Desempenho de pré-escolares em desenvolvimento normal de linguagem em tarefa de flexão de tempo verbal no passado

Desempenho de pré-escolares em desenvolvimento normal de linguagem em tarefa de flexão de tempo verbal no passado

Autores:

Telma Iacovino Monteiro-Luperi,
Debora Maria Befi-Lopes

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.26 no.1 São Paulo jan./fev. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/s2317-17822014000100007

INTRODUÇÃO

A maturação do desenvolvimento da linguagem é o desenvolvimento das habilidades da criança para processar informações cada vez mais complexas(1), apresentando caráter evolutivo(2,3). As primeiras produções frasais das crianças consistem em imitações das estruturas que escutam com frequência, tomando como base o modelo dos adultos(4,5), sendo o aprendizado morfossintático para a flexão das estruturas frasais um processo gradual(6,7).

Quando as crianças usam a forma flexionada pela primeira vez, parecem desconhecer o significado dessa flexão e não ter consciência da existência de uma regra para diferenciar uma palavra da outra. é um processo gradual, desde a primeira flexão de uma palavra específica até a identificação de um padrão que possibilita a generalização do conhecimento(8).

Assim, crianças em processo de aprendizado costumam usar substituições para o que não conhecem e generalizar o uso de uma regra conhecida, aplicando-a nessas situações desconhecidas(5). Esses são erros que aparecem no processo de aquisição gramatical, indicando que a criança formulou um princípio geral para a flexão(8,9) e marcando a etapa do processo de aquisição da flexão verbal(10). Conforme o número de contextos experimentados pelas crianças expande, o entendimento de significado dos marcadores flexionais torna-se mais generalizado e menos dependente de contexto(5).

Segundo a teoria das Palavras e Regras, a distinção entre a flexão regular e irregular envolve a distinção entre léxico e gramática; assim, formas irregulares são apenas palavras adquiridas e armazenadas como qualquer outra palavra simples, mas que carrega traços gramaticais incorporados ao conteúdo lexical, e as formas regulares são palavras que podem ser produzidas e generalizadas por uma regra, assim como frases e sentenças, dentro do sistema gramatical(9,11).

Pesquisas realizadas com falantes do Inglês mostraram que as crianças em desenvolvimento normal utilizam verbos conjugados no passado por volta dos dois anos de idade(12) e que entre o terceiro e o quarto ano de vida as crianças aperfeiçoam seu uso(5). Para os falantes do Inglês, o início do uso de verbos no passado pode representar dificuldades na construção morfológica de alguns tipos de verbos, como os irregulares; portanto, nesse período inicial, observa-se grande ocorrência de erros de generalização(13).

No Português Brasileiro, as crianças começam a usar os verbos com certa propriedade entre dois anos e dois anos e seis meses(14), aprimorando o uso de verbos entre os dois e quatro anos(15); entre cinco e seis anos, as crianças mostram maior domínio sobre as diversas funções que o verbo pode exercer(16).

Tal estudo justifica-se pela importância do conhecimento de desenvolvimento de linguagem em aspectos específicos que possam subsidiar o diagnóstico preciso para adequação do processo de reabilitação de crianças com alterações de linguagem, tentando, assim, adequar o enfoque terapêutico e promover, sempre que possível, a otimização da reabilitação.

A partir do exposto, o objetivo deste estudo foi analisar o desempenho das crianças em desenvolvimento normal de linguagem (DNL), falantes do Português Brasileiro (PB), na habilidade linguística de flexão do tempo verbal no passado e reunir dados de referência para a normalidade na habilidade estudada. As hipóteses traçadas para o estudo foram de que haveria diferença no desempenho entre as faixas etárias, pois há evolução da habilidade linguística de flexão de tempo verbal no passado na faixa etária estudada e que os sujeitos de quatro anos utilizariam com mais frequência substituição de verbos e erros de generalização do que os sujeitos de cinco anos e essas substituições não estariam presentes aos seis.

