Dispositivos pedagógicos de educação em Saúde Coletiva

Dispositivos pedagógicos de educação em Saúde Coletiva

Autores:

Elisandro Rodrigues,
Jose Geraldo Soares Damico

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.22 no.64 Botucatu jan./mar. 2018 Epub 20-Jul-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622017.0016

ABSTRACT

This text addresses pedagogical devices of Health and (in) Health Education using as a background the theme of life medicalization. It considers the theoretical perspective of the Philosophy of Difference and operates with the image of thought as a way to produce the new by means of the experience and the pedagogical device of “workshop-classes”. Cartography has been used as a research method. The main idea of a Lifetime Clinic is presented as a micro-political operation to mobilize immanent processes in Health and Education. Finally, it points out three instants: the Utopian Instant as the support of the little lights; the Any Instant for shrapnel production; and the Ludic-Pedagogical Instant as a possibility of a child-becoming. As a result, writing talks about ways of caring and producing health in contemporaneity.

Key words: Lifetime Clinic; Health education; Medicalization; Workshop-classes

RESUMEN

Este texto trata sobre dispositivos pedagógicos de Educación y (en) Salud, teniendo como telón de fondo el tema de la medicalización de la vida. Se inscribe en la perspectiva teórica de la Filosofía de la Diferencia y opera con la imagen del pensamiento como producción de lo nuevo, por medio de la experiencia y del dispositivo pedagógico taller-clases. Tiene como método de investigación la Cartografía. Se presenta la idea-fuerza de Clínica de una Vida, como una operación micro-política para mover los procesos inmanentes en la Salud y en la Educación. Se concluye trayendo como proceso de pensamiento tres instantes: El Instante Utópico, como sustentación de las pequeñas luces, el Instante Cualquiera, de producción de residuos y el Instante Ludopedagógico, como posibilidad de un devenir-niño. Como resultado, se tiene una escritura que habla sobre modos de cuidar y producir salud en lo contemporáneo.

Palabras-clave: Clínica de una Vida; Educação en salud; Medicalización; Taller-clases

Das palavras iniciais (ou de um breve começo)

Jaffe1 narra no “Livro dos começos” algumas maneiras de começar. Mostra, com isso, que é possível começar de muitos jeitos. Pensa-se aqui que o começar é como um novelo de lã, ou de linha colorida, que marca e tece uma superfície com cor e textura. Mas, para que exista esse começo, com essa linha, precisa-se abrir o pacote lacrado; porém, basta apenas um puxão para vir à tona a textura desse fio e para que o começo desse fio perca-se no colorido que envolve a si mesmo. Não existe um método para abrir essa embalagem, para puxar o fio e começar a tecer. Para esse começo é necessário um golpe de força, a linha está esperando sua entrega, um puxão para tecer, costurar, desenhar, traçar, escrever e viver a escrita das coisas, para se fazer escritura.

Da mesma forma, existem métodos para espalhar uma tinta azul na folha, como o deslizar de uma caneta que em diferentes forças marca e deixa seus rastros. Ou um dedo que mergulha e espalha a tinta em uma dada superfície. Existem jeitos, maneiras, instrumentos, ferramentas que são possíveis para iniciar uma escrita, assim como o romper da embalagem de um novelo de linha. A embalagem precisa ser rompida, para a tecitura se iniciar, o que enquadra e prende as possibilidades e os devires precisa soltar-se, saltar-se, a tinta para o papel, o papel para a tinta. “O texto se faz, se trabalha por meio de um entrelaçamento perpétuo”2 (p. 81), a embalagem embaralha um possível entrelaçamento. Dá-se um começo: os dedos movimentam-se; a embalagem, com uma intensidade de força, rompe-se; o conteúdo é exposto. Um novelo de linha multicolor. A tinta encontra o papel. Faz-se uma escritura. Inicia-se um método. Cria-se um começo.

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Este texto é um fragmento da pesquisa que tem por nome “Por uma Clínica de uma Vida: estilhaços de Educação e(m) Saúde”. Tem por objetivo pensar os modos de vida no contemporâneo e os processos de medicalização da vida por meio de um dispositivo pedagógico pensado para aproximar a área da Educação e da Saúde que foi chamado de oficinaulas.

