado e construído em formato digital, o qual foi aplicado com auxílio de netbooks.

Os desfechos do presente estudo foram a dependência para as atividades de compra, preparo e ingestão de alimentos. Para possibilitar a comparabilidade dos resultados, a dependência foi investigada através de três perguntas, baseadas no Estudo Saúde, bem-estar e envelhecimento (SABE)19: Atualmente, o(a) Sr.(a) precisa da ajuda de alguém para comer; fazer as compras de alimentos; fazer sua comida, seu lanche ou café?. As opções de resposta eram: “não”, “sim, sempre”, “sim, às vezes”. Para as atividades de compra de alimentos e preparo de refeição, incluiu-se a categoria “não costuma fazer”. Na análise, foi considerado dependente para cada atividade o idoso que referiu ajuda total ou parcial para a realização da mesma. Para investigar a prevalência de idosos que precisavam de algum tipo de ajuda, considerou-se aquela recebida para pelo menos uma das três atividades estudadas.

Ainda, em relação às variáveis dependentes, foram feitas mais duas perguntas com o objetivo de caracterizar a ajuda, no caso da necessidade da mesma ter sido apontada. As opções de resposta eram: “não recebo ajuda”, “esposo(a)/companheiro(a)”, “filho(a)/enteado(a)”, “pais/sogros”, “irmão(s)”, “genro/nora”, “neto(a)”, “outro familiar”, “cuidador”, “empregada”, “outro”. Foi também questionada a realização de remuneração pela ajuda, sendo “não” e “sim” as opções de resposta. Considerou-se formal o cuidado remunerado, realizado por cuidador ou empregada doméstica e informal aquele realizado por outra pessoa, que não recebe para realizar esta tarefa.

Como variáveis independentes foram utilizadas as seguintes características: sexo; idade (coletada como variável numérica discreta e posteriormente categorizada em 60-69, 70-79 e 80 anos ou mais); situação conjugal (“casado(a) ou mora com companheiro(a)”, “solteiro(a) ou sem companheiro(a)”, “separado(a)”, viúvo(a)”); nível socioeconômico (coletado segundo instrumento proposto pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (ABEP)20 e categorizado em classes A, B, C D e E); escolaridade, (coletada em categorias, “nenhuma”, “1ª até 3ª série”, “4ª série ou 1º grau incompleto”, “1º grau completo ou 2º grau incompleto”, “2º grau completo ou nível superior incompleto” e “nível superior completo”); autopercepção de saúde (“muito ruim”, “ruim”, “regular”, “boa”, “muito boa”); peso (aferido com uso de balança digital da marca TANITA®, com capacidade de 150Kg e precisão de 100g) e altura. Esta foi estimada através da altura do joelho, utilizando a equação proposta por Chumlea e Guo21. Este método é recomendado para pessoas com 60 anos ou mais, principalmente devido a problemas decorrentes da idade avançada, como a impossibilidade de permanecer em pé e deformidades na coluna espinhal22. Assim, a altura do joelho foi obtida com uso de estadiômetro infantil com escala de 100 cm, da marca Indaiá®. Após, através de uma equação, foi estimada a altura do indivíduo. A partir dessas variáveis de peso e altura, foi construída a variável índice de massa corporal (IMC), obtido pela relação peso(Kg)/[altura(m)]2 e posteriormente categorizada em ≤ 22,0 kg/m2 (baixo peso), > 22,0 e < 27,0 kg/m2 (peso adequado), ≥ 27,0 kg/m2 (sobrepeso)23.

Todas as entrevistas realizadas nos netbooks eram transferidas semanalmente para um banco de dados construído no programa Stata 12.1®. Após a análise das inconsistências, foi realizada análise descritiva para caracterização da população estudada, cálculo das prevalências das três dependências e número de dependência categorizado em nenhuma, uma, duas ou três. Para avaliar a relação entre as três dependências, um Diagrama de Venn foi construído. Cabe salientar que 180 indivíduos foram excluídos desta análise porque não apresentavam informações para os três desfechos. A análise bivariada foi efetuada em relação a cada exposição de interesse, para cada desfecho, através de testes Qui-quadrado de Pearson com cálculo do valor p para heterogeneidade nas exposições categóricas. Ainda, através de uma regressão logística ordinal, foi possível verificar quais variáveis estavam associadas à presença de dependências. As análises foram estratificadas por sexo. Para todas as associações adotou-se um nível de significância de 5%. O processo de amostragem complexa foi considerado em todas as análises, utilizando o comando svy.

