Dispositivos de comunicação para a promoção da saúde: reflexões metodológicas a partir do processo de compartilhamento da Maleta de Trabalho “Reconhecendo Manguinhos”

Dispositivos de comunicação para a promoção da saúde: reflexões metodológicas a partir do processo de compartilhamento da Maleta de Trabalho “Reconhecendo Manguinhos”

Autores:

Lenira Zancan,
Fátima Pivetta,
Fabiana Melo Sousa,
Marize Bastos da Cunha,
Marcelo Firpo de Sousa Porto,
Jairo Freitas,
Gleide Guimarães Alentejo

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.18 supl.2 Botucatu 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622013.0457

ABSTRACT

The article seeks to contribute to the popular health education, describing and analyzing a process of sharing materials produced by action research expanded communities on health, environment and citizenship issues, in a favela located in Rio de Janeiro. From the theoretical and methodological referential of emancipatory health promotion and environmental justice, the article describes the process of sharing a “Briefcase”, presenting the objectives, the dynamics and the main results of four workshops held with the social actors: teachers, youth, counselors, health professionals and researchers. The relevance of a video production report as “mechanism” to return the results of the workshop is discussed. The video report would also be a new communication device to be incorporated into the suitcase. Finally, it analyzes the challenges, limitations and the potential of this training experience of expanded communities’ production about the problems and potential of the territory.

Key words: Health promotion emancipator; Popular education; Shared production of knowledge; Communication devices

RESUMEN

El artículo tiene por objeto contribuir a la educación para la salud popular, describiendo y analizando un proceso de intercambio de materiales producidos por las comunidades ampliadas de investigación-acción en temas de salud, medio ambiente y ciudadanía en una favela de Río de Janeiro. Desde aportes teóricos y metodológicos de la promoción de la salud emancipadora y de la justica ambiental, el artículo describe el proceso de compartir un “maletín”, con los actores sociales. Si discute la importancia de la producción de un reportaje en video como “mecanismo” para devolver los resultados, considerando el video como nuevo dispositivo de comunicación que han de incorporarse en la Maleta. Por último, se procede en analiza los desafíos, limitaciones y potencialidades de esta experiencia de formación en las comunidades ampliadas de producción de conocimiento acerca de los problemas y las potencialidades del territorio.

Palabras-clave: Promoción de la salud emancipatoria; La educación popular; La producción compartida de conocimientos; Dispositivos de comunicación

Introdução

O aprofundamento teórico e metodológico da experiência de produção compartilhada do conhecimento é um dos maiores desafios daqueles que atuam no campo da educação popular. São vários os trabalhos que tematizam a questão, dentre os quais Carvalho, Acioli e Stotz1, que buscam historicizar a proposta de construção compartilhada de conhecimento, e Marteleto e Valla2, que a abordam em sua articulação com a antropologia da informação, concebendo a perspectiva de um terceiro conhecimento.

Privilegiando-o como um dos eixos fundamentais de seu trabalho, voltado para uma Promoção de Saúde Emancipatória, o Laboratório Territorial de Manguinhos (LTM)(h), desde 2003, vem constituindo uma metodologia participativa, a Comunidade Ampliada de Pesquisa-Ação (CAP), reunindo pesquisadores da Fiocruz e moradores do bairro de Manguinhos, alunos de ensino médio participantes de um programa de vocação científica, bem como pesquisadores visitantes do CNPq e bolsistas PIBIC, dentre outros.

Seguindo esta perspectiva, a experiência do LTM inclui não apenas a produção, mas também a circulação e apropriação de conhecimentos sobre saúde, ambiente e cidadania no território de Manguinhos, um complexo de 15 favelas situado na zona norte do Rio de Janeiro. Tal trabalho é o eixo através do qual vimos desenvolvendo uma promoção de saúde emancipatória, voltada para os problemas de saúde do lugar, reconhecendo-os a partir da abordagem dos determinantes sociais da saúde e da justiça ambiental3. Elegendo o território como lócus privilegiado de pesquisa e intervenção, buscamos a conexão entre tais problemas e as dimensões sociais, políticas e culturais subjacentes às desigualdades sociais, aos déficits de democracia e às assimetrias de poder que marcam territórios, como os de Manguinhos. Consideramos as vozes dos moradores e trabalhadores de territórios, que constituem as zonas de sacrifício do capitalismo contemporâneo4, como centrais no enfrentamento dos conflitos sociais e ambientais, bem como na mobilização por políticas emancipatórias.

Os espaços da produção compartilhada são os fóruns, encontros, oficinas e trabalhos de campo, que permitem a confrontação de idéias e a integração de saberes e perspectivas na problematização, análise e proposição de soluções para os problemas no território. Os produtos gerados nesses espaços objetivam ampliar o diálogo e os circuitos de troca e inclusão de sujeitos.

Os diversos materiais resultantes dessas pesquisas desenvolvidas a partir da CAP, e produzidos com diferentes linguagens escritas e audiovisuais, foram reunidos numa caixa de ferramentas denominada “Maleta de Trabalho: Reconhecendo Manguinhos”, com a qual realizamos um processo de compartilhamento e validação desses materiais, por meio de oficinas de leitura e apropriação com atores do território. Nesta reflexão, procuramos apresentar alguns resultados deste processo de compartilhamento e validação, discutindo os sentidos desta Maleta e as lições aprendidas no percurso, procurando contribuir para a educação popular em saúde, particularmente em sua dimensão metodológica.

