Desenvolvimento da linguagem e sua relação com comportamento social, ambientes familiar e escolar: revisão sistemática

Desenvolvimento da linguagem e sua relação com comportamento social, ambientes familiar e escolar: revisão sistemática

Autores:

Amanda de Jesus Alvarenga Carvalho,
Stela Maris Aguiar Lemos,
Lúcia Maria Horta de Figueiredo Goulart

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.28 no.4 São Paulo jul./ago. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20162015193

INTRODUÇÃO

Os primeiros anos de vida da criança são considerados os mais importantes para o desenvolvimento das habilidades de linguagem. Esse ocorre por etapas e está relacionado aos contextos linguístico e situacional. O adulto tem papel preponderante, pois fornece instrumentos para o desenvolvimento da comunicação(1).

No desenvolvimento da linguagem, há diferenças individuais, tanto no processo de aquisição quanto na velocidade e qualidade. Assim, esse desenvolvimento é complexo e depende de uma série de fatores, que compreendem desde maturação neuropsicológica, afetividade, desenvolvimento cognitivo, até contextos nos quais a criança está inserida(1,2).

A família é o primeiro contexto na vida da criança e exerce papel fundamental em todos os níveis do desenvolvimento infantil. Para que a criança possa desenvolver suas potencialidades, ela necessita de um ambiente facilitador.

No contexto da sociedade contemporânea, com a facilidade de acesso à informação e as mulheres cada vez mais envolvidas no mundo do trabalho, as crianças são inseridas em instituições de educação infantil cada vez mais cedo.

Na legislação brasileira, a educação infantil tem recebido maior atenção nas últimas décadas, como pode ser constatado na Constituição Federal de 1988(3); no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA(4); e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, publicada em 1996, em que a educação infantil foi colocada como a primeira etapa da educação básica(5). Desta maneira, averiguar a qualidade do ambiente escolar na educação infantil é de fundamental importância e pode auxiliar na compreensão das suas relações com o desenvolvimento da linguagem. Esse tema passou inclusive a despertar o interesse de alguns pesquisadores(6-8).

Além dos fatores ambientais, outro ponto que merece destaque no estudo do desenvolvimento da linguagem são os aspectos comportamentais/emocionais.

Na literatura, estudos destacam que desordens na comunicação e prejuízos de ordem emocional e comportamental podem atuar em conjunto no decorrer do desenvolvimento infantil(9-11). Avaliar aspectos do comportamento da criança é de suma importância no estabelecimento do diagnóstico de distúrbio da linguagem(12). Assim, as dificuldades de relacionamento, hiperatividade, problemas emocionais e de conduta podem interferir no desenvolvimento infantil e, consequentemente, da linguagem.

Visto que o desenvolvimento de linguagem pode ser influenciado por diversos fatores, como os ambientes familiar, escolar e comportamento social, torna-se relevante a análise do conhecimento produzido sobre essa temática.

OBJETIVO

O presente estudo tem o objetivo de revisar sistematicamente na literatura as relações entre desenvolvimento da linguagem, comportamento social e ambientes familiar e escolar em crianças de 4 a 6 anos de idade.

ESTRATÉGIA DE PESQUISA

Trata-se de revisão sistemática de literatura sobre as relações entre desenvolvimento da linguagem, comportamento social e ambientes familiar e escolar. O delineamento do trabalho pautou-se em recomendações nacionais(13) e internacionais(14) para elaboração de revisões sistemáticas. A primeira etapa deste estudo foi a elaboração da seguinte pergunta norteadora: Qual a relação entre o comportamento social e os ambientes familiar e escolar e o desenvolvimento da linguagem em crianças de 4 a 6 anos de idade?

Para a seleção dos estudos, foi realizado levantamento bibliográfico de textos publicados no período de março de 2009 a março de 2014 em bases de dados eletrônicos pelo Portal de Pesquisa da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e pelo Portal da PubMed.

Com base na pergunta norteadora, foram definidos descritores por grupos de eixos temáticos, resultando em quatro conjuntos de busca. Foram criados os seguintes eixos temáticos: desenvolvimento da linguagem, educação infantil, relações familiares e comportamento social.