Para garantir a qualidade das informações obtidas, eram sorteados 10% dos indivíduos para aplicação de um questionário reduzido, contendo 19 questões. Para este estudo, a questão utilizada foi: Atualmente, o(a) Sr.(a) precisa da ajuda de alguém para fazer as compras de alimentos?. Foi testada a concordância esperada entre as respostas, além do acaso, através do cálculo do Kappa, o qual resultou em 41,0% de repetibilidade.

O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, e todos os participantes que aceitaram participar do estudo assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Nos 133 setores censitários foram identificados 1.844 indivíduos elegíveis para o estudo. Após sucessivas tentativas de contato, foram contabilizadas 393 perdas e recusas (21,3%), sendo a maioria do sexo feminino e com faixa etária entre 60-69 anos. A amostra final foi composta por 1.451 idosos. Para avaliar a dependência para a atividade de comer, cinco idosos com alimentação por sonda no momento da entrevista foram excluídos. Foi calculado o efeito de delineamento para as três variáveis dependentes, sendo esse de 1,04 em relação à dependência para comer, 1,39 para comprar alimentos e 1,09 para preparar refeição.

A Tabela 1 apresenta a descrição total da amostra estratificada por sexo em relação às variáveis independentes estudadas. Observou-se que a maior parte dos idosos (63,0%) era do sexo feminino e que cerca de 50,0% eram tinham idade entre 60 e 69 anos. A média de idade foi de 70,7 ± 8,2 anos, com mínima de 60 e máxima de 104 anos. Evidenciou-se também que a maioria dos homens (76,1%) era casado e 42,7% das mulheres, viúva. Aproximadamente 56,7% dos idosos pertenciam ao nível econômico C e 30,9% relatou ter cursado a 4ª série ou 1º grau incompleto. Com relação à autopercepção de saúde e ao estado nutricional, mais da metade dos indivíduos (53,0%) referiu ter saúde boa ou muito boa e a maioria (56,3%) apresentou sobrepeso.

Tabela 1 Descrição da amostra estratificada por sexo de acordo com variáveis demográficas, socioeconômicas e de saúde. Pelotas, RS, 2014. (n = 1.451) 

A maior prevalência de dependência foi observada para a atividade de comprar alimentos (20,7%, IC95%: 18,5-22,9), sendo de 24,7% (IC95%: 21,8-27,6) para as mulheres e 13,5% (IC95%: 10,4-16,6) para os homens. As prevalências de dependência para preparar uma refeição e para alimentar-se foram de 11,5% (IC95%: 9,8-13,3) e 2,0% (IC95%: 1,3-2,7), respectivamente, sendo semelhante entre os sexos. Dos idosos entrevistados, 78,2% não apresentaram dependências, 12,0% apresentaram uma, 8,0% duas e 1,8% as três. Ainda, 7,9% dos idosos eram dependentes para preparar refeição e comprar alimentos, 10,9% o eram apenas para comprar alimentos e 1,1% apenas para preparar refeição. Isto está apresentado na Figura 1, através do Diagrama de Venn.

Figura 1 Dependência dos idosos para comprar alimentos, preparar refeição e alimentar-se e suas intersecções, demonstrados pelo Diagrama de Venn. (n = 1.271) 

A Tabela 2 apresenta a relação entre a presença de cada uma das dependências e as variáveis de exposição, entre os homens. Observa-se que depender de ajuda para alimentar-se, preparar refeição e comprar alimentos foi mais frequente entre aqueles com 80 anos de idade ou mais, assim como entre aqueles solteiros, separados ou viúvos. O nível socioeconômico associou-se de forma significativa apenas com os desfechos preparar refeição e comprar alimentos (p = 0,012 e p = 0,028, respectivamente), sendo as prevalências maiores entre aqueles que estavam nos níveis econômicos D e E. Ainda, aqueles que consideravam sua saúde como regular, ruim ou muito ruim apresentaram maiores prevalências para ambos os desfechos (p = 0,022 e p = 0,007, respectivamente).

