Dinâmica das relações familiares intergeracionais na ótica de idosos residentes no Município de Jequié (Bahia), Brasil

Dinâmica das relações familiares intergeracionais na ótica de idosos residentes no Município de Jequié (Bahia), Brasil

Autores:

Doane Martins da Silva,
Alba Benemérita Alves Vilela,
Adriana Alves Nery,
Ana Cristina Santos Duarte,
Marta dos Reis Alves,
Saulo Sacramento Meira

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.7 Rio de Janeiro jul. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015207.17972014

Introdução

O envelhecimento é um fenômeno universal, reflexo dos avanços científicos e tecnológicos relacionados aos cuidados com a saúde, resultando na diminuição das taxas de mortalidade e fecundidade. No Brasil, previsões indicam que, em 2025, o país ocupará a sexta posição no mundo em população idosa1. O censo demográfico de 2010 apontou para uma população idosa no Brasil de 20,6 milhões, que corresponde a 11% da população brasileira2.

Associado ao processo de envelhecimento populacional observa-se mudanças nos arranjos familiares, na qual a intergeracionalidade surge como uma das características deste processo, em que famílias envelhecem junto com os seus membros, se reorganizando para fazer face às demandas do envelhecimento3.

Atualmente, as famílias têm se tornando menores e com um número maior de idosos em sua composição, sendo encontradas, muitas vezes, pessoas de diferentes gerações coabitando o mesmo domicílio4, além do que as famílias se deparam com o aumento da prevalência de doenças crônicas e de problemas decorrentes do envelhecimento, com os quais tem que lidar3.

Dessa forma, a longevidade traz a possibilidade de um maior tempo de convivência familiar intergeracional, o que implica em mudanças no conceito de família e na configuração familiar, trazendo consigo desafios. De modo especial, os referentes às relações familiares intergeracionais, aos apoios e cuidados, aos ganhos e às novas necessidades e aos papéis que envolvem os componentes de uma mesma família.

Neste contexto, tendo em vista a corresidência do idoso em contexto intergeracional é necessária maior atenção sobre como as possíveis diferenças entre os membros podem vir a interferir na dinâmica das relações familiares. O envelhecimento pode ser considerado momento de crise no ciclo vital, uma vez que representa situações de mudanças no âmbito biopsicossocial, requerendo do idoso e daqueles que com ele convivem adaptações a esta etapa da vida5.

As relações intergeracionais podem ser entendidas como vínculos que se estabelecem entre duas ou mais pessoas com idades distintas, possibilitando o cruzamento de experiências e contribuindo para a unidade dentro da multiplicidade6. Na construção destas relações, a afetividade constitui componente crucial, uma vez que o grau de afetividade sentido por cada um dos elementos do arranjo familiar consolida relações harmoniosas, o que favorece a promoção da saúde da unidade familiar.

Destaca-se que, no Brasil, a família permanece como uma fonte de apoio social fundamental às pessoas idosas, principalmente em decorrência da fragilidade das políticas públicas voltadas ao atendimento deste segmento etário. Deste modo, na sociedade brasileira, tanto do ponto de vista da organização social, como do legal, recai sobre a família a responsabilidade pelo cuidado para com as pessoas idosas e, neste sentido, acredita-se ser imprescindível à qualidade do cuidado relevar a dinâmica das relações que permeiam o viver-conviver em família, demarcado por um entrelaçar de gerações.

Assim, as relações familiares no âmbito da família intergeracional são um ponto importante a ser considerado pelos profissionais da saúde em relação ao cuidado para com os idosos e sua família6, pois, se por um lado a relação entre os mesmos traz consigo conflitos, por outro, pode ser considerada um processo de ajuda mútua, uma vez que os idosos não são apenas cuidados e ajudados por seus familiares, mas também cuidam e ajudam.

Tendo por referência estas reflexões, torna-se imprescindível para o profissional de saúde conhecer a família dos idosos e inseri-la como objeto de trabalho, bem como se faz necessária uma maior compreensão da dinâmica das relações familiares segundo o olhar do próprio idoso, levando-se em conta o aspecto intergeracional.

Neste sentido, o maior entendimento das relações familiares servirá para subsidiar os profissionais da área da saúde a uma abordagem assistencial ampliada do processo de envelhecimento incluindo o contexto familiar intergeracional, o que exige destes profissionais um novo olhar sobre a dimensionalidade destas relações para uma assistência com qualidade.

