Desempenho de falantes do português brasileiro no “Test of Narrative Language (TNL)”

Desempenho de falantes do português brasileiro no “Test of Narrative Language (TNL)”

Autores:

Gabriela Mello Costa,
Natalia Freitas Rossi,
Célia Maria Giacheti

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.30 no.4 São Paulo 2018 Epub 19-Jul-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20182017148

INTRODUÇÃO

A narrativa oral de história é uma tarefa complexa de linguagem que requer conhecimentos linguísticos (sintáticos, semânticos e fonológicos), conhecimento de mundo (pragmáticos) e domínio de funções cognitivas, como a memória de trabalho, capacidade de monitoramento, organização e integração de informações e capacidade para fazer inferências(1,2) e, assim, uma tarefa importante para investigar trajetórias desenvolvimentais típicas e desviantes(3).

A habilidade para narrar inicia-se aos 3 anos e por volta dos 6 anos a criança frequentemente já será capaz de produzir histórias bem estruturadas e completas(1). Aproximadamente aos 10 anos de idade, o desenvolvimento da habilidade narrativa atinge um pico de complexidade(4), sendo que, aos 12 anos, é esperado que a criança domine o esquema narrativo de história e que, conjuntamente com suas capacidades linguísticas e cognitivas, ela seja capaz de produzir histórias com múltiplos episódios, com estruturas gramaticais complexas interligadas por elementos coesivos e utilizar verbos para se referir ao estado mental dos personagens(5).

Além da idade e da escolaridade, sabe-se que o contato da criança com o modelo de esquema narrativo de histórias no contexto familiar e escolar também são fatores considerados relevantes no desenvolvimento da habilidade narrativa(2,6-8).

Por ser uma tarefa que permite investigar a capacidade da criança para lidar com esquemas, organização, construções e convenções, mesmo de crianças que ainda não foram alfabetizadas(2), e por ser o desempenho narrativo considerado preditor do desempenho acadêmico(9,10), a narrativa oral de história têm sido amplamente utilizada em estudos com crianças em circunstâncias típicas e atípicas do desenvolvimento(3,11-13).

O desempenho narrativo tem sido investigado por meio de diferentes recortes e parâmetros de análise. A análise com base nos parâmetros macroestruturais considera a presença e a organização dos elementos da história, como: a manutenção do personagem e do tema; e a relação entre eventos, desfecho e coerência da narrativa(14-16). Por sua vez, a análise dos aspectos microestruturais considera a sequencialidade e sentido da narrativa, além dos elementos de coesão que regem a sequência estrutural, com base nos princípios sintáticos e semânticos e medidas de vocabulário e complexidade sintática(16,17).

Dentre os poucos instrumentos formais para investigar habilidades de compreensão e produção da narrativa oral e que abrange tanto aspectos macro quanto microestruturais da narrativa, o Test of Narrative Language (TNL)(18) é um instrumento amplamente utilizado na literatura internacional para avaliar a habilidade de narrativa oral em crianças. Este instrumento tem sido utilizado em circunstâncias típicas e atípicas do desenvolvimento com o propósito de investigar a habilidade narrativa de crianças com déficit de atenção e hiperatividade(19); investigar os efeitos do ruído sobre as habilidades narrativas em crianças típicas(20); aprofundar o conhecimento sobre as dificuldades narrativas de crianças com transtorno de linguagem(12,21); correlacionar a influência de atualizar a memória de trabalho com o desempenho narrativo em circunstâncias típicas do desenvolvimento(22), e investigar a habilidade narrativa de crianças bilíngues, com ou sem alteração de linguagem(23,24) e monitoramento da intervenção voltada às habilidades narrativas de crianças com alteração de linguagem(25).

No Brasil, o TNL foi traduzido e adaptado por Rossi et al.(26), não havendo, até o momento, estudo sobre o desempenho no TNL de crianças com desenvolvimento típico de linguagem e falantes do Português do Brasil. Diante disto, o presente estudo foi proposto partindo de duas hipóteses: (a) ao utilizar a versão adaptada para o Português do Brasil haverá diferença entre as faixas etárias com desempenho de compreensão e de produção superior para crianças nas faixas etárias maiores e (b) para as crianças menores, o desempenho de compreensão será melhor que o de produção e, com o aumento da idade, esse desempenho será semelhante.