Tabela 2 Frequência de dependência para alimentar-se, preparar refeição e comprar alimentos segundo variáveis demográficas, econômicas, autopercepção de saúde e estado nutricional entre os homens. (n = 537) 

Em relação às mulheres (Tabela 3), observa-se que depender de ajuda para alimentar-se, preparar refeição e comprar alimentos foi mais frequente entre aquelas com 80 anos de idade ou mais. Entre mulheres solteiras, separadas ou viúvas e entre aquelas que não estudaram ou estudaram até a terceira série, foi observada maior frequência de dependência para preparar refeições e comprar alimentos (p < 0,001 para ambas). Mulheres pertencentes aos níveis econômicos D e E apresentaram as maiores prevalências de dependência para comprar alimentos (p = 0,006). Já a autopercepção de saúde associou-se aos três desfechos, que foram mais frequentes entre as mulheres que consideravam sua saúde regular, ruim ou muito ruim.

Tabela 3 Frequência de dependência para alimentar-se, preparar refeição e comprar alimentos segundo variáveis demográficas, econômicas, autopercepção de saúde e estado nutricional entre as mulheres. (n = 914) 

A Tabela 4 apresenta a análise bruta e ajustada entre o número de dependências e as variáveis de exposição estudadas de acordo com sexo. Observa-se que, na análise ajustada, homens com 80 anos ou mais apresentaram 5,0 vezes mais chance de estar em uma categoria de maior dependência quando comparado àqueles de 60 a 69 anos (p = 0,001), já entre as mulheres, a chance aumentou para 7,1 (p < 0,001). As variáveis situação conjugal e escolaridade se mantiveram associadas apenas para as mulheres, onde aquelas solteiras, separadas ou viúvas apresentaram 1,7 vezes mais chance de estar em uma categoria de maior dependência quando comparado às casadas (p = 0,008) e aquelas com 2º grau completo ou nível superior completo ou incompleto apresentaram uma proteção de 70,0% de estar em uma categoria de maior dependência comparado com aquelas sem escolaridade ou que estudaram até a 3ª série (p = 0,001). Já o nível socioeconômico se manteve associado apenas entre os homens, onde aqueles mais pobres (categoria D/E) apresentaram 5,3 vezes mais chance de estar em uma categoria de maior dependência em comparação com aqueles mais ricos (categoria A/B) (p = 0,007). Ainda, aqueles idosos que consideravam sua saúde regular, ruim ou muito ruim apresentaram em torno de 2,3 vezes mais chance de estar em uma categoria de maior dependência quando comparado com aqueles que consideravam sua saúde muito boa ou boa, tendo sido similar entre os sexos. A variável estado nutricional não apresentou significância estatística nas análises bruta e ajustada.

Tabela 4 Razão de odds bruta e ajustada do número de dependências segundo variáveis demográficas, econômicas, autopercepção de saúde e estado nutricional, de acordo com sexo. (n = 1.271) 

Os dados mostraram que 21,1% dos idosos (n = 306) precisavam de algum tipo de ajuda para quaisquer das atividades. Quem mais ajudou o idoso na realização das três atividades estudadas foram seus familiares, sendo os mais apontados filhos(as)/enteados(as), seguido pelos(as) esposos(as)/companheiros(as). Um pequeno percentual de idosos relatou pagar para obter ajuda para as atividades de alimentação (cuidado formal): 13,8% para a atividade de alimentar-se, 8,0% para preparar refeição e 4,4% para comprar alimentos (dados não apresentados em tabela).

Discussão

O estudo mostrou que 21,1% dos idosos precisaram de ajuda para alguma atividade relacionada à alimentação e que o cuidado foi predominantemente realizado pelos filhos e cônjuges.

Na literatura nacional e internacional, poucos estudos que avaliam a incapacidade funcional focam em atividades específicas, como aquelas relacionadas à alimentação10,14,15. A maioria avalia uma gama completa de atividades básicas da vida diária (ABVD) ou instrumentais da vida diária (AIVD) ou, ainda, ambas. No entanto, é possível realizar comparações com os resultados encontrados no presente estudo quando são apresentadas as prevalências de cada atividade de forma isolada.