Desta maneira, este estudo objetiva descrever a dinâmica das relações familiares intergeracionais na ótica de idosos.

Metodologia

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, realizado com 32 pessoas idosas cadastradas na área de abrangência de uma Estratégia Saúde da Família (ESF) na área urbana do município de Jequié- Bahia.

A opção pela abordagem qualitativa deu-se em face desta responder a questões muito particulares, pois trabalha com o universo de representações, aspirações, crenças e opiniões, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, das interpretações que os seres humanos fazem de si mesmos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis7.

A coleta de dados foi realizada com pessoas idosas, cadastradas na ESF, que corresidem em lares intergeracionais (duas ou três gerações), pertencentes à faixa etária de 60 anos ou mais e com grau de cognição suficiente para responder aos instrumentos de coleta de dados, avaliado segundo os escores no Mini Exame do Estado Mental (MEEM), proposto pelo Ministério da Saúde8. Os sujeitos foram localizados com intermédio dos Agentes Comunitários de Saúde.

A coleta de dados ocorreu por intermédio de um questionário de caracterização dos sujeitos e de entrevistas semiestruturadas, gravadas em dispositivo eletrônico, realizadas no transcorrer do primeiro semestre do ano de 2013, por meio de visitas domiciliares. A análise dos dados coletados desenvolveu-se pela técnica de análise de conteúdo temático, segundo os preceitos de Bardin9.

A técnica de análise de conteúdo temática se apresenta rápida e eficaz na condição de se aplicar a discursos diretos e simples e se estruturar em torno de três etapas: a pré-análise, a exploração do material ou codificação e o tratamento dos resultados, inferência e interpretação9. Na apresentação dos resultados, os sujeitos foram identificados pela letra E, de entrevistado, e o respectivo número de ordem da mesma, preservando-se transcrições literais dos relatos dos idosos.

O presente estudo obedeceu às recomendações éticas presentes na Resolução nº 466/1210, do Conselho Nacional de Saúde, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade do Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), sendo obtida autorização da Secretaria Municipal de Saúde de Jequié para a realização da pesquisa na ESF. Além disso, os seus objetivos foram expostos de maneira clara aos sujeitos que participaram deste estudo, que após a leitura e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), aceitaram participar do mesmo.

Resultados e discussão

Caracterização dos sujeitos do estudo

Os sujeitos participantes do estudo foram 13 (40,6%) homens e 19 (59,4%) mulheres; 25 (78,1%) na faixa etária de 60 a 69 anos, 6 (18,8%) entre 70 a 79 anos e apenas 1 idoso (3,1%) com mais de 80 anos. A predominância do estado civil dos entrevistados em ordem decrescente foi casada 20 (62,5%), viúva 8 (25%), divorciada 3 (9,4%) e solteira 1 (3,1%).

Em relação ao nível de escolaridade, 22 (68,7%) possuíam o ensino fundamental incompleto, 5 (15,7%) ensino fundamental completo, 3 (9,4%) ensino médio incompleto e 2 (6,2%) ensino médio completo. No tocante à renda familiar, 30 (93,7%) declararam renda de um até três salários mínimos e, apenas 2 (6,3%), apresentavam renda entre 4 e 5 salários mínimos.

Objetivando facilitar a contextualização dos relatos obtidos, julga-se necessário, antes da discussão dos resultados, apresentar uma caracterização da composição do arranjo familiar dos sujeitos da pesquisa no Quadro 1, onde se observa a coabitação entre gerações.

Quadro 1 Caracterização dos sujeitos entrevistados segundo composição do arranjo familiar. Jequié, Bahia, 2013. 

Sujeitos do estudo Arranjo Familiar Sujeitos do estudo Arranjo Familiar
E1 Cônjuge/filhos/neto E17 Filha
E2 Filho E18 Cônjuge/filhos
E3 Cônjuge/filhos E19 Filha/neto/bisneto
E4 Cônjuge/filha/netos E20 Filha/netos
E5 Filho E21 Filha/netos
E6 Cônjuge/filhos/neto E22 Filha/neta
E7 Cônjuge/filhos/neto E23 Cônjuge/filhos/neto
E8 Cônjuge/filhos E24 Cônjuge/filha
E9 Cônjuge/filhos E25 Filha/genro/neto
E10 Cônjuge/filho E26 Filho/irmão
E11 Cônjuge/filhos E27 Cônjuge/filho
E12 Cônjuge/filho/netos E28 Cônjuge/filho
E13 Neto E29 Cônjuge/filho
E14 Cônjuge/filho E30 Cônjuge/filha/genro/netos
E15 Cônjuge/filhos E31 Filha
E16 Filhos E32 Cônjuge/neto

