Desigualdade no perfil dos idosos institucionalizados na cidade de Natal, Brasil

Desigualdade no perfil dos idosos institucionalizados na cidade de Natal, Brasil

Autores:

Natália Cristina Garcia Pinheiro,
Vinicius Carlos Duarte Holanda,
Laércio Almeida de Melo,
Annie Karoline Bezerra de Medeiros,
Kenio Costa de Lima

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.21 no.11 Rio de Janeiro nov. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320152111.19472015

Introdução

O envelhecimento populacional é um dos maiores desafios da Saúde Pública contemporânea. Países em desenvolvimento têm mostrado proporções invertidas nas pirâmides etárias, corroborando o aumento significativo dos idosos na população1. Paralelamente ao aumento da população idosa e da expectativa de vida, uma maior demanda de idosos sem abrigo tem sido observada e, como consequência, a demanda por instituições coletivas voltadas para o atendimento da população acima de 60 anos cresce proporcionalmente2.

Em decorrência disso, há uma crescente criação de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), um tipo especial de instituição de natureza sociossanitária, podendo ser com ou sem fins lucrativos. A institucionalização do idoso nesses locais tem sido associada aos serviços oferecidos, além de dificuldades econômicas e psicossociais das famílias para o cuidado, sobretudo pela vulnerabilidade e redução da capacidade funcional das pessoas nesse momento da vida3.

Os profissionais das ILPIs, portanto, precisam saber lidar diretamente com a situação do idoso com redução da sua capacidade funcional, a fim de tentar preservar a sua qualidade de vida. Para isso, há uma necessidade de se identificar as desigualdades no perfil dos idosos residentes em ILPIs com e sem fins lucrativos, com o intuito de auxiliar a implementação de programas de assistência a essa população, a qual com o aumento da longevidade, perdas de independência e autonomia, além do aumento de doenças crônicas, tornam-se cada vez mais frequentes4.

Assim, podemos afirmar que as instituições para idosos são de natureza híbrida: sociossanitárias, e, portanto, demandam políticas que abranjam essas duas esferas, fazendo-se necessária a criação de políticas próprias capazes de regulamentar sua atuação5.

No caso do município de Natal, em 2 de Outubro de 2008 houve a aprovação da regulamentação das ILPIs, quando foram estabelecidos requisitos referentes às condições e aspectos legais, físico-estruturais, operacionais, higiênico-sanitários e ocupacionais para o melhor funcionamento dessas instituições. De acordo com esse decreto, ao manter os idosos em abrigos, deve ser estabelecida e conservada a qualidade de vida da pessoa idosa6.

É sabido que todas as instituições deveriam fornecer condições favoráveis em todos os aspectos para o idoso, porém por dificuldades econômicas isso nem sempre se confirma. Assim, a situação social desses idosos se caracteriza por um quadro de desigualdade que se prolonga ao longo da vida até a velhice. A partir disso, objetivou-se, no presente trabalho, verificar as diferenças existentes no perfil dos indivíduos institucionalizados em instituições de longa permanência para idosos (ILPI)s com e sem fins lucrativos na cidade do Natal-RN.

Métodos

Trata-se de um estudo transversal, tendo o idoso residente em ILPI com e sem fins lucrativos como unidade de observação e análise. O presente estudo foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sendo aprovado.

A amostra foi composta por idosos de ambos os gêneros, com idade igual ou superior a 60 anos, residentes em ILPI na cidade do Natal/RN, cadastradas como tal na vigilância sanitária (VISA) do município. Foram visitadas doze instituições de longa permanência, seis delas eram sem fins lucrativos, que totalizavam 260 idosos e as outras seis possuíam fins lucrativos, nas quais residiam 127 idosos. O referido estudo foi desenvolvido em um período entre junho de 2012 e novembro de 2013.

O instrumento utilizado para a coleta dos dados foi um questionário baseado no Projeto de Saúde, Bem-estar e Envelhecimento (SABE)7 e no estudo de Héredia8 realizado em Caxias do Sul. O questionário foi respondido pelos próprios idosos, quando estes possuíam capacidade cognitiva para realizar esta tarefa. Caso contrário, era respondido pelos cuidadores responsáveis, ou, ainda, complementado com informações fornecidas pela própria instituição. As entrevistas para a obtenção dos dados foram conduzidas por examinadores previamente treinados e calibrados para desenvolverem tal função.

