Dermeval Saviani: uma trajetória cinquentenária

Dermeval Saviani: uma trajetória cinquentenária

Autores:

Ana Carolina Galvão Marsiglia,
Carlos Roberto Jamil Cury

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.21 no.62 Botucatu jul./set. 2017 Epub 05-Jun-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622016.0947

ABSTRACT

The ethical attitude of Dermeval Saviani, as well as his academic contributions both promoting key educators and through countless publications, are one of the best and greatest testimonies in the struggle for elementary and higher education in Brazil today. His commitment in favor of an alliance between educators and the search for quality and socially equal school education, leads to the celebration in a timely and deserved way of his fiftieth career anniversary. In this paper, divided in three parts, we first highlight the most general aspects in his biography (family, school, work). In the second section, we address his academic-professional path, as professor, writer and researcher. In the last section, we underline the professor Saviani’s future plans, an expression of his vigor and willingness to continue contributing to Brazilian education, stimulating us in the struggle for quality education for the working class.

Key words: Dermeval Saviani; Brazilian education; History of education; Pedagogical ideas

RESUMEN

La postura ética de Dermeval Saviani, así como su contribución académica, sea en la formación de cuadros o por medio de sus innumerables publicaciones, es actualmente uno de los mejores y mayores testimonios de la lucha por la educación básica y superior en el País. De la unión comprometida, áurea, por una alianza entre un educador y la búsqueda de una educación escolar de calidad social, conmemoramos, de manera oportuna y meritoria su cincuentenario de carrera. En este artículo, dividido en tres partes, consideramos en primer lugar aspectos más generales de su biografía (familia, escuela y trabajo). En el segundo ítem, tratamos sobre su trayectoria académico-profesional como profesor, escritor e investigador. En el último tópico, subrayamos los planes de futuro del Profesor Saviani que expresan su vitalidad y disposición para continuar contribuyendo con la educación brasileña, animándonos a todos en la lucha por la formación de calidad de la clase trabajadora.

Palabras-clave: Dermeval Saviani; Educación brasileña; Historia de la educación; Ideas pedagógicas

Introdução

A comemoração de cinquenta anos de uma trajetória é simbolizada pelo ouro, cuja aparência de um amarelo vistoso e belo sempre fez com que fosse tido como um metal de alto valor. Ao longo da história, chegou a ser referência de riqueza e de garantia de valor.

Esse metal, entretanto, vai além de sua materialidade. O ouro, do latim aurum, material brilhante, simboliza a nobreza, o caráter forte e firme de um compromisso ao longo de tantos anos. Por isso, muitas das uniões entre pessoas formalizam-se e publicizam-se por um anel de ouro. Trata-se também do supremo galardão em competições esportivas, especialmente nos Jogos Olímpicos.

É dessa união compromissada e áurea, marcada por uma aliança entre um educador e a perseguição de uma educação escolar de qualidade social, que celebramos, de forma oportuna e meritória, o cinquentenário de carreira de Dermeval Saviani.

A história de um “filho de trabalhadores brasileiros”

Em 1994, durante o simpósio “Dermeval Saviani e a educação brasileira”, realizado na Unesp, campus de Marília, Cury1 enfatizou que Saviani é um “[...] filho de trabalhadores brasileiros, neto de imigrantes italianos, que sabe o valor do conhecimento para a mudança social” (p. 20). É a partir dessa perspectiva que procuramos apresentar brevemente a biografia desse educador que, justamente por compreender a relevância do conhecimento, “[...] é o professor que é sério, rigoroso e difícil; é o escritor que é claro, distinto e definido; é o pesquisador que é cuidadoso, fundado e inovador.”1 (p. 20).

Dermeval Saviani nasceu em 25 de dezembro de 1943, em uma fazenda em Santo Antonio da Posse, interior do Estado de São Paulo. Os pais dos oito filhos dessa família jamais frequentaram os bancos escolares, embora tenham conseguido se alfabetizar. Em 1948, a família mudou-se para a capital paulista, levando o pai e a maioria dos irmãos de Dermeval Saviani a se tornarem operários nas fábricas da cidade.