O artigo está dividido em três partes. Na primeira são apresentados os referenciais teórico-metodológicos orientadores dos trabalhos desenvolvidos. Em seguida, descrevemos o processo de compartilhamento da Maleta, apresentando os objetivos, as dinâmicas e os principais resultados de quatro das oito oficinas realizadas, incluindo a produção de um vídeo-relatório como mecanismo de devolução dos resultados e como novo dispositivo de comunicação a ser incorporado à Maleta. Finalmente, analisamos os desafios, limitações e potencialidades desta experiência de formação de comunidades ampliadas de pesquisa ação na produção de conhecimentos sobre os problemas e potencialidades do território.

O LTM e a Maleta “Reconhecendo Manguinhos”

Um dos desafios que vêm norteando as pesquisas da equipe é o de contribuir com as bases conceituais e metodológicas para a constituição do que denominamos uma promoção da saúde (PS) emancipatória no âmbito territorial, compreendida como:

[...] um processo dinâmico de mediações e constituição de campos relacionais, cognitivos e éticos, entre sujeitos individuais e coletivos para solidariamente estabelecerem mecanismos de compartilhamento dos recursos disponíveis na sociedade. Uma promoção da saúde repensada enquanto processo dialético voltado à produção de conhecimentos e práticas que favoreçam a constituição de espaços de conquistas de liberdade, de redução de vulnerabilidades sócio-ambientais e de exercício dos direitos humanos fundamentais através do que Paulo Freire denomina de “inéditos viáveis”3 (p. 220).

A PS emancipatória tem como objetivo último o conhecimento e discussão dos problemas sócio-ambientais e sanitários do lugar, visando transformar as políticas públicas e práticas institucionais a partir dos interesses legítimos e necessidades das populações. Considerando tal perspectiva, a constituição das comunidades ampliadas de pesquisa ação e o processo de produção e compartilhamento do conhecimento se colocam como eixos metodológicos fundamentais da promoção da saúde, e como caminho possível na ampliação da autonomia e consciência crítica individual e coletiva dos sujeitos no território3,5.

A constituição de Comunidades Ampliadas de Pesquisa-ação (CAP) tem sido adotada como metodologia participativa no campo da saúde propondo mecanismos de cogestão entre técnicos e trabalhadores do SUS, pesquisadores, usuários e organizações sociais no estabelecimento de atividades de interesse da saúde6. No LTM, esta proposta assume contornos vinculados ao campo socioambiental, nas discussões sobre complexidade e incertezas7, nas propostas de análises integradas e conexão entre os saberes técnicos, situados e populares8.

No que se refere à construção do conhecimento, o compartilhamento no processo investigativo é concebido como caminho necessário à construção de um conhecimento crítico, capaz de decifrar a complexidade da realidade para os vários sujeitos da pesquisa e do lugar, e colocar em questão a inserção destes agentes no processo de produção do conhecimento9. Com isso, indica-se que o avanço da proposta da produção compartilhada do conhecimento só pode se realizar a partir da busca de caminhos que favoreçam um processo de pesquisa e ação, que contribua para a crescente autonomia de todos os sujeitos implicados, seja os pesquisadores, moradores, usuário dos serviços, gestores e profissionais técnicos, entre outros. Recupera-se assim, o paradigma freiriano da educação: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, os homens se libertam em comunhão”10 (p. 63); “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”10 (p. 27).

Nos caminhos que favorecem a operacionalização da proposta, conteúdo e linguagem são elementos centrais. Por isso o LTM vem se debruçando sobre as diferentes linguagens que possibilitem avançar no processo de produção e compartilhamento de materiais político-pedagógicos sobre o território, que deve contribuir para promover a autonomia e fortalecer os lugares de interlocução dos atores sociais locais nas diversas arenas de negociação em que participam5.

A Maleta, compreendida como um ‘território em movimento’ pretende favorecer a amplificação das vozes dos moradores na reconfiguração das relações de poder, de forma a desconstruir e reconstituir histórias e realidades, frente aos discursos hegemônicos, que homogeneízam seus lugares na cidade e estigmatizam seus modos de vida e cultura. Conforme diz Pierre Levy, o domínio dos métodos de produção do conhecimento e das tecnologias para sua circulação dá “uma vantagem considerável aos grupos e aos contextos humanos que as utilizam de maneira adequada”11 (p. 42).

Pretendemos que a Maleta cumpra esse papel, contribuindo para explicitar as iniquidades e suas determinações geopolíticas, culturais e ideológicas que produzem os problemas, bem como as soluções em cada território. Pretendemos também que a circulação e apropriação dos conhecimentos produzidos favoreçam o capital social12, entendido como o conjunto de recursos atuais ou potenciais pertencentes a uma rede durável de relações sociais. Acreditamos que as formas de produção, circulação e apropriação de conhecimento que incorporam saberes, valores e interesses locais possibilitam ampliar e legitimar o capital social dessas comunidades, podendo reduzir assimetrias, contextualizando políticas públicas e projetos tradicionalmente elaborados de forma centralizada pelos governantes, e contribuindo para o diálogo intercultural, inclusive o dos saberes científicos e populares.

