Depressão e ansiedade em uma série de casos de esclerose lateral amiotrófica: frequência e associação com aspectos clínicos

Depressão e ansiedade em uma série de casos de esclerose lateral amiotrófica: frequência e associação com aspectos clínicos

Autores:

Laura de Godoy Rousseff Prado,
Isabella Carolina Santos Bicalho,
Mauro Vidigal-Lopes,
Vitor de Godoy Rousseff Prado,
Rodrigo Santiago Gomez,
Leonardo Cruz de Souza,
Antônio Lúcio Teixeira

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.15 no.1 São Paulo jan./mar. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082017ao3870

INTRODUÇÃO

A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é caracterizada por degeneração neurônio motor, que leva à paralisia muscular progressiva e à disfunção funcional, com média de sobrevida de 3 a 5 anos.1 Sintomas não motores podem estar presentes, incluindo depressão e ansiedade.1,2 A prevalência de depressão e ansiedade é altamente variável entre os estudos e pode ser observada em até 44 e 30% dos pacientes, respectivamente.2 Há evidência indicando que a disfunção funcional e a depressão estão ligadas, e que a depressão reduz a qualidade de vida dos pacientes com ELA.3 Porém, alguns estudos falharam para confirmar a associação entre a gravidade de sintomas de ansiedade e depressão, e a disfunção funcional em ELA.4,5

Este estudo investigou as características clínicas e sintomas de ansiedade/depressão em pacientes brasileiros com ELA. A hipótese de nosso estudo foi que a presença de ansiedade e depressão estaria relacionada à disfunção funcional.

OBJETIVO

Investigar a frequência de ansiedade e depressão e sua associação com aspectos clínicos da esclerose lateral amiotrófica.

METÓDOS

Trata-se de estudo transversal de série consecutiva de pacientes diagnosticados com ELA esporádica provável ou definitiva de acordo com critérios de Awaji6 conduzida de maio de 2013 a novembro de 2015. Todos os pacientes assinaram Termo de Consentimento.

O protocolo incluiu questões padronizadas em relação às características clínicas da ELA, a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (EHAD)7,8 e a ALS Functional Rating Scale Revised (ALSFRS-R).9 Um escore total para depressão acima de 8 é indicativo de depressão clinicamente significativa (depressão provável); o mesmo critério foi aplicado para ansiedade.8

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos em ambos os hospitais, Universidade Federal de Minas Gerais, CAAE: 19599813.0.0000.5149 e Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, protocolo 002B/2014.

Análise estatística

Realizou-se teste não paramétrico (Mann-Whitney, χ2 e Spearman) utilizando o Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 22.0. Valores de p<0,05 foram considerados estaticamente significativos.

RESULTADOS

Foram selecionados 76 pacientes para o estudo. Os parâmetros clínicos estão descritos na tabela 1. Da amostra, 47 pacientes (61,8%) eram homens (relação homem/mulher: 1,6:1). Considerando a apresentação inicial, 78% dos casos eram da forma espinhal e 22% da forma bulbar.

Tabela 1 Análise descritiva dos parâmetros clínicos de pacientes com esclerose lateral amiotrófica 

ELA esporádica (n=76) Média (DP±) Mediana Mínimo Máximo
Idade no início dos sintomas, anos 55,0 (12,1) 55 26 82
Idade na avaliação, anos 58,3 (11,6) 58 32 83
Duração da doença até a avaliação, anos 3,32 (2,8) 2 0 14

ELA: esclerose lateral amiotrófica; DP: desvio padrão.

Sessenta e seis pacientes (86,8%) completaram o EHAD (Tabela 2). Os outros não completaram a escala devido à recusa (n=4) ou à incapacidade grave (n=6). Ansiedade provável foi confirmada em 23 pacientes (34,8%); provável depressão foi observada em 24 pacientes (36,4%). Dos 66 pacientes, 65% eram homens, 50 (76%) tinham apresentação inicial espinhal e 16 (24%) apresentação inicial bulbar. Quinze pacientes (23%) apresentaram ansiedade e depressão, 9 (14%) apenas depressão, 8 (12%) apenas ansiedade, enquanto 34 (51%) pacientes não apresentaram sintomas significativos. Trinta pacientes utilizavam antidepressivos para tratar depressão, dor, insônia e/ou salivação excessiva. De 24 pacientes com depressão, 11 (45,8%) deles utilizavam doses efetivas de antidepressivos.