Entre 1951 e 1954, frequentou o ensino primário em um grupo escolar, localizado em um galpão de madeira na periferia de São Paulo. Desse período, o próprio professor Dermeval destaca que não foi um aluno brilhante, pois dividia seu tempo escolar com as peladas de futebol e sua infância foi “[...] como a de qualquer criança pobre, semelhante, portanto, à dos filhos da maioria da população que habita este país.”2 (p. 2).

Em 1955 iniciou o curso de admissão ginasial em São Paulo, mas ainda nesse ano mudou-se para Cuiabá, onde veio a cursar o ginásio no Seminário Nossa Senhora da Conceição (1956 a 1959), revelando-se um aluno aplicado, que invariavelmente alcançou o primeiro lugar na classificação dos estudantes, emitida pelos boletins mensais da escola. O curso colegial foi feito ainda em Mato Grosso e desse tempo Saviani2 fala do seu sentido contraditório, pois, ao mesmo tempo que representou uma violenta ruptura com seus familiares, com quem deixou de conviver com apenas 11 anos de idade, foi também de grande riqueza pelas novas experiências que propiciou.

Em 1962, ingressa no Seminário Maior, em Aparecida do Norte (SP), onde iniciou os estudos filosóficos. Saviani reflete sobre os rumos de sua vida e entende que, apesar de as circunstâncias terem-no conduzido ao Seminário, “[...] a decisão de prosseguir nessa direção deveria advir de uma opção própria, lúcida, consciente e plenamente assumida, decorrente de uma motivação positiva e não apenas negativa”2 (p. 5). E, assim, ao fim de 1963, decide deixar o seminário.

Com a volta para a capital paulista (1964), transferiu seu curso de Filosofia para a PUC-SP, o qual conclui em 1966. Trabalhou no Banco Bandeirantes do Comércio até dezembro de 1965, quando prestou concurso para o Banco do Estado de São Paulo, buscando melhores condições de vida, posto que com a remuneração de salário mínimo do Banco Bandeirantes - levando em conta a necessidade de ajudar em casa, os custos do estudo e transporte - quase não lhe sobrava condições financeiras para a alimentação.

Na PUC-SP, participou da militância estudantil até a extinção dos órgãos de representação estudantil, em novembro de 1964, já no contexto do golpe empresarial-militar vivido naquele ano. Isso não significou, entretanto, o fim da militância estudantil, que continuou por meio de sua participação na Comissão Coordenadora do Ano de Integração de Cursos (1966), que mobilizava os estudantes em substituição às ações dos centros acadêmicos, agora extintos. Desse período, Saviani ressalta: “Sendo de uma família operária, eu vivia num bairro periférico de São Paulo. Assim, nesses conturbados anos da década de 60, enquanto meu pai e meus irmãos participavam das greves nas fábricas e nas ruas, eu participava das assembleias e passeatas estudantis”2(p. 2).

É importante destacar, ainda desse período, que Saviani aliava a militância estudantil à séria dedicação aos estudos, já desenvolvendo trabalhos para as disciplinas da graduação com “densidade de reflexão própria”2 (p. 7). Também não se descuidou dessa densidade e dedicação durante o doutorado, quando procurou demonstrar que, mesmo em condições adversas, tendo que aliar trabalho e estudo, sem bolsa ou afastamento, era possível comprometer-se disciplinadamente com as horas de preparação de aulas, correção de trabalhos dos alunos e as leituras e escrita da tese, levada a termo em 1971. Isso revela que, para Saviani, teoria é importante e deve ser tratada com a máxima seriedade, porque não deve se descolar da prática, da vida de carne e osso.

Assim, chegamos ao ponto de partida da carreira de professor de Dermeval. Em julho de 1966, quando ainda era estudante do quarto ano de Filosofia, o professor Joel Martins assumiu interinamente a cadeira de Filosofia da Educação para o curso de Pedagogia e indicou Saviani como monitor, dando início à sua carreira de magistério.

Em 1967, assume oficialmente a função de docente na PUC-SP, na cadeira de Fundamentos Filosóficos da Educação, e também inicia sua experiência como docente no Ensino Médio, ministrando a disciplina de Filosofia em escolas públicas e privadas. Tudo isso ainda como bancário, emprego que deixou em 1968, quando suas aulas aumentaram e quando pôde se manter somente com o trabalho de professor.