A ideia de reunir em uma Maleta de Trabalho os materiais produzidos pelo LTM surgiu em conversas com uma pesquisadora da área de comunicação em saúde, que participara de nossa CAP, quando ela nos contava sobre os “flanelódromos” no trabalho com os agentes de saúde indígenas. A ideia se fortaleceu ao longo dos processos de pesquisa e de produção dos materiais, quando procuramos criar um objeto de representação do território que expressasse ao mesmo tempo os movimentos de agregar pessoas, com seus olhares, valores, conhecimentos e interesses de um lado, e de outro de se debruçar sobre Manguinhos para desvendá-lo em textos, imagens e sons, em linguagens e formatos que tornem possível a todos – população, pesquisadores, técnicos e gestores − conhecer e reconhecer este território.

Nossa intenção é situar Manguinhos na sua história e na história da cidade, compreender como se deram e se dão as transformações, quais fatores foram e são preponderantes nas mudanças positivas e negativas e suas consequências sobre a vida das pessoas e dos ecossistemas. Concebemos tais elementos como fundamentais para entender a determinação social da produção da saúde e da doença que pode explicar e contextualizar as desigualdades e fragilidades do lugar.

Tendo como base as pesquisas realizadas pelo LTM e suas ações no território, 11 materiais foram editados e reproduzidos para integrar a Maleta, e estão sistematizados na tabela abaixo (Tabela 1), de acordo com seus temas norteadores e o conteúdo apresentado.

Tabela 1 A Maleta e seus materiais: temas, produtos e conteúdos. 

Tema Norteador Produto Conteúdo
História e Memória Livro Histórias de Pessoas e Lugares: memórias das comunidades de Manguinhos (Fernandes, Costa, 2009) História de Manguinhos com base em documentos e história oral
Documentário Manguinhos: Histórias de Pessoas e Lugares História de Manguinhos a partir de depoimentos dos moradores
Cordel Manguinhos em Prosa e Verso História de Manguinhos em cordel, de autoria de Gleide Guimarães, moradora e bolsista do LTM
Saúde e Ambiente Livro-Jogo Território, Saúde e Ambiente: a tosse misteriosa A contextualização do problema da tuberculose em Manguinhos
Mangue, Manguinhos, Manguezal - um slideshow Degradação do ecossistema do território, em comparação a uma área de manguezal preservada
Calendário Anual Enchentes em Manguinhos Ciclo explicativo da produção de enchentes e suas conseqüências sobre a vida e a saúde das pessoas, e as estratégias que subsidiem a reflexão e a ação
Políticas Públicas Documentários PAC Manguinhos: o futuro a Deus pertence? e PAC Manguinhos: promessa, desconfiança, esperança Expectativas e visões de moradores, gestores públicos, lideranças e profissionais de saúde sobre as mudanças promovidas pelo PAC no território e em suas próprias vidas
Livro PAC Manguinhos: um relato fotográfico Relata as mudanças provocadas pelas obras PAC através de fotografias, documentos e depoimentos de moradores

Além dos produtos acima, com a intenção de dar autonomia à Maleta foi produzido um livreto com pistas para a utilização dos materiais, além do folder do LTM e do marcador de livro, produzidos para divulgação do nosso sítio (www.conhecendomanguinhos.fiocruz.br), onde parte dos materiais já está disponível.

O processo de compartilhamento da Maleta

O processo de compartilhamento da Maleta envolveu uma elaboração metodológica adequada às oficinas com atores integrados à rede social na qual o LTM se insere, bem como um trabalho voltado para o registro audiovisual. Apresentamos aqui alguns resultados deste processo, enfatizando aqueles que têm maior implicação no campo da educação popular.

As perguntas avaliativas e a metodologia das oficinas

Como uma das estratégias metodológicas para a validação da Maleta e seus materiais, elaboramos um esquema analítico referenciado na noção de ciclo da comunicação: produção-circulação-apropriação13,14, e definimos três dimensões para avaliação nas oficinas: o ciclo da comunicação do LTM; a avaliação da Maleta; avaliação dos materiais individualmente.

Considerando o ciclo da comunicação como uma referência metodológica, e também esquema analítico para a compreensão da nossa capacidade de contribuir para a construção de uma PS emancipatória, buscamos identificar nas oficinas sinais e indícios para avaliação do potencial da Maleta como dispositivo de comunicação do LTM, resultado do processo de dez anos de trabalho. Nas tabelas 2 e 3 apresentamos os objetivos e as perguntas consideradas na avaliação do ciclo da comunicação e da própria Maleta.

Tabela 2 Esquema analítico de avaliação do ciclo da comunicação do LTM. 

Dimensão Objetivo Perguntas
Produção Identificar a expressão dos objetivos da PS emancipatória Os objetivos do LTM são claramente enunciados pelos interlocutores? Os temas respondem aos interesses prioritários dos moradores? As formas e linguagens estão adequadas ao contexto de atuação dos interlocutores?
Circulação Compreender a ampliação dos circuitos de troca do LTM Os interlocutores enunciam a intenção de utilizar os materiais em diferentes contextos? Os desdobramentos das Oficinas propõem a circulação da Maleta?
Apropriação Identificar as formas e conteúdos de expressão dos sinais e indícios da apropriação Os interlocutores se posicionam criticamente em relação aos conteúdos e objetivos da Maleta e dos materiais? Os conteúdos e formas são reelaborados pelos interlocutores? Novos usos ou mesmo novos materiais são enunciados? A Oficina promove mudanças nas formas de olhar para os territórios?