A dinâmica das relações familiares intergeracionais na percepção do idoso

A análise do conjunto das entrevistas gerou quatro categorias, denominadas: relações familiares intergeracionais harmônicas; relações familiares intergeracionais conflituosas; relações familiares permeadas pelo cuidado intergeracional com o idoso e relações intergeracionais permeadas pelo cuidado dos idosos para com seus netos. O conjunto dessas quatro categorias sintetiza a dinâmica das relações familiares intergeracionais na percepção do idoso.

Relações familiares intergeracionais harmônicas

A primeira categoria revela que para os idosos entrevistados, as relações estabelecidas com os membros familiares são harmônicas, permeadas pelo diálogo e por uma profunda ligação afetiva. Destaca-se que as relações com familiares são as que o idoso vive com mais assiduidade e intensidade, pois, a partir do momento em que muitos deles perdem sua capacidade funcional, como resultado do envelhecimento, em conjunto com doenças crônico-degenerativas, passam a ficar mais tempo no domicílio.

Os depoimentos revelam relações familiares intergeracionais harmônicas e felizes:

Eu me sinto bem e satisfeito em morar com eles porque é um bom relacionamento. (E6)

Graças a Deus nós temos prazer uns com os outros porque meus filhos foram bem criados, tiveram uma boa criação. (E3)

Se tiver o respeito e o diálogo fica tudo em paz, porque assim, eu falo que tem que ter o respeito, o amor e a união, então o relacionamento graças a Deus é bom. (E16)

É no grupo familiar que as relações se estabelecem primordialmente, permitindo que os idosos se sintam valorizados. Independente da idade, todos nós temos necessidades afetivas. O afeto e o estabelecimento de vínculos afetivos surgem quando as relações possibilitam uma proximidade mais íntima, uma maior afinidade.

As mudanças demográficas decorrentes do envelhecimento populacional embora impliquem na convivência intergeracional, não tem repercutido no enfraquecimento das relações familiares4. Assim, mesmo diante destes processos de transformação, a família mantém-se como unidade emocional e afetiva, espaço privilegiado de cuidados de suporte à vida e à saúde dos seus membros11.

Na terceira idade, as relações afetivas no ambiente familiar são um fator significativo para o equilíbrio, bem estar e cuidado aos idosos. A este respeito, Macêdo e Monteiro12 elucidam que as relações estabelecidas na família parecem contribuir nos processos de saúde ou doença. Desequilíbrios nos padrões de relacionamento experimentados pelos membros de uma família podem fazer surgir no núcleo familiar situações de conflitos, as quais, por sua vez, podem determinar o aparecimento de quadros patológicos, físicos e/ou emocionais, que fragilizam a família12.

No entanto, para os idosos entrevistados, observa-se a existência de aliança entre os mesmos e seus entes, a qual está baseada na expressão de sentimentos positivos como respeito, amor, união e diálogo. Portanto, a família apresenta-se em um ambiente no qual existe uma configuração de seus membros marcada por relações de proximidade, reciprocidade, estabilidade e afeto.

A fala de dois dos entrevistados revela que as relações familiares são marcadas por uma interação entre idosos, jovens e adultos, que interagem na vida em comum, valorizando, sobretudo, os conselhos transmitidos pelos idosos. Nota-se a valorização dos laços afetivos estabelecidos entre as diferentes gerações, aliando a sabedoria e as experiências de vida dos idosos com conhecimentos da vida moderna dos jovens.

Uma relação de muito amor e cumplicidade, tudo que meu neto vai fazer antes de tomar a decisão ele me pede conselho, ele considera muito os meus conselhos. (E25)

[…] apesar dele já ter maior idade, ele respeita as coisas que eu falo, nós interage para tomar uma decisão. (E28)

As relações de interação entre os idosos e seus familiares revestem-se de importância crucial para os idosos, dado que o sentimento de serem amados e valorizados, a pertença ao grupo familiar leva os idosos a escaparem do isolamento. E ainda, diante destes estratos de discursos pressupõe-se que o idoso mantenha uma relação com o seu familiar que não é de domínio, mas sim uma relação na qual ambos desenvolvem a alteridade e o respeito, valores fundamentais da experiência humana13.

