“Do meu amor ao Paraguai e à raça guarani”: ideias e projetos do naturalista e botânico Moisés Santiago Bertoni (1857-1929)

“Do meu amor ao Paraguai e à raça guarani”: ideias e projetos do naturalista e botânico Moisés Santiago Bertoni (1857-1929)

Autores:

Eliane Cristina Deckmann Fleck

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2019 Epub 28-Nov-2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000400007

O homem, os projetos e as ideias: “uma dupla missão, científica e patriótica”

O naturalista e botânico suíço Moises Santiago Bertoni (1857-1929)1 imigrou para a América com o objetivo de nela instalar uma colônia agrícola, o que se deu, primeiramente, na província de Misiones, Argentina, de 1884 a 1887, e, depois, no Paraguai, de 1887 a 1929. O projeto de fundação de uma colônia autossustentável, com base em teorias políticas e sociais progressistas, tornou-se realidade após a concessão de terras em uma região localizada a dez quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu, que daria origem a Puerto Bertoni. Nessa região do alto Paraná, dedicou-se às pesquisas sobre a fauna e a flora locais e, também, sobre as populações nativas, devido à proximidade da colônia a uma reserva indígena da tribo Mbyá guarani.2 Foram esses estudos que o levaram a, posteriormente, afirmar que o termo civilização podia ser definido como “o desenvolvimento da agricultura como base da vida material, da moral como base da vida psíquica, das artes como gozo e relação, e da liberdade e da democracia como meios de dignidade individual e coletiva” (Bertoni, 1914, p.70-71).3

Sabe-se que em Puerto Bertoni ele manteve uma biblioteca com mais de 17 mil obras,4 laboratórios experimentais e também uma gráfica – a Ex Sylvis – e uma agência de correio, por meio da qual despachava seus trabalhos para revistas e bibliotecas científicas de vários países, e cuja difusão e leitura garantiram-lhe convites para representar o Paraguai em congressos científicos internacionais.5 Durante as mais de quatro décadas em que viveu entre a Argentina e o Paraguai, Bertoni empenhou-se em manter contato com outros cientistas e com a produção dos maiores centros de pesquisa científica da Europa e da América.6

Entre seus trabalhos mais importantes estão o Almanaque agrícola paraguayo y agenda del agricultor (1901), Las plantas usuales del Paraguay (1901), Agenda y mentor agrícola: o guía del agricultor y del colono (1926); os artigos publicados na Revista de Agronomía e nos Anales Científicos Paraguayos; a obra – não concluída – Descripción física, econômica y social del Paraguay e, ainda, os três volumes de La civilización guaraní (1922, 1927, 1954). Além deles, devem ser também mencionadas as conferências proferidas em eventos no Paraguai7 e no exterior e, ainda, as relações de viagem.8

Dentre as conferências, cabe destacar as que ocorreram no Colégio Nacional, ao longo de 1913, e que se inserem em um contexto no qual um grupo de intelectuais paraguaios estava empenhado em construir “uma ‘biografia nacional’... uma visão orgânica da nação que adquiria o amadurecimento depois de um lento processo de gestação e de infância não isenta das dificuldades que todo crescimento traz consigo”, por meio de um projeto editorial, “uma obra comemorativa ‘instrutiva e útil’” – o Álbum gráfico de la República de Paraguay: 100 años de vida independiente, 1811-1911 –, que pretendia “resumir o estatístico, o comercial e o artístico sobre o Paraguai”, dando conta “das suas riquezas, da sua sociabilidade, das suas belezas e do progresso do seu comércio e das suas indústrias” (Brezzo, 2010, p.197-200).9 A adesão a esse propósito fica evidenciada nesta passagem extraída de uma das conferências proferidas por Bertoni aos jovens estudantes do Colégio Nacional:

‘Estudar a natureza de sua própria coletividade, com o fim de procurar os defeitos e remediá-los, será sempre obra de um patriotismo muito íntegro’. Mas para a realização do ideal de uma pátria verdadeiramente livre e independente, essa obra não bastará, se, apoiando-se em suas origens, história e virtudes, essa coletividade não souber afirmar com energia e sem reservas sua entidade e seu direito (citado em Baratti, Candolfi, 1999, p.162; destaques nossos).