Tabela 3 Esquema analítico de avaliação da Maleta. 

Dimensão Objetivo Perguntas
Produção Identificar o potencial como ferramenta político-pedagógica e representação do território As formas e linguagens da Maleta estão adequadas ao contexto de atuação dos interlocutores? Quais as possibilidades de provocar uma leitura ecossistêmica e crítica dos territórios? Qual sua viabilidade enquanto objeto autônomo, independente da CAP do LTM?
Circulação Identificar a intenção e condições de compartilhamento Quais os usos e espaços de uso apontados pelos interlocutores? Quais dificuldades os interlocutores teriam para usar?
Apropriação Identificar as adaptações, revisões ou novos materiais e ideias para o uso da Maleta nos diferentes contextos Quais ideias surgem a partir da Maleta? Quais mudanças esta oficina provocou nos sujeitos em termos de reflexão crítica de temas da Maleta? E em termos de movimento para novas práticas?

Em relação a cada um dos materiais, questionamos a adequação dos temas aos interesses dos interlocutores, as prioridades de saúde e ambiente do território e a pertinência das formas e linguagens. Na circulação, buscamos identificar se havia conhecimento prévio dos materiais e com quem e onde os interlocutores usariam. Com relação à apropriação, a questão colocada foi: que sentidos sociais os materiais adquirem no processo de reflexão promovido pela Oficina?

O processo de elaboração das perguntas e dos esquemas analíticos se deu em diálogo com a revisão do material produzido e a literatura já referida. Além disso, foram realizadas duas oficinas metodológicas com pesquisadores de referência no campo da educação popular e da comunicação em saúde com o objetivo de dialogar e trocar experiências, discutindo as estratégias de avaliação da Maleta(i).

Em tais oficinas, algumas questões se revelaram fundamentais. Uma delas esteve relacionada à própria natureza das oficinas, nos apoiando na tarefa de compreendê-las como oficinas de leitura e apropriação, a partir do princípio que não distribuímos materiais, mas compartilhamos conteúdos. Esta discussão contribuiu para ressignificarmos a Maleta, não como uma caixa de ferramentas, mas sim um dispositivo de comunicação do LTM. Outra indicação foi que, no limite de tempo do projeto, mais do que produzirmos um mapa da circulação e uma análise da apropriação dos conteúdos pelos participantes das oficinas, o possível seria identificar os sinais e indícios do reconhecimento de conteúdos, da pertinência das formas e linguagens, e lançar bases para estudos futuros. Importante também foi a avaliação de que o importante é por em circulação, o que em si já é difícil e “deixar ganhar vida própria”, isto é a Maleta como dispositivo que gera novos processos.

Guiando-nos pelas questões destacadas nos esquemas acima, e nas oficinas metodológicas, de maio de 2012 a janeiro de 2013, realizamos oito Oficinas com atores do território, reunindo no total cerca de noventa participantes. Cada Oficina foi precedida de encontros com mediadores dos grupos, com os quais buscamos pactuar os objetivos da mesma. Formulamos objetivos e dinâmicas distintas, considerando a particularidade dos grupos e, ainda, o fato de que cada ator trazer consigo visões e experiências prévias em relação aos temas, linguagens e formatos, que estão presentes nos materiais da Maleta. Os encontros geraram, além de relatos, um registro audiovisual de cada oficina, e um vídeo-relatório de todo o processo.

As oficinas

Para esta reflexão, selecionamos quatro das oito oficinas realizadas, e apresentamos uma sistematização analítica das mesmas, enfocando a dinâmica utilizada e as principais questões que nelas se destacaram revelando como a Maleta e seus materiais expressam ou não a metodologia de produção compartilhada e como podem se revelar como dispositivos para novos processos de conhecer e agir sobre os problemas de saúde e ambiente em Manguinhos. Para seleção das oficinas apresentadas neste artigo, utilizamos como critérios: as diferenças, em termos de composição dos grupos e espaço de atuação dos mesmos; complementariedade, em termos dos pontos de vista, do perfil de atuação dos participantes, e das contribuições que geraram para o processo de compartilhamento e validação da Maleta.

Como todas as oficinas foram registradas em vídeo, considerando a perspectiva de produzir material para reflexão e debate, foram obtidas as autorizações de todos os presentes. Seguimos padrões éticos da pesquisa com seres humanos e os valores de conduta necessários à realização de trabalhos que têm como base a produção compartilhada de conhecimento. Neste artigo, as informações foram agregadas, as identidades dos sujeitos preservadas, e trabalhamos os depoimentos dos participantes sem codificá-los, uma vez que eles já estão situados dentro de um grupo representacional (professores, profissionais de saúde, por exemplo), e tal fato já atende ao nosso objetivo de refletir sobre o sentido da Maleta, seus limites e potencialidades.

Na Tabela 4 apresentamos uma síntese das quatro oficinas, seus participantes e objetivos.

Tabela 4 Quadro síntese das oficinas. 