Tabela 2 Análise descritiva dos parâmetros clínicos de pacientes com esclerose lateral amiotrófica que completaram a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão 

ELA esporádica (n=66) Média (DP±) Mediana Mínimo Máximo
Idade no início dos sintomas, anos 54,3 (12,1) 55 26 82
Idade na avaliação, anos 57,6 (11,5) 57,5 32 83
Escore da ALSFRS-R 26,9 (10,1) 27 0 46
Escore da EHAD – ansiedade 7,2 (4,4) 6 0 17
Escore da EHAD – depressão 6,7 (4,5) 7 0 18

ELA: esclerose lateral amiotrófica; DP: desvio padrão; ALSFRS-R: ALS Functional Rating Scale Revised; EHAD: escala hospitalar de ansiedade e depressão.

Quando compararam-se os subgrupos de pacientes de acordo com a presença ou não de provável depressão, houve diferença significativa em relação ao escore na EHAD para ansiedade (Tabela 3). Não houve diferença significativa em relação a sexo e forma inicial.

Tabela 3 Análise comparativa de subgrupos de pacientes, de acordo com presença ou ausência de sintomas depressivos significativos (Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão ≥9) 

Depressão

Sim Não Valor de p


n Média (v) n Média (v)
Anos de estudo 24 6,4 (3-19) 42 7,3 (0-20) 0,66
Idade no início da doença, anos 24 58,1 (41-76) 42 52,1 (26-82) 0,06
Ansiedade 24 10,8 (4-17) 42 5,2 (0-15) 0,00*
Escore da ALSFRS-R 24 25,8 (0-46) 42 27,6 (4-46) 0,44
Duração da doença, anos 24 3,0 (0-11) 42 3,4 (0-14) 0,60

*p<0,05. n: números de pacientes; v: variação; ALSFRS-R: ALS Functional Rating Scale Revised.

Realizaram-se outras análises comparando os subgrupos de pacientes categorizados de acordo com a presença ou não de ansiedade e ou depressão, e não houve diferença significativa em relação a escore na escala funcional, sexo, idade no início do episódio, duração da doença e forma inicial.

Não houve correlação entre os escores EHAD para ansiedade ou depressão e escores funcionais. Uma correlação positiva entre sintomas de ansiedade e depressão foi observada (r=0,67; p<0,001).

DISCUSSÃO

Até onde se tem conhecimento, este é o primeiro estudo que avaliou os sintomas psiquiátricos em pacientes com ELA na América do Sul. A frequência da depressão (zero a 44%) e ansiedade (zero a 30%) na ELA varia significativamente ao longo dos estudos.2-4 Nossos resultados (cerca de 35%) estão de acordo com os dados da literatura.

A avaliação dos sintomas psiquiátricos na ELA pode ser limitada por diversos fatores, incluindo ferramentas de avaliação10 e gravidade da doença,3,11 em parte explicando a discrepância entre os estudos. Além disso, o uso de antidepressivos, que é frequente na ELA por razões diferentes,2-4,12 pode influenciar na frequência e/ou gravidade de sintomas depressivos ou de ansiedade.

Vale ressaltar que, apesar do uso de antidepressivos, os sintomas psiquiátricos são proeminentes, indicando a persistência dos sintomas mesmo com tratamento.2,3,12 Ainda há necessidade de definir se estes pacientes respondem diferentemente a antidepressivos e que fatores estão associados às respostas clínicas.

Contrário a nossa hipótese, não encontramos associação significativa entre os sintomas de ansiedade/depressão e disfunção funcional. A ausência da associação entre depressão e duração da doença e escore funcional na ELA foi relatada em estudos,4,5 porém alguns autores encontraram esta associação.3 Questões metodológicas, incluindo diferenças em critério de seleção de pacientes e na escolha de escalas funcionais e psiquiátricas podem contar para estes achados distintos. Achados controversos na literatura dificultam a conclusão precisa sobre o assunto. A realização de outros estudos podem esclarecer tais dados.

Baseado na ausência da diferença significativa nas características clínicas entre os subgrupos é possível que estes sintomas psiquiátricos possam ser atribuídos a outros motivos não relacionados à deficiência motora e funcional. Além disso, ainda há necessidade de esclarecer a razão de os sintomas de depressão e ansiedade estarem altamente correlacionados na ELA. As limitações do estudo incluem tamanho da amostra, viés do uso de antidepressivos e limitações intrínsecas à EHAD.

CONCLUSÃO

A frequência da ansiedade e depressão na esclerose lateral amiotrófica foi elevada e não esteve associada com duração da doença, sexo, forma de apresentação e escore funcional. Houve alta correlação entre sintomas de ansiedade e depressão na esclerose lateral amiotrófica.

REFERÊNCIAS

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