Estudo realizado entre a população rural do Bairro dos Aleixos, município de Taquarituba, estado de São Paulo, revelou diferença significativa entre as variáveis número de pessoas residentes no domicílio e escore de apoio emocional. O apoio emocional foi maior em idosos vivendo em domicílios onde residiam de três a nove pessoas, quando comparados com aqueles vivendo sozinhos ou apenas com mais uma pessoa14. Cabe destacar que a manifestação de confiança, empatia, carinho, amor, escuta e interesse percebidos pelas pessoas, são os aspectos incluídos na categoria apoio emocional15.

O estabelecimento de relações harmônicas, união entre os idosos e os membros de sua família que corresidem é um processo que deve ser construído ao longo do tempo, envolvendo toda a família, pois requer ações simples e, ao mesmo tempo complexas para tornar este viver harmonioso e feliz, não só para os idosos, mas também para toda a sua família.

Relações familiares intergeracionais conflituosas

Esta categoria revela que para alguns idosos, as relações intergeracionais são conflituosas, havendo problemas no relacionamento com os filhos e os netos, devido às diferenças de valores sociais e culturais entre as gerações.

Dessa forma, destaca-se que a flexibilidade diante das dificuldades, o respeito mútuo e o constante diálogo são ferramentas importantes para assegurar o relacionamento harmonioso entre os idosos e seus familiares.

Tem hora que tem umas discussões com as netas, porque tem algumas coisas que elas faz, eu falo que tá errado e elas fica falando que eu sou do tempo antigo […]. (E4)

Tem vez que a gente tem uns aborrecimentos porque também eles tão jovens. Aí, às vezes, a gente fala alguma coisa que eles não gostam, acha que é coisa de velho, coisa antiga. Aí pronto, discutem. (E8)

O filho eu não estou satisfeito, não, porque ele não quer aceitar as coisas que eu falo, tem uns vícios que eu não gosto. (E27)

De acordo com Moragas16 o conflito em família se deve à convivência em família e suas particularidades, pois com ela permanecemos grande parte de nosso tempo e nos sentimos mais a vontade, e ainda ressalta que a convivência com duas, três ou mais gerações em uma mesma residência é cenário para conflitos, sendo estes considerados comuns, como constatado nas falas abaixo:

A gente tem umas discussões às vezes, mas isso é normal na família mesmo […]. (E26)

[…] é comum que em toda a convivência de uma família tenha sempre uma discórdia, um conflito, são coisas que dá pra se relevar. (E1)

A existência de corresidência com familiares não pode ser necessariamente vista como garantia de uma velhice bem sucedida, nem o fato de morarem juntos como um sinal de relações amistosas entre idosos e seus filhos e netos17. Assim, o relacionamento familiar requer compreender o ponto de vista do outro, sendo para isso essencial a interação, o respeito e o diálogo.

Outro fato verificado nos discursos dos idosos é a existência de conflitos no entorno família, decorrente da insatisfação dos idosos em relação a algumas condutas e comportamentos adotados pelos filhos e netos, pois, pelo fato dos idosos terem vivenciado outros contextos culturais, eles trazem com eles as suas crenças e a sua cultura, que divergem das gerações jovens.

Os discursos: […] fica falando que eu sou do tempo antigo. […] (E4) […] e acha que é coisa de velho, coisa antiga. Aí pronto, discutem. (E8) demonstram a dificuldade enfrentada pelos jovens em aceitarem a divergência de valores como algo natural decorrente das profundas alterações sociais e culturais nas últimas décadas, o que faz com que os idosos sejam rotulados de “ultrapassados”, ao olhar dos seus filhos e netos, reflexo da imagem negativa do idoso presente na sociedade, impregnada de estereótipos que estão interiorizados na memória coletiva.

Conforme Goldin18, a convivência simultânea entre várias gerações de uma mesma família possibilita conjuntamente diferentes visões de mundo e de valores, o que pode gerar conflitos intergeracionais. Estes, quando existentes em alguns contextos familiares, podem determinar a preferência dos idosos por residirem sós.

Apesar dos conflitos que envolvem as relações estabelecidas no seio familiar, eles podem ser administrados de forma saudável, à medida que as várias gerações amadurecem emocionalmente e podem compreender-se mutuamente.