Em outra delas, Bertoni (1914, p.81) não descuida de ressaltar aos estudantes o quão proveitoso “pode ser para sua pátria o estudo das coisas do passado” e o valor que “os estudos científicos podem ter na solução dos maiores problemas nacionais”, justificando o emprego do conceito “civilização guarani”:

Falei de uma ‘civilização guarani’, e isso pareceu uma notícia nova, causou até certa surpresa, ... porque o índio é índio, todo índio é selvagem, como necessariamente bárbaro. ‘Esse é o conceito geral, desgraçadamente. Mas não é assim... Aqui, evidentemente, há um critério geral muito comum, mas geralmente errado. Consideramos civilizados os povos que têm nossa própria civilização e povos bárbaros os que têm outra’ ... em se tratando de civilização, ‘não temos que considerar nunca a nós mesmos centro da civilização, ... mas sim considerar a civilização algo suscetível de apresentar aspectos muitos diferentes’, e que será, como foi, a posse contemporânea de povos e raças muito distintas (Bertoni, 1914, p.50-51; destaques nossos).

A posição assumida pelo naturalista suíço nessas conferências deve ser, portanto, associada ao esforço da intelligentsia novecentista paraguaia – com destaque para Enrique Solano López, Cecilio Báez, Blas Garay, Manuel Domínguez, Fulgencio Moreno, Ignacio Pane e Juan O’Leary – em dar uma resposta “sobre as causas da guerra [Guerra do Paraguai] e seus resultados ... segundo a qual se assimilava a sociedade paraguaia com a ‘barbárie’”. Assim, diante da “acusação de barbárie era necessário reivindicar esse passado por meio da história” (Brezzo, 2010, p.222). Elas foram, portanto, “centrais para fortalecer uma leitura identitária da intelectualidade paraguaia por ocasião da celebração do primeiro centenário de sua independência”, uma vez que “apresentarão o povo guarani como uma civilização com realizações comparáveis a qualquer outra civilização importante da história” (Telesca, 2010, p.160, 187).

São de Bertoni “os trabalhos originais sobre a geografia e a etnografia guarani”, inseridos em “uma historiografia não dependente dos cronistas coloniais”, que não só reconhece os guaranis “como sujeitos históricos” como também demonstra “o alto grau de civilização que haviam alcançado no momento do descobrimento”, razão pela qual devem ser percebidos como “uma construção mobilizadora que se conectava perfeitamente com a historiografia do Centenário [da Independência]” (Brezzo, 2010, p.223). Merece, por isso, ser também destacada a conferência que ele realizou no 20o Congresso Internacional de Americanistas, que ocorreu no Rio de Janeiro, em 1922, e que se intitulou “El futuro de la raza americana en América Latina”. Nela, Bertoni criticou enfaticamente a crença de que as populações indígenas se encaminhavam para a sua extinção completa10 e procurou demonstrar a superioridade biológica11 da “esquecida e bela raça guarani”:

‘Muitos supõem que a raça indígena se encaminha para sua extinção completa; a ideia de que ela virtualmente desaparecerá vem sendo sustentada e parece que ainda o é entre certo público europeu. Erro profundo! A raça americana vive, progride e tem uma grande missão... no futuro’. O sangue que se mescla, melhora, não desaparece... E onde estará o centro da civilização? Na América, na Europa, no Oriente Asiático? Não! Porque o centro será o mundo. A América Latina está dando ao mundo o formoso exemplo da fusão da raça física em uma grande raça social... E neste grandioso futuro desaparecerão todos os preconceitos da raça, como já desapareceu nesta grande e espiritual nação. Tenho dito! (Bertoni, 1924a, p.70-71; destaques nossos).