O objetivo deste estudo foi investigar o desempenho de falantes do português brasileiro no Test of Narrative Language e correlacionar o desempenho nas tarefas de produção e compreensão da narrativa.

MÉTODO

Aspectos éticos

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (no. 1015/2014) e todas as crianças tiveram sua participação autorizada mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e Termo de Assentimento, elaborados para fins específicos desta pesquisa, segundo resolução do Conselho Nacional de Saúde – CNS 466/12 sobre Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos.

Participantes

Inicialmente foram selecionados 146 indivíduos com idade entre 5 anos e 11 anos e 11 meses para triagem fonoaudiológica. As crianças que tiveram sua participação consentida pelos pais e/ou responsáveis e aceitaram participar da pesquisa foram selecionadas para realização da triagem fonoaudiológica para confirmar ausência de déficits na linguagem, antes de serem submetidas à aplicação do TNL. A triagem fonoaudiológica foi feita segundo o Roteiro Descritivo da Avaliação Fonoaudiológica da Criança(27). Este roteiro está organizado em oito blocos, a saber(1): Dados de identificação e informações sobre a criança(2); Funções sensoriais/perceptuais(3); Funções cognitivas(4); Linguagem falada(5); Dimensões relacionadas à linguagem falada (Voz, articulação, fluência e práxis oral e verbal)(6); Funções relacionadas à ingestão, manipulação e deglutição de alimentos(7); Linguagem escrita; e(8) Habilidades matemáticas(27). Das 146 crianças, foram excluídas seis (uma menina e cinco meninos) que tiveram baixo desempenho nas habilidades de linguagem. Os critérios de inclusão das crianças para esta pesquisa foram: história negativa de alteração visual, auditiva, sensorial e/ou neuropsicomotora, e ausência de alterações de linguagem e/ou aprendizagem.

A casuística foi formada por 140 falantes do português brasileiro com desenvolvimento típico de linguagem, de ambos os gêneros, com idade cronológica entre 5 anos e 11 anos e 11 meses. Os participantes foram divididos em sete grupos etários, conforme dados normativos da versão original do TNL (Tabela 1).

Tabela 1 Distribuição dos participantes do grupo amostral por idade e gênero 

Grupos etários Idade Número de participantes Masculino Feminino Média Idade (Meses) Desvio Padrão
N (%) N (%) N (%)
05 5 anos a 5 anos e 11 meses 20 100 10 50 10 50 66 3,7
06 6 anos a 6 anos e 11 meses 20 100 10 50 10 50 78,8 4
07 7 anos a 7 anos e 11 meses 20 100 10 50 10 50 88 3,6
08 8 anos a 8 anos e 11 meses 20 100 10 50 10 50 103 2,8
09 9 anos a 9 anos e 11 meses 20 100 10 50 10 50 115 4,5
10 10 anos a 10 anos e 11 meses 20 100 10 50 10 50 123,4 2
11 11 anos a 11 anos e 11 meses 20 100 10 50 10 50 139,5 3,8

A distribuição dos participantes por escolaridade, em função da faixa etária, está apresentada na Tabela 2.

Tabela 2 Distribuição dos participantes do grupo amostral por escolaridade 

Grupos etários Número de indivíduos em cada série
Infantil II 1º ano 2º ano 3º ano 4º ano 5º ano 6º ano
05 19 1 - - - - -
06 - 20 - - - - -
07 - 10 10 - - - -
08 - - 1 19 - - -
09 - - - 3 17 - -
10 - - - - - 20 -
11 - - - - - 1 19

Procedimento

Para investigar o desempenho narrativo, foi utilizado o Test of Narrative Language (TNL)(18), versão brasileira adaptada(26). O teste é composto por seis tarefas organizadas em dois subtestes (compreensão narrativa e narração oral), a partir de três diferentes formatos: sem apoio de figura, com apoio de figuras em sequência e com apoio de figura única. As medidas fornecidas pelo TNL permitem estabelecer valores que representam, separadamente, o desempenho no subteste de compreensão narrativa e de narração oral. Essas medidas são representadas pelo escore bruto, idade equivalente, percentil e escore padrão. O teste também prevê uma medida global, representada pelo escore bruto total, Índice de Habilidade de Linguagem Narrativa (IHLN), classificação do percentil e a classificação descritiva do desempenho da criança (muito superior, superior, acima da média, média, abaixo da média, pobre e muito pobre)(26).