Nesse contexto, embora seja comum o embate entre ideias, estilo de vida e valores entre as gerações, as relações intergeracionais podem ser solidárias, proporcionando ajuda, afeto e atenção em certos momentos vitais, quando há compreensão entre gerações, fomentando assim a superação de conflitos e a melhoria na qualidade das relações.

Evidencia-se também a necessidade de se cultivar laços de afetividade que dão suporte para solução de conflitos e fortalecimento de relações, e, acima de tudo, cultivar e exercitar o amor, o afeto, a partilha e a cumplicidade.

Relações familiares permeadas pelo cuidado intergeracional com o idoso

A velocidade do processo de transição demográfica tem levantado inúmeras questões cruciais para a sociedade como um todo, destacando-se, entre elas, a da responsabilidade quanto aos cuidados destinados a esse contingente, pois, em geral, as doenças que acometem os idosos são crônicas e múltiplas, exigindo cuidados constantes, como agendar consultas e exames, dar remédios e controlar seus horários de administração.

Nesse sentido, as alterações relacionadas ao envelhecimento populacional, levam-nos a identificar que ainda hoje a família é o suporte mais comum dos cuidados de saúde aos idosos, tendo que se adaptar a essa nova demanda, aprendendo no dia a dia como desenvolver a assistência necessária ao idoso fragilizado. Desse modo, o aumento da população idosa no Brasil remete ao desafio de se implementar políticas públicas que capazes de promover o suporte e cuidado da família, amigos e pessoas próximas aos idosos19.

[…] tem o problema das doenças que eu tenho, que eu não posso morar sozinha, minha filha e a neta que cuida de mim quando as doenças atacam, minha filha e os meus netos se preocupa muito comigo. (E4)

Como eu e meu marido estamos ficando mais velhos, à medida que a idade vai chegando, vai aparecendo as doenças. Então é bom ter uma filha morando aqui em casa ainda, porque ela pode cuidar de mim e do pai. (E24)

Cuida de mim. Estes dias mesmo, que eu estou sentindo dores, meu filho é que foi no posto marcar consulta pra mim, pegar remédio pro diabetes e o material pra fazer o curativo no pé. (E2)

A família pode ser considerada como um sistema de saúde para seus membros, na medida em que esta supervisiona o estado de saúde de seus membros, toma decisões quanto aos caminhos que deve seguir nos casos de queixas e de sinais de mal-estar, acompanha e avalia constantemente a saúde e a doença de seus integrantes, pedindo auxílio aos profissionais de saúde20. Portanto, além de ser no contexto familiar que frequentemente são tomadas decisões sobre as práticas de saúde, a família opera também como fonte primária de prestação de cuidados de saúde para seus membros.

Logo, vê-se a importância de se inserir a família como contexto de cuidados contributivos às ações de enfermagem, considerando-a agente de cuidados para seus membros em processo de envelhecimento. Nesse sentido, Moreira et al.21 apontam que é preciso reconhecer que o cuidado cotidiano oferecido pela família aos seus membros no domicílio é carregado de emoções e características peculiares, resultantes das condições culturais, sociais e econômicas, não podendo ser negligenciados.

As mudanças nos arranjos familiares e o envelhecimento acompanhado pela condição crônico-degenerativa com limitações físicas, cognitivas e sociais, impõem às pessoas idosas e às suas famílias questões nunca antes experimentadas na dinâmica das relações, entrando em cena uma perspectiva de dependência crescente e ocorrendo reversão de papéis, uma vez que passam às gerações mais novas a responsabilidade de cuidar dos idosos que, no passado, lhes proporcionaram proteção e cuidado22, conforme se verifica nos relatos dos entrevistados, nos quais observa-se que os filhos e os netos provêm o cuidado ao idoso.

Outro fato verificado nos discursos é o cuidado familiar aos idosos envolvendo a provisão de tarefas domésticas, pois, em virtude de alguns idosos apresentaram diminuição da capacidade funcional para realizar tais atividades, o apoio familiar torna-se crucial.