O presente trabalho identificou que um em cada cinco dos idosos estudados referiu precisar de algum tipo de ajuda para as atividades relativas à alimentação. De acordo com Eberhardie24, a dependência em idosos geralmente se dá de forma gradual, onde a maioria tem autonomia para a atividade de alimentar-se, sendo pouco comum a dependência para esta atividade, mesmo quando já não são mais capazes de comprar e/ou preparar suas próprias refeições. Estudo realizado na Finlândia, de representatividade nacional, com 1697 idosos com 65 anos ou mais, realizado entre os anos de 2000 e 2001, encontrou uma prevalência semelhante de necessidade de ajuda para as atividades de alimentação (23,0%)15. Já estudo realizado no Canadá, com uma amostra de 193 voluntários com idade superior a 55 anos (61 recrutados de clínicas geriátricas e 132 que viviam em seus domicílios), encontrou uma prevalência superior ao presente estudo, de 29,5%10. Esta diferença pode ser consequência da amostra, que é composta tanto por pessoas que moravam em seus domicílios, quanto daquelas institucionalizadas.

Um estudo sobre incapacidade funcional para AVD e AIVD em 598 idosos, cujos dados foram coletados entre 2007 e 2008, também realizado em Pelotas, encontrou prevalências semelhantes às do presente estudo18. Já outro estudo brasileiro, realizado em São Paulo entre 2000 e 2001, com 2143 idosos, avaliou o comportamento alimentar e identificou que 5,0% deles têm dificuldade ou não conseguem preparar uma refeição e 14,0% comprar alimentos14.

Em relação aos estudos internacionais, o estudo já citado, realizado na Finlândia, encontrou que 4,3% dos idosos têm dificuldade para comer sem a ajuda de outra pessoa e, cerca de 22,0%, apresentam dificuldade em preparar refeição15. As menores prevalências observadas no presente estudo podem ser justificadas pelo fato de a população ser mais jovem, visto que 81,4% dos idosos tinham menos de 80 anos de idade. Já o estudo canadense, mesmo incluindo idosos institucionalizados, apresenta resultados semelhantes aos nossos, sendo 21,8% de dependência para compras no supermercado e 13,5% para preparar refeição.

Do total de idosos que referiu precisar de algum tipo de ajuda para a realização das atividades estudadas, menos de um quinto deles remunera a pessoa que o(a) ajuda. Além disso, verificou-se que essa ajuda ocorre, em sua maioria, pelo(a) filho(a)/enteado(a). Em contrapartida, outro estudo realizado em Pelotas, específico sobre cuidado domiciliar, encontrou que o cuidado é feito pelo(a) esposo(a) (39,5%) seguido pelos(as) filhos(as) (23,7%)25. Essa tendência tem se observado como consequência da nova demanda da sociedade, que inclui o envelhecimento demográfico e o aumento da expectativa de vida, na qual o número de idosos que necessitam de ajuda para desempenhar suas atividades diárias vem aumentando e a presença do cuidador em seus lares tem se tornado mais frequente26. De acordo com o Projeto Bambuí, que estuda uma coorte de idosos brasileiros, existem poucos estudos no Brasil que exploram este fato8. Este estudo encontrou que cerca de 23,0% dos idosos apresentam necessidade de acompanhamento de um cuidador que, na maioria das vezes, tende a ser informal não remunerado, como um familiar8,27. Isso demonstra que, no Brasil, ainda é grande a atribuição à família acerca da maior responsabilidade dos cuidados a um idoso em ambiente domiciliar27.

Em relação ao cuidado, estudo de Del Duca et al.25 encontrou que 4,7% é realizado por cuidador contratado. No presente estudo, observou-se que a maior necessidade de cuidador ocorreu para a atividade de comer (13,8%) e a menor para comprar alimentos (4,4%).

Outro resultado encontrado no presente estudo foi a associação do avanço da idade com maiores prevalências de dependência para os três desfechos. Este achado está de acordo com outros estudos que observaram uma maior frequência de necessidades de auxílio conforme aumento da faixa etária, no que tange à atividade de se alimentar15,28,29, preparar e comprar15. A diminuição de massa muscular e óssea, do metabolismo basal e da reserva energética, com consequente perda na capacidade de reação aos estressores acompanha o aumento da idade e pode levar à síndrome de fragilidade que expõe idosos autônomos à perda funcional e à dependência30.

