Desafios e estratégias dos programas de pós-graduação em enfermagem para a difusão da produção científica em periódicos internacionais

Desafios e estratégias dos programas de pós-graduação em enfermagem para a difusão da produção científica em periódicos internacionais

Autores:

Carmen Gracinda Silvan Scochi,
Denize Bouttelet Munari,
Francine Lima Gelbcke,
Márcia de Assunção Ferreira

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145

Esc. Anna Nery vol.18 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20140001

Numa era em que a sociedade do futuro está pautada na sociedade do conhecimento, o papel da pós-graduação stricto sensu tem sido fundamental para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação, motores da transformação econômica e social.

O que se observa nos últimos anos é um crescimento significativo do sistema de pós-graduação brasileiro, que se traduz tanto no aumento do número de cursos e programas, como no número de recursos humanos capacitados, gerando novos conhecimentos que são difundidos por meio da publicação de artigos em periódicos nacionais e internacionais.

Nas três últimas décadas ocorreu um aumento significativo da produção científica brasileira, com uma taxa média de crescimento anual de 10,7%, dado que representa cinco vezes mais do que a média mundial. Este aumento elevou o país, em 2009, ao 13º lugar no ranking entre os países com maior número de artigos científicos e ao 15º lugar em produção de artigos de revisão. Há, também, um estímulo à promoção da internacionalização da ciência brasileira, bem como acesso à informação científica, tendo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES papel relevante neste processo, principalmente por meio do seu Portal de Periódicos1-2.

Apesar desses avanços na internacionalização da produção científica brasileira, o crescimento da qualidade dos trabalhos científicos, medida pelo número de vezes que cada estudo é citado por outros cientistas, não tem acompanhado o mesmo ritmo, pois o impacto caiu e o Brasil passou do 31º lugar para o 40º, respectivamente em 2001 e 2011. Aponta-se como um dos aspectos que contribui com este cenário a política atual que pressiona para que os pesquisadores publiquem cada vez mais, levando-os a desmembrarem trabalhos densos em artigos com menos fator de impacto, fenômeno conhecido como "salame" que aumenta o número de trabalhos, mas as descobertas ficam semelhantes e o impacto diminui3-4.

Na Enfermagem, a expansão da pós-graduação tem refletido diretamente no aumento da produção científica da área que quase dobrou no triênio 2010-2012, perfazendo 9.206 artigos, quando comparado ao triênio 2007-2009, em que foram publicados 5.194 artigos. Ainda, o empenho dos programas de pós-graduação e dos editores dos periódicos brasileiros da área resultou no reconhecimento da comunidade científica e das bases indexadoras nacionais e internacionais. Houve ampliação do número de revistas indexadas nas principais bases nacionais e internacionais e de referência para as áreas de Enfermagem e da Saúde, além do aumento dos índices censiométricos. Ressalta-se que, atualmente, quatro periódicos de Enfermagem, editados no Brasil, estão indexados na Web of Science, os quais obtiveram WoS/JCR com fatores de impacto equivalentes ao de outras revistas editadas nos Estados Unidos da América, de referência internacional para a área. Além desses, mais quatro periódicos brasileiros de Enfermagem estão indexados na base Scopus/SCImago com SJR e índice H. Evidencia-se assim, o reconhecimento da qualidade da editoração de revistas brasileiras de Enfermagem pelas bases indexadoras internacionais e a conquista de espaços políticos e maior participação de pesquisadores editores em processos decisórios em instituições e associações de editoração nacional e internacional. Cabe assinalar ainda, que os periódicos da Enfermagem brasileira correspondem a 15 dentre os 25 periódicos disponíveis em texto completo na Rev@Enf da Biblioteca Virtual de Saúde-Enfermagem - BVS/Enf3.

Todo esse processo teve impacto direto na projeção da área em nível internacional, uma vez que a Enfermagem brasileira ocupava o 17º lugar no ranking da base Scopus/SCImago em 2005 e ascendeu para o 6º lugar em 2009, mantendo-se nessa posição até 2012, superado pelos Estados Unidos da América, Reino Unido, Austrália, França e Canadá3. Melhoramos também no ranking em termos de documentos citados (17ª para 6ª posição) e citações (22ª para 18ª posição), com manutenção do índice H em 50 embora ascendendo uma posição (22ª para 21ª), mas ainda temos que melhorar nossos indicadores porque elevamos a autocitação (20ª para 9ª posição) e reduzimos acentuadamente a citação por documento de 14,17 para 0,11 (44ª para 80ª posição), respectivamente em 2005 e 2012.