As narrativas dos participantes foram gravadas e transcritas para análise segundo normas do manual original do instrumento. Para este estudo, dentre as medidas fornecidas pelo TNL, foram utilizadas: escore bruto de compreensão, escore bruto de produção e escore bruto total (soma dos escores de compreensão e produção). O escore bruto foi utilizado neste estudo por representar a soma de acertos de cada subteste.

Análise estatística

Foi usada a planilha eletrônica MS-Excel na versão do MS-Office 2013 para a organização dos dados, e o pacote estatístico IBM SPSS (Statistical Package for Social Sciences) na versão 23.0, para a obtenção dos resultados. Foram utilizados os seguintes testes estatísticos Teste de Jonckheere-Terpstra; Teste de Mann-Whitney, ajustado pela Correção de Bonferroni e o teste de Correlação de Spearman. O nível de significância adotado no estudo foi <0,05.

RESULTADOS

A estatística descritiva e comparativa do escore bruto de compreensão, de produção no TNL, bem como a soma dos escores (compreensão e produção), nos grupos etários, está apresentada na Tabela 3. Nota-se diferença estatisticamente significante entre os grupos quanto ao escore bruto nas três medidas analisadas.

Tabela 3 Desempenho e comparação entre os grupos etários quanto ao escore bruto de compreensão, escore bruto de produção e escore bruto total do TNL 

Variável Grupo etário M DP Mín. Máx. Md. p
Compreensão
Escore Bruto
5 23,30 5,45 16,00 34,00 21,00 < 0,001*
6 29,05 3,79 21,00 33,00 29,50
7 29,50 3,62 23,00 36,00 29,00
8 32,35 2,08 27,00 36,00 33,00
9 34,40 2,68 28,00 39,00 34,50
10 33,60 4,12 29,00 46,00 33,50
11 34,20 2,04 30,00 38,00 34,00
Produção
Escore Bruto
5 30,35 6,12 18,00 40,00 30,50 < 0,001*
6 35,70 5,73 24,00 45,00 35,50
7 39,05 7,97 26,00 51,00 37,00
8 46,50 11,02 25,00 61,00 47,50
9 50,10 7,75 31,00 63,00 49,50
10 51,95 7,05 40,00 64,00 53,50
11 54,60 7,33 39,00 72,00 55,00
Soma dos Escores Brutos 5 53,65 10,53 37,00 73,00 51,50 < 0,001*
6 64,75 8,64 45,00 77,00 65,00
7 68,55 10,86 50,00 87,00 66,00
8 78,85 11,85 55,00 94,00 80,50
9 84,50 8,60 62,00 98,00 84,50
10 85,55 9,00 71,00 102,00 86,00
11 88,80 7,58 75,00 106,00 88,00

*Teste de Jonckheere-Terpstra

Legenda: M = Média; DP = Desvio Padrão; Mín. = Mínimo; Máx. = Máximo; Md = Mediana; p = significância (<0,05)

Para investigar a existência de diferenças entre o escore bruto (compreensão, produção e total), levando em consideração cada um dos grupos etários, foi aplicado o Teste de Mann-Whitney, ajustado pela Correção de Bonferroni, para identificarmos quais grupos etários diferem dos demais, quando comparados par a par (Tabela 4).