O primeiro conjunto de descritores – linguagem Infantil, linguagem, desenvolvimento da linguagem, estudos de linguagem, patologia da fala e linguagem e fonoaudiologia – foi selecionado para a organização do eixo temático do desenvolvimento da linguagem. O segundo conjunto – educação infantil, creches, pré-escolar –, para constituição do eixo temático da educação infantil. O terceiro conjunto – relações familiares, relações pais-filho –, para o eixo temático das relações familiares. O quarto conjunto – comportamento social –, para o eixo temático do comportamento social. Todos os descritores foram utilizados em português e seus correlatos em espanhol e inglês.

A primeira estratégia de busca foi a combinação do primeiro ou segundo conjunto de descritores e o terceiro ou o quarto conjunto.

A segunda estratégia de busca foi a combinação do primeiro conjunto de descritores e o segundo ou terceiro conjunto. Nesta estratégia, optou-se por retirar comportamento social, já que, quando esse conjunto de descritor foi utilizado, foram encontrados artigos já identificados anteriormente.

Cabe ressaltar que todo o processo de elaboração dos descritores e de estratégias de busca em bases de dados eletrônicos foi acompanhado por uma bibliotecária da instituição.

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO

Foram utilizados como critérios de inclusão para as duas estratégias de busca: ser artigo científico completo e disponível na íntegra gratuitamente; ser artigo de pesquisa original ou de revisão de literatura; ter sido publicado nos últimos cinco anos; e compreender a faixa etária entre 4 e 6 anos de idade.

Foram excluídas as produções com menor nível de evidência(15,16), ou seja, artigos de opiniões de especialistas, cartas ao editor e relatos de casos, bem como artigos que, após a leitura completa do texto, não responderam à pergunta norteadora.

ANÁLISE DOS DADOS

O processo de análise dos artigos foi realizado em três etapas. Na primeira, ocorreu leitura dos títulos e resumos e seleção segundo critérios de inclusão. Na segunda, houve leitura dos artigos na íntegra na busca de resposta para a pergunta norteadora e seleção final. Já na terceira etapa, foi realizada análise crítica dos artigos selecionados.

Duas fonoaudiólogas envolvidas neste trabalho foram as revisoras da avaliação para a inclusão dos estudos; as divergências foram resolvidas por consenso entre as pesquisadoras.

Para facilitar a análise, os artigos foram classificados por eixos temáticos, de acordo com seu conteúdo. Assim, foram encontrados artigos que abordavam os seguintes eixos temáticos:

  • Linguagem e ambiente familiar;

  • Linguagem e ambientes familiar e escolar;

  • Linguagem e ambientes familiar, escolar e comportamento social;

  • Linguagem e ambiente familiar e comportamento social.

Foi elaborada uma nuvem de texto com base em resumos e conclusões dos artigos na revisão. Cabe ressaltar que essa é uma forma de visualização de dados linguísticos que mostra a frequência com que as palavras aparecem em um determinado texto. As palavras apresentam tamanhos variados diretamente proporcionais ao número de vezes que aparecem, criando assim uma lista hierarquizada segundo o número de ocorrências da palavra no texto(17).

RESULTADOS

Resultados nas bases eletrônicas de dados

Como resultado da busca, na primeira estratégia, foram identificados 126 artigos pelo Portal da BVS e 1479 artigos pelo Portal da PubMed.

Na primeira matriz de evidência, que consistiu na leitura de títulos e resumos, foram incluídos dois artigos pelo Portal da BVS e dez artigos pelo Portal da PubMed. Já na segunda matriz de evidência, após leitura de texto completo, houve exclusão de dois artigos, permanecendo os dez, anteriormente selecionados, que atendiam aos critérios de inclusão e foram considerados importantes para o objetivo deste estudo.

Na segunda estratégia, a pesquisa realizada obteve 74 artigos pelo Portal da BVS e 110 artigos pelo Portal da PubMed, sendo incluídos, após leitura de títulos e resumos, seis artigos pelo primeiro portal de base de dados citado e oito artigos pelo segundo portal. Na segunda matriz de evidência, ocorreu a exclusão de dez artigos, permanecendo quatro, que atendiam ao objeto de pesquisa. As exclusões estavam relacionadas ao fato de serem artigos repetidos ao da primeira estratégia.