Em 18 de novembro de 1971, defendeu sua tese de doutorado, publicada em livro pela primeira vez em 1973, com o título de Educação Brasileira: estrutura e sistema. A partir de 1972, começou a trabalhar também na pós-graduação. Entre 1973 a 1978 trabalhou na PUC-SP, sendo incentivador e professor do doutorado em educação. Por essa época, em período parcial, trabalhou na Universidade Federal de São Carlos, no Programa de Pós-Graduação em Educação, do qual não só foi coordenador como também cofundador. Nessa época, realizou estudos temporários no exterior, em países como França, Itália e Alemanha. Em 1980, ingressou na Unicamp, instituição na qual permanece como professor colaborador até hoje.

Casou-se em 1984 com Maria Aparecida Dellinghausen Motta e, em 1988, nasceu Benjamim. A importância desses acontecimentos para a vida pessoal do professor Saviani; sua articulação com a concepção de mundo que defende de forma coerente com o que coloca em prática em sua vida; e sua compreensão de que o ser humano só é pleno no entrelaçamento entre aspectos afetivos e cognitivos expressam-se em algumas de suas dedicatórias para Maria Aparecida e Benjamim.

Na edição comemorativa de 25 anos do lançamento do livro “Escola e Democracia”, Saviani3escreveu: “Para Benjamim, esperando que os filhos de sua geração alcancem estudar numa escola verdadeiramente democrática”. Já em “Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações”, lançado em 1991, quando Benjamim estava com apenas três anos, Saviani4tece a seguinte dedicatória: “Para Benjamim, filho dileto, nova e maior razão de viver”. Tal dedicatória, entretanto, também é para Maria Aparecida: “[...] esposa querida, sonho realizado”4. Em “História das ideias pedagógicas no Brasil”, há novamente a declaração de seu amor: “Para Maria Aparecida, história de amor eterno, porque infinito e sempre dura”5; e “Para Benjamim: quem está com a juventude que cultiva os clássicos, possui o porvir”.

Finalmente, ao prefaciar o livro “Crônicas sepeenses: das vivências locais às inquietações universais”, de Maria Aparecida, Saviani explica que foi “[...] introduzido nas paisagens e na alma de São Sepé, passadas já três décadas, pelo amor da autora deste belo livro de crônicas”6(p. XI). Mais adiante, ele assinala ainda: “Que privilégio, o meu, ter encontrado uma linda prenda, o amor de minha vida, oriunda de uma querência portadora de história tão fascinante!” (p. XII).

Quem conhece Saviani, seja pela rigorosidade de seus escritos ou pela postura sempre tão humilde e contida, entenderá o significado das doces palavras endereçadas ao filho e à esposa, que certamente lhe dão forças para prosseguir dedicadamente em sua luta pela educação brasileira.

Saviani não produziu/produz seus escritos, que balizam os fundamentos da pedagogia histórico-crítica, de forma descontextualizada nem de sua própria vida nem da sociedade que se propôs a pensar (a brasileira), pois considerou seu modo de produção (capitalista), o tempo histórico no qual se encontra (séculos XX e XXI) e o conjunto da produção acadêmica já elaborado antes dele. Assim, continuemos tratando de sua trajetória, destacando agora, mais pormenorizadamente, sua vida acadêmica.

Dermeval Saviani: professor, escritor, pesquisador

Saviani deixou o serviço de bancário e apostou no ensino. Em serviço, graduou-se no ensino superior até defender seu doutorado. Desde então, não teve outro caminho que não fosse o ensino e a pesquisa: ensino de filosofia na educação e a educação na filosofia. Socorremo-nos de Ricoeur7:

Se eu ensino a filosofia, é ainda à edificação de um discurso ao qual eu me dedico, de um discurso que não seja mais somente um símbolo como aquele do matemático, porém realidade; que não seja mais somente poesia, mas verdade; que não seja mais fato, mas condição de possibilidade; que não seja mais uma narrativa, mas ordem e razão. (p. 2, tradução nossa)

Trilhando os caminhos da graduação e da pós-graduação, deixou/deixa a marca de um docente responsável, cujas aulas seus alunos se recordam pela clareza, crítica e diálogo. Continuamos com Ricoeur7 quando sublinha: “A escola é educadora porque ela é ensinante, e não o inverso” (p. 2, tradução nossa).

