Determinação do potencial larvófago de Poecilia reticulata em condições domésticas de controle biológico

Determinação do potencial larvófago de Poecilia reticulata em condições domésticas de controle biológico

Autores:

Boscolli Barbosa Pereira,
Eidis Antônio de Oliveira

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.22 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X201400030004

ABSTRACT

Configured as an important public health problem in the world, the dengue fever affects tropical countries, like Brazil. Biological control through the use of larvivorous fish appears as an alternative to reduce the infestation rates of the dengue vector. This work aims to evaluate and describe conditions under which Poecilia reticulata fishes can be used as biological controllers of Aedes aegypti in a domestic environment. Thus, the daily larvivorous potential (direct observation) of different groups of P. reticulata was calculated, considering the influence of sex and size of the used specimens. The test results revealed that P. reticulatalarvivorous potential ranges with sex, and found that the ability of the group composed only of females was about twice as high compared to that of males of the species.

Key words: dengue; public health; aedes aegypti

INTRODUÇÃO

Anualmente, são confirmados de 50 a 100 milhões de casos de dengue, sendo que de 250 a 500 mil casos são de febre hemorrágica da dengue, a forma mais grave da doença. Assim, esta arbovirose configura-se como um dos mais sérios problemas de saúde pública. Sobretudo, o problema da ocorrência da dengue é agravado pela estimativa de que cerca de 50% da população mundial vive em áreas endêmicas para a ocorrência do principal vetor da dengue, o mosquito Aedes aegypti1.

O mosquito A. aegypti pode procriar em variados tipos de criadouros. Gadelha e Toda2 correlacionam a ocorrência dos focos de infestação do vetor aos hábitos de armazenagem e manejo da água pela população. Dessa forma, a atividade humana, pautada por hábitos equivocados de utilização dos recursos hídricos e gerenciamento dos resíduos, aumenta a incidência do mosquito nas zonas urbanas. Dentre os locais preferidos para a postura de ovos por fêmeas de A. aegypti destacam-se aqueles que apresentam superfície de água livre, paredes porosas e com baixa refletividade3.

Os trabalhos apresentados na literatura científica relatam que tanto os pequenos depósitos artificiais quanto os grandes reservatórios de água são importantes para a infestação por A. aegypti46.

Diversos programas públicos de controle do vetor da dengue utilizam compostos químicos com potencial inseticida. No entanto, além de ser prejudicial ao ambiente e selecionar populações de insetos resistentes aos inseticidas, esta atividade pode ser prejudicial à própria saúde humana. Dessa forma, existe a necessidade de restringir o uso de inseticidas químicos, adotando-se medidas alternativas, como o controle biológico do vetor7.

Dentre os principais agentes aplicados no controle biológico do vetor da dengue, estão em evidência os bacilos entomopa-togênicos e os peixes larvófagos3. Foi nesse sentido que, desde o ano de 2007, a Secretaria Municipal de Saúde da Cidade de Monte Carmelo, em Minas Gerais, empreendeu, em caráter experimental, um programa de controle biológico de larvas de A. aegyptipor meio da inserção de peixes da espécie Poecilia reticulata em reservatórios de água de grande e pequeno porte. Ainda pelo mesmo programa, a população recebeu peixes e as devidas orientações para a realização do controle biológico das larvas de Aedes no ambiente doméstico.

Conforme já apresentado, a utilização de peixes como controladores naturais se mostra mais interessante do que o uso de larvicidas convencionais, já que é capaz de reduzir os índices de infestações sem a necessidade de utilizar componentes químicos no ambiente. Entretanto, para que esta tecnologia de controle apresente resultados positivos, é importante que as comunidades se apropriem, confiem e contribuam para a utilização adequada deste método.

Diante desse cenário, o objetivo do presente trabalho foi identificar a eficácia predatória da espécie P. reticulata no controle de larvas de A. aegypti em condições domésticas.

MATERIAIS E MÉTODOS

Local de estudo

A cidade, local do estudo, foi o município de Monte Carmelo, situado a oeste do Estado de Minas Gerais, na região do Triângulo Mineiro. Essa região possui temperatura média de 25°C, e o bioma característico é o cerrado.

Peixes

Foram empregados peixes adultos da espécie P. reticulata, mantidos em reservatório artificial na Fundação Carmelitana Mário Palmério. Os peixes foram medidos com paquímetro após a realização dos testes. Os mesmos espécimes de peixe foram utilizados ao longo de todo o experimento.