Assim, a seleção final identificou 14 artigos para serem analisados. O fluxograma mostrado na Figura 1 apresenta o processo de seleção dos estudos.

Figura 1 Fluxograma do processo de seleção dos estudos 

Análise dos estudos selecionados

Entre os 14 artigos, seis pesquisas foram realizadas no Brasil; sete, nos Estados Unidos; e uma, na Austrália.

A maioria dos estudos teve como objetivo estudar a relação entre ambiente familiar e desenvolvimento da linguagem. Quando aspectos do ambiente escolar e do comportamento foram levados em consideração, poucos estudos foram encontrados. Algumas pesquisas foram realizadas no espaço físico da educação infantil, outras trataram da importância de habilidades da linguagem para a prontidão escolar. Mas apenas um estudo considerou a qualidade do ambiente escolar e sua relação com a linguagem das crianças(18). O mesmo ocorreu com aspectos do comportamento. Apenas uma pesquisa teve como objetivo principal verificar as relações entre comportamento infantil e desenvolvimento da linguagem(19).

A maior parte das pesquisas apresentou pelo menos o uso de um instrumento padronizado, o que reforça a validade dos estudos analisados. Para avaliação da linguagem, os principais instrumentos padronizados utilizados nas pesquisas foram: Teste de Vocabulário por Imagens Peabody (TVIP), Preschool Language Scale, Fourth Edition (PLS-4), Avaliação Fonológica da Criança (AFC).

Dentre os estudos encontrados, observou-se apenas um com abordagem qualitativa(20). Quanto ao tipo de estudo, houve predomínio de publicações com maior nível de evidência, sendo um ensaio clínico randomizado(18) e sete estudos longitudinais(19,21-26). Os demais referem-se a três estudos transversais(27-29) e duas revisões de literatura, sendo uma narrativa(30) e outra integrativa(31).

Em relação à casuística dos estudos, a menor foi de 12 crianças do estudo de abordagem qualitativa(20), e a maior, de 1623 crianças e refere-se a um estudo coorte(19).

A síntese dos artigos é apresentada em duas tabelas de acordo com o seu delineamento. A primeira tabela apresenta artigos longitudinais e a segunda tabela, síntese de estudos com outros tipos de delineamento, exceto estudos de revisão sistemática, que serão descritos à parte.

Os estudos apresentados na Tabela 1, pelo fato de serem longitudinais, possibilitaram a avaliação a partir da observação da interação das crianças com a família ou cuidador principal ao longo de um período de tempo.