No livro “Escola e Democracia”, lançado nos idos de 1983, há a defesa do direito à educação como recusa a uma ordem discriminatória.

Do ponto de vista prático, trata-se de retomar vigorosamente a luta contra a seletividade, a discriminação e o rebaixamento do ensino das camadas populares. Lutar contra a marginalidade por meio da escola significa engajar-se no esforço para garantir aos trabalhadores um ensino da melhor qualidade possível nas condições históricas atuais. O papel de uma teoria crítica da educação é dar substância concreta a essa bandeira de luta de modo a evitar que ela seja apropriada e articulada com os interesses dominantes3. (p. 25-6)

Como filósofo compromissado com o papel emancipatório da educação escolar, aliou o escritor às aulas. Mas qual é esse papel emancipatório da escola? Nada de uma emancipação em si nem na crença iminente de um mundo sem exploração.

Irradiar a escola para todos, especialmente para as classes populares, e assim possibilitar a transmissão de conteúdos sólidos significa um empoderamento dessas classes. Nesse sentido, é dele a afirmação da defesa dos conteúdos, na qual assinala:

Se os membros das camadas populares não dominam os conteúdos culturais, eles não podem fazer valer os seus interesses, porque ficam desarmados contra os dominadores, que se servem exatamente desses conteúdos culturais para legitimar e consolidar a sua dominação [...] o dominado não se liberta se ele não vier a dominar aquilo que os dominantes dominam. Então, dominar o que os dominantes dominam é condição de libertação3. (p. 45)

Nada de desqualificar a escola, de defesa da desescolarização ou afirmá-la tão só como reprodutora das classes dominantes. Daí sua defesa do ato de ensinar. O ensino é o conhecido, é aquilo que nós herdamos e já está acumulado. Como dizia Gramsci8:

Criar uma nova cultura não significa apenas fazer individualmente descobertas “originais”; significa também, e sobretudo, difundir verdades já descobertas, “socializá-las” por assim dizer; transformá-las em base de ações vitais, em elemento de coordenação e de ordem intelectual e moral. O fato de que uma multidão de homens seja conduzida a pensar coerentemente e de maneira unitária a realidade presente é um fato “filosófico” bem mais importante e “original” do que a descoberta por parte de um “gênio filosófico”, de uma nova verdade que permaneça como patrimônio de pequenos grupos intelectuais. (p. 13-4)

Em um país que ainda convive com uma população sem a completude da educação básica, atravessado por discriminações e preconceitos, a transmissão de conhecimentos sólidos é um campo para conquistas, em vista de uma educação democrática e de qualidade social.

É de Saviani uma pergunta sagaz a esse respeito: se a escola é tão reprodutora, por que tanto tempo se levou para ampliá-la? Por isso, era preciso ir além. Saviani se impõe a tarefa de conhecer as raízes das barreiras históricas discriminatórias a fim de partir para a disseminação das ideias por meio de publicações.

Parte ele, pois, para a investigação histórica; instigado por uma vivência pessoal, posta em epígrafe no seu livro de 1973: “A meus pais que não conheceram os bancos escolares”9. Era preciso ir mais a fundo na educação brasileira e conhecer sua estrutura e sistema para abrir as portas das escolas para todos. Nesse livro, ele se pergunta: “Existe sistema educacional no Brasil?”9(p. 1). Negando a existência de um sistema educacional no Brasil, este se impõe como tarefa dos educadores. Em 1973, no livro, lê-se: “[...] como não pode haver sistema sem atividade sistematizadora, por aí é que se deve começar. Impõe-se, pois, atuar de modo sistematizado nas estruturas, tanto ao nível microeducacional, quanto da macroeducação. Esta atividade sistematizada exige capacidade de reflexão e fundamentação teórica”9(p. 110).

Ciente da importância do caráter sistemático da educação, optou por uma reflexão científica sobre o nosso passado histórico, a fim de que, desvendado, pudesse servir de inspiração aos futuros docentes e pesquisadores.