MÉTODOS

Esta pesquisa foi aprovada pela Comissão de ética para Análise de Projetos de Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, sob número 0605/07. Os responsáveis pelos participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Foram sujeitos 30 crianças em DNL, de 4 anos a 6 anos e 11 meses, com média de idade de 5 anos e 4 meses, sendo dez sujeitos de 4 anos, dez sujeitos de 5 anos e dez sujeitos de 6 anos, de ambos os gêneros. Os sujeitos eram frequentadores de Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI), residentes no município de São Paulo, não apresentavam queixas de alterações no desenvolvimento da linguagem (confirmado a partir do teste padronizado para Verificação da Fonologia(17) e teste padronizado de Verificação do Vocabulário Expressivo(18)) e não estavam em acompanhamento psicológico, neurológico e/ou psiquiátrico. As provas utilizadas apresentam referência para a faixa etária, sendo incluídas apenas as crianças que se encontravam dentro dos padrões de normalidade, o que, acredita-se, garante o padrão típico de desenvolvimento, uma vez que para a faixa etária estudada, as avaliações de nível intelectual não são consideradas fidedignas. A audição foi avaliada indiretamente, em situação natural, sendo que nenhuma das crianças demonstrou qualquer dificuldade de compreender as solicitações emitidas em tom normal de voz; não foi realizada avaliação auditiva formal.

Para avaliar o uso gramatical dos verbos no passado, foi desenvolvido um teste composto por 30 verbos (20 regulares e 10 irregulares), selecionados a partir do corpus de coleta de estudo anterior(16) especificamente para representar as ações ou situações mais comuns do cotidiano das crianças. Os verbos foram dispostos em pranchas com figuras em preto e branco. Todas as figuras que compõem o álbum do teste de tempo verbal foram julgadas por cinco fonoaudiólogos doutores ou doutorandos, a fim de garantir a clareza das figuras. Após o julgamento inicial, foram realizadas as alterações sugeridas em 12 das 30 figuras que compõem o teste e as figuras modificadas foram novamente analisadas pelos juízes e finalmente aprovadas com 100% de concordância. Para todos os verbos selecionados, há uma sentença desenvolvida para eliciar a produção do verbo flexionado no tempo verbal do passado (Anexo 1).

A Figura 1 apresenta um exemplo de prancha do teste de verbos.

Figura 1 Exemplo de Prancha do Teste de Verbos 

Os sujeitos selecionados passaram por avaliação, em que se realizou a aplicação da prova de tempo verbal no passado. Os testes foram aplicados em aproximadamente 15 minutos, na própria escola, em local silencioso e adequado, onde o examinador pôde aplicar a prova em cada sujeito separadamente. Para a aplicação do teste de tempo verbal, as pranchas com as figuras dos verbos foram apresentadas para os sujeitos, com a sentença referente ao verbo que a figura representa, por exemplo: "A menina está beijando seu pai. Ela o beija todas as noites antes de dormir". Posteriormente, a pesquisadora iniciava a última sentença, que deveria ser finalizada pelos sujeitos, dando a entonação adequada para que os sujeitos compreendessem que deveriam complementar a frase. Por exemplo: "Ontem ela _______ (beijou seu pai)".

As respostas dos sujeitos foram registradas em protocolo específico e três pontos foram atribuídos para cada acerto, considerado quando o sujeito utilizou o verbo esperado no tempo passado. Para a substituição de um verbo regular por outro regular (R-R), de um verbo regular por um verbo irregular (R-I) e a substituição de um verbo irregular por um irregular (I-I), sem alterar o sentido da sentença, como, por exemplo, em "abraçou", quando o esperado seria "beijou", foi atribuída a mesma pontuação de acerto, pois o item lexical foi modificado de forma pertinente e sem diminuir a complexidade da flexão. Para a substituição de um verbo irregular por um verbo regular (I-R) de forma pertinente, foram atribuídos dois pontos, isso porque, apesar de a sentença final permanecer correta, a eleição de um verbo regular para substituir um irregular pode ser indicativo de que a criança não dominou a flexão dos verbos irregulares e prefere usar verbos regulares. Quando os sujeitos realizaram uma generalização da flexão, ou seja, flexionaram um verbo irregular utilizando a regra para a flexão de verbo regular, como, por exemplo, em "fazeu" ao invés de "fez", foi atribuído um ponto. Esse ponto foi atribuído já que a criança, apesar de flexionar incorretamente o verbo, mostra que conseguiu formular o princípio geral das regras de flexão de tempo verbal no passado. Para as respostas incorretas, consideradas quando o sujeito não utilizou a forma verbal no passado (MTV), como em "dorme", quando o esperado era "dormiu", quando não respondeu (NR), quando a resposta foi ininteligível (SI) ou quando utilizou outra categoria gramatical (MCG), não foi atribuído ponto.