O texto divide-se em quatro fragmentos. Parte-se inicialmente de uma contextualização sobre o escrever, tomando como ato da escrita e escritura; em seguida, fala-se sobre o pesquisar na Educação e na Saúde com a Flosofia da Diferença. Posteriormente, disserta-se sobre o que se entende por Clínica de uma Vida, explicando-se o processo de pesquisa e levantamento dos dados por meio do dispositivo pedagógico oficinaulas e, por fim, conceitualizam-se oficinaulas.

Da escrita de um texto (ou do suportar a vaziez da escrita e da pesquisa)

A escritura, ou o texto, é “todo discurso em que as palavras não são usadas como instrumentos, mas encenadas, teatralizadas como significantes. Toda escritura é portanto uma escrita, mas nem toda escrita é uma escritura...”3 (p. 70). Esse texto, que se faz escritura, fala da vida no contexto contemporâneo. Dos arrepios, dos acidentes, dos incidentes de uma vida, “do olhar que vagueia por outros sons, do ouvido que escreve outras palavras, das mãos que sentem a textura de outras paisagens...”4 (p. 15), de estar à deriva, sem gravidade, deslocando-se em um espaço vazio. Fala dos processos de medicalização da vida no contemporâneo, que captura a existência do eu, diminuindo ou aumentando a potência do viver. Mas como escrever uma vida, ou sobre (um)a vida?

Escrever é muitas vezes ficar “sem eira nem beira, como se costuma dizer, desamparado, em busca de algum ponto de apoio, e imperiosamente se recomeça, na vaziez”5 (p. 87). É necessário suportar a vaziez6 do texto, das perguntas, das respostas e do tempo da escrita. A vaziez não de sentidos, pois os sentidos estão espalhados em cada fragmento de pensamento, estão suspensos para uma possibilidade de recriação; “não adianta nada acochambrar sentidos fáceis ao que recusa a ordem”5 (p. 87).

“Eu aprendi que a vaziez é uma das qualidades mais desejáveis” para que “você atravesse e saia do outro lado” do texto e da vida, como comentava Wally Salomão ao referir-se ao trabalho de Hélio Oiticica. Para suportar a vaziez, precisa-se “fazer uma suspensão voluntária da continuidade produtiva, exatamente para que possa vir o surpreendente, o inesperado, o que não está sendo pensado”6 (p. 133). Blanchot nos fala que a escrita é uma grafia, uma arranhadura nas folhas, no texto. O a(in)cidente, o salto de um pingo azul para a folha branca, torna-se uma ranhura. É uma vaziez, um resto, é sobra, e assim pergunta-se: o que pode saltar do que ainda não está escrito? Que uma Vida se vive no contemporâneo?

Ao pensar sobre a escritura no próprio texto que se escreve, o mesmo mostra-se como um buraco transbordando questões, perguntas e pensamentos. Ou seja, rompe-se com a ideia de uma resposta única, verdadeira e universal. Ao mesmo tempo, vai escoando um silêncio e uma vida. Entende-se que “o sujeito que escreve é produzido pelo gesto de sua escritura, não preexiste a ela, vai sendo, de forma errante, inventando seus passos”5(p. 88). Porém, percebe-se que, em algumas ocasiões, “a escrita ‘científica’ deixa poucos rastros das inúmeras implicações que a teceu”7 (p. 147).

A escritura é esse deslocamento que produz o a(in)cidente. E é pelo movimento da escritura que podemos “extrair na vida o que pode ser salvo, o que se salva sozinho de tanta potência e obstinação, extrair do acontecimento o que não se deixa esgotar pela efetuação, extrair no devir o que não se deixa fixar em um termo”8 (p. 89). É na escritura que podemos deixar a vida saltar, que podemos registrar de outros jeitos uma vida.

A escrita acontece por a[in]cidente; do que (res)pinga aos poucos, no que vamos procurando, grudando e guardando; do que vamos lendo, escrevendo, recortando, montando em forma de um texto por vir. A escrita se faz escritura na forma, no jeito de se escrever, na vida que desliza para a ponta da caneta. E “só é preciso ter um pouco de paciência e aguardar; a vida virá ao nosso encontro nos locais mais incríveis”9 (p. 143), assim como os modos de escrever uma vida. Mas, mesmo que se ache uma forma, ela não é total, única, verdadeira. É um pedaço, um fragmento que diz de uma vida, ou seja, nunca se dirá o todo de uma vida.