Me sinto bem, porque como minha mulher morreu, é minha filha que zela de mim demais, faz as coisas na casa, faz a comida e me dá na hora certa, na hora de tomar os remédios ela me dá, então ela cuida de mim direitinho. (E17)

Sou satisfeita, porque ele me ajuda, arruma a casa porque eu tenho problema na perna e não faço as coisas de casa, faz a comida na hora certa. (E23)

A capacidade funcional está relacionada à dificuldade do indivíduo em executar tarefas básicas ou mais complexas da vida diária, o que leva à limitação ou restrição de seus papéis sociais e à necessidade de um cuidador para auxiliar no desempenho dessas tarefas23, entrando em cena a figura do cuidador familiar, o qual assume, muitas vezes, a execução das atividades domésticas familiares, o que pode levar ao surgimento de sobrecarga no cuidador, podendo comprometer a qualidade do cuidado e interferir nas relações familiares24.

Nesse contexto, é de extrema relevância avaliar a sobrecarga do cuidador familiar, para que os profissionais da Estratégia de Saúde da Família possam ofertar suporte adequado às famílias e promover estratégias que contribuam para a melhoria da qualidade de vida do cuidador e que possam refletir no cuidado familiar prestado ao idoso.

Evidencia-se, portanto, que a presença na família de idosos que demandam cuidados pode implicar em mudanças ou (re) estruturação da dinâmica familiar, de forma a assegurar as demandas de cuidado bem como a manutenção e a integridade física e psicológica do idoso, o que pode ser acompanhado de certa dificuldade de adaptação não só por parte do idoso, mas também pelos demais familiares que passam a cuidar desse idoso.

Assim, a necessidade de prestar cuidados a um familiar idoso pode gerar impacto nas relações familiares, podendo ocasionar o enfraquecimento nessas relações. A este respeito, Torres et al.25 associam a qualidade das relações familiares com a qualidade do cuidado, uma vez que um dos fatores significativos de equilíbrio e bem-estar daqueles que envelhecem é a relação de afeto que ocorre no ambiente familiar.

Nesse cenário, considera-se fundamental para a qualidade do cuidado familiar ao idoso que os profissionais de saúde aprofundem o conhecimento das relações estabelecidas no ambiente familiar e compartilhem as demandas cuidativas com os familiares, fornecendo-lhes informações para que possam atender as necessidades dos idosos. Portanto, cabe aos profissionais apoiar a família cuidadora na dinâmica do processo de cuidar do idoso, fortalecendo-a e orientando-a conforme suas necessidades.

Relações intergeracionais permeadas pelo cuidado dos idosos para com seus netos

As alterações ocorridas no seio familiar decorrentes do envelhecimento populacional trazem à tona a figura dos avós cuidadores de seus netos. As relações que se estabelecem entre avós e netos resultam de um contato envolto em cuidado, preocupação, atenção, amor e partilha, daí que esta relação seja parte integrante e marcante no crescimento dos netos e no amadurecimento dos avós.

Nos relatos dos idosos, o verbo cuidar toma proporções mais amplas, haja vista envolver situações como cuidados básicos e diários (alguns prestados desde o nascimento dos netos), preocupação com alimentação, o ato de educar, de aconselhar, o acompanhamento escolar, bem como o carinho e atenção. Os relatos dos entrevistados expressam também a valorização por parte dos idosos de poderem desfrutar da companhia de seus netos no tempo “livre” advindo da aposentadoria e a satisfação que sentem em poder cuidar deles:

É bom que meu neto mora aqui comigo, porque como eu já perdi meu esposo, se não tivesse meu neto, eu ia ficar muito sozinha, então eu que cuido dele, levo pra escola. (E13)

Como eu sou aposentado e fico o dia todo aqui em casa, eu cuido do netinho, brinco muito com ele, porque a mãe trabalha fora o dia todo, então eu que dou os conselhos pra só fazer o que é certo. (E30)

Se não fosse pra felicidade deles, eu queria que eles ficasse aqui pra sempre, pra toda vida comigo, porque desde que nasceu moram aqui. Eles me apóia, dá carinho, risada, mas eu sei que um dia eles têm que sair e construir a vida deles, constituir a família. (E12)

A este respeito, Rosa26 salienta que raramente é citado na literatura o papel do idoso como cuidador ou provedor de cuidado familiar, fato visível nas famílias dos idosos estudados, no qual o idoso é muitas vezes o provedor do sustento de seus netos e o principal ou único responsável pelo cuidado dos netos, enquanto os genitores trabalham fora do espaço doméstico.