RESULTADOS

Inicialmente, são apresentadas as estatísticas descritivas para os sujeitos de quatro, cinco e seis anos em DNL, na Tabela 1, com valores das medianas e os intervalos entre o 1º e o 3º quartis.

Tabela 1 Desempenho dos sujeitos em desenvolvimento normal de linguagem na tarefa de flexão de tempo verbal no passado, por idade 

4 anos 5 anos 6 anos
Mediana 1º e 3º quartis Mediana 1º e 3º quartis Mediana 1º e 3º quartis
Totais de cada tipo de resposta e pontuação
Acertos 16,5 2,8–21,0 27 24,8–27,3 26 22,0–27,3
Substituições 5 2,8–11,0 2 1,0–2,8 3 1,0–5,8
Erros 5,5 1,0–16,0 1,5 1,0–2,0 1,5 0,0–2,3
Pontuação Total 75 40,3–87,0 84,5 83,3–87,3 86,5 83,3–89,3
Porcentagem de acertos
1ª conjugação 0,7 0,2–0,9 1 0,9–1,0 1 0,8–1,0
2ª conjugação 0,4 0,0–0,5 0,7 0,6–0,8 0,7 0,5–0,8
3ª conjugação 0,5 0,2–0,8 1 1,0–1,0 0,8 0,5–0,9
Regular 0,7 0,2–0,9 1 1,0–1,0 1 0,9–1,0
Irregular 0,3 0,0–0,4 0,7 0,5–0,8 0,7 0,5–0,7
Quantidade de substituições
Substituições Agrupadas* 3 0,8–10,0 1 0,0–1,3 2 1,0–4,3
R–R 0 0,0–2,5 0 0,0–0,3 0 0,0–0,3
I–I 1,5 0,0–3,3 0,5 0,0–1,0 2 0,8–2,3
I–R 1 0,8–3,0 1 0,0–1,5 0,5 0,0–1,3
R–I 0,5 0,0–3,0 0 0,0–0,0 0 0,0–1,3
Quantidade de erros
Erros Agrupados** 3 0,8–15,8 0,5 0,0–2,0 0,5 0,0–1,5
MTV 2,5 0,8–14,0 0 0,0–1,3 0,5 0,0–1,0
NR
SI
MCG 0 0,0–1,0 0 0,0–0,0 0 0,0–0,0
Generalização 0 0,0–1,3 0,5 0,0–1,0 0 0,0–1,0

*Soma de R-R, I-I, R-I

**soma de MTV, NR, SI, MCG

Legenda: R-R = regular para regular; I-I = irregular para irregular; I-R = irregular para regular; R-I = regular para irregular; MTV = modificação de tempo verbal; NR = não respondeu; SI = segmento ininteligível; MCG = modificação da categoria gramatical

Os resultados indicaram que os sujeitos das diferentes idades diferiram quanto à quantidade de acertos (p=0,000) e quanto à pontuação total no teste (p=0,044), mas não com relação à quantidade de substituições e de erros. As análises post hoc indicaram que apenas os sujeitos de 4 anos diferiram dos demais, tanto para os acertos quanto para a pontuação total, o que pode ser visualizado no Gráfico 1.

Gráfico 1 Acertos, substituições, erros e pontuação total entre as faixas etárias *Nível de significância p<0,05  

Os sujeitos das diferentes idades diferiram com relação a todas as categorias de acertos (p=0,004 para verbos de primeira conjugação, p=0,000 para os de segunda conjugação, p=0,001 para os de terceira conjugação, p=0,001 para verbos regulares e p=0,000 para irregulares). Para todas as categorias, os sujeitos de 4 anos apresentaram menos acertos do que os demais. Para os verbos da terceira conjugação, no entanto, houve diferença entre os sujeitos de todas as idades, com padrão atípico: 4<6<5). Esses dados estão expostos no Gráfico 2.