Dois anos depois, para defender-se das críticas feitas pelo professor da Universidad Nacional Cecilio Báez,12 ele publicou um pequeno artigo, no qual afirmou:

Quando eu me propus a comprovar – ainda que muito sucintamente – a verdade, de “que os guaranis haviam alcançado um grau de civilização relativamente adiantado e que, ainda hoje em dia, certos grupos conservam mais ou menos uma civilização sui generis, mas comparativamente elevada”, alguns entenderam – não obstante a geral aprovação das minhas ideias – que se tratasse unicamente de uma opinião minha particular, e que essa opinião não tivesse fundamento sério. “Não obstante, nenhum etnógrafo, nenhum indianista, fez até agora uma objeção séria à ‘minha teoria’, enquanto vários a apoiaram e me felicitaram por tê-la sustentado decididamente” (Bertoni, 1924b, p.3-4; destaques nossos).

Em sua luta contra o “cretinismo nacional”13 e contra as posições assumidas pelos simpatizantes do positivismo, Bertoni formulou “críticas certeiras às teorias que legitimaram a superioridade racial dos brancos e defendeu que a cultura guarani deveria ser tomada como modelo para gerar uma comunidade mais além das fronteiras nacionais” (Di Liscia, 2009, p.257). O professor e advogado Cecilio Báez foi figura fundamental no desenvolvimento político e cultural do Paraguai no começo do século XX, e seu pensamento, que “se insere no Positivismo” (Silvero, 2011, p.11), expressa-se na sua percepção sobre os guaranis, que, segundo ele, “se encontravam todavia em um atraso deplorável na época do descobrimento. Careciam de indústrias propriamente ditas, nem conheciam, por conseguinte o comércio. Não se comunicavam entre si, quer dizer, não se trocavam nem ideias, fazendo isso impossível todo progresso”. Assim, a ideia do progresso, fundamental para os positivistas, estava, segundo ele, “ausente da vida dos guaranis”, que “eram moralmente insensíveis como os animais, não conheciam a dignidade pessoal, nem nutriam em sua alma aspiração alguma... [e] nem sequer haviam estado em contato com povos mais avançados para aprender com eles outros usos e costumes e melhorar de condição” (p.62-63).

Nas conferências e obras de Bertoni encontraremos as primeiras referências “ao guarani como alguém superior” e à raça paraguaia, “ainda que mestiça, branca sui generis, que recolhe o melhor dos espanhóis mesclado com os indígenas”, como “uma ‘raça superior’”, estabelecendo-se, também, claramente “a questão da ‘raça paraguaia’ como explicação necessária para a história do Paraguai” (Telesca, 2010, p.154).14 A despeito de seu empenho para a valorização da cultura guarani em um contexto de disseminação das teorias da degeneração e da eugenia, suas análises de fontes documentais e suas observações etnográficas foram consideradas pouco rigorosas por outros intelectuais do período, razão pela qual foram alvo de severas críticas e descrédito.15 Aos seus críticos, Bertoni (1927, p.11-12, 30-31; destaques nossos) dirigiu as seguintes palavras:

alguém definiu minha obra [La civilización guaraní] como tendenciosa. Como se, em realidade, toda obra social que valha a pena não fosse tal. ... ‘Não me envaideço quando ouço dizer que esta obra é produto do meu amor ao Paraguai e à raça guarani. ... meu amor à raça ou meu amor à nação são o efeito, não a causa dos meus estudos. Amo efetivamente os guaranis e a minha pátria adotiva’.

Em 1928, um ano antes de sua morte – aos 72 anos –, Bertoni realizou um inventário de suas atividades científicas, que, posteriormente, foi publicado na revista Crítica Médica. Nesse texto, ele voltou a observar que “é muito conveniente que se perceba que não se trata somente de observações pessoais ou de meras opiniões, mas, sim, de um conjunto de dados antigos e modernos, muito numerosos e concordantes, e de valor indiscutível” (citado em Baratti, Candolfi, 1999, p.25). Nesse inventário estão as experiências que realizou com plantas medicinais, os estudos sobre a composição química dos solos e a melhor estação climática para determinados cultivos, nos quais deixa evidente a percepção de “que tudo está unido na natureza, e tudo pode influir sobre tudo, em uma inter-relação complicadíssima e muitíssimas vezes imprevista” (p.741).