Assim sendo, constata-se que o desempenho do papel ampliado que assumem os avós no âmbito familiar contemporâneo excede a imagem que outrora ocupavam no imaginário coletivo, ou seja, a dos avós como exclusivos transmissores de legados geracionais. A população envelhecida, aqui representada pelos avós, assume nova função na sociedade atual, a de provedor ou pilar econômico de seus netos, independente da presença ou ausência dos genitores desses netos, por motivos diversos, como evidenciado no relato abaixo:

Eu que cuido deles desde pequeno, eu que cuido, desde alimentação […] porque a filha era nova e foi ganhando os filhos aqui em casa. Então, desde pequenos, é eu que ajudo, nunca deixo faltar nada, meu aposento ou pouco ou muito sempre deu pra nós sobreviver, é pouco mas nunca faltou nada. (E20)

A expressiva presença dos avós no espaço doméstico como cuidadores de netos vem sendo destacada, sem desconsiderar, portanto, outras funções que eles podem também assumir como, por exemplo, adotando um papel estabilizador na relação entre pais e filhos, especialmente em momentos de stress derivado de dificuldades econômicas, ou assumindo a responsabilidade pela educação dos netos quando os pais não podem assumi-la27.

Também é mister considerar que, não obstante a ênfase esteja voltada, na maioria das vezes, para os benefícios que os avós podem trazer, sobretudo no que tange ao desenvolvimento de seus netos, a influência é recíproca. Pode-se dizer, portanto, que a relação entre essas duas gerações é mutuamente importante. Neste sentido, Poehlman27, afirma que os netos exercem fundamental importância na vida dos avós e que o contato entre avós e netos pode ser essencial para as pessoas que estão envelhecendo, na medida em que os netos apresentam-se como a companhia mais frequente aos idosos.

Assim sendo, torna-se notável o fato de que a responsabilidade e/ou colaboração dos avós no âmbito familiar sobrepõe-se à elegância dos cabelos brancos, os quais anteriormente representavam, apenas respeito, afetividade e companheirismo, cedendo espaço para o novo papel que os avós passam a exercer na contemporaneidade, o de responsáveis diretos pelo cuidado dos netos.

Compreende-se que esta intensa participação dos avós no seio familiar é uma realidade complexa que demanda estudos que busquem apreender as transferências intergeracionais, haja vista que estes idosos-avós emergem, no cenário contemporâneo, como personagens centrais na vida de seus netos.

Considerações finais

As categorias revelaram que no espaço familiar constroem-se laços de solidariedade, tecem-se vínculos e relações intergeracionais pautadas no cuidado, apoio, cooperação e, por vezes, conflitos, advindos das diferenças de valores sociais e culturais entre as gerações.

As relações familiares harmônicas são marcadas pelo diálogo e por fortes laços de proximidade, reciprocidade e afeto. Nota-se também a interação existente entre idosos, jovens e adultos, havendo uma valorização dos saberes e conselhos repassados pelos mais velhos.

Acredita-se que, a partir das relações experenciadas na intergeracionalidade, as novas gerações alicerçarão seus conhecimentos com base nos conhecimentos e nas lições de uma vida já vivida pelo idoso. Assim, a partir do instante em que o jovem e o idoso descobrirem a necessidade da interação, da troca de suas peculiaridades no modo de ser, sentir, pensar e querer de cada um, ambas as gerações serão beneficiadas.

Por meio dos relatos dos idosos, verifica-se que as relações intergeracionais também podem ser conflituosas, na medida em que há uma dificuldade por parte das gerações mais novas em aceitar a diferença de valores sociais e culturais dos idosos. Contudo, estes conflitos foram considerados pelos idosos como algo comum, que marcam o viver-conviver em família. Neste sentido, a compreensão do momento de vida de cada membro e o respeito possibilitam a convivência harmoniosa e a aceitação das diferenças, superando os conflitos.

Conclui-se também que as relações intergeracionais são marcadas pelo cuidado mútuo, ou seja, os idosos sendo cuidados por seus filhos e netos, ou os idosos, no papel de avós, cuidam de seus netos, sendo instituída, portanto, múltiplas formas e práticas de solidariedade intergeracional.

Por fim, pode-se refletir que, apesar das significativas mudanças vivenciadas nas relações familiares, as quais envolvem membros de diferentes gerações, estas relações apresentam-se num contínuo de constantes rupturas, perdas e ganhos, nas quais se entrelaçam proximidade afetiva, harmonia e conflito.

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