Gráfico 2 Acertos de verbos de primeira, segunda e terceira conjugação e de verbos regulares e irregulares entre os sujeitos de 4, 5 e 6 anos em desenvolvimento normal de linguagem *Nível de significância p<0,017 Legenda: conj. = conjugação 

Não houve diferença entre a quantidade de substituição em função da idade: R-R(H=0,80, gl=2, p=0,664), I-I(H=4,75, gl=2, p=0,093) e I-R(H=2,54, gl=2, p=0,128). Em análise posterior, foram agrupadas as categorias de substituições em que a complexidade da flexão não foi diminuída, a fim de verificar a existência de diferenças entre os grupos das diferentes idades, e pelo agrupamento também não houve diferença entre a quantidade desse tipo de substituição em função da idade (H=4,89, gl=2, p=0,082). Para analisar as substituições I-R, foram realizados dois tipos de agrupamentos; no primeiro, os sujeitos que não apresentaram nenhuma ocorrência dessa substituição foram divididos daqueles que apresentaram pelo menos uma ocorrência. O teste do χ2 indicou que não houve associação estatisticamente significante entre ocorrência de I-R e grupo (χ2=2,1, gl=2, p=0,35). Foi então realizado um segundo agrupamento, utilizando um novo critério de corte: os sujeitos que apresentaram até uma ocorrência de I-R foram divididos daqueles que apresentaram mais de uma ocorrência. Novamente, o teste do χ2 indicou ausência de associação entre as variáveis (χ2=1,36, gl=2, p=0,506).

Os sujeitos das diferentes idades diferiram apenas com relação à categoria de erros de MTV (H=3,13, gl=2, p=0,044). As análises post hoc indicaram que os sujeitos de 4 anos apresentaram mais erros MTV do que os demais, o que pode ser visualizado no Gráfico 3.

Gráfico 3 Erros de modificação do tempo verbal, não respondeu, segmento ininteligível, modificação da categoria gramatical e generalização entre os sujeitos de 4, 5 e 6 anos em desenvolvimento normal de linguagem *Nível de significância p<0,05 Legenda: MTV = modificação do tempo verbal; NR = não respondeu; SI = segmento ininteligível; MCG = modificação da categoria gramatical; Gen = generalização;  

Em análise posterior, os erros de MTV, NR, SI, MCG foram agrupados a fim de verificar a existência de diferenças entre os grupos. Para essa análise, os erros de generalização não foram incluídos no agrupamento. Os resultados indicaram que não houve diferença entre a quantidade de erros agrupados (MTV, SI, NR e MCG) em função da idade (H=4,77, gl=2, p=0,091).

Para analisar os erros de generalização, foram realizados dois tipos de agrupamentos a fim de investigar a existência de diferença entre os grupos. No primeiro agrupamento, os sujeitos que não apresentaram nenhuma ocorrência desse erro foram divididos daqueles que apresentaram pelo menos uma ocorrência. O teste do χ2 indicou que não houve associação estatisticamente significante entre ocorrência de generalização e grupo (χ2=0,83, gl=2, p=0,659). Foi então realizado um segundo agrupamento, utilizando um novo critério de corte: os sujeitos que apresentaram até uma ocorrência de generalização foram divididos daqueles que apresentaram mais de uma ocorrência. Novamente, o teste do χ2 indicou ausência de associação entre as variáveis (χ2=0,58, gl=2, p=0,749).

Considerando o grupo de 4 anos o único que se diferenciou dos demais, foram realizados testes não paramétricos para amostras pareadas, para verificar diferenças entre os tipos de acertos. Os resultados demonstraram que houve maior quantidade de acertos de verbos regulares do que irregulares (p=0,008) e que houve diferença significativa entre a quantidade de acertos em cada conjugação (χ2=10,52, gl=2, p=0,005). O seguimento destas análises indicou que houve maior quantidade de acertos de verbos na primeira do que na segunda conjugação (p=0,007), mas não houve diferença entre a primeira e a terceira (p=0,340) nem segunda e terceira (p=0,033).