Tabela 1 Estudos longitudinais incluídos 

Estudos Local Amostra Instrumentos Resultados
Cartmill et al.(22) Estados Unidos 50 díades pais-filhos. Crianças entre 14 e 58 meses com desenvolvimento típico de linguagem. Observação da interação pais-filhos a cada quatro meses dos 14 aos 58 meses. Qualidade da interação: grande variação quanto às pistas contextuais oferecidas às crianças pelos pais.
27 meninos, 23 meninas. Teste de Vocabulário por Imagens Peabody aos 54 meses. O acompanhamento das crianças revelou relação entre a qualidade da interação e a aquisição de competências linguísticas nas crianças aos 54 meses.
Rowe et al.(23) Estados Unidos 62 díades criança e cuidador principal na faixa etária de 14 a 46 meses. Observação criança no ambiente doméstico quadrimestralmente dos 14 aos 46 meses para avaliação da ampliação do vocabulário. O nível socioeconômico demonstrou ser um preditor positivo de ampliação do vocabulário.
Avaliação do vocabulário receptivo aos 54 meses. A avaliação do vocabulário aos 30 meses demonstrou ser um preditor de desenvolvimento lexical.
Não houve associação entre gênero e velocidade de ampliação do vocabulário.
Bornstein e Putnick(24) Estados Unidos 192 crianças na faixa etária de 20 a 48 meses: 87 meninas e 105 meninos. Observação da criança em fala espontânea na interação com a mãe.
Relato materno: The Vineland Adaptive Behavior Scales e Early Language Inventory. Nas idades de 20 a 48 meses, houve grande variação individual no desenvolvimento da linguagem.
Avaliação da linguagem: Escalas de Compreensão de Linguagem Expressiva e Wechsler Preschool. A estabilidade do desenvolvimento da linguagem manteve-se entre as testagens independentes dos aspectos socioeconômicos, história clínica, inteligência materna e gênero.
Whitehouse et al.(19) Austrália 1623 crianças distribuídas em dois grupos: com atraso da linguagem expressiva até os 2 anos (n=142) e desenvolvimento típico de linguagem (n=1245). Language Development Survey Atraso no vocabulário expressivo aos 2 anos de idade demonstrou ter baixa eficiência preditiva de distúrbios comportamentais e emocionais.
The Child Behavior Checklist
Pruden et al.(25) Estados Unidos
52 díades pais-filhos. Crianças entre 14 e 46 meses com desenvolvimento típico de linguagem.
26 meninos e 26 meninas.
Tarefa de transformação espacial. Subteste de cubos da Escala Primária de Inteligência. Diferenças com significância estatística entre os sexos na tarefa de transformação espacial.
Teste de Analogias espaciais. Teste de Vocabulário por Imagens Peabody. Correlação positiva entre as tarefas espaciais: a criança que teve bom desempenho nas tarefas teve tendência a realizar bem as demais.
Observação da interação da díade em rotinas diárias. Correlação positiva entre o uso de palavras com significado espacial pelos pais e pelas crianças.
Razza et al.(21) Estados Unidos 1046 crianças entre 3 e 5 anos de idade. Avaliação do ambiente familiar: protocolo HOME e nível socioeconômico. Associações com significância estatística entre atenção sustentada, vocabulário receptivo e os aspectos ambientais (nível socioeconômico e ambiente familiar).
Avaliação da saúde mental materna.
Avaliação da criança: Crianças com maior pontuação na avaliação do ambiente familiar tiveram melhor desempenho no vocabulário receptivo.
Escala de atenção sustentada, Teste de Vocabulário por Imagens Peabody e prontidão escolar.
Zimmerman et al.(26) Estados Unidos 275 famílias e suas crianças de 2 a 48 meses (etapa 1). Gravação de períodos de 12 horas das emissões das crianças em situações rotineiras 1 dia por mês durante 6 meses na amostra da etapa 1 e 18 meses na amostra da etapa 2. As crianças ouviram por dia em média 13.000 palavras ditas por adultos e participaram de 400 turnos de conversação.
71 famílias e suas crianças ao longo de 18 meses (etapa 2). Análise dos trechos nos momentos de interação adulto-criança e de exposição à televisão. Houve correlação positiva entre emissão do adulto e a emissão da criança. Cada aumento de 1.000 palavras na emissão do adulto mostrou incremento de 0,44 no escore de linguagem da criança.
Preschool Language Scale, Fourth Edition (PLS-4)

Na Tabela 2, são apresentados cinco estudos sendo que um é ensaio clínico(18); três, transversais(27-29); e um, qualitativo descritivo(20).