O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que somos realmente, isto é um “conhece-te a ti mesmo” como produto de um processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços recebidos sem benefício. Deve-se fazer, inicialmente, este inventário8. (p. 12)

De um lado, surge o pensador reflexivo que entende ser importante partir daquilo que somos realmente. Um didata, um pedagogo deve partir, desde logo, de onde o outro se encontra. Eis que surge o livro “Educação: do senso comum à consciência filosófica”, com artigos modulados em torno do título do livro.

A reflexão como resposta ao problema levou Saviani a perscrutar os caminhos de nossa evolução histórica no campo da educação. Com experiência adquirida, entendeu que era momento de fazer escola. Daí seu empenho em criar um grupo de pesquisa com a ambição de torná-lo um coletivo nacional.

Essa concepção de fundo de Saviani o fê-lo perscrutar os caminhos da educação no Brasil para fazê-la não uma reprodutora de uma dominação de classe, mas um lócus de emancipação. Citamos mais uma vez Ricoeur: “Se sou um historiador, eu entro em um discurso que nasce da narrativa e que tende ao rigor de uma língua capaz de transformar um traço em documento, de analisar, de religar, de reconstruir e de fazer reviver”7. (p. 2, tradução nossa).

É nesse sentido que surge o Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil/HISTEDBR”, do qual foi um de seus coordenadores, fundador e incentivador.

É inegável a importância de tais estudos e investigações que esse protagonismo propiciou para a compreensão da história da educação, seja cobrindo as regiões do país, seja trazendo novas visadas interpretativas sobre períodos históricos, sobre figuras de destaque na educação nacional e sobre concepções presentes, estimulando o saudável debate na área.

Mais do que um protagonismo individual, importa acentuar seu caráter de coletivo nacional e seu financiamento nas diversas instituições de ensino superior no Brasil. Das páginas do site do HISTEDBR, docentes, pesquisadores e estudantes valem-se do seu acervo. Tal fato significa fazer uma escola coletiva, por meio da publicação de livros, de uma Revista on-line, que busca no passado elementos ainda presentes que representam barreiras ou mesmo caminhos para uma educação de qualidade.

Ciente da importância de uma compreensão larga da história da educação, da importância da pedagogia e das licenciaturas, Saviani4 pôs-se a elaborar um estudo que reunisse tanto a contribuição dos estudiosos quanto a sua própria, para oferecer aos estudantes, docentes e pesquisadores um recurso que lhes permitisse abordar a educação em seu conjunto, desde as origens até nossos dias. Nasceu aí o livro “História das ideias pedagógicas no Brasil”, agraciado em 2008 com o Prêmio Jabutic.Esse livro rastreia a história da educação no Brasil, por meio de uma pesquisa rigorosa, crítica e interdisciplinar, manejando com maestria a concepção dialética da história.

Essa busca histórica, seja em sua produção individual, seja em parceria ou pela animação de um coletivo nacional, não se satisfaz com a investigação em si, pois, para o nosso autor, buscar na história os caminhos das barreiras e das possibilidades assim se justifica em seus fundamentos:

[...] é pela história que a condição animal assegurada ao homem pela natureza é ultrapassada elevando-se à condição humana. Sendo a história a mestra da vida, consoante o provérbio latino historia magistra vitae est, segue-se que é exatamente ela que deve ocupar o lugar central na escola de nosso tempo, uma escola unitária porque guiada pelo mesmo princípio, o da radical historicidade do homem identificada como o caminho comum para formar indivíduos plenamente desenvolvidos10. (página inicial da orelha do livro)

Crítico de políticas educacionais, de leis e de projetos de lei considerados aquém desse “pleno desenvolvimento da pessoa”, sua pena polemiza com tais iniciativas como nos livros que abordam a LDB, o FUNDEF/FUNDEB e o Plano Nacional de Educação. No primeiro caso, o esboço inicial de projeto de lei saiu de sua lavra. Tal esboço, assumido pelo então deputado Octávio Elísio Alves de Britto, foi ampliado mediante larga participação da comunidade científica.