DISCUSSÃO

Verificamos que existiu diferença significativa entre o grupo de sujeitos de quatro anos e os demais grupos para acertos e pontuação total. Os sujeitos de quatro anos tiveram desempenho inferior aos demais grupos. Os grupos de cinco e seis anos não diferiram para nenhuma dessas variáveis. De acordo com a literatura internacional, é entre o terceiro e o quarto ano de vida que as crianças aperfeiçoam o uso das flexões verbais(5). Estudos realizados com crianças falantes do PB apontam para o aprimoramento do uso de verbos entre o segundo e quarto ano de vida. Desta forma, os achados do presente estudo, que indicam que aos quatro anos os sujeitos apresentam um menor número de acertos na flexão do verbo no passado do que os sujeitos de cinco anos, corroboram os achados internacionais e nacionais, em que aos quatro anos as crianças ainda estão aprimorando o uso de verbos em suas produções.

Observando os erros apresentados pelos sujeitos do grupo de quatro anos, observamos que a ocorrência de modificação do tempo verbal foi o erro que diferenciou os grupos. Antes de utilizar a flexão de tempo verbal diferenciando uma forma da outra, as crianças utilizam o presente com grande frequência(19).

Os grupos de cinco e seis anos deste estudo não se diferenciaram e ambos apresentaram altos índices de acertos, indicando que desde os cinco anos as crianças já dominam as habilidades de flexão do verbo no passado. Esse resultado confirma o achado apresentado em pesquisa com o PB, em que as crianças com cinco e seis anos mostraram domínio sobre as diversas funções que o verbo pode exercer(16).

Os grupos de sujeitos das diferentes idades diferiram com relação a todas as categorias de acertos - verbo regular e irregular, verbos de primeira, segunda e terceira conjugação. Para todas essas categorias, os sujeitos de quatro anos tiveram menos acertos do que os demais.

O fato de todas as categorias serem diferentes para a faixa etária de quatro anos pode estar apenas refletindo o resultado discutido anteriormente, de que os sujeitos de quatro anos têm o desempenho inferior do que os sujeitos de cinco e seis anos, independentemente do tipo de verbo.

Os verbos de terceira conjugação foram uma exceção entre os resultados apresentados, pois mostraram um padrão atípico, ou seja, sem melhora no desempenho com o aumento da idade. Nessa categoria, os sujeitos de quatro anos tiveram desempenho inferior aos demais grupos, como esperado, porém os sujeitos do grupo de seis anos tiveram desempenho inferior ao desempenho dos de cinco anos.

Os resultados obtidos, com exceção da categoria de verbos de terceira conjugação, mostram que os sujeitos de quatro anos são os que diferem dos demais grupos de idade, por ainda não dominarem a habilidade de flexão de verbos para todos os tipos de verbos.

Para a análise dos dados referentes à substituição de verbos, foram feitos agrupamentos das substituições que são pertinentes sem diminuição da complexidade da flexão, ou seja, as substituições de verbos de mesma categoria (R-R e I-I) e as substituições R-I foram agrupadas. As substituições I-R não entraram nesse agrupamento porque, apesar de a sentença final permanecer correta, a eleição de um verbo regular para substituir um irregular pode ser indicativo de que a criança não dominou a flexão dos verbos irregulares e prefere usar verbos regulares.

Na análise do grupo de substituições pertinentes sem diminuição da complexidade da flexão, não foram encontradas diferenças significativas em função da idade.

A análise das substituições I-R também mostrou que não houve associação estatística significante entre a ocorrência e as idades.

Esses dados rejeitam a hipótese inicialmente formulada para o estudo, que esperava que as substituições I-R seriam mais frequentes na faixa etária de quatro anos e a ocorrência desse tipo de substituição desapareceria entre cinco e seis anos, indicando domínio da habilidade(16). Como aos quatro anos ainda não observamos o domínio no uso de verbos nas produções das crianças, esperávamos que os verbos irregulares apresentassem menor porcentagem de acertos para os sujeitos de quatro anos, por serem verbos cujas regras de flexão seriam adquiridas posteriormente(5,8); assim, na faixa etária de quatro anos, os acertos deveriam ser menores porque existiria maior número de erros por generalização da regra de flexão.