Aposta-se em uma mistura de escrita e leitura nas quais possa-se temperar uma por “meio da outra”7 (p. 148). Quer-se, nessa escritura, forjar composições, desenhos, arquiteturas invisíveis; jogar com noções, conceitos, ideias, saberes. Pretende-se operar conceitos, como diria Deleuze, e não explicar cada passo, cada frase, cada pensamento. Criar um instante (momento) qualquer, uma suspensão para o que se escreve, para o que se pensa, para, assim, esboçar rascunhos de escritura sobre uma vida.

Do pesquisar (de uma pesquisa n(d)a diferença)

Assim como se precisa de um começo, precisa-se de um método para pesquisar. Como os começos se dão de diferentes formas1, pensa-se que o pesquisar não precisa dar-se com um método delineado, como os passos ordenados dos manuais de metodologia cientifica ensinam. Existe um começo já conhecido, no qual, primeiramente, deve-se estabelecer uma pergunta ou um problema de pesquisa. A seguir, investiga-se o que foi produzido sobre o tema, tudo para certificar-se de que a proposta é relevante cientificamente.

Seguindo a prescrição dos manuais, desenha-se o método da pesquisa, pensa-se nos sujeitos e nos dados nos quais a pesquisa vai ser realizada. Depois de delimitado o jeito de se fazer, vai-se a campo para coletar as informações; posteriormente, fazem-se o tratamento e análise dos dados coletados e, por fim, a escrita do relatório de pesquisa. Os resultados de pesquisa devem ser divulgados e apresentados para a comunidade cientifica, e as publicações são geralmente realizadas com apresentação de trabalho em eventos científicos e/ou publicação de livros e/ou artigos em periódicos indexados.

Esse é um começo, uma condição de possibilidade para se fazer pesquisa. Para alguns, a intensidade do pesquisar cabe nessa forma, mas aqui, nesse texto, não. Fazem-se necessárias outras possibilidades. Outros começos.

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Precisa-se de uma pesquisa que se invente ao pesquisar, que pesquise pelo entre, na terceira margem, em travessia, em um lugar mestiço, que não navegue em uma prescrição já estabelecida por manuais acadêmicos e científicos, mas que ouse outros dispositivos, começos e métodos de pesquisa em educação e saúde. Começa-se pelo meio, “nesse lugar-meio encontra-se aquele que aprende, que entra em alteridade, que se depara com fragilidades”10 (p. 266).

Tece-se por espaços pequenos, pelos cantos, com uma mistura de elementos, de forma antropofágica, alimentando-se do que se pretende pesquisar, para, assim, “experimentar o experimental”11. Pesquisar, dessa forma, com um método que indique e não prescreva os caminhos, no qual se possa sujar, misturar, pensar, falar sobre, voltar atrás, errar.

Em vez de entrevistas semiestruturadas, questionários e dados para quantificar, utilizar tinta, dedo, linha, corpo, tesoura, cola, tecido, papel, imagem, audiovisual, música. Pesquisar de uma forma na qual os pormenores de uma vida se potencializem nos movimentos sutis de escuta e escrita, em que a palavra tenha sensações e produza vibrações; em que a palavra seja escritura.

Pesquisar uma pesquisa n(d)a diferença. Pesquisa-se utilizando a cartografia como método e o biografema como intercessor metodológico. A pesquisa cartográfica, ao operar conceitos e ideias, ao acoplar saberes formais e saberes de experiência, é, ainda, “um exercício de acoplamento das perguntas de pesquisa e questões de si, dos encontros e do mundo (um processo de formação: educativo, de subjetivação e de composição de saberes)”12 (p. 3). Criam-se jeitos de se pesquisar. Inventam-se modos e métodos, nos quais o problema a ser resolvido brota pelo meio, gerando novos problemas e novas perguntas, como se pintássemos “nas paredes zigue-zagues de perguntas. De respostas. De movimentos de afetos” em que “rizomatizamos nossas andanças”13 (p. 45).