Tabela 2 Estudos com delineamento ensaio clínico e transversal incluídos 

Estudos Local Delineamento Amostra Procedimentos Resultados
Murta et al.(28) Brasil Transversal 48 crianças de 1 mês a 6 anos de idade, sendo 8 crianças para cada uma das seguintes faixas etárias: Inventário Portage. Avaliação nutricional com medidas antropométricas Questionário socioeconômico. Houve associação com significância estatística entre desenvolvimento de linguagem e cognição.
de 0-1 ano, 1-2 anos, 2-3 anos, 3-4 anos, 4-5 anos e 5-6 anos. Não houve associação com significância entre desenvolvimento de linguagem e as variáveis: ambiente familiar, socialização e ambiente escolar.
Pagliarin et al.(27) Brasil Transversal 152 crianças com desvio fonológico na faixa etária de 4 a 8 anos. Entrevista com roteiro estruturado sobre fatores familiares com pais ou responsáveis. Não houve associação entre grau do desvio fonológico e os aspectos familiares estudados (gravidez não planejada; história parental de dependência de álcool ou drogas; distúrbios de fala, linguagem ou audição apresentados por pais ou familiares de primeiro grau.
Avaliação Fonológica da Criança (AFC).
Narração e conversa espontânea, utilizando uma sequência lógica de cinco fatos sobre o tema “aniversário”.
Sheridan et al.(18) Estados Unidos Ensaio Clínico 217 crianças na faixa etária de 35 a 52. Meses (116 grupo de intervenção e 101 grupo controle). Grupo de intervenção: Protocolo de estratégias de intervenção e vistas domiciliares. Houve mudanças do desempenho do grupo de intervenção no uso da linguagem oral, na leitura e nas habilidades de escrita.
Professores:
211 pais (111 grupo de intervenção e 100 grupo controle). Grupo de intervenção: treinamento para aplicação da intervenção.
Grupo controle: treinamento em desenvolvimento infantil. Foram evidenciados efeitos positivos da intervenção na linguagem expressiva das crianças com risco de desenvolvimento.
29 professores (13 grupo de intervenção e 16 grupo controle). Avaliação dos grupos:
The Teacher Rating of Oral Language and Literacy - professores.
Preschool Language Scale – Fourth Edition – crianças.
Oliveira et al.(20) Brasil Qualitativo Descritivo 12 crianças de 5 a 6 anos de idade (sendo 6 selecionadas para alvo de análise e 6 como pares de interação).
6 mães
6 professores
Entrevista com roteiro semiestruturado com as mães.
Questionário aplicado aos professores.
Observação da comunicação das crianças no ambiente escolar e domiciliar.
As funções comunicativas apresentaram maior variedade no ambiente domiciliar em comparação ao ambiente escolar.
Araújo et al.(29) Brasil Transversal 159 escolares de 4 a 7 anos. Teste de Vocabulário por Imagens Peabody. Sessenta e um por cento das crianças de 4 a 5 anos tiveram desempenho inferior ao esperado para a idade. Não houve diferenças com significância estatística entre os gêneros (p=0,94).
Não houve significância estatística na análise da associação entre desempenho no teste das variáveis: escolaridade da mãe (p=0,42); a mãe trabalhar fora de casa (p=0,99).

No eixo temático linguagem e ambiente familiar, verificou-se que três artigos demonstraram associação entre desenvolvimento da linguagem e estimulação da linguagem das crianças realizada pelos pais e as interações entre pais e filhos(22,25,26). Nota-se que estimulação da linguagem, nesses estudos, é caracterizada pelo uso da linguagem espacial dos pais, definida por palavras e termos com informações e aspectos espaciais; pela quantidade de palavras utilizadas por eles e a qualidade desse estímulo; e pela qualidade dos diálogos/conversas entre pais e filhos.

Aquisição do vocabulário entre 14 e 58 meses, nível socioeconômico e interação pais e filhos foi tema em um dos artigos. O estudo demonstrou a influência positiva da qualidade (e não da quantidade) do estímulo gerado na interação pais e filhos na aquisição do vocabulário. O estudo ainda aponta que famílias com maior nível socioeconômico oferecem maior quantidade (não necessariamente qualidade) de input linguístico às suas crianças. A qualidade da interação não esteve associada com o nível socioeconômico(22).

Nesse eixo temático, três artigos evidenciaram a relação entre ambiente familiar e desenvolvimento da linguagem, com ênfase no subsistema semântico/lexical da linguagem(22,25,26). Fica evidenciada a importância do diálogo entre adulto e criança. Não basta apenas leitura, contação de histórias, sentar ao lado da criança para assistir televisão. É necessário qualidade na interação para aquisição de competências linguísticas e, consequentemente, adequado desenvolvimento da linguagem.

No eixo linguagem e ambientes familiar e escolar foram encontrados cinco estudos(18,20,23,29,31).

O ensaio clínico randomizado realizado nos Estados Unidos(18) comprova a eficácia da intervenção dos professores com os pais das crianças para a promoção da qualidade das interações e experiências entre pais e filhos e consequente prontidão, quanto à linguagem oral, leitura e escrita. Essas intervenções consistiram em visitas dos professores ao domicílio das crianças. Os professores eram preparados em grupos, por uma equipe de apoio. Esses profissionais apoiaram e potencializaram, em rotinas diárias, a qualidade das interações entre pais e filhos e experiências de aprendizagem. O objetivo foi criar responsabilidade compartilhada entre pais e professores a fim de favorecer a prontidão escolar das crianças, referindo-se à linguagem oral, leitura e escrita. Além disso, o estudo demonstra que o maior nível de escolaridade dos pais, maior número de pessoas que coabitam com a criança, e menor número de problemas de saúde dos pais favorecem o desenvolvimento da linguagem. Assim, os resultados da pesquisa fornecem indícios de que a interação entre os ambientes escolar e familiar pode potencializar o desenvolvimento da linguagem(18).