Para a análise dos dados referentes aos erros na flexão dos verbos no passado, foram feitos agrupamentos dos erros MTV, NR, SI e MCG. Os erros de generalização não entraram no grupo porque, apesar de a flexão ser incorreta, mostra que a criança conseguiu formular o princípio geral das regras de flexão de tempo verbal no passado. Não houve diferença entre a quantidade dos erros agrupados em função da idade e também não houve associação entre a idade e os erros de generalização.

O fato de os erros de generalização não terem se diferenciado entre as idades pode ser um indicativo de que mesmo os sujeitos com quatro anos já não estão em idade inicial de aquisição da morfologia no passado, já que, de acordo com pesquisa realizada em falantes do Inglês, os erros de generalização aparecem com grande frequência nas primeiras produções de verbos conjugados no passado(13).

Da mesma forma que para as substituições, esperávamos que os erros de generalização fossem mais marcantes no grupo de sujeitos de 4 anos e, com o avanço da idade, esse tipo de erro desaparecesse.

Embora os erros e as substituições não caracterizem o desempenho do grupo de quatro anos, as análises intragrupo para essa idade indicaram que, para essa faixa etária, os sujeitos acertam mais os verbos regulares do que os verbos irregulares, o que combina com a teoria de evolução gradual da habilidade de flexão de passado, em que a trajetória até o domínio da habilidade vai da primeira flexão até a identificação de um padrão que pode ser aplicado a novas situações(8) e, nesse percurso, os verbos irregulares estariam mais sujeitos aos erros de flexão, uma vez que a flexão de verbos irregulares depende da exposição ao verbo(20) e esses erros funcionam como preditores da etapa do processo de aquisição da flexão verbal(10).

Outro dado extraído da análise realizada com o grupo de quatro anos é que os verbos de primeira conjugação foram os que tiveram a maior quantidade de acertos. A literatura disponível referente a verbos e flexões verbais não nos fornece nenhuma informação sobre as diferentes conjugações verbais no processo de aquisição de flexão verbal ou sobre frequência das diferentes conjugações para o PB ou outra língua.

Assim, se o estudo for realizado com crianças de três anos, poderia fornecer informações interessantes, uma vez que verificamos com este estudo que as crianças de quatro anos ainda não dominaram a habilidade de flexionar verbos no passado, mas os erros e substituições que seriam indicativos do processo de aquisição de tal habilidade não são significantes para possibilitar o estudo do processo de aquisição da flexão de verbos por meio dos erros. Possivelmente, em crianças com idade inferior a quatro anos, a presença desses erros forneceria informações importantes para o estudo da flexão do verbo no passado.

Outro aspecto a ser destacado refere-se à contribuição de nossos achados para o diagnóstico em linguagem, principalmente em crianças pequenas, uma vez que os parâmetros aqui apresentados podem subsidiar o diagnóstico e a precisão da reabilitação em mais essa habilidade, preenchendo possíveis lacunas do processo de avaliação de linguagem.

Obviamente, como a intenção do presente estudo não foi a de estabelecer parâmetros de desenvolvimento, mas sim analisar o desempenho das crianças em DNL, falantes do PB, na habilidade linguística de flexão do tempo verbal no passado, e reunir dados de referência para a normalidade na habilidade sem a pretensão de criar ou elaborar um teste, não adotamos critérios psicométricos; entretanto, nossos achados podem servir como base para estudo futuro que vise à construção e validação de uma prova normalizada.

CONCLUSÃO

O objetivo do presente estudo foi analisar o desempenho das crianças em DNL, falantes do PB, em flexão do tempo verbal no passado. Verificamos que os sujeitos de quatro anos tiveram desempenho inferior aos sujeitos de cinco e seis anos, pois ainda estão aprimorando o uso de verbos em suas produções. Aos quatro anos, os sujeitos apresentaram erros de modificação do tempo verbal e acertaram mais os verbos regulares do que os verbos irregulares e mais verbos de primeira conjugação. Aos 5 e 6 anos, os sujeitos não mostraram diferença no desempenho e apresentaram altos índices de acertos, indicando que, a partir dos cinco anos, as crianças já dominam as habilidades de flexão do verbo no passado.

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