Oficina Atores Objetivos
Grupo de Estudos do Programa Tecendo Redes – Museu da Vida/COC − FIOCRUZ 15 Professores do ensino fundamental Explorar o potencial da Maleta como ferramenta de apoio ao fortalecimento dos projetos político pedagógicos das escolas e à construção de materiais educativos emancipatórios
Programa Jovens Aprendizes de Produção Cultural em Divulgação Científica. Museu da Vida/COC – FIOCRUZ 26 jovens moradores do entorno da FIOCRUZ – com idade entre 14 e 18 anos Explorar o tema da história e memória das comunidades, atendendo a demanda do programa
Conselheiros, moradores de Manguinhos Três membros do Conselho Gestor Intersetorial (CGI – TEIAS) e uma moradora militante dos movimentos sociais Dialogar sobre os principais problemas do campo da saúde sob a perspectiva da formação na ação, a partir da abordagem da justiça ambiental e dos determinantes sociais na produção social da saúde e da doença
Profissionais da Clínica da Família Victor Vallado TEIAS Escola Manguinhos Dois profissionais de gestão e três Agentes Comunitários de Saúde Avaliar o potencial dos materiais como recurso político-pedagógico para a educação permanente dos profissionais e como ferramentas de apoio às suas atividades de rotina junto à população

Na primeira oficina realizada, os professores exploraram a Maleta e todos os seus materiais. Identificamos representações da mesma, associada a “tesouro” e “viagem”, que desperta a “curiosidade” e “remete ao acúmulo de conhecimento”. Os participantes indicaram que os materiais “representam simbolicamente uma herança”, e a Maleta “traz a idéia de um lugar para guardar memórias, coisas que tem que ser preservadas”.

Na dimensão da circulação e apropriação da Maleta, um indicativo positivo foi a proposta de construção de dispositivos semelhantes nas escolas, em especial naquelas que já fazem uso de alguns dos materiais. Os professores manifestaram o desejo de produzirem suas próprias maletas, juntando aos materiais do LTM, outros construídos pelos alunos e pela comunidade escolar. Foi valorizada também a utilização do audiovisual e da fotografia, considerados como formatos adequados para práticas educativas junto a crianças e adolescentes.

Quanto aos materiais individualmente foi enfatizado que a perspectiva de contar e refletir sobre a história (passada e presente) de pessoas e lugares do ponto de vista delas mesmas, ou seja, uma história contada pela população que vive em Manguinhos era um dos mais preciosos “tesouros” da Maleta.

Na oficina com Jovens do Programa de Formação em Produção Cultural e Divulgação Científica, como o objetivo foi explorar o tema da história, apenas o livro, o cordel e o vídeo documentários foram escolhidos para o trabalho. A dinâmica se deu em três grupos, possibilitando uma exploração conjunta dos materiais. Para orientar a atividade foram colocadas algumas questões disparadoras. Vale registrar que os materiais e a dinâmica utilizada na Oficina possibilitaram o reconhecimento de temáticas vivenciadas pelos jovens em seus cotidianos de vida e os inspirou na produção de novas formas de representação da realidade, apresentando, de forma lúdica, os temas da história e da memória para os demais grupos.

O grupo que explorou o livro montou um programa de entrevistas para a TV Realidade da Comunidade, cujos entrevistadores diziam: “vamos falar da realidade, coisas boas e problemas de cada lugar”. A partir de recortes do livro abordaram: a heterogeneidade do lugar e as diferenças entre as formas de ocupação das localidades; problemas como o lixo, a violência da polícia e o silêncio imposto pelo tráfico; aspectos positivos, como as festas juninas, a camaradagem da vizinhança, a melhoria das escolas.

O grupo que trabalhou o cordel compôs um rap com o tema “O que Manguinhos tem de bom” e optou por dramatizá-lo na forma de um jogral. O terceiro grupo, que assistiu ao documentário, montou uma peça de teatro para representar o passado de Manguinhos olhando para as coisas boas. Este grupo afirmou que antes de ver o documentário só pensava coisas ruins de Manguinhos, e que não sabiam nada da história das comunidades. No entanto, o que mais chamou atenção do grupo foi a recorrência das enchentes, relatadas no vídeo através da memória dos moradores mais antigos, e que os próprios jovens também já vivenciaram em tempos recentes.

No debate final do encontro, os jovens revelaram outras impressões e avaliações dos materiais, tais como:

“faltou a visão de quem é de fora, de outras comunidades [...] pessoas de fora [...] que moram na Barra, tem dinheiro e que acompanham pela TV [...] veem na mídia que não mostra a realidade da favela, mostra apenas operação policial, não mostra o lado bom”.

A Oficina dos Conselheiros reuniu quatro moradores participantes dos diferentes Conselhos existentes no território, conquistados pelas comunidades nas suas lutas, e que se consolidaram nos últimos cinco anos, quando Manguinhos ganhou visibilidade através das ações do PAC. Cada participante é de uma comunidade diferente, distinta em termos de ocupação histórica, consolidação urbanística e vulnerabilidade social e ambiental, e participam do Conselho Gestor Intesetorial do TEIAS Escola Manguinhos(j), além do Movimento de Mulheres de Atitude.

O tema da justiça ambiental foi priorizado neste diálogo por estar intrinsecamente associado à necessidade de integrar conhecimento, mobilização e ação social nas “zonas de sacrifício”. Para tanto, escolhemos assistir o slideshow Mangue, Manguinhos, Manguezal.