Obtenção de larvas de A. aegypti

Larvas de segundo e terceiro estágio de A. aegypti foram fornecidas pelo Centro de Controle de Zoonoses de Monte Carmelo, em Minas Gerais. Essas amostras foram transportadas em vasilhames de plástico (500 cm3), com tampas de gaze presas com borrachas, até o laboratório onde foram realizados os ensaios.

Procedimento

A metodologia empregada foi similar à utilizada por Vargas8, porém, com variações no número de larvas, tempo de exposição e dimensão dos aquários.

Para a realização do ensaio foram empregados oito aquários contendo um litro de água em cada. Para a aclimatização dos peixes, os aquários foram mantidos sob temperatura ambiente e fotoperíodo de 12 horas por dia, em sistema semiestático, com reposição diária de 20% do volume total de água. Aos peixes de cada aquário foi administrado alimento comercial Nutrafin® (0,45 g), permitindo consumo à vontade. Amostras de água de reposição foram analisadas quanto aos parâmetros físico-químicos de qualidade.

Os oito aquários utilizados foram organizados em pares, definindo-se, portanto, quatro grupos de avaliação da capacidade larvófaga de peixes da espécie P. reticulata. Destes, um par de aquários continha dois exemplares de machos; em outro par de aquários foram introduzidos dois exemplares de fêmeas, e em outros dois aquários foi alocado um casal de peixes em cada. No último par de aquários foram inseridas apenas larvas de A. aegypti para controle da mortalidade natural das mesmas.

Os testes de predação das larvas para cada grupo de peixes foram repetidos por 10 dias seguidos. A cada dia colocava-se um número crescente de larvas (25, 50 e 100) por hora, registrando a quantidade de larvas ingeridas por aquário durante três horas de exposição. As larvas não consumidas eram retiradas diariamente.

O potencial larvófago diário (observação direta) de cada grupo de P. reticulata foi calculado utilizando a seguinte equação:

PL= Li-Lr/Np

Em que:

  • PL= potencial larvófago do grupo (larvas consumidas por peixe);

  • Li = total de larvas introduzidas;

  • Lr = total de larvas remanescentes após 3 horas;

  • Np = número de peixes.

Adicionalmente, o potencial larvófago foi avaliado em relação ao tamanho dos peixes. Para tanto, o número de larvas predadas por cada grupo foi dividido pelo tamanho médio dos peixes do respectivo grupo, obtido no último dia de experimento.

Análise estatística

Os dados obtidos foram processados estatisticamente, de modo que foi possível determinar a média e o desvio padrão de eliminação das larvas de A. aegypti em cada grupo de peixes. Para comparação das médias entre os grupos aplicou-se a análise de variância (ANOVA), seguida do teste de Bonferroni (p<0,05).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Durante a realização dos ensaios não houve mortalidade de nenhum peixe. As características físico-químicas da água de reposição utilizada nos ensaios são mostradas na Tabela 1.

Tabela 1 Análise físico-química da água de reposição utilizada nos ensaios 

Parâmetro Média±DP
pH 7,3±0,1
Oxigênio dissolvido (ppm) 7,1±0,3
Dureza (mg/L) 500±11
Cloro residual (mg/L) 0,04±0, 01
Temperatura (°C) 23,2+0,4

DP: desvio padrão.

Conforme demonstrado na Tabela 2, os aquários que continham duas fêmeas consumiram significativamente (p<0,001) mais larvas (23,6; 48,2 e 96,0) para as três quantidades de larvas utilizadas (25, 50 e 100, respectivamente), quando comparados com os demais grupos diante das mesmas quantidades de larvas oferecidas. Não houve diferença significativa entre os aquários que continham somente machos e os que continham casais de peixes. Adicionalmente, a relação de larvas predadas por peixe, segundo os respectivos grupos experimentais (fêmeas, casal e machos), é mostrada na Figura 1, enfatizando a maior efetividade das fêmeas no consumo das larvas de A. aegyptidurante todo o período de realização do ensaio.

Tabela 2 Eliminação média de larvas de Aedes aegypti por Poecilia reticulata em condições de controle doméstico 

Condição N° de larvas expostas Larvas consumidas/mortas Média±DP
Duas fêmeas 25 23,6±1,1*
50 48,2±0,7*
100 96,0±1,9*
Dois machos 25 13,8±2,4
50 22,2±1,8
100 40,9±2,4
Casal 25 17,1±2,7
50 36,4±3,1
100 67,7±2,4
Apenas larvas 25 2,2±0,4
50 2,9±0,6
100 3,8±0,6

*Diferença significativa (p<0,001). ANOVA e Teste de Bonferroni DP: desvio padrão.

