Diagnóstico de utilização do instrumento de avaliação da atenção primária à saúde - PCATool-Brasil versão adulto - para população idosa

Diagnóstico de utilização do instrumento de avaliação da atenção primária à saúde - PCATool-Brasil versão adulto - para população idosa

Autores:

Vânia Maria Freitas Bara,
Elisabete Pimenta Araújo Paz,
Raphael Mendonça Guimarães,
Bárbara Fabrícia Silva,
Bárbara Bara De Martin Gama,
Lucas Moratelli

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.23 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X201400080015

Abstract

This article aims to describe the pre-trial stage for the use diagnosis of the primary health care assessment tool – PCATool – Brazil adult version applied to a group of thirty elderly from sixty years old, registered at a primary healthcare unit. The instrument was fully implemented and the appropriateness of language and the applicability of the PCATool constructs to their realities were assessed. There was some difficulty in understanding some questions, and some elderly people have expressed fatigue due to the extent of the data collection instrument. We conclude that the instrument in its original form, does not take into account the elderly population heterogeneity and its social, cultural, educational, economic and political diversity.

Keywords:  primary health care; elderly; questionnaires

INTRODUÇÃO

A atenção básica caracteriza-se por um conjunto de ações de saúde nos âmbitos individual e coletivo, o qual abrange a promoção, a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação e a manutenção da saúde1.

Um serviço de saúde dirigido à população em geral pode ser considerado provedor de atenção primária quando apresenta os quatros atributos essenciais: o acesso de primeiro contato do indivíduo com o sistema de saúde, a longitudinalidade, a integralidade e a coordenação da atenção, aumentando seu poder de interação com os indivíduos e com a comunidade ao apresentar também atributos derivados, que qualificam as ações desses serviços, tais como: a atenção à saúde centrada na família, a orientação comunitária e a competência cultural2,3.

A avaliação da satisfação dos usuários é tema presente na agenda de monitoramento e da avaliação da atenção básica no Brasil. Estudo conduzido por Ibañez et al.4 em 2006, ano da publicação da Política Nacional da Atenção Básica, apresentou resultados da avaliação de desempenho da atenção nos serviços de atenção básica, em uma amostra selecionada de municípios do Estado de São Paulo com mais de 100 mil habitantes. Como resultado, observaram que, em média, o índice criado para a avaliação apontou satisfação de 50%, o que qualifica a atenção básica como pouco satisfatória. Já Tanaka5 apresentou uma nova proposta de avaliação da Atenção Básica em Saúde, utilizando a abordagem sistêmica de Donabedian e enfatizando a necessidade de valorização dos indicadores de processo. Finalmente, Brandão et al.6, com base no European Task Force on Patient Evaluation of General Practice Care(EUROPEP), avaliaram cinco dimensões de satisfação (relação e comunicação; cuidados médicos; informação e apoio; continuidade e cooperação; organização dos serviços) e observaram uma avaliação ruim para relação e comunicação entre profissional e usuário e para organização dos serviços, evidenciando maior satisfação por parte de idosos.

Os idosos constituem o grupo etário que mais utiliza os serviços de saúde, uma vez que apresentam uma maior prevalência de doenças agudas ou crônicas, em detrimento às outras faixas etárias, e que requerem cuidados médicos e terapêuticos mais frequentes, em escala maior que as faixas mais jovens7.

Uma vez que o envelhecimento é um fenômeno universal e um processo multifatorial8 que acomete, de maneira diferenciada, todos os indivíduos, faz-se necessário que, no Brasil, os gestores dos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) conheçam a realidade sanitária dessa população e subsidiem suas ações pautadas nas etapas de planejamento, execução e avaliação periódica de desempenho da APS, além buscar sistematicamente a qualificação dos profissionais de saúde, de modo a promover, cada vez mais, uma assistência à saúde resolutiva e de qualidade às pessoas idosas.

No Brasil, um dos instrumentos que avaliam a APS é o PCATool (Primary Care Assessment Tool), que se baseia na mensuração de aspectos de estrutura, processo e resultados dos serviços e de saúde e que mede a presença e a extensão dos quatro atributos essenciais e dos três atributos derivados da atenção9,10.