A caracterização do perfil dos idosos, a fim de se identificar desigualdades, se deu a partir da idade, sexo, cor/raça, estado civil, existência de filhos, procedência, religião, motivo da institucionalização, escolaridade, aposentadoria, administração do próprio dinheiro, do fato dos idosos comprarem algo ou não fora da instituição com seu próprio dinheiro, destes terem ou não plano de saúde, além de receberem ou não visitas.

A análise dos resultados dos questionários foi realizada utilizando o programa estatístico Statistical Package for the Social Science (SPSS) 20.0. Ademais, com objetivo de investigar a associação entre as variáveis que compõem o perfil dos idosos e o tipo de instituição, foram feitos os testes estatísticos Qui-quadrado/Exato de Fisher ou t de Student para amostras independentes, com um nível de confiança de 95%.

Resultados

Foram avaliados 387 indivíduos, com idade média de 81,81 (± 9,04) anos, dos quais a maioria, 260 (67,2%), residiam em uma das 6 instituições sem fins lucrativos e os outros 127 (32,8%) em 6 com fins lucrativos. A maior participação entre os idosos no estudo foi de mulheres. Ademais, os idosos institucionalizados do presente estudo são caracterizados, em sua grande maioria, por serem de raça/cor branca, solteiros, analfabetos, sem plano de saúde, aposentados, e que não administram seu próprio dinheiro.

Na Tabela 1 é mostrada a distribuição dos idosos em relação ao tipo de instituição em que reside, e nela podem ser evidenciadas importantes diferenças. Na análise dos dados, é possível identificar que os idosos que residem em instituições sem fins lucrativos, em geral, apresentam piores condições socioeconômicas. Tal fato é verificado a partir do momento em que aqueles idosos analfabetos, solteiros, não aposentados, sem plano de saúde, sem filhos, e que não recebem visitas, estavam associados às ILPIs sem fins lucrativos.

Tabela 1 Distribuição absoluta e percentual das variáveis independentes relacionadas ao pertencimento às ILPI com e sem fins lucrativos. Natal-RN, Brasil, 2013. 

A variável cor/raça também apresentou uma associação significativa com o tipo de instituição, em relação aos negros e pardos. Nas ILPIs sem fins lucrativos existem 25% menos brancos em relação aos negros e 16% em relação aos pardos. Além disso, para a variável “filhos”, 27% a mais daqueles idosos que residiam em ILPIs sem fins lucrativos não possuem filhos.

No tocante à variável “compra algo fora da instituição com o próprio dinheiro”, apesar dos idosos residentes em ILPIs sem fins lucrativos possuírem piores condições socioeconômicas, possuem maior liberdade para comprar algo fora da instituição.

Ao analisar os motivos que levaram os idosos a serem institucionalizados em ambas as instituições, a maioria deles foi institucionalizada pelo fato de não possuírem cuidador. No entanto, é possível observar que os conflitos familiares, o abandono e o fato de não possuir lugar para morar estiveram associados à institucionalização dos idosos em ILPIs sem fins lucrativos. Apenas a condição “estar doente” prevaleceu como motivo principal de institucionalização em ILPIs com fins lucrativos, cuja associação foi significativa (Tabela 2).

Tabela 2 Distribuição dos idosos a partir dos motivos da institucionalização e suas associações ao pertencimento às ILPI com e sem fins lucrativos. Natal-RN, Brasil, 2013. 

Discussão

O presente estudo verificou as desigualdades no perfil dos idosos residentes em instituições de longa permanência com e sem fins lucrativos na cidade do Natal-RN. A predominância do sexo feminino em relação ao sexo masculino nas instituições avaliadas corrobora a maioria da literatura revisada9-12. Este predomínio, em geral, pode ser explicado pelo fato da população mundial e nacional feminina ser maior do que a masculina, devido a uma maior proteção cardiovascular resultantes dos hormônios femininos, menor adesão ao consumo de álcool e tabaco e maior frequência em consultas médicas13. Além disso, as mulheres experimentam uma maior probabilidade de ficarem viúvas mais cedo e vivenciarem situações econômicas desfavoráveis, o que pode predispor à institucionalização12,14.