Pensando assim, uma metodologia de pesquisa é sempre invenção, sempre criação de um fazer, ou seja, é pedagógica, “pesquisa como invenção em vez de prescrição”14 (p. 21). O próprio movimento de pesquisar torna-se um dispositivo pedagógico de trabalho com a educação e a saúde. Esse processo de pesquisa, que se apresenta nesse texto, fez-se com experimentação, com (re)escrita e (re)leitura, utilizando a cartografia como intercessor metodológico, furando com um modo, imagem hegemônica de pensamento, criando uma nova imagem do pensamento. Em uma biografia, o que se torna importante são os momentos importantes, de maior destaque, do sujeito biografado. No biografema e na cartografia, escreve-se a vida com uma lupa, olhando os pequenos acontecimentos, os pormenores de vida, os instantes quaisquer. Volta-se para a potência dos detalhes, do (por)menor; é como um punctum, uma pequena “picada, pequeno orifício, pequena mancha, pequeno corte – e também lance de dados”15 (p. 35).

Operar com esse intercessor metodológico é trabalhar com os pormenores de vida n(d)o cotidiano da saúde e da educação, nos a(in)cidentes do pensar e no trabalho vivo em ato; “trata-se de um verdadeiro procedimento de invenção, pelo qual a vida é aquilo que deve ser escrito, e não algo com o qual a escrita deva buscar alguma adequação”16 (p. 54). É um modo de ler, de escrever, de falar, de desenhar, pintar, cartografar, riscar, rasurar uma vida. É uma forma de tentar escrever os pormenores em uma variação, em uma tradução, misturando leitura, escrita e vida. Implica disparar movimentos de pensamento, “o que significa escrever os detalhes de uma vida, as raridades que passam despercebidas ou que ainda não foram significadas e partilhadas”17 (p. 21).

Utilizar, dessa forma, a cartografia e o biografema como intercessores metodológicos é deixar vibrar os acontecimentos, é pesquisar o cotidiano em saúde e educação mergulhando-se nos processos que afetam a formação e as experiências que constituem o fazer pesquisa, “como investigação-ação e como aprendizagem em ato de pensamento provocado pela participação, por isso a pesquisa da realidade em saúde como pesquisa-formação”12 (p. 4). “Situar o pesquisar no âmbito daquilo que pode ser proliferado para diversas direções, cada qual de acordo com a potência dos corpos que pesquisam”18 (p. 9-10). Busca-se, assim, algo que o(a) force a pensar, que rasgue a embalagem, para um uso abusivo e utópico de outros jeitos de pesquisar e de fazer pesquisa, outros modos para pensar uma Clínica de uma Vida.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo CEP em 26 de fevereiro de 2015.

Por uma Clínica de uma Vida (ou dos conceitos e resultados)

Entende-se “medicalização da vida” como os dispositivos de captura dos modos de viver que realizam um corte na expansão das vontades de potência, o que restringe e limita a vida. No contemporâneo, essas capturas ocorrem de diferentes formas: pela patologização, pela farmacologização, pela judicialização e pela subjetivação. A todo instante, são criadas novas formas de governamento sobre as vidas, ao tentar controlar as virtualidades e as vontades. Contudo, as antigas formas de captura continuam exercendo força e domínio, tais como a escola, o hospital psiquiátrico, os asilos e a polícia. A medicalização da vida está sempre de conluio com uma forma de fazer clínica: a que diminui as potências.

Essas imagens de representação de mundo indicam, em seus fragmentos, a ideia da captura de existências. A medicalização pode ser pensada como o que esgota, (des)pontecializa e domina a vida, como um dispositivo que se legitimou como fenômeno coletivo, uma biopolítica, que opera como analisador de um processo em disputa pela existência de um dado modo de vida e do que movimenta a produção dos eus no contemporâneo. “Se quisermos uma metáfora: a medicalização é apenas a ponta do fio de um novelo mais emaranhado. Tal colocação é importante precisamente porque não está em questão exatamente se a medicalização é um processo bom ou ruim”19 (p. 33).