Duas pesquisas(23,29) enfatizam o desenvolvimento lexical das crianças, quanto ao vocabulário receptivo. A primeira(23) revela associação entre condições socioeconômicas e investimento parental com a ampliação do vocabulário infantil. Verifica-se que o aumento precoce da velocidade dessa ampliação do vocabulário durante 30 meses, aproximadamente, prevê habilidade de vocabulário em idades posteriores, aos 54 meses. A segunda pesquisa(29) não demonstra significância estatística na análise da associação entre desenvolvimento do vocabulário receptivo e as variáveis: gênero, escolaridade da mãe; trabalho materno fora do lar. Neste estudo, 61% das crianças apresentaram desempenho inferior ao esperado para a idade quanto ao vocabulário receptivo, principalmente as crianças de maior idade.

A pesquisa qualitativa(20) teve o objetivo de caracterizar os comportamentos comunicativos emitidos por crianças que ingressaram na Educação Infantil após os cinco anos de idade. A observação desses comportamentos ocorreu tanto em ambiente escolar, como domiciliar. Para sua análise, optou-se por utilizar um protocolo com categorização dos meios e funções comunicativas. Assim, foram considerados os meios de comunicação verbal ou gestual e os níveis de diálogo, subdivididos em: inicia, mantém ou prolonga o diálogo. Já para análise das funções comunicativas foram especificadas as seguintes categorias: respostas, solicitações, confirmações, vocativos, comentários e reconhecimentos. Esse estudo revelou indícios de que as crianças que ingressaram na Educação Infantil após os cinco anos de idade respondem mais do que iniciam a conversação e se beneficiam de contextos planejados com interlocutores familiares. Não foi possível generalizar os resultados por se tratar de uma amostra pequena e conclui-se que as funções comunicativas apresentaram maior variedade no ambiente domiciliar(20).

Ainda no eixo temático linguagem e ambientes familiar e escolar, três estudos encontrados referem-se à importância das habilidades de linguagem para a prontidão escolar(18,23,29). Apenas um estudo evidenciou associação entre ambiente escolar e o desenvolvimento da linguagem(18) .

No eixo linguagem e ambientes familiar, escolar e comportamento foram selecionados três estudos(21,24,28).

A pesquisa realizada com 1046 crianças e seus familiares(21) demonstrou associações com significância estatística entre atenção sustentada, vocabulário receptivo e os aspectos ambientais. Nesse estudo, observou-se que a atenção sustentada em determinada atividade está associada ao melhor desempenho no vocabulário receptivo em ambos os grupos de baixo nível socioeconômico (baixa renda e muito baixa renda). No grupo de baixa renda, inadequação das tarefas envolvendo atenção sustentada e o aumento da impulsividade, relacionado ao fato de as crianças não conseguirem ficar paradas durante o teste, foi associado com o baixo desempenho no vocabulário receptivo e o aumento do comportamento de externalização.

Vale destacar que em dois estudos(24,28) não foi observada associação com significância estatística entre comportamento e desenvolvimento da linguagem. Em um desses artigos(18), é evidenciado que a estabilidade do desenvolvimento da linguagem manteve-se entre as testagens, independentemente dos aspectos socioeconômicos, história clínica, inteligência materna e gênero. No outro estudo(28), foi utilizado o Inventário Portage para avaliação de áreas do desenvolvimento infantil, tais como cognitivo, motor, autocuidados, linguagem e socialização. Contudo, não foi constatado associação entre linguagem e comportamento e sim, entre linguagem, aspectos cognitivos e o estado nutricional.

No eixo desenvolvimento da linguagem, ambiente familiar e comportamento, os dois estudos encontrados(19,27) não evidenciaram associação entre ambiente familiar, comportamento e desenvolvimento da linguagem. Vale destacar que as pesquisas não abordam todos os subsistemas da linguagem e envolvem populações distintas.