O fato de o idoso ser solteiro, ter poucos filhos e possuir um grau de escolaridade baixo ou nulo, muitas vezes são descritas como fatores de risco para institucionalização4. No entanto, neste estudo, os dados não corroboram a literatura previamente descrita no quesito ter filhos, uma vez que os idosos estudados mesmo solteiros ainda possuíam filhos4. Este último resultado denota a vulnerabilidade das famílias em relação ao cuidado com os idosos, já que mesmo com a presença de filhos, os quais poderiam ser cuidadores de seus pais, foram institucionalizados.

O abandono não esteve entre as principais causas da institucionalização dos idosos. No entanto, é possível identificar uma vulnerabilidade no saber cuidar do idoso por parte da família. Mediante uma diminuição da independência e da capacidade funcional desse segmento populacional, a família deixa a responsabilidade do cuidado sob o encargo dos cuidadores, o que possivelmente explica a predominância do motivo “não possuírem cuidador” como causa principal da institucionalização.

Com relação à cor/raça e à religião, os resultados encontrados refletem as características gerais da população brasileira, em que a maioria se autodeclara branca e de religião católica1. Já o fato da maioria dos idosos institucionalizados possuírem procedência da zona urbana, sugere que aqueles oriundos da zona rural possuem dificuldades no acesso às ILPI da capital, suscitando a necessidade de se discutir a oferta desse tipo de serviço no interior do estado.

Aqueles idosos que não possuem cônjuge ou que o perdeu, associado à ausência de filhos, não possuírem um familiar mais próximo que tenha como obrigação social ofertar-lhes cuidados, são encaminhados, na maioria das vezes, por familiares mais distantes para as instituições de longa permanência sem fins lucrativos. Além disso, o fato da maioria dos idosos negros ou pardos residirem em ILPIs sem fins lucrativos denota que indivíduos que se autodeclaram dessa forma possuem maiores chances de possuírem menor escolaridade e pior status social15.

Em sua quase totalidade, foi verificado que os idosos analfabetos residem em instituições sem fins lucrativos, em oposição à maioria daqueles com ensino superior, que moram em ILPIs com fins lucrativos. Este fato é reflexo de uma forte associação entre as condições socioeconômicas e a conclusão do ensino médio, e consequentemente acesso ao ensino superior no Brasil. A maioria dos indivíduos com ensino médio completo pertencem às classes média e alta16. Sendo assim, aqueles idosos que possuem condições de pagar uma ILPI com fins lucrativos tiveram maiores oportunidades à época de acesso ao ensino superior.

Diante de piores condições socioeconômicas encontradas nos idosos residentes em ILPIs sem fins lucrativos, torna-se evidente que os residentes nessa modalidade de instituição estão mais susceptíveis a estresses crônicos provenientes de uma maior privação socioeconômica, o que de fato afeta direta ou indiretamente suas condições de saúde17. Entretanto, os idosos dessas instituições possuem mais liberdade para comprar algo fora delas, o que pode melhorar sua autoestima e diminuir sintomas de depressão18,19.

No presente estudo, todos os idosos que não recebiam visitas na instituição residem em ILPI sem fins lucrativos, o que confirma uma condição desfavorável, uma vez que a ausência de visitas está relacionada ao abandono e pode implicar em declínio na condição de saúde física e mental, estando também associada à apresentação de sintomatologia depressiva20.

Por fim, as condições mais desfavoráveis eram as dos idosos residentes em ILPI sem fins lucrativos. No entanto, com relação ao motivo da institucionalização, a única variável destoante desse quadro foi o fato dos idosos “estarem doente”, que foi mais presente nos de ILPI com fins lucrativos. Isso leva a crer que as famílias, apesar de possuírem condições socioeconômicas melhores, preferem institucionalizar seus idosos devido aos serviços oferecidos pelas instituições. No que se refere ao motivo da institucionalização em ILPIs sem fins lucrativos, seus resultados refletem um descompromisso no cuidado de idosos com pior status social por parte de seus familiares, uma vez que os motivos “família o abandonou”, “não tinham onde morar” ou “por conflitos familiares” se mostraram associados a esse tipo de instituição.

Conclusão

No geral, as condições mais desfavoráveis eram dos idosos residentes em ILPI sem fins lucrativos. Residem nessas instituições pessoas predominantemente de cor negra ou parda, solteiras, que não possuem filhos, com baixo grau de escolaridade, sem aposentadoria, sem plano de saúde e que não recebem visitas, demonstrando, com isso, o reflexo da desigualdade social durante a vida desses idosos, a qual se perpetua até o fim desta.

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