Esse projeto colidia com outro, nascido de um acerto entre o poder Executivo de então e alguns senadores. A resultante final, embora obrigatoriamente submetida ao capítulo da educação da Constituição, ficou aquém de uma compreensão da educação sob um sistema nacional de educação. Em um trabalho minucioso, Saviani esquadrinha o processo que conduziu à aprovação do projeto pelo Senado, de um ponto de vista que retrata objetiva e criticamente a tramitação, sempre com proposições alternativas. Esse trabalho veio à luz sob o nome de “A nova lei da educação: trajetória, limites e perspectivas”, em 1997.

No caso do Plano Nacional de Educação de 2001, dois projetos distintos correram pelos caminhos da sociedade civil e do Congresso Nacional, reeditando os problemas encontrados no processo de tramitação da LDB. Nesse sentido, o retorno do polemista, crítico, sempre com base na documentação precisa, comparece no livro “Da nova LDB ao novo Plano Nacional de Educação: por uma política de educação”, lançado em 1998. Com o governo Lula em 2003, novas políticas entraram na cena nacional, daí a reedição desse livro sob o título de “Da nova LDB ao FUNDEB”.

Aqui, contudo, cabe apontar sua escrita que faz jus ao aforismo de Göethe, disseminado por Ortega y Gasset: “A cortesia do filósofo é a clareza”11(p. 27). Seus textos são escritos de modo elegante, de expressão correta e sempre há a preocupação de se fazer entendido. Louvamo-nos agora com uma frase de Foucault12: “O que erige a palavra em palavra e a eleva acima dos gritos e dos ruídos é a proposição nela oculta” (p. 111).

Pelo conjunto de sua obra, Dermeval Saviani recebeu o Prêmio Zeferino Vaz de Produção Científica, outorgado pela Unicamp (1997), e foi condecorado com a Medalha do Mérito Educacional do MEC (1995). Ao lado de sua intensa e vigorosa produção, também teve assento no Conselho Estadual de Educação de São Paulo, foi coordenador de pós-graduação da UFSCar, da PUC-SP e da Unicamp. No momento, é professor emérito da Unicamp (2002) e pesquisador emérito do CNPq (2010).

Em 2016, foi agraciado com o Prêmio Anísio Teixeirad. Nada mais justo do que ser professor emérito da educação nacional, por sua docência cinquentenária, pelo possante vigor de suas pesquisas e pela difusão editorial e periodista de sua obra. Cremos que nessa comemoração de 50 anos em homenagem a Saviani, seria justo atribuir-lhe o título de emérito nacional.

Na obra de Saviani, o que está oculto não é o segredo, mas a defesa do direito à educação, que não se esgota em si. Valemo-nos agora de Chauí14:

[...] cada direito, uma vez proclamado, abre campo para a declaração de novos direitos e que essa ampliação das declarações de direitos entra em contradição com a ordem estabelecida. [...] as declarações de direitos afirmam mais do que a ordem estabelecida permitem e afirmam menos do que os direitos exigem, e essa discrepância abre uma brecha para pensarmos a dimensão democrática dos direitos. (p. 26)

Essa discrepância, a rigor da contradição que anima e funda a sociedade de classes, no pensamento e palavra de Saviani, não rejeita as reformas que erradicam a pobreza e a marginalização e reduzem as desigualdades sociais e regionais. Ao mesmo tempo, a força do formar indivíduos plenamente desenvolvidos lança-o no eixo de um horizonte de um socialismo, cujo tempo ainda não está próximo. Em relação à contradição, a citamos nos termos de Przeworski15:

Existem muitas razões para esperarmos que o capitalismo continue a oferecer uma oportunidade de melhorar as condições materiais e que, onde e quando isso não ocorrer, ele será defendido pela força, enquanto as condições para o socialismo continuarão a deteriorar-se. Por esse motivo é que os sonhos de uma utopia não podem ser substitutos para a luta por tornar o capitalismo mais eficiente e mais humano. A pobreza e a opressão são uma realidade, e não serão mitigadas pela possibilidade de um futuro melhor. A luta para melhorar o capitalismo é tão essencial quanto sempre foi. Contudo, não devemos confundir essa luta com a busca do socialismo. (p. 290)

Ao irradiar seu saber compromissado, não há segredo, não há perda de valor. Ao contrário da acumulação possessiva, quem irradia o saber que possui faz com que ele se multiplique. Trata-se daquela busca da cidadania ativa de uma sociedade civil participativa, cujo horizonte é a busca por uma sociedade superadora do individualismo possessivo e da exploração.