As cenas do slideshow mostrando o mangue preservado da APA Guapimirim, com sua vegetação, fauna e águas cristalinas em contraste com a degradação do rio Faria Timbó e do Canal do Cunha em Manguinhos, com as habitações precárias em suas margens, foram disparadoras de lembranças tristes, para alguns, e de recordações saudosas, para outros. Lembranças de quem nasceu ou chegou a Manguinhos na década de 60, época de grandes transformações na cidade do Rio e nas favelas, o caso dos participantes da oficina15.

O slideshow cumpriu assim o papel de mobilizador da memória das pessoas e de reconhecimento do lugar onde vivem. O exercício de rememorar teve uma função essencial, pois, de certa forma, foi uma espécie de acerto de contas de cada um consigo mesmo, com o outro, e com o sentido que estão dando a suas ações16. Por exemplo, a imediata identificação da casa de um parente de umas das participantes permitiu discutir e denunciar as condições de risco e vulnerabilidade das pessoas que moram ainda às margens do Canal do Cunha, próximas à refinaria de petróleo, atingidas por incêndios e enchentes, mesmo após o início das obras do PAC. Mas foi possível também anunciar outras lembranças boas de infância, quando esta degradação ambiental e social ainda não havia se consolidado, ou mesmo, reconhecimento de melhorias que foram sendo conquistadas pela organização dos moradores. Afirmaram-se também as possibilidades de reconstruir a relação da população com os rios, “de conhecer onde eles nascem, de não jogar mais o lixo, de saber que o lixo vem de longe”.

O lixo e suas correlações com as enchentes, a falta d’água, a contaminação do solo, o saneamento, o entulho das obras do PAC, a situação das remoções e aberturas de novas vias e construção das novas moradias, foram pontos de debate na oficina gerando ao final duas perguntas centrais: quem é responsável? E, consequentemente, qual nosso papel como representantes dos movimentos e instâncias de acompanhamento das políticas em Manguinhos?

No debate, evidenciou-se a permanência da política de desqualificação dos moradores enquanto sujeitos de direito, tanto pela ausência de canais de escuta como pela lei do silêncio imposta pelo poder marginal dos traficantes ou da cooptação política pelo poder oficial. Destacou-se também o caráter não participativo e provisório das soluções oferecidas, e a má qualidade das ações públicas: “O PAC foi bom? Não nos consultaram. Tem água minando nas calçadas e faltando nas torneiras. À noite vêm caminhões e depositam entulho em alguns lugares, o fedor, as moscas, fica insuportável!”.

Por outro lado, nos depoimentos esteve presente a crença em “somar forças”, fazer a mobilização, fortalecer os mecanismos abertos, mesmo que pouco efetivos, de manifestação e controle sobre os processos decisórios. A este respeito, foi enfocado o papel da Fiocruz, e do LTM em particular, como recurso importante, de fazer ouvir as vozes das comunidades, “de ir pra imprensa, porque quando fazemos a imprensa chama de baderna”. Papel reafirmado pelo representante do setor de educação no CGI ao afirmar o “importante o trabalho do LTM sobre o território [...] queremos fazer parcerias, trazer os argumentos técnicos, transformar o Rio Faria Timbó...”.

A última Oficina se deu junto aos profissionais da Clínica da Família Victor Valla, uma das unidades de saúde vinculada ao TEIAS Escola Manguinhos17. No encontro, a Maleta foi aberta no centro da roda e os profissionais foram convidados a explorá-la.

Foi lembrado que os profissionais do TEIAS contribuíram na revisão dos dados sobre saúde do Relato Fotográfico do PAC e que agora percebem que muita coisa mudou. Outro depoimento, referindo-se ao livro História de Pessoas e Lugares15, fala da importância dos materiais para entender o sentido da Clínica da Família para o processo de mudanças e, referindo-se a uma foto do passado afirma “a comunidade de Manguinhos está passando por uma limpeza, pela higienização do território...”. O documentário “PAC Manguinhos. O futuro a Deus pertence?” gerou grande interesse e imediata proposta de passar este, e os demais vídeos, em um espaço aberto, na rua, e em outros equipamentos existentes dentro das comunidades, assim como na sala de espera da Clínica.

As enchentes assumiram lugar de destaque nas discussões, sendo lembradas como um exemplo de que as coisas não mudaram muito após as obras do PAC e acrescentou que o problema poderia ser maior se os moradores não se organizassem para limpar os bueiros.

O livro-jogo “A tosse misteriosa” foi também bastante explorado. Pela forma lúdica como é tratado o tema da tuberculose, a dinâmica e o conteúdo do livro-jogo foram considerados adequados e apropriados para dialogar “com os usuários tanto em casa como na Clínica”, “com as famílias que temos mais intimidade” ou mesmo “com aqueles que têm mais resistência porque não tá falando diretamente da doença”.

Realizar uma feira para aproximar a população dos livros, formar contadores de história, jogar em grupos, utilizar o material para construir roteiros de teatro: “fazer peças com as histórias, com o cordel, com o PAC...” foram algumas das propostas para estimular a população na leitura da realidade através das histórias e problemas do lugar onde vivem, ou seja, para a continuidade da interlocução dos profissionais com a população de Manguinhos através dos materiais da Maleta, com ou sem a intermediação do LTM.