Mais do que culpabilizar “os europeus pelo impedimento do desenvolvimento guarani e pela condenação de costumes e práticas úteis, que provavam objetivamente o grau dos conhecimentos indígenas” (Di Liscia, 2009, p.259), Bertoni (1927, p.13) se empenhou em ressaltar a “nobreza física” dos guaranis, seus “altos valores morais... [e] seus ensinamentos para o avanço da farmacologia, medicina, botânica, zoologia e outras muitas disciplinas mais”. Procurou, ainda, contrapor os “‘médicos verdadeiros’ da Europa com os ‘sábios guaranis’ do Paraguai, cujos conhecimentos os faziam hábeis no reconhecimento das plantas e dos remédios”, afastando deles a vinculação com os “registros sobre bruxarias ou comportamentos irracionais” (Di Liscia, 2009, p.261).

Na continuidade, trataremos de uma de suas mais representativas produções intelectuais, La Civilización guaraní, destacando, especialmente, suas ideias sobre a medicina e a higiene guaranis, e vinculando-as ao contexto da prática médica e da saúde pública no Paraguai das últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX.

“Para os jovens médicos nacionais, La civilización guaraní”

Os três volumes publicados da obra La civilización guaraní são apenas uma parte do projeto editorial de Bertoni, que previa 14 volumes. O primeiro e o terceiro volumes foram publicados pela editora Ex Sylvis, em 1922 e 1927, respectivamente, enquanto o segundo volume, apesar de ter sua publicação proposta, em 1929, pelo médico Andrés Barbero,16 só foi publicado em 1954.

O primeiro capítulo do volume I conta com apenas quatro páginas e retoma passagens de conferências que Bertoni proferiu em 1913, a convite de Juan O’Leary, no Colégio Nacional de Segunda Enseñanza de la Asunción. Entre as ideias defendidas pelo botânico suíço nessas conferências, e retomadas no capítulo, estão as de que:

Os especialistas poucas vezes se deram conta de que estamos frequentemente sob uma poderosa sugestão, quando atribuímos uma importância decisiva ao monumento artístico, ‘sem lembrarmos que a cultura de um Povo pode manifestar-se elevada e íntegra por outras vias, que não sejam as da arte e das obras capazes de desafiar o tempo’. ... o célebre botânico, etnógrafo e explorador Barboza Rodríguez, já havia levantado uma parte do véu, ‘a respeito dos conhecimentos botânicos dos guaranis’. ... não podemos deixar de recordar os autorizados juízos do eminente etnógrafo Erland Nordenskiöld, que, ao falar dos guaranis atuais, entre os quais viveu muito tempo, reconhece sua ‘notável cultura, trato fino e amável, alta moralidade, virtudes raras, espírito artístico e conhecimentos nada vulgares’. ... E como nada há que seja mais difícil do que desenraizar ideias preconcebidas, em muitas ocasiões se chegou ao extremo, ao descobrir uma obra notável ou uma ideia muito elevada, a priori e institivamente, de atribuí-la a outro povo ou a uma estranha influência, pois de antemão se admitia que dela não fora capaz o ‘selvagem guarani’ (Bertoni, 1922, p.9, 10; destaques nossos).