Nesse sentido, Saviani é um intelectual a serviço de uma política educacional que mira o futuro, tendo um olhar crítico sobre o passado e o presente. Vale aqui a observação de Hobsbawn16, comentando o pensamento de Gramsci, intelectual que percebeu a importância da política como uma dimensão especial da sociedade e, dentro dela, da educação. O historiador afirma:

[...] a sociedade burguesa, ao menos nos países desenvolvidos, sempre deu muita atenção a suas instituições e seus mecanismos políticos. É por isso que a ordem política tornou-se um meio poderoso de reforçar a hegemonia burguesa, de modo que palavras de ordem como defesa da república, defesa da democracia ou defesa dos direitos civis e das liberdades unem dominadores e dominados para o benefício primordial do primeiros; mas isso não quer dizer que sejam irrelevantes para os segundos. Desta forma, são muito mais do que simples cosméticos na face da coerção ou mais do que um simples embuste. (p. 300)

Saviani entendeu o recado de Gramsci e fez da defesa da educação escolar uma tribuna, destacando sua importância para “os que sabem” e “para os que não sabem”. A esse professor pode-se aplicar a lição de Ricoeur7:

O que é que eu faço quando ensino? Eu falo. Eu não tenho outro ganha-pão e eu não possuo outra dignidade; eu não tenho outro modo de transformar o mundo e eu não tenho outra influência sobre os homens. A palavra é meu trabalho; a palavra é meu reino. [...] esta comunicação pela palavra de um saber adquirido e de uma pesquisa em movimento é a minha razão de ser: meu ofício e minha honra. (p. 2, tradução nossa)

Partamos então para a finalização desse artigo, destacando o que ainda há por vir do professor, escritor e pesquisador, que, após cinquenta anos de carreira, ainda expressa sua vitalidade e disposição para contribuir com a educação brasileira.

50 anos depois, ainda com muitos planos para o futuro

Dermeval Saviani já comentou sobre diversos planos que ainda tem para sua vida. A indicação foi feita em 2002, por ocasião da outorga do título de professor emérito da Unicamp. Naquela oportunidade, ele mencionou o desejo de concluir de forma mais imediata alguns de seus projetos e assim fez. É o caso de três obras: “História das ideias pedagógicas no Brasil”, “A pedagogia no Brasil: história e teoria” e “Sistema Nacional de Educação e Plano Nacional de Educação”. Outros planos, entretanto, ainda estão em aberto (e já se passaram 14 anos). Segundo o autor:

Entre os planos mais simples estão aqueles textos de apoio para seminários que organizei no início de minha carreira docente e cuja transformação em livros foi um projeto sempre adiado, mas nunca abandonado; igualmente os programas de disciplinas que ministrei e que também planejara transformar em livro. Entre os projetos mais recentes encontram-se reedições atualizadas de livros como “Educação e questões da atualidade”, publicado simultaneamente em português e espanhol em 1991, já há bastante tempo esgotado, o mesmo ocorrendo com “Ensino público e algumas falas sobre universidade”, cuja primeira edição é de 1984. Um outro livro que gostaria de publicar e que é relativamente fácil de viabilizar é o que eu chamaria de “Prefácio à educação brasileira”, em que, partindo dos cerca de quarenta prefácios que redigi para livros sobre educação, complementados pelas dissertações e teses orientadas, eu buscaria traçar a trajetória histórica da educação brasileira nos últimos 30 anos17. (p. 287)

Não satisfeito, ele ainda sinaliza para um projeto sobre máximas e provérbios em educação e um livro sobre o legado educacional do século XX, escrito na forma de diálogo com seu filho Benjamim:

