Dispositivos infocomunicacionais em saúde

Dispositivos infocomunicacionais em saúde

Autores:

Regina Marteleto,
Helena Maria Scherlowski Leal David,
Mariana Bteshe

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.18 supl.2 Botucatu 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622014.0383

Nada nos seduz, nada nos atrai; nada desperta nosso ouvido, e nada cativa o nosso olhar; nada por nós é escolhido na profusão das coisas, e nada pode abalar nossa alma, que não esteja, de algum modo, ou preexistindo em nosso ser ou secretamente sendo almejado pela nossa natureza1 (p.101).

Pesquisas conduzidas pelo grupo Cultura e Processos Infocomunicacionais (Culticom)1,(d), do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e a Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) − PPGCI/IBICT-UFRJ, com apoio em práticas de construção compartilhada do conhecimento, produzem experimentos que visam representar o universo de questões, vivências e interesses de populações de periferias urbanas em torno da problemática da saúde. No período entre 2004 e 2011 o grupo criou o Almanaque da Dengue, o Zine Violento e o Almanaque do Agente Comunitário de Saúde, em diferentes projetos de pesquisa. Eles são chamados de “dispositivos de informação e comunicação em saúde” no sentido de que um dispositivo é, na sua essência, um agenciamento de elementos com a intenção de articular meios em função de uma finalidade ligada a uma situação, a qual exerce constrangimentos e impõe limites2,3.

Figura 1 Formas híbridas da informação científica e do saber popular expressas em imagens, ilustrações, provérbio e música. 

Um dispositivo é, portanto, algo inscrito em um projeto, tendo uma missão ou finalidade a cumprir, numa situação particular, o que representa a sua força fundante e sua razão de ser, tanto quanto as limitações que pesam sobre os seus objetivos4.

Figura 2 Por meio de um eixo reflexivo o dizer popular aciona uma figuração textual e imagética das questões de saúde. 

Os dispositivos teriam potencial de reavivar saberes e práticas em saúde presentes na cultura de um povo, país ou comunidade para gerar um “terceiro conhecimento”, quando em diálogo com outras formas de saber − o científico, o jornalístico, o literário, o artístico, por exemplo. A linguagem hipertextual é empregada para representar as redes sociais, cognitivas e semânticas desses diálogos de saberes. Por isso, a importância do emprego de diferentes linguagens (verbal e imagética) e o incentivo do trânsito entre elas, baseados no princípio de que o leitor ou expectador é sempre ativo no processo de interpretação das imagens e dos textos. Mais do que um suporte técnico-metodológico, o dispositivo pode ser um meio de expressão a ser apropriado pelos interlocutores, na articulação intersemiótica entre formas de representação da cultura criada e vivida5.

Por que os Almanaques?

O Almanaque foi o formato escolhido para dois dispositivos – o Almanaque da Dengue e o Almanaque do Agente Comunitário de Saúde − por ser um gênero informacional que se aproxima de uma forma narrativa híbrida, mesclando diferentes tipos de saberes, suportes imagéticos (fotos, ilustrações, etc.) e elementos textuais (populares, científicos, literários, poéticos, jornalísticos, etc.). Desde sempre, o almanaque é uma enciclopédia ou um hipertexto popular.

Figura 3 Jovens associam a violência às vivências familiares e sociais. Emprego de imagens e ilustrações contrastando o diálogo e a agressão verbal e/ou física. 

Figura 4 A arte é abordada em suas diferentes facetas – lazer, cultura e criatividade – como mediação para expressar a violência cotidiana. 

Por que o Zine?

O Fanzine é um formato de comunicação que reflete os modos de interação e expressão dos jovens. Por isso o Zine Violento foi construído como mediador da temática da violência associada à identidade, ao território e às redes de interação de jovens de periferias das grandes cidades. A arte surge como meio para enxergar o contraste entre as máscaras (a realidade que se mostra e que se esconde) e os espelhos (a realidade que se reflete e que se vive). A linguagem hipertextual é dinâmica, com amplo uso de imagens, símbolos e cores.

Figura 5 As experiências cotidianas de jovens aparecem como depoimentos alternativos ao discurso midiático. A escola é apresentada como um espaço para troca destas vivências. As linguagens popular e musical reforçam a importância de uma posição crítica dos jovens diante da violência. 

Figura 6 Um jogo de palavras e imagens para provocar conversações entre os ACS sobre a diversidade de suas tarefas. 

Figura 7 A literatura para refletir sobre o país e a palavra especializada para ampliar o pensamento sobre a saúde. 

REFERÊNCIAS

Valéry P. Eupalinos ou o Arquiteto. 34ª ed. Rio de Janeiro, 1996.
Foucault M. Le jeu de Michel Foucault [entretien avec D. Colas et al]. Ornicar? Bulletin périodique du champ freudien, n.10, p.62-93, juillet, 1977.
Agamben G. Qu’est-ce qu’un dispositif? Paris: Ed. Payot & Rivages, 2007.
Marteleto R, Couzinet V. Mediações e dispositivos de informação e comunicação na apropriação de conhecimentos: elementos conceituais e empíricos a partir de olhares intercruzados. RECIIS – R. Eletr. de Com. Inf. Inov. Saúde. Rio de Janeiro, v.7, n.2, Jun., 2013.
Aumont JA. Imagem. Campinas, SP: Papirus, 1993.
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