O vídeo relatório como síntese do processo

O audiovisual é um recurso que o LTM vem utilizando cada vez mais, em suas pesquisas, buscando ensaiar diferentes linguagens que contribuam para um maior diálogo entre os saberes científico e popular. No processo de compartilhamento da Maleta, recorremos mais uma vez a esta linguagem, produzindo um vídeo-relatório, ao final do projeto.

O vídeo-relatório foi concebido como mais um mecanismo de mediação na produção de conhecimento compartilhado entre moradores e pesquisadores, entre o saber popular e o saber técnico-científico no campo da promoção da saúde. Ele, portanto sintetiza os indicativos de validação e apropriação, ou não, dos materiais nas oficinas juntamente com outras impressões e imagens que só o registro em audiovisual é capaz de capturar: o olhar de entusiasmo ou reprovação do participante ao entrar em contato com a Maleta ou algum material, a movimentação dos participantes diante da dinâmica proposta pela oficina e o diálogo entre eles, o crescente ou decrescente interesse a respeito da continuidade de utilização do material, os discursos enunciados pelos participantes a respeito dos temas, formas, relevância dos materiais e da Maleta.

Como apontam Leonardos et al.:

A devolução em vídeo-relatório é uma opção documental que tem por finalidade sintetizar os dados obtidos ao término do estudo avaliativo, descrevendo tanto a metodologia aplicada, como as percepções, indagações dos interlocutores envolvidos, análises e interpretações, além do levantamento de preocupações e recomendações. O vídeo-relatório propicia, também, uma forma alternativa de comunicação para veicular aos diversos interessados (contratantes, interlocutores do campo e avaliadores envolvidos) informações complementares àquelas contidas no relatório impresso. Os espectadores poderão, assim, participar ainda que indiretamente em função das imagens, de grande parte do processo avaliativo18(p. 214).

A este respeito, destacamos que a proposta de devolução do registro audiovisual de cada uma das Oficinas para os participantes foi prevista com o objetivo de que este registro fosse mais uma ferramenta de interlocução com os grupos, para reforçar vínculos e processos de confiança, bem como coletar sugestões e expectativas do grupo para a elaboração do produto final, o vídeo-relatório. Contudo, tal devolução só foi possível com os professores, entretanto foi suficiente para problematizarmos as potencialidades e constrangimentos da metodologia de produção de vídeo-relatório, em projetos como o nosso.

Concluímos que para viabilizar a devolução dos registros, em cada um dos grupos participantes das oficinas, seria necessário trabalhar com prazos maiores no processo de trabalho ou, pelo menos, uma equipe maior e aparatos tecnológicos capazes de dar maior agilidade à edição. Isso porque a dificuldade de edição rápida dos registros acaba por interferir no prazo de devolução ao grupo, e em sua própria formação, pois se torna muito difícil reunir um mesmo grupo, depois de um grande intervalo de tempo da realização da oficina, especialmente quando se trabalha com atores que se diferenciam em muito em suas dinâmicas de vida e possiblidades de encontros, como jovens alunos de um curso, moradores-conselheiros e profissionais de saúde.

Outro aspecto identificado é a necessidade de uma pactuação com os participantes dos grupos, de forma que os mesmos tenham clareza sobre a incorporação ou não das colaborações que surgirem no processo de devolução, de forma a não frustrá-los quando assistirem o vídeo-relatório. É importante também perceber que a auto-imagem pode provocar incômodos que devem ser considerados e respeitados, pois as vezes o participante deixa sua emoção tomar conta na hora da gravação, mas ao rever seu próprio discurso algo pode lhe parecer ruim ou objeto de interdição.

Devemos ainda considerar o fato de que a pedagogia audiovisual da indústria cultural está introjetada em nossos inconscientes – todos nós temos padrões estéticos prévios que aprendemos assistindo filmes e televisão. No processo de devolução aparecem, então, tensões entre esse padrão midiático e as proposições adequadas ao vídeo relatório, que são colocadas pelo realizador do projeto. Por outro lado, é neste contexto de tensão, que o audiovisual pode se configurar como um potente mediador de ideias, suscitando em todos a possibilidade de enunciar novos leituras e discursos sobre o mundo.

Tais questões vêm sendo objeto de nosso aprofundamento, configurando uma linha de pesquisa e intervenção voltada para o estudo e experimentação da linguagem audiovisual no processo de produção compartilhada de conhecimento.

O vídeo-relatório, ainda que experimental, sistematiza uma avaliação dos conteúdos, objetivos e formatos que orientaram a produção dos materiais e, sobretudo, os novos objetivos, usos e sentidos que eles adquirem no processo de circulação da Maleta, de forma a decifrar e revelar o capital simbólico e social das comunidades de Manguinhos, frequentemente invisíveis e marginalizadas pelas mídias hegemônicas.

Assim, o vídeo-relatório passa a ser, então, mais um material a compor a Maleta, que nos permite de um lado apresentar e discutir o processo de compartilhamento e por outro trabalhar a perspectiva do audiovisual como estratégia metodológica nos processos de formação.

Conclusão: trilhas de um caminho ainda aberto

O processo de compartilhamento nas oficinas nos propiciou identificar reconhecimentos, expressos nas falas das pessoas, que reforçam nossa concepção da Maleta como “território em movimento”, capaz de ser apropriada e recriada pelos atores, através de vários caminhos, que dão indícios da produção da autonomia, fundamental a uma PS emancipatória.