Ao pensar a medicalização da vida, vive-se em um jogo de profanações, pois se está imerso e enraizado em um mundo que medicaliza as existências de inúmeras formas; por exemplo, tomando chimarrão, vendo seriados, jogando futebol, tomando a cerveja do fim de semana e realizando compras. Mas essa forma é, em algumas vezes, também uma profanação, uma linha de fuga que rompe com a necessidade de prescrição por medicamento. Rompe-se com modos de vida criando outros modos de se viver.

A medicalização está na superfície ao nosso redor, muitas vezes aprofundada nas subjetividades contemporâneas. A medicalização da vida é uma força invisível que exerce poder sobre os corpos, individuais e coletivos, causando-lhes sensações que (des)potencializam os modos de viver. “A força tem uma relação estreita com a sensação: é preciso que uma força se exerça sobre um corpo, ou seja, sobre um ponto da onda, para que haja sensação”20 (p. 62). Duas perguntas que ficam sem resposta: O que nos medicaliza? Onde está o que nos medicaliza?

Por isso, se faz necessário pensar em dispositivos que aumentem as vontades de potência. No decorrer da pesquisa, no agenciamento de leituras e vivências, o termo “Clínica de uma Vida” mostrou-se como uma ideia-força para dizer de um lugar, de um espaço onde a vida acontece na sua imanência, onde o olhar, a escuta e a palavra são usados para inventar e criar novos mundos. Uma Clínica que é menor, que diz de uma política da vida que promove forças que escampam, que vazam.

“Clínica de uma Vida” como imagens que ardem, que agenciam e produzem encontros (alegres ou tristes) em que os sujeitos, em suas dimensões política-ética-estética, são corpos que vibram e pulsam existências. “Clínica de uma Vida” como um instante utópico que fura, que abre frestas, que desperta e lampeja. “Clínica de uma Vida” como um espaço que não é nem aula, nem oficina, mas sim um agenciamento dos dois, uma “oficinaula” que coloca a pensar: quais as imagens que sobrevivem, de saúde e educação? O que nos medicaliza? E onde está o que nos medicaliza?

Pensar em uma “Clínica de uma Vida” é possibilitar espaços de “oficinaulas” que disparem, criem, produzam perguntas, vida, saúde, educação, imagens; que aumentem as potências e façam refletir sobre as possibilidades de uma Clínica da Saúde Coletiva, de uma Pedagogia da Saúde Coletiva.

Oficinaulas

Clínica de uma Vida é um processo de criação, de invenção, fabulação, experimentação. A experiência é algo que transforma, que marca, como lembra Foucault: “a experiência é alguma coisa da qual a gente mesmo sai transformado...”18 (p. 18). Ele comenta também que “uma experiência é alguma coisa que se faz só, mas que não se pode fazer plenamente senão na medida em que escapará à pura subjetividade e que outros poderão, não digo retomá-la exatamente, porém ao menos cruzá-la e atravessar de novo”21 (p. 47).

Foucault fala da experiência no processo de escrita, na produção e no atravessamento da escrita de seus livros. Tanto na escrita quanto na leitura, no vivenciar os estilhaços da vida, somos afetados, marcados pelo que vemos, lemos, escutamos, tocamos e pelo o que nos toca. Uma experiência se faz sozinho, mas também pode ser realizada no coletivo, com outros.

As oficinaulas realizadas, nesse processo de pesquisa, foram um espaço de experiência, de imaginação, de invenção. Uma mistura de espaços-tempos pequenos, mas vivenciados de forma antropofágica. Como diria Waly Salomão11, um experimentar o experimental. Sendo assim, não se quer apenas contar essas experiências, mas fazer um exercício de imaginação, dado que “para saber é preciso imaginar-se… para recordar é preciso imaginar”22 (p. 15).

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As oficinaulas aconteceram no projeto de pesquisa intitulado “Por uma Clínica de uma Vida: Políticas de Cuidado na Educação e Saúde”. Foram realizados quatro encontros, cada um com a duração de duas horas. A primeira oficinaula teve como tema “Modos de cuidar e produzir saúde: dos azuis”; em seguida, “O que pode um corpo no contemporâneo?”; a terceira teve como disparador o tema “De uma vida anônima e passante”; por fim, o tema foi “De como (res)pingar uma vida”.