Tabela 4 Comparação par a par entre os grupos etários quanto ao escore bruto de compreensão, de produção e escore bruto total do TNL 

Par de grupos etários
p
Compreensão
Escore Bruto total
p
Produção
Escore Bruto total
p
Soma dos Escores Brutos
p
5 x 6 0,001* 0,010* 0,001*
5 x 7 0,001* 0,001* 0,001*
5 x 8 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
5 x 9 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
5 x 10 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
5 x 11 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
6 x 7 0,946 0,249 0,416
6 x 8 0,002* 0,002* 0,001*
6 x 9 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
6 x 10 0,002* < 0,001* < 0,001*
6 x 11 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
7 x 8 0,007 0,020 0,007
7 x 9 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
7 x 10 0,003 < 0,001* < 0,001*
7 x 11 < 0,001* < 0,001* < 0,001*
8 x 9 0,013 0,357 0,136
8 x 10 0,428 0,163 0,049
8 x 11 0,010 0,042 0,010
9 x 10 0,237 0,456 0,797
9 x 11 0,795 0,076 0,119
10 x 11 0,270 0,408 0,238

*Teste de Mann-Whitney, ajustado pela Correção de Bonferroni; p = significância (<0,05)

É possível observar na Tabela 4 que foi encontrada diferença estatisticamente significante na faixa etária de 5 anos em relação a todas as outras faixas etárias em todas as variáveis. A faixa etária de 6 anos não apresentou diferença estatisticamente significante da faixa etária de 7 anos para todas as variáveis analisadas, mas apresentou para as demais (8, 9, 10 e 11). A faixa etária de 7 anos não apresentou diferença estatisticamente significante da faixa etária de 8 anos, mas apresentou para as demais (9, 10 e 11). A partir de 8 anos, os grupos etários não apresentaram diferença estatisticamente significante entre si para todas as variáveis analisadas.

O teste de Correlação de Spearman foi utilizado para verificar o grau de correlação entre o escore total de produção e o escore total de compreensão em cada grupo etário (Tabela 5). Pode-se observar que existe correlação entre as variáveis (produção e compreensão) nas faixas etárias de 5, 6 e 7 anos. A partir da faixa etária de 8 anos, a correlação não foi encontrada.

Tabela 5 Correlação entre escore total de compreensão e escore total de produção do TNL nos grupos etários 

Par de Variáveis Grupo Etário r p
escore total de produção
×
escore total de compreensão
5 +0,729 < 0,001*
6 +0,571 0,009*
7 +0,688 0,001*
8 +0,270 0,250
9 +0,146 0,540
10 +0,272 0,246
11 +0,130 0,583

*Teste de Correlação de Spearman

Legenda: r = Coeficiente de Correlação; p = significância (<0,05)

DISCUSSÃO

O objetivo do presente estudo foi investigar o desempenho de falantes do português brasileiro no Test of Narrative Language e correlacionar o desempenho nas tarefas de produção e compreensão da narrativa.

O desempenho dos indivíduos no TNL, por meio do escore bruto das tarefas de compreensão, de produção e da soma total dos escores (compreensão e produção), foram apresentados na Tabela 3. Conforme apresentado na comparação entre os grupos etários, observaram-se diferenças estatisticamente significantes quanto às variáveis analisadas (escore bruto de produção, de compreensão e total). No entanto, na comparação par a par (Tabela 4), apenas o grupo etário de 5 anos apresentou diferença estatisticamente significante em relação a todos os demais grupos etários investigados.

Para o grupo de 6 anos, não foi observada diferença estatisticamente significante nas habilidades de compreensão e de produção oral de histórias quando comparado ao grupo de 7 anos. Para o grupo de 7 anos, não houve diferença nas habilidades de compreensão e de produção oral de histórias quando comparado ao grupo de 8 anos, em todas as variáveis (Tabela 4). Observou-se, então, que o grupo de 7 anos não diferiu das faixas etárias fronteiriças (6 e 8 anos) e isso pode se dar pelo fato de que, apesar de todas as crianças estarem dentro da faixa etária de 7 anos, o grupo era heterogêneo quanto à seriação: 50% do grupo cursava o primeiro ano e 50% do grupo, o segundo ano, quando o teste foi aplicado (Tabela 2).