[...] em que, aproveitando sua curiosidade e seu interesse pela história e pela genealogia, seriam formuladas as perguntas e eu iria discorrendo sobre a trajetória da educação no desenvolvimento da sociedade brasileira ao longo do último século. Com efeito, perpassam o século três gerações: meu pai nasceu no início, em 1909; eu me encontro na metade (1943-1944) e Benjamim nasceu no final do século, em 1988. Seria uma boa oportunidade de entrelaçarmos nossas vidas com os acontecimentos que cobriram todo o século XX17. (p. 288)

Por fim, novamente menciona o projeto de um livro anunciado em 1991, quando do lançamento de Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações e que continua por ser escrito. Segundo ele:

[...] este livro constitui uma primeira aproximação ao significado da pedagogia histórico-crítica. Isto porque está em curso o processo de elaboração desta corrente pedagógica, através de diferentes estudiosos, de minha parte, venho dedicando-me a uma pesquisa de longo alcance que se desenvolve com ritmo variável e sem prazo para sua conclusão, por meio da qual se pretende rastrear o percurso da educação desde suas origens remotas, tendo como guia o conceito “modo de produção”. Trata-se de explicitar como as mudanças das formas de produção da existência humana foram gerando historicamente novas formas de educação, as quais, por sua vez, exerceram influxo sobre o processo de transformação do modo de produção correspondente. É um estudo que não se move sobre o acicate das urgências imediatas da conjuntura, mas que se propõe a captar o movimento orgânico definidor do processo histórico [é um estudo] de caráter duradouro e que justifica toda uma vida. Pretende-se, assim, revelar as bases sobre as quais se assenta a pedagogia histórico-crítica para viabilizar a configuração consistente do sistema educacional em seu conjunto do ponto de vista dessa concepção educacional18. (p. 2)

Com tantos planos, Saviani17 pede-nos “sossego”:

Como se vê, não é necessário que se preocupem em me dar trabalho. De fato, com tantos projetos, com tantas ideias fervilhando, é impossível que eu pare de trabalhar. A conclusão a que chego é, pois, a seguinte: quanto mais me derem trabalho, quanto mais se multiplicam as solicitações, mais eu tenho que me ater aos projetos mais simples e de menor fôlego, postergando os mais importantes. Daí, o apelo: deixem-me livre, reduzam suas expectativas, pois, desse modo, poderei me concentrar nos projetos de maior transcendência, cujos benefícios serão mais amplos e mais duradouros. (p. 288)

Fazemos coro ao nosso mestre: precisamos pedir “menos”, para lhe dar condições de produzir (ainda) mais sobre temas que mobilizem nossa educação e nossa prática pedagógica; mas é preciso reconhecer que o apelo deve ser dirigido também ao próprio professor Saviani, que, com sua impecável delicadeza e generosidade, é incapaz de recusar um único pedido e fazer “menos” para poder fazer “mais”.

Em tempos de obscurantismo, retrocessos e fundamentalismos, com ataques frontais, diários e violentos à classe trabalhadora, comemorar o cinquentenário profissional de Dermeval Saviani é comemorar a resistência. Homenageá-lo é um ato de resistência, é uma forma de ter esperança, de partir para o embate com a certeza de que estamos trilhando o melhor caminho e procurando colaborar para a construção de um projeto de sociedade para o qual ele dedicou sua vida. Trata-se de celebrar o fato de ainda estarmos aqui, com forças para se manter a escola pública e brigando com todas as nossas condições por uma formação digna para a classe trabalhadora.

Parafraseando nosso homenageado19, assinalamos nosso agradecimento ao mestre, que, a despeito de muitas profissões glamorosas, não perdeu o encanto pelo ofício de produzir a humanidade no ser humano. Vida longa ao professor Dermeval Saviani!

REFERÊNCIAS

1. Cury CRJ. Um pequeno depoimento. In: Silva Júnior CA. Dermeval Saviani e a educação brasileira: o simpósio de Marília. São Paulo: Cortez; 1994. p. 18-21.
2. Saviani D. Autobiografia [Internet]. Campinas: Unicamp; 2016 [citado 11 Out 2016]. Disponível em: .
3. Saviani D. Escola e democracia. Edição comemorativa. Campinas: Autores Associados; 2008.
4. Saviani D. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11a ed. Campinas: Autores Associados; 2011.
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