As oficinaulas foram abertas ao público via inscrição, sendo possível a participação pontual, mas os inscritos foram informados da importância do percurso dos quatro encontros. No processo de inscrição, contou-se com trinta solicitações. Alguns pedidos surpreenderam, como os de professores vinculados a universidades da região metropolitana de Porto Alegre, para participar de encontros pontuais com seus respectivos alunos. As oficinaulas tiveram uma média de participação de 15 pessoas por encontro.

O perfil dos participantes foi heterogêneo, sendo o maior grupo pertencente à área da saúde, principalmente da saúde mental coletiva. Havia também profissionais que trabalhavam em serviços substitutos, nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e trabalhadores de redes municipais de saúde, sendo que alguns ainda estavam no percurso de Residência Multiprofissional em Saúde (Coletiva, Mental, Saúde da Família). Outro grupo foi o de profissionais da educação que atuam em espaços escolares. Um terceiro grupo foi formado por estudantes de graduação da Educação e da Saúde e interessados no tema da medicalização da vida.

Para a condução das oficinaulas, foram convidados agenciadores, pesquisadores envolvidos em projetos de pesquisa e extensão sensíveis a outros jeitos de pensar a vida, para desenvolverem as temáticas específicas do corpo, da dança, da escrita. A preparação das oficinaulas deu-se em encontros e conversas prévias com os facilitadores de cada dia. No primeiro momento, discorreu-se sobre o que se havia pensado para aquela temática específica, apresentando-se o tema e posteriormente afinando-se um percurso de trabalho para cada data. Todos os facilitadores participaram voluntariamente do projeto.

Após a finalização dessas oficinaulas, observou-se que cada uma operou como um modo de fazer Clínica diferente, sendo elas: Clínica da memória/escavação, Clínica dos corpos/movimento, Clínica do estilhaço e Clínica da escrita/testemunho, aproximando-se, posteriormente, de uma possível ideia/conceito/termo/palavra que diga da potência das oficinaulas e da Clínica de uma Vida.

Conceitualizando oficinaulas

As vivências nas oficinaulas proporcionaram uma gama de material empírico. Páginas e mais páginas de conversas, debates, encontros. Tornou-se difícil transcrever essa experiência e tornar as palavras em imagens ou as imagens em palavras. Os espaços das oficinaulas foram espaços de afecção, de encontros, colocando os pesquisadores implicados nas produções de vontades e vida. Colocar o pensamento para produzir imagens e jeitos e para rachar as palavras e as coisas.

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As oficinaulas não queriam ser apenas encontros de formação e discussão sobre a temática da medicalização da vida. Nem aulas. Nem oficinas. Queriam pensar de outro modo. Dessa forma, realizou-se a junção dos dois termos “oficinas” e “aulas”, formando-se “oficinaulas”. Retoma-se aqui a ideia de oficina como um espaço de criação em que o processo de trabalho se dá de forma manual e artesã. O termo oficina vem do latim opificius, “artesão”, com a junção de opus, “obra” e facere, “fazer”– fazer de forma artesanal uma obra.

Oficinar é realizar um processo de pesquisa, de criação e de inovação, e sua matéria principal é a vida23. Oficinar é produzir artistagens24,25, ou seja, criações; é colocar o pensamento para produzir imagens, jeitos; rachar as palavras e as coisas. Envolve encontros que se fazem com ética, estética e política para um cuidado e uma invenção de si mesmo. Trata-se de agenciar, assim, outras linguagens, como foi realizado nesse projeto com a dança, com as sensações e sentidos, com a arte, a literatura, a música, o cinema e a fotografia. Oficinar nas oficinaulas é trazer para a mesa o que preocupa, o que nos ocupa no cotidiano, isto é, problematizar os processos de trabalho, os fazeres e os modos de viver.

Oficinar é “extrair acontecimentos das coisas, dos corpos, dos estados de coisas, dos seres”, para, dessa forma, “traçar, inventar, criar linhas, que dobram os saberes, fazeres, sentires, uns sobre os outros: consoando a Filosofia, a Matemática, a Música, a Sociologia, a Literatura, as Artes Visuais, as Ciências, etc”. Com isso, podem-se “rejeitar as modelizações confinantes, que negam o novo e requerem, apenas, regularidades, médias e métricas: priorizando a poética, o processual e a reversibilidade”23 (p. 55).