Especula-se que tal resultado pode ser atribuído à escolaridade dos indivíduos, pois as crianças do grupo de 7 anos que cursavam o primeiro ano (50%) tinham o mesmo período de exposição escolar que as crianças do grupo de 6 anos. As crianças com mais tempo de exposição escolar poderiam ter desenvolvido habilidades necessárias para um bom desempenho em narrativa oral, como a alfabetização, que tem seu início no primeiro ano e vai se consolidando no ano seguinte. Alguns estudos destacaram a alfabetização como um fator determinante no desenvolvimento da narrativa oral, pois a escrita requer mais do que a simples aprendizagem de um código, mas o domínio de recursos como coesão, sequência lógica, construções e convenções linguísticas(2,8,9). É importante mencionar que esta é uma explicação ainda especulativa, uma vez que, neste estudo, não foi realizada uma análise específica que permitisse discutir com propriedade a influência da alfabetização no desempenho da narrativa oral, e sugere-se que seja feita em estudos posteriores.

Em relação aos demais grupo, verificou-se que, entre os grupos de 8, 9, 10 e 11 anos, não houve diferença estatisticamente significante quando comparados par a par, em nenhuma das variáveis (Tabela 4). Esse último dado apontou que o desempenho na narrativa, medida pelo TNL, não discriminou os grupos de 8 a 11 anos.

Na versão original do TNL(18), foi investigado o efeito da idade sobre o desempenho no teste, e foi encontrada correlação positiva entre a idade e os escores brutos de produção e compreensão, embora as médias dos escores brutos, principalmente de compreensão, também tenham sido próximas nas faixas etárias a partir dos 9 anos.

É válido mencionar que o TNL atualmente dispõe de uma nova versão(28) com dados de análise ampliados e a idade expandida para crianças de 4 a 15 anos e 11 meses, o que sugere a continuidade de estudos com o instrumento aqui no Brasil incluindo a nova versão. O aumento da casuística, incluindo amostra representativa do ensino particular e de outras regiões do país, deverá promover uma discussão mais robusta dos dados encontrados até o momento.

Também, o que poderia justificar os resultados encontrados mais especificamente para os grupos etários a partir de 9 anos é o fato de que, segundo alguns estudos, as mudanças mais representativas no desempenho narrativo ocorreriam até os 8 anos de idade, quando a maior parte do esquema narrativo é adquirida pela criança(29), embora a habilidade narrativa continue a se desenvolver após esta idade(1-3,8).

Quanto à correlação entre o desempenho nas tarefas de produção e compreensão da narrativa, pode-se observar que houve correlação positiva entre as variáveis (produção e compreensão) nas faixas etárias de 5, 6 e 7 anos, sinalizando que quanto maior o escore de produção, maior o de compreensão narrativa (Tabela 5). A ausência de correlação a partir da faixa etária de 8 anos poderia ser explicada pelo fato de que, a partir desta idade, não haveria diferenças significativas entre as habilidades de produção e compreensão narrativa.

Por fim, é importante considerar que os resultados encontrados não devem ser generalizados para todas as regiões do país, pois a coleta foi feita na região Sudeste, e sabe-se que o Brasil é um país com ampla diversidade cultural. Sugere-se a continuidade de estudos para que a amostra seja ampliada, incluindo zonas rurais e habitantes de diferentes regiões do país, bem como a ampliação da amostra para coleta em escolas particulares.

Diferenças no desempenho de linguagem e narrativa escrita de crianças inseridas no ensino público vs. ensino privado têm sido observadas(30) e devem ser exploradas também no contexto da narrativa oral.

CONCLUSÃO

Pode-se concluir que o teste diferenciou as faixas etárias de 5, 6 e 7 anos, sendo o desempenho entre as crianças dessas faixas etárias diferente estatisticamente, o que não ocorreu nas faixas etárias a partir dos 8 anos.

Foi possível correlacionar os desempenhos das crianças nas tarefas de produção e de compreensão da narrativa, e observou-se que os grupos etários de 5 a 7 anos apresentaram correlação positiva, ou seja, quanto maior o desempenho nas tarefas de compreensão, maior o desempenho nas tarefas de produção de narrativa oral, o que não ocorreu nas faixas etárias a partir dos 8 anos.

Conclui-se que, na análise do desempenho narrativo, deve-se levar em conta as habilidades tanto de compreensão quanto de produção. Estas habilidades podem se correlacionar no início do desenvolvimento da capacidade de narrar e só se tornarão independentes quando a criança adquirir grande repertório de habilidades narrativas.

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