O volume III, sobre o qual nos deteremos, intitula-se “Conhecimentos”, e está dividido em dois livros. O primeiro deles é “A higiene guarani”, composto de três partes e 22 capítulos: “Importância prática e científica”; “Outros aspectos da higiene física e sexual” e “Higiene moral”; já o segundo é dedicado à “Medicina guarani”, e reúne 22 capítulos. No primeiro livro do volume III, dedicado à higiene praticada pelos guaranis, Bertoni informa que eles tinham o cuidado em lavar as mãos antes e após as refeições, seguido de enxaguamento bucal. Diz, ainda, que, ao prepararem os alimentos, os lavavam várias vezes e só os manuseavam com as mãos limpas, e que embrulhavam as comidas em folhas de palha ou milho para não as tocar (Bertoni, 1927, p.41, 42). O asseio do corpo era realizado nos rios, mais de uma vez ao dia, independentemente da estação climática, observando-se, ainda, o cuidado com as unhas, mãos e pés.

Segundo Bertoni (1927, p.237), poucos, entre os naturalistas e pesquisadores estrangeiros, haviam dado importância à medicina e à higiene indígena, e outros não haviam mantido com os nativos o contato necessário. Essa percepção ficaria bastante evidente no prefácio do livro III, quando ele, referindo-se à “higiene guarani”, afirma:

Ninguém pensou que um povo tido por bárbaro e ainda selvagem pudesse ser professor em uma ciência de capital importância para toda a humanidade, e ainda por cima, em uma das ciências mais modernas. ... ‘com efeito [referindo-se à higiene], esses guaranis se colocaram à altura dos mais cultos e cuidadosos entre os europeus’ (Bertoni, 1927, p.14, 43; destaques nossos).

Mais adiante, ele afirma que o horror dos guaranis aos “excrementos não podia ser devido exclusivamente à sensibilidade dos órgãos sensoriais. ... Seguramente incluía também um conhecimento sobre o perigo que representavam para a saúde pública” (Bertoni, 1927, p.47). Ele acrescenta, ainda, que eles adotavam um

complexo [procedimento] de higienização constituído pela urucuização, com a lavagem diária e a fricção oleosa de todo o corpo. Com semelhante procedimento, nenhum micróbio permanecia sobre a pele, a não ser por algumas horas. Ao espantar a todo mosquito e outro inseto molesto, se impediam as infecções causadas pelos artrópodes, tão temidas em todos os climas (Bertoni, 1927, p.152).

Bertoni (1927, p.154) refere, também, “o suco do fruto do Jenipapo”, utilizado “como desinfetante da pele em certas enfermidades, a ponto de, às vezes, pintarem com ele todo o corpo”, e o “Pau amargo”, empregado “para desinfecção da pele e preservação contra a picada de mosquito e outros insetos, sendo, todavia, de uso geral a primeira espécie, que parece ser a mais ativa”. Destaca, ainda, que “a água fervida é considerada, com muito acerto, para conservar a assepsia e desinfectar as superfícies enfermas” (Bertoni, 1927, p.154). Nas páginas iniciais do livro II, Bertoni afirma que a obra do naturalista holandês Wilhelm Piso foi fundamental para seu estudo sobre a medicina guarani e que recorreu também a ele para identificar as enfermidades endêmicas mais comuns, tais como a varíola e a malária. Em relação a esta última, Bertoni afirma que o fogo sempre aceso, o costume de dormir em redes e de passar urucum amassado com azeite de palma pelo corpo [que afastava os mosquitos] contribuíam para reduzir sua propagação entre os guaranis.

Ao final do capítulo XV, intitulado “Desinfecção”, ele apresenta as enfermidades que acometiam a população paraguaia:

O difícil trabalho dos médicos que vimos até aqui, veio diminuir notavelmente a influência que ‘sobre o estado sanitário geral tinham as enfermidades endêmicas, a malária, a dengue, a ancilostomíase, a leishmaniose, o piã ou suposta sífilis, a filaríase e outras mais’. Os indícios que se inferem das memórias antigas deixam a impressão de que essas enfermidades, à época da chegada dos europeus, eram menos comuns e de menores consequências que atualmente; e talvez muito menos. Também o descuido da higiene é agora maior e geral em todos esses países (Bertoni, 1927, p.155; destaques nossos).