Aula, por sua vez, remete-nos a imagem de uma sala de aula, com cadeiras em linhas até o quadro negro/verde, a um professor e a um processo de aprendizagem. Proveniente também do latim, “aula” (no grego, “aulé”) lembra os palácios onde aconteciam as lições, lugares onde se recebia o conhecimento e onde ocorria uma exposição didática feita por um professor.

A aula já está cheia. Como nos diz Corazza25, ela possui “dados” que já estão prontos como “dados de conhecimento de verdade, que determinam aquilo que é ensinado (o conteúdo) e a maneira como é ensinado (a didática)” (p. 24); dados dos alunos, de suas notas e provas e de como e em que espaço eles estarão sentados nas carteiras, ou seja, são dados dos “valores instituídos da aula”. Existe a possibilidade de criação em uma aula. Não nega-se isso, mas o princípio e a imagem que nos vêm ao pensarmos e ao lermos a palavra “aula” são os mencionados acima – uma imagem dogmática do pensamento. Pensa-se que uma aula possa ser de invenção, de criação, na qual o exercício da leitura e da escrita possa estar presente como possibilidade de abertura de mundos e na qual a vida acontece por fabulações. Aula que trascria em educação e em saúde. Um nova imagem do pensamento.

Ao colarmos os termos, produzimos uma variação, um movimento, uma parafernália que chamamos de “oficinaulas”. Um “entre” que funciona na produção de conhecimento e aprendizagem, como na construção da vida como obra de arte. As oficinaulas se prestam à criação de instrumentos, de dispositivos, de ferramentas para o trabalho com crianças e adolescentes, jovens e adultos. As oficinaulas versam sobre escola, aula, atendimentos, clínicas, planos diversificados, inventos inclusivos, atividades compartilhadas, docência compartilhada, ludicidade, riso e contemporaneidade na vida, na saúde e na educação. Em grande medida, as oficinaulas tratam da diferença daquele que vive em fuga, por linhas de fuga26.

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Para tanto, conceitualizam-se esses espaços de encontro, essas oficinaulas, dentro de uma Pedagogia dos Pormenores27, ou uma Pedagogia da Saúde Coletiva. Retoma-se aqui uma ideia de pensar a pedagogia e a clínica a partir do menor, das pequenas resistências que potencializam a vontade de viver e de pesquisar.

Pensar uma Pedagogia dos Pormenores/da Saúde Coletiva é estar atento aos pequenos in(a)cidentes cotidianos/ou de uma vida, em que o menor se potencializa nos movimentos sutis de escuta e escrita.

Nesse espaço habitualmente unário, por vezes (mas, infelizmente, raras vezes) um “pormenor” chama-me a atenção. Este “pormenor” é o punctum (aquilo que me fere). Do ponto de vista da realidade (…) toda uma causalidade explica a presença do “pormenor” (…) o pormenor é dado por acaso e mais nada15. (p. 51)

Trabalha-se com os microacontecimentos, com aquilo que foge ao olhar, à escuta, ao som e à escrita; com aqueles pequenos restos, sobras que não se tem por importante; com aquilo que se escapa; e com as vidas que escapam e escoam. Olhar para esse pormenor, deixar que ele nos afete, que ele escape para a gente, de maneira que o ato de aprender se engendre potencialmente com novas possibilidades de vida e com outros modos de criação e denominação do que se enfrenta de forma corriqueira. Pormenores e parafernálias que afirmam um processo intensivo de aprendizagem, composto em um fluxo de linhas desejantes capaz de fazer variar os modos habituais com que os corpos se articulam: no contrassenso, no dissenso, na divergência, no inusitado, no paradoxal, no hábito26.

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Cada oficinaula operou como um modo de fazer Clínica ao produzir reflexão e lampejos. Anteriormente, falava-se que se entendia Clínica de uma Vida como imagens que ardem, como aquilo que agencia e produz encontros alegres ou tristes. Aproximam-se os termos de oficinaulas à Clínica de uma Vida. Dessa forma, pensa-se que oficinaulas são os espaços (ou não espaços) nos quais acontece a Clínica de uma Vida.