Assim, permanece o desafio de aumentar as citações dessa produção por outros cientistas, bem como ampliar o impacto da produção científica da Enfermagem brasileira com transferência de conhecimento, tecnologia e inovação para a prática profissional, rumo à consolidação do Sistema Único de Saúde - SUS com melhoria do cuidado e ensino em saúde e Enfermagem3.

Para alavancar a internacionalização da área de Enfermagem com difusão da produção científica em periódicos internacionais, vislumbra-se algumas estratégias desafiadoras a serem implementadas pelos programas de pós-graduação da área:

  • incrementar a capacitação em língua inglesa para fluência e melhoria da escrita e consolidar o processo de internacionalização, com vistas a fortalecer as iniciativas de mobilidade docente e discente para instituições estrangeiras com expertise em tecnologia e inovação em saúde e Enfermagem, visando à obtenção de maior impacto no avanço da sociedade do conhecimento3,5;

  • fortalecer a formação em pesquisa nos grupos de pesquisa e em disciplinas com foco em epistemologia e abordagens teórico-metodológicas mais densas, pois ainda temos um quantitativo expressivo de dissertações e teses caracterizadas como estudos descritivos e poucos estudos de intervenção e ensaios clínicos;

  • incentivar que os resultados das dissertações e teses sejam publicados como artigos mais densos e inovadores em periódicos internacionais com alto fator de impacto, evitando sua fragmentação em vários artigos com menos impacto;

  • estimular o desenvolvimento de pesquisas guiadas pela transferência de conhecimento para a prática de Enfermagem e Saúde, na perspectiva da prática baseada em evidência3,6;

  • incrementar a produção científica em sintonia com as diretrizes traçadas pelos organismos/agências nacionais e internacionais de financiamento à pesquisa e as políticas de ciência, tecnologia e inovação e a Agenda Nacional de Prioridades de Pesquisa em Saúde3,6;

  • incentivar a implementação de ações mais arrojadas de desenvolvimento e empreendedorismo na geração de projetos de pesquisa e produtos que possam ser mais eficientes para fazer avançar a prática de Enfermagem e produzir novas formas de cuidar e de gerenciar em saúde3,7;

  • ampliar o desenvolvimento de pesquisas colaborativas e multicêntricas e a produção científica e tecnológica em parceria com pesquisadores estrangeiros, prática ainda incipiente na área de Enfermagem3,5.

Ampliar a demanda de projetos de pesquisa para editais de financiamento, não somente para as agências nacionais como também internacionais, pois observa-se que esta estratégia ainda é muito tímida entre os pesquisadores de enfermagem.

Portanto, temos que investir na formação e qualidade das nossas produções científicas que devem ser citadas por outros pesquisadores e também ter impacto na prática profissional, o que implica em relativizar quantidade versus qualidade, ou seja, não adianta investirmos apenas em números, se queremos a sustentabilidade da produção científica da Enfermagem brasileira com ampliação de sua visibilidade internacional. Precisamos investir em qualidade! Assim, os desafios estão postos para os programas de pós-graduação da área.

REFERÊNCIAS

1. Almeida EC. A evolução da produção científica nacional, os artigos de revisão e o Portal de Periódicos da CAPES [tese de doutorado]. Porto Alegre (RGS): Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2013. 137 p.
2. Almeida EC, Guimarães JA. Brazil's growing production of scientific articles - how are we doing with review articles and others qualitative indicators? Scientometrics. Ed. Springer. DOI 10.1007/s11192-013-0967-y.
3. Scochi CGS, Munari DB, Gelbcke FL et al. Relatório de avaliação 2010-2012: área de enfermagem. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, 2013. 62 p.
4. Righetti S. Brasil cresce em produção científica, mas índice de qualidade cai. Folha de São Paulo 22 abr 2013. [acessado em 21 de novembro de 2013]. Disponível em:
5. Scochi CGS, Munari DB, Gelbcke FL et al. Documento de área e Comissão da Trienal 2013: Enfermagem. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, 2013. 62p. [Internet] 2013. Disponível em
6. Scochi CGS, Munari DB, Gelbcke FL, Erdmann AL, Gutierrez MGR, Rodrigues RAP. Pós-graduação stricto sensu em enfermagem no Brasil: avanços e perspectivas. Revista Brasileira de Enfermagem (Impresso). 2013;66:80-9.
7. Scochi CGS, Munari DB. A pós-graduação em enfermagem brasileira faz quarenta anos: avanços, desafios e necessidades de novos empreendimentos. Esc. Anna Nery. 2012;16(2):215-8.
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