A autopercepção de saúde mostrou-se inversamente associada com os desfechos comprar alimentos e preparar refeição para ambos os sexos. Entre as mulheres, essa variável também esteve relacionada com o desfecho comer. Isso demonstra a relação que se estabelece entre o grau de independência para as atividades de vida diária e a percepção que o idoso tem do seu estado de saúde, sendo um aspecto importante a ser considerado31.

Com relação aos demais fatores associados à dependência, foi observado que idosos sem companheiro, com menor nível econômico e menor escolaridade são mais dependentes. Idosos sem companheiro e, entre eles os viúvos, podem vir a apresentar uma situação de isolamento e menor preocupação com a saúde, o que pode influenciar negativamente na capacidade funcional32. Quanto maiores o nível educacional e a renda, menor a probabilidade do idoso reportar uma pior capacidade funcional33,34. Indivíduos idosos com nível educacional mais elevado são menos prováveis de se expor aos fatores de risco para doenças e de se submeter a condições de trabalho inadequadas e têm maior acesso a informações, modificação do estilo de vida, adoção de hábitos saudáveis e procura pelos serviços de saúde35. Em contrapartida, provavelmente os idosos mais pobres procuram menos os serviços de saúde, possuindo pouco acesso aos tratamentos e medicamentos34.

Ainda, a chance de estar em uma categoria de maior dependência, quando avaliada em sua forma ordinal, foi maior entre aqueles com 80 anos ou mais e com autopercepção de saúde regular, ruim ou muito ruim, para ambos os sexos. Para os homens, foi maior entre os mais pobres e, para as mulheres, entre as solteiras, separadas ou viúvas; e, foi menor entre aquelas com maior escolaridade. No entanto, estudos específicos que permitam a comparabilidade com o presente estudo ainda são inexistentes, impedindo maiores discussões a respeito.

Algumas limitações precisam ser relatadas. Em função do delineamento transversal, a principal limitação do estudo é a existência de possibilidade do viés de causalidade reversa, no que se refere à variável autopercepção de saúde, principalmente porque a forma como o idoso percebe sua vida, suas expectativas e suas preocupações podem influenciar sua saúde e sua autonomia36. Por outro lado, a percepção negativa sobre sua saúde pode ser reflexo desta estar debilitada, a qual pode incluir as dimensões biológica, social e psicossocial37. A subestimação dos desfechos também poderia ser decorrente do viés de sobrevivência, na qual aqueles mais dependentes, e consequentemente com pior saúde, possivelmente já morreram.

Uma possível justificativa para o baixo valor de kappa encontrado ao testar a concordância esperada além do acaso entre as respostas, no questionário utilizado para controle da qualidade dos dados, pode ser a interpretação dos idosos frente à percepção da própria dependência entre os períodos de realização da entrevista e a realização do controle de qualidade. Outra limitação decorre da falta de poder estatístico para detectar associação entre os desfechos e algumas variáveis de exposição, como o estado nutricional.

Também é importante ressaltar os pontos fortes do estudo, como a validade interna, configurada pela amostra representativa da população idosa da cidade de Pelotas; além da sua validade externa, uma vez que os dados podem ser extrapolados para populações semelhantes. Como este estudo foi amostrado por conglomerados, também foi positivo o fato das análises terem levado em consideração o efeito deste processo amostral nos resultados. No entanto, apenas a dependência para comprar alimentos apresentou efeito de delineamento na amostra, indicando uma homogeneidade desta dependência dentro dos conglomerados e uma heterogeneidade entre os conglomerados, o que certamente se deve à distinção econômica entre eles.

Concluindo, mesmo em ambiente domiciliar, observamos que um em cada cinco idosos precisa de ajuda para as atividades relacionadas à alimentação, e que a família ainda é a principal responsável por este cuidado. Tendo em vista que o cuidador tem papel importante na manutenção da saúde e do bem-estar da pessoa idosa e, neste caso, na sua alimentação, é importante que esteja preparado para oferecer este cuidado.

Pretende-se que os resultados do presente estudo possam contribuir para um melhor entendimento do contexto de dependência que o idoso apresenta em relação às atividades de alimentação, fornecendo subsídios para o planejamento de ações nesta área.

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