Nas oficinaulas é onde a Clínica de uma Vida pode atuar, uma Clínica que resgate as memórias das infâncias, que escave a superfície para encontrar o que está perdido, esquecido, enterrado. Uma Clínica que produza movimentos, possibilidades de voos; que desritmize e ritmize em outras cadências. Uma Clínica que estilhace os pensamentos, que deixe em silêncio, que fragmente e faça olhar os pormenores de uma vida. Uma Clínica testemunho que deixe marcadas, registradas, nos corpos de quem a vivenciou, as experiências, as afecções, as vontades de vida, e que lance aos outros, ao mundo, manifestos em favor do que aumenta nossa vontade e nossa potência.

Por fim, oficinaulas como espaços nos quais a Clínica de uma Vida pode sempre ter presente a “inquietante estranheza”28. Oficinaulas nas quais pode acontecer uma Clínica de uma Vida como um dispositivo pedagógico de educação e(m) saúde em três derivações e agenciamentos de: 1) Instante Utópico: como sustentação das pequenas luzes29; como sustentação das imagens menores – dos pormenores; como o ainda não, rasura, como instante/vontade utópica; 2) Instantes Quaisquer: em que nos colocam em intervalos e hiatos de tempo nos quais o novo pode acontecer, em que rompe com os aparelhos de captura, que produzem variação no mesmo, e se rompe com os sintomas que nos prendem a uma vida medicalizada; 3) Instante Ludopedagógico: em que os processos de ensino e aprendizagem se misturam com jogos, imagens, cinema, música; a experiência estética fala mais alto, não na afirmação da beleza, mas na afirmação de tudo o que produzimos é material estético; em que saúde e educação são pensados conjuntamente.

Para (não) finalizar

Uma vida são fios de multiplicidades; ela sempre acha por onde vazar, por onde escoar. Sendo assim, para dar outro começo a esse inacabamento, pode-se dizer que escrever, em meio a uma pesquisa e a uma Clínica de uma Vida, é fazer deriva – “alguém que se perde, se cansa, reconquista o ritmo e retoma seu inexplicável trajeto”. É deixar o traçado do desenho se construir como um “sujeito em fluxo, cavando espaços, que sejam lá minúsculos, de produção de um presente cotidiano potente, leve e indisciplinado”30 (p. 16). Derivas de possíveis.

Os murmúrios da medicalização estão presentes, principalmente quando se entende que se vive em uma sociedade de captura de desejos. Nas oficinaulas, a temática da medicalização da vida apareceu sempre como problematização dos modos atuais de viver. Percebeu-se, no processo de pesquisa, que existe muito ainda o que se comentar, discutir e estudar sobre esse tema. E as questões “O que nos medicaliza?” e “Onde está o que nos medicaliza?” seguem sem respostas, permanecendo apenas essa estranha inquietação por continuar a encontrar-se com outros, com leituras, com fóruns, para melhor entender e compreender o que está em jogo, para entender essa força (in)visível que (des)potencializa o viver.

Pensar uma Clínica de uma Vida é pensar em uma constituição de si como cuidado e experiência, como afirmação e aposta em uma vida, “uma experiência de criação de si implicada com uma postura ética-estética-política, que tenha, como princípio, uma potência de vida em seus modos indissociáveis de resistir/afirmar e de criar”31 (p. 519). Pesquisar essa Clínica de uma Vida é um processo de experimentação, de junção de pistas para a criação de mapas nos quais suas linhas transversais se deslocam a toda leitura, formando outros mapas e rompendo com práticas que medicalizam a vida.

Finaliza-se dizendo que existe a possibilidade de “esburacar sua temporalidade e improvisar com seus blocos remanejáveis”, de ressoar, escoar o que ainda vive, de “rachar uma maneira de existir que agoniza e pede para renascer”5 (p. 59), porque a vida sempre acha um furo por onde escoar.

REFERÊNCIAS

1. Jaffe N. Livro dos começos. São Paulo: Cosac Naify; 2015.
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