METODOLOGIA

Desenho do estudo

Trata-se da etapa inicial de uma pesquisa transversal realizada no município de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Para a aplicação do PCATool-Brasil versão adulto no pré-teste11, elegeu-se uma Unidade de Saúde da Família em local urbano.

Os critérios de inclusão para participação dos respondentes no estudo foram: ter idade igual ou maior que 60 anos; ser de ambos os sexos e cadastrados na Unidade; possuir condições cognitivas para responder os questionários; ter comparecido para qualquer atendimento na Unidade nos últimos seis meses anteriores à entrevista. Para esta etapa da pesquisa, 30 idosos foram entrevistados.

Coleta e análise de dados

Ao chegar à residência dos idosos, estes eram informados sobre a pesquisa. Em seguida, procedia-se a apresentação dos objetivos e a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Estando de acordo, eles assinavam em duas vias, das quais uma delas era fornecida para cada participante. Inicialmente, foram entrevistados 90 idosos que manifestaram sua concordância em participar da pesquisa, que consistia em duas etapas de coleta de dados com aplicação do PCATool-Brasil versão adulto adaptado para idosos. As informações referentes ao tempo de entrevista e as considerações feitas sobre a dificuldade que os idosos apresentavam para entender os itens eram registradas para análise

Considerações éticas

A pesquisa foi apreciada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com o Protocolo CEP-UFJF n. 2514.254.2011 e aprovada sob o Parecer n. 273/2011, em 15 de dezembro de 2011. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

A amostra participante da etapa do pré-teste foi constituída por 30 idosos, dos quais 63% (19) eram mulheres e 37% (11) eram homens. A idade variou de 60 a 85 anos e a média de idade foi de 70 anos. Aproximadamente 50% eram casados, 20% eram viúvos, 20% viviam com companheiro (a) e 10% eram divorciados (as) ou separados (as). Em relação ao grau de escolaridade, 60% (18) relataram ter o 1º grau incompleto, 23% (7) eram analfabetos e 17% (5) tinham o 1º grau completo, o que evidenciou o baixo grau de escolaridades dos idosos. Quanto à situação empregatícia, verificou-se que 77% eram aposentados e que 90% apresentavam como ocupação principal as atividades domésticas (do lar), criação de canários e ofício de sapateiro (trabalho informal). Os outros 10%, que ainda exerciam atividades laborais, ocupavam-se das atividades de vigia de condomínio, lavadeira e passadeira.

Durante a aplicação do PCATool-Brasil, foram observadas algumas situações que necessitaram ser analisadas para a continuidade às entrevistas com os idosos e que estavam associadas aos componentes relacionados aos atributos da APS, em particular às questões que compunham o instrumento de avaliação da APS (Anexo 1).

A redação dos itens dificultou a compreensão do instrumento por parte dos idosos em todos os blocos, com especial destaque para integralidade - serviços disponíveis. Para questões dos blocos relativos à integralidade, ainda houve itens que causaram algum constrangimento, manifestado por expressão facial ou verbal, por parte de alguns idosos, ao ser formulada a questão tal como no instrumento. Para outros, a expressão facial dos idosos foi de ironia para itens, principalmente, nos blocos sobre acesso de primeiro contato e longitudinalidade. Questões ainda do bloco sobre acesso de primeiro contato mostraram-se coerentes com uma realidade de atenção básica não compartilhada com todo o país, de forma que precisam ser consideradas condicionalmente ao local que está em avaliação. Perguntas referentes à jornada de trabalho e ao horário de frequência de escola também precisam ser relativizadas, se consideradas em população idosa. Esses itens aparecem nos blocos sobre acesso de primeiro contato e longitudinalidade. Finalmente, as questões seletivas para serviços disponíveis para o sexo feminino não levaram em conta o grupo etário (por exemplo, perguntas sobre planejamento familiar), devendo, portanto, ter sua pontuação reconsiderada.