Ainda nesse eixo, um dos estudos(19) foi realizado em 1623 crianças, distribuídas em dois grupos: com atraso de linguagem expressiva até 2 anos e desenvolvimento típico de linguagem, acompanhadas até os 17 anos de idade. A pesquisa evidencia que o atraso no vocabulário expressivo, até os 2 anos de idade, não é um fator de risco para posteriores distúrbios comportamentais e emocionais. Vale ressaltar que, nessa pesquisa, o comportamento foi avaliado por meio do Child Behavior Checklist, nas seguintes idades: 5, 8, 10, 14 e 17 anos(19).

O estudo(27) realizado com 152 crianças na faixa etária escolar de 4 a 8 anos de idade teve como foco apenas o subsistema fonológico e semântico lexical. Nesse estudo, o aspecto comportamental referiu-se a distúrbios psicológicos apresentados pelos pais. Desta maneira, houve associação entre a presença de problemas emocionais dos pais com o desvio fonológico leve da criança. Não houve associação entre o grau do desvio fonológico e outros fatores familiares como: gravidez não planejada; dependência (de um dos pais e/ou ambos) de álcool e/ou drogas; distúrbios de fala, linguagem e/ou audição apresentados por pais e/ou familiares de primeiro grau; pais separados; pai ausente; e perda de parentes próximos.

Todavia outros trabalhos(32-34) evidenciam que fatores do ambiente familiar, como presença de alterações de fala e linguagem em familiar, nível socioeconômico e nível de escolaridade dos pais, estão associados à presença de desvios fonológicos.

Foram encontrados dois artigos de revisão sistemática de literatura. Na revisão de literatura narrativa, a maioria das publicações refere-se à área da linguagem, sendo que as três subtemáticas predominantes foram: importância do trabalho com a família para a terapia fonoaudiológica; influência das relações familiares nos sintomas; envolvimento familiar em reabilitação. Os estudos apresentam maior ênfase na patologia, deixando de lado a investigação dos processos de constituição da linguagem(30). No artigo de revisão integrativa de literatura, foram apresentados estudos que apontam a relevância da escolaridade dos pais e estimulação no âmbito familiar para o desenvolvimento da linguagem(31).

A Figura 2 apresenta a nuvem texto gerada com base nos resumos e conclusões dos artigos na revisão.

Figura 2 Nuvem de textos gerada com base nos resumos e conclusões dos artigos utilizados na revisão de literatura 

A nuvem de texto apresenta uma visão sintética a partir dos resumos e principais conclusões dos 14 artigos incluídos na presente revisão sistemática de literatura. Desta maneira, observou-se que as palavras que apareceram com maior frequência foram: crianças, linguagem, desenvolvimento, pais, vocabulário, familiares e escolar. Tais achados permitem refletir que as estratégias de busca utilizadas para seleção dos artigos foram adequadas e coerentes com os resultados encontrados.

CONCLUSÃO

Houve grande variação dos resultados encontrados no estudo. Parte das pesquisas revelou associação entre desenvolvimento da linguagem e os ambientes familiar e escolar. Em relação ao ambiente familiar, os aspectos que apresentaram relação com o desenvolvimento da linguagem foram: qualidade do estímulo parental, nível socioeconômico, escolaridade parental, número de pessoas que coabitam com a criança e problemas de saúde dos pais. Nota-se ainda que a capacitação de educadores para orientação aos pais, em relação à interação com os filhos mostrou-se eficaz na promoção do desenvolvimento da linguagem infantil.

Associação entre comportamento social e desenvolvimento da linguagem foi estudada em apenas uma pesquisa, não sendo demonstrada significância estatística.

Esta revisão de literatura permitiu observar escassez de estudos quando considerada a relação entre desenvolvimento da linguagem e os ambientes familiar, escolar e o comportamento social. Este estudo aponta para a necessidade de novas pesquisas nessa área, o que poderia auxiliar futuras intervenções tanto em nível de promoção e prevenção dos aspectos relacionados à linguagem quanto à elaboração de políticas públicas com foco na saúde e educação infantil.

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