Figura 1 Relação de larvas predadas por peixe, segundo os respectivos grupos experimentais (fêmeas, casal e machos) 

Como pode ser observado no presente trabalho, o potencial larvófago de P. reticulata varia com o sexo. Verificou-se que a capacidade larvófaga do grupo composto apenas por fêmeas foi cerca de duas vezes maior quando comparada à dos machos da espécie P. reticulata.

Com relação à capacidade de controle, a efetividade da eliminação das larvas também está associada ao tamanho dos peixes empregados. De acordo com os resultados do presente trabalho, os machos adultos utilizados apresentaram tamanho médio de 20,2 mm, e as fêmeas adultas possuíam tamanho médio de 31,4 mm. O cálculo da relação entre o número de larvas predadas por cada grupo e o tamanho médio dos peixes do respectivo grupo, obtido no último dia do experimento, revelou que machos consumiram uma média de 24,3 larvas por centímetro de comprimento em três horas, enquanto as fêmeas foram capazes de predar, em média, 27,7 larvas por centímetro de comprimento corporal no mesmo intervalo de tempo.

Nessa direção, é importante considerar que o controle biológico realizado por peixes será efetivo à medida que as larvas dos insetos vetores sejam predadas logo após a eclosão. Para tanto, o potencial larvófago individual dos peixes utilizados em programas de controle biológico deve ser avaliado em relação ao número médio de larvas presentes nos criadouros domiciliares.

Com base nessa premissa, a densidade larvária de insetos vetores em criadouros tem sido reportada em diversos trabalhos, com destaque para as pesquisas de Bracco e Fabbro9 e Lima et al.10, em que foram observadas 66 e 158 larvas de culicídeos, em média, em criadouros e depósitos domiciliares, respectivamente. Para ambos os casos citados, os resultados obtidos no presente estudo revelam que o número de espécimes necessários para garantir o controle efetivo de larvas de A. aegypti em condições domésticas é menor do que o relatado por Martinez-Ibara et al.11, que recomendam a utilização de dez peixes do gênero Poecilia por criadouro.

Frente ao cenário atual de controle da dengue, caracterizado pelo controle químico dos focos, a utilização de metodologias e estratégias alternativas de eliminação do vetor, com o emprego de predadores naturais das formas imaturas de A. aegypti, justifica-se do ponto de vista econômico e ambiental, a exemplo de várias experiências bem-sucedidas e divulgadas na literatura científica8,1113.

Sobretudo, é recomendável que, em condições de controle doméstico, os aquários sejam monitorados, de modo que os peixes sejam alimentados com ração, sem exagero. Peixes mortos devem sempre ser substituídos para que o local não se torne um foco potencial para os mosquitos vetores.

Destaca-se que, entre as características a serem levadas em consideração para tornar possível o controle biológico de mosquitos, estão a avaliação do potencial larvófago da espécie empregada, o custo de aquisição desses animais, a disponibilidade da espécie durante todo o ano, o potencial reprodutivo em cativeiro, a resistência a variações ambientais e o considerável dimorfismo sexual, para que seja possível distinguir machos e fêmeas, controlando a reprodução e as condições de manutenção14.

Assim, embora tenha sido demonstrado que as fêmeas apresentam maior potencial larvófago em relação aos machos, concluímos que aquários com pelo menos dois espécimes de P. reticulata são capazes de eliminar um número de larvas de A. aegypti superior ao que naturalmente possa emergir em condições naturais no ambiente doméstico.

Além da significativa capacidade larvófaga, a disponibilidade de P. reticulata nos corpos de águas naturais, a facilidade de reprodução, o nítido dimorfismo sexual e a resistência a condições de baixa oxigenação permitem que essa espécie possa ser utilizada no controle do vetor da dengue, bem como de outras arboviroses.

Enfatiza-se que, no plano da Saúde Coletiva, o presente trabalho esteve vinculado a ações de mobilização social e educação em saúde, com vistas a fornecer parâmetros e orientações precisas, informando a população sobre vantagens da estratégia de utilização do controle biológico.

REFERÊNCIAS

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