Quando os professores dizem que a Maleta remete ao acúmulo de conhecimento que há neste território, à “formação de um sujeito histórico” e que “está pensando em construir a Maleta da escola, com a cara da escola, dos alunos, da comunidade”, reconhecem na Maleta o potencial de objeto político-pedagógico. Ou quando dizem que “levaria para a praça, na fila de espera do posto de saúde ou sentar no meio das crianças, no museu”, nos indicam o desejo de fazer circular os materiais e seus conteúdos. Na expressão de um dos participantes quando identifica no livro que traz a história da construção de Manguinhos, o vínculo do saber popular, através do relato dos moradores, com o conhecimento acadêmico, nos dá sinais que o livro expressa os processos e objetivos do LTM da produção de conhecimentos compartilhada, contextualizada, reflexiva e transformadora.

Quando os jovens falam que “nem tudo que queríamos falar estava no livro” que não está atualizado, não tem as creches, a urbanização, o comércio após as obras do PAC e “faltou a visão de quem é de fora de Manguinhos, que moram na Barra, tem dinheiro, que acompanham pela TV, veem pela mídia, que não mostra a realidade da favela, mostra apenas a operação policial, não mostra o lado bom”, nos dizem que os conteúdos não respondem as expectativas desse público, e nos acenam com conteúdos críticos que nos desafiam a repensar outras formas de olhar para o território.

Outro indicativo importante é a pertinência da linguagem audiovisual para o diálogo com públicos e pessoas tão diferenciados com quem dialogamos, expressa na fala de uma professora: “Em relação aos meus alunos (PEJA) o documentário é mais democrático – quem lê, quem não lê, quem não enxerga. Tem mais acessibilidade”.

O processo de compartilhamento da Maleta reforçou nossa concepção que a produção compartilhada de conhecimento se realiza no processo de diálogo com os atores locais. Recuperando as palavras da pesquisadora convidada da área de cultura e informação, em uma das oficinas metodológicas já citadas, “a energia vital do LTM é o compartilhamento do que está no acervo, que tem sintonias, tensões...”, em uma palavra “polifonia”.

Ela renovou nossa perspectiva da necessidade de romper com uma concepção linear do processo de produção, circulação e apropriação de conhecimentos. A este respeito, as oficinas demonstraram claramente que, ao fazer circular as informações sistematizadas em nossos materiais, novos conhecimentos e sentidos são produzidos e compartilhados sobre a realidade. Entretanto, a pesquisadora da área de comunicação em saúde nos fez refletir sobre os limites das oficinas e grupos focais, que são conformadas por uma opinião circunstancial, sendo necessário, pois, criar espaços criativos de registro das falas e opiniões, e outras formas de expressão para irmos além do reconhecimento e adentrarmos no entendimento da apropriação propriamente dita.

A utilização do audiovisual, mesmo com todos os limites assinalados, tem sido um dispositivo potente para expressar essa dimensão não linear de nossa prática comunicativa. A proposta de edição, devolução e reedição do registro de cada oficina esteve diretamente relacionada a esta perspectiva ininterrupta e inacabada de produção de conhecimentos, e tem nos instigado a refletir sobre a necessidade de criar dispositivos que viabilizem a rápida circulação, e a leitura e releitura dos registros pelos atores participantes do processo.

A experiência de compartilhamento reforçou desafios antigos, e revelou novos, no que se refere à prática da construção compartilhada de conhecimento por uma CAP.

Um dos desafios a ser destacado – no âmbito da constituição de uma comunidade ampliada de pesquisa-ação, a partir de uma instituição renomada no campo da ciência e tecnologia como a Fiocruz, num contexto de grande vulnerabilidade socioeconômica como Manguinhos − é garantir que os materiais da Maleta, como dispositivos de mediação e tradução, incorporem o saber dos moradores na produção do conhecimento. A questão aqui, sobre a qual nos debruçamos desde a criação do LTM, e que para nós deve estar sempre presente de forma a interrogar o sentido da nossa prática, é como superar as barreiras e assimetrias entre o discurso técnico-científico, com seu caráter normativo e impositivo, das falas, e as necessidades e formas de compreensão das comunidades.

Outro desafio refere-se às tensões trazidas por nosso lugar social, e às demandas produzidas pelos participantes do processo. Podemos destacar aqui: as dificuldades de comunicação e articulação com instituições, organizações e lideranças locais que disputam espaços de poder e veem com desconfiança iniciativas a elas não subordinadas; os diálogos com moradores solicitando ou cobrando soluções por parte da instituição e de pesquisadores que teriam condições de influenciar autoridades na solução de problemas emergenciais, seja a colocação de sinais de trânsito ou a solução para os moradores das moradias mais precárias.

Neste ponto, podemos dizer que o processo de compartilhamento, além de exigir paciência, persistência e uma permanente (re)avaliação de possibilidades de diálogo, reafirma a visão da Maleta como dispositivo de comunicação. Ela carrega não apenas a memória do lugar e das mudanças ocorridas, dentro e fora de Manguinhos, na cidade e em todos os espaços de produção da saúde, mas o potencial de dinamizar novos ciclos de comunicação, formação e transformação a partir de sujeitos individuais e coletivos que constituem o território em movimento que almejamos, para além de políticas econômicas, urbanas, sociais e de saúde que não os consideram como sujeitos.

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