Outra situação apontada por alguns idosos no momento da entrevista foi o fato de se sentirem cansados devido à extensão dos instrumentos de coleta de dados. Em relação a esse aspecto, um cuidado importante na elaboração de instrumentos de coleta de dados está relacionado à sua extensão, pois, no caso de ser aplicado para pessoas idosas, esse aspecto torna-se relevante para o êxito da pesquisa. A duração média do preenchimento do questionário é um aspecto crucial a ser considerado e deve ser para o respondente o mais agradável possível, de modo a favorecer uma efetiva participação dos entrevistados.

CONCLUSÃO

A realização da etapa de pré-teste foi essencial para a identificação da necessidade de adequação das questões do PCATool-Brasil versão adulto para a realidade do idoso, o que mostrou a importância desse estudo prévio para a continuidade da pesquisa.

O estudo evidenciou que a versão do PCATool, adaptada hoje para adultos em geral, não é adequada para utilização entre idosos, necessitando de revisão.

Devido às dificuldades apresentadas no decorrer da etapa de pré-teste do PCATool-Brasil versão adulto, recomenda-se, para a próxima etapa do estudo, a realização de um “Painel de Especialistas”, de modo a avaliar a adequabilidade das questões já validadas na versão adulto e propor adaptações do PCATool-Brasil para o grupo de idosos, no sentido de contribuir para o aperfeiçoamento do instrumento com base nas especificidades das pessoas idosas em suas demandas e necessidades de utilização dos serviços primários de saúde.

REFERÊNCIAS

1 Brasil. Ministério da Saúde. Atenção básica e a saúde da família: diretriz conceitual. Brasília: Ministério da Saúde; 2004.
2 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Atenção Básica [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2012 [citado em 2014 out 4]. (Série E. Legislação em Saúde). Disponível em: http://dab.saude.gov.br/portaldab/biblioteca.php?conteudo=publicacoes/pnab
3 Franco FA, Hino P, Nichiata LYI, Bertolozzi MR. A compreensão das necessidades de saúde segundo usuários de um serviço de saúde: subsídios para a enfermagem. Esc Anna Nery. 2012;16(1):157-62. .
4 Ibañez N, Rocha JSY, Castro PC, Ribeiro MCSA, Forster AC, Novaes MHD, et al. Avaliação do desempenho da atenção básica no Estado de São Paulo. Ciên Saúde Coletiva. 2006;11(3):683-703. .
5 Tanaka OY. Avaliação da atenção básica em saúde: uma nova proposta. Saude Soc. 2011;20(4):927-34. .
6 Brandão ALRBS, Giovanella L, Campos CEA. Avaliação da atenção básica pela perspectiva dos usuários: adaptação do instrumento EUROPEP para grandes centros urbanos brasileiros. Ciên Saúde Coletiva. 2013;18(1):103-14. . PMid:23338501.
7 Pilger C, Menon MH, Mathias TAF. Características sociodemográficas e de saúde de idosos: contribuições para os serviços de saúde. Rev Latino-Am Enfermagem. 2011 19(5):1230-38.
8 Veras R. A era dos idosos: desafios contemporâneos. In: Saldanha AL, Caldas CP, organizadores. Saúde do idoso: a arte de cuidar. Rio de Janeiro: Editora Interciência; 2004. p. 3-10.
9 Harzheim E, Gonçalves MR, Oliveira MMC, Trindade TG, Agostinho MR, Hauser L. Manual do instrumento de avaliação da atenção primária à saúde: primary care assessment tool PCATool – Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2010.
10 Harzheim E, Oliveira MMC, Agostinho MR, Hauser L, Stein AT, Gonçalves MR, et al. Validação do instrumento de avaliação da atenção primária à saúde: PCATool-Brasil adultos. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2013;8(29):274-84. .
11 Faerstein E, Lopes CS, Valente K, Plá MAS, Ferreira MB. Pré-testes de um questionário multidimensional autopreenchível: a experiência do Estudo Pró-Saúde UERJ. Physis. 1999;9(2):117-30. .