Essa foi a razão para que Bertoni enfatizasse

uma característica importantíssima da higiene guarani. E a relação entre a higiene e a medicina. ... até hoje em dia, o público em geral segue atribuindo as enfermidades e a brevidade da vida a todo tipo de influências e não à falta de higiene. ... ‘e faz tão pouco tempo que a higiene se tornou uma ciência, já que em muitas universidades do século passado não era ensinada. Tão ausente ou obscuro estava, todavia, o conceito de que a higiene pudesse ter uma influência determinante ou decisiva sobre a origem e o desenvolvimento das enfermidades, que não faz mais de meio século, em várias universidades europeias, passar no exame de higiene não era obrigatório para obter o título de doutor em medicina’ (Bertoni, 1927, p.220-221; destaques nossos).

O naturalista suíço ressaltou, também, que “a longevidade depende essencialmente da alimentação, do asseio e da alegria. E esse conceito estava fortemente enraizado na mente dos guaranis, como mais adiante se verá” (Bertoni, 1927, p.19). A alimentação dos guaranis “resulta em tudo conforme os últimos ditames da ciência. Era essencialmente vegetariana, sendo que admitiu carnes com restrição” (p.61). Cultivavam mandioca e batata, viviam de brotos, de ervas, de folhas e de frutos; não usavam sal, aguardavam a comida esfriar e comiam lentamente e calados (p.106). A essas práticas, se associavam as seguintes regras: “reunião festiva, sono tranquilo e boa cama” (p.52).

Em relação às plantas medicinais, o botânico suíço já havia afirmado, em obra de 1901, que os guaranis conheciam “as famílias naturais ... a maior parte dos termos admitidos pela ciência, e designam a cada um dos grupos com um nome fixo, como na botânica ... Isso é admirável e nada parecido se encontra nos idiomas europeus” (Bertoni, 1901, p.17). Alguns anos depois, ele não apenas ressaltaria que “nenhum povo da terra entregou à ciência médica tantas plantas medicinais como o povo guarani” (citado em Baratti, Candolfi, 1999, p.65-66), como faria a seguinte indagação:

‘Pode-se dizer ainda que os guaranis não tinham conhecimentos científicos e somente se limitavam às superstições grosseiras de que falei? Evidentemente que não’. Eu mesmo vi um grande número de casos. E é assim como eu pude comprovar que empregavam acertadamente os antissépticos, os antitérmicos, os tônicos, adstringentes, evacuantes, depurativos de sangue, anti-hemorrágicos... ‘e fiquei verdadeiramente assombrado, como o povo que não tinha literatura, que transmite de pais para filhos, de geração a geração, esses conhecimentos, pode ter chegado a conhecimentos tão complicados e relativamente tão perfeitos’. Se os guaranis tivessem uma verdadeira literatura, a coisa seria interessante; não a tendo, foi para mim maravilhoso (citado em Baratti, Candolfi, 1999, p.65-66; destaques nossos).

Em 1927, Bertoni (1927, p.144) afirmaria que “vários volumes poderiam ser escritos a esse respeito, sem esgotar o tema. Mas, a matéria era tão vasta, complexa e difícil, que pretender oferecer ao público um manual relativamente completo da flora médica dos países guaranis seria algo prematuro”. No Diccionario botánico latino-guaraní y guaraní-latino, obra publicada postumamente em 1940, encontra-se, mais uma vez, registrada sua admiração pela taxonomia indígena, sua crítica ao saber ocidental e a defesa de que “o saber botânico-guarani devia atuar como ponte entre quem descreve as plantas e quem as utiliza” (Bertoni, 1940, p.143).17 E, ainda, que:

Os guaranis possuíam conhecimentos semiológicos necessários para definir um diagnóstico primário e aplicar o tratamento indicado. Denominavam a anemia, mba’asy; a extrema fraqueza, piru ou pire hyru; a perda da força física, kangy; e a tuberculose, mba’asy polí. ... o pytuhê, a respiração; pire raku’í, febrícula; akânundu, febre com taquicardia; tye rasy; contrações abdominais; tye ruguy, disenteria; py’a pereré, taquicardia; mba’asy kane’o rurupa, insuficiência cardíaca, e outros mais atuais provenientes do espanhol distorcido como a icterícia e diversas moléstias não bem identificadas, conhecidas como pasmo (citado em Romañach, Paz, 2011, p.37).

Para o naturalista e botânico suíço, um estudo comparativo entre os conhecimentos médicos europeus dos séculos XV e XVI e os dos guaranis levaria, sem dúvida, à conclusão de que os últimos estavam muito mais adiantados. Ele, contudo, não deixa de advertir que “o médico indígena nunca contará tudo o que sabe, nem revelará todos seus procedimentos”, porque “guarda cautela sobre o que é, em geral, o mais interessante; e faz isso ... por um motivo ... que é a conservação do seu próprio poder ou dom de curar” (Bertoni, 1927, p.236).

Em se tratando da formação acadêmica de médicos no Paraguai, é importante lembrar que a Universidade Nacional de Asunción – as faculdades de direito, ciências sociais e medicina – foi fundada somente em 1890 – três anos depois da chegada de Bertoni ao Paraguai –, sendo que seu primeiro reitor foi o professor espanhol Ramón Zubizarreta. A falta de profissionais paraguaios para assumir as cátedras universitárias implicou a admissão de professores estrangeiros e o incentivo à formação de profissionais em medicina junto à Universidade de Buenos Aires. As dificuldades – financeiras e políticas – encontradas para o funcionamento da Faculdade de Medicina provocaram seu fechamento logo após sua criação, sendo que sua reabertura só se deu em 1898, com número expressivo de professores estrangeiros, como o uruguaio Justo Pastor Duarte, o argentino Patricio Brenan, os italianos Victor Mariotti e José Caldarera, e o húngaro Juan Daniel Anisits.

Somente em 1894, durante o governo do presidente Juan B. Egusquiza, seria inaugurado o Hospital de Caridad ou San Vicente de Paulo, em substituição ao Hospital Viejo ou Hospital Potrero, que seria entregue aos cuidados das Irmãs de São Vicente de Paulo, que se encontravam no Paraguai desde 1880. Nacionalizado em 1915, tornou-se o Hospital Nacional, denominação que foi alterada em 1927, quando passou a se chamar Hospital de Clínicas. Tanto as crônicas quanto a imprensa das últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX registraram as dificuldades de acesso ao Hospital de Caridad, as precárias condições de suas instalações e a falta de instrumentos cirúrgicos.

Ao final do século XIX, a estrutura sanitária do Paraguai era praticamente inexistente, limitando-se a uma repartição sanitária, a Oficina Medica Municipal. A capital, Assunção, contava com quarenta mil habitantes, e não havia serviço de abastecimento de água potável nem esgoto. Um ano após a reabertura da Faculdade de Medicina, em 1899, a cidade viveria os efeitos de uma epidemia de peste bubônica e da precária estrutura sanitária e de saúde pública. Em janeiro do ano seguinte, 1900, foi aprovada a criação de um Conselho Nacional de Higiene, composto por médicos e farmacêuticos que exerciam o ofício na cidade de Assunção, e aos quais coube elaborar as normas de regulamentação do exercício da medicina e áreas afins no Paraguai e, em especial, o primeiro esboço de uma administração sanitária do país.

Os anos de 1900 a 1912 foram marcados por um cenário de permanente tensão política decorrente de desavenças e disputas intrapartidárias e de crises econômicas, às quais se somavam os sucessivos golpes, os levantamentos armados e as substituições na presidência do Paraguai. Nem mesmo os festejos do Centenário da Independência foram organizados, devido ao clima de instabilidade política e econômica, que acabaria por provocar, por falta de alunos, o fechamento da Faculdade de Medicina, em 1912, e se refletiria sobre a já precária infraestrutura do Hospital de Caridad. Este, já sob a denominação de Hospital Nacional, só seria ampliado a partir de 1915, após a criação da Assistência Pública Nacional e da Comissão de Assistência Pública e Beneficência Nacional, “uma repartição municipal de cuidados médicos e administração de medicamentos” (Romañach, Paz, 2011, p.224).

O Conselho Nacional de Higiene passaria por reformulações em 1915, sendo definido que cabiam exclusivamente iniciativas preventivas ao recém-criado Departamento Nacional de Higiene. Dois anos depois, os dois órgãos seriam fundidos, dando origem ao Departamento de Higiene e Assistência Pública, que vigorou até a criação do Ministério da Saúde, em 1936. Vale lembrar que, na primeira década do século XX, o Paraguai também vivenciou as consequências da crise econômica mundial ocasionada pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que incidiriam, inevitavelmente, sobre o Hospital Nacional e sobre a já precária situação sanitária do país, descrita desta forma pelo médico Cándido Vasconcellos (citado em Viola, 2011, p.57):

a botica – farmácia – do Hospital Nacional apenas se pode comparar com a mais humilde do interior. Em ocasiões, ali faltava álcool, tintura de iodo, guaiacol, glicerina. Quando algum paciente necessita soro, deve ser solicitado à Assistência Pública, pois o Hospital Nacional nunca o possui. Deve-se aumentar a quantidade de farmacêuticos que preparam as receitas por conta da demora que sofrem os pacientes. Os enfermeiros deixam muito a desejar, não sabem medir a temperatura, aplicar injeções, fazer massagens etc. Seus serviços se reduzem a esvaziar as bacias e lavá-las mal, varrer também mal o piso. Quando deles se necessita, há que chamá-los aos gritos.

Também o médico brasileiro Adolfo Lutz, em viagem realizada ao Paraguai em 1918, na companhia dos também médicos Heráclides de Souza Araújo e Olympio da Fonseca Filho, assim se manifestou sobre o que encontrou em Assunção:

A capital paraguaia tem mais de 100.000 habitantes e nela trabalham quarenta médicos, entre eles alguns estrangeiros. ... A iluminação é elétrica, mas não há água corrente. A população usa a água da chuva para beber. A cidade não tem telefones. ... Assunção possui um Colégio Nacional e uma Universidade, cuja Faculdade de Medicina está fechada há nove anos por falta de alunos, dizem. Muitos dos médicos de Assunção estudaram e se diplomaram em Buenos Aires e alguns na Europa (Lutz, Araújo, Fonseca Filho, 1918).

Em seus diários, Lutz faz questão de ressaltar a preocupação e o empenho do diretor de Higiene Pública, doutor Andrés Barbero, e do diretor do Hospital Nacional, doutor Migone, para contornar os graves problemas de saúde pública do Paraguai, “com atenção especial aos bubônicos ... aos que têm leishmaniose18 ... e a uma campanha contra a malária e a ancilostomíase” (Lutz, Araújo, Fonseca Filho, 1918).19 Não deixa, também, de destacar que o Paraguai apresentava focos de mal de Chagas, malária, disenteria amebiana e bacilar, lepra e sífilis, e que as verminoses endêmicas se deviam ao calor e umidade constantes, à “baixa altitude e às zonas alagadiças” (Lutz, Araújo, Fonseca Filho, 1918).

Esses registros confirmam que as preocupações dos sanitaristas brasileiros e paraguaios nas primeiras décadas do século XX giravam em torno das enfermidades infeciosas, bacterianas e parasitárias. Para contorná-las de forma mais eficaz e qualificar o atendimento prestado aos enfermos, o governo paraguaio destinou, durante o governo do presidente Eligio Ayala, recursos para a contratação de médicos e professores estrangeiros, “principalmente franceses, para elevar o nível da formação médica” (Netto, 1981, p.143), o que não impediu que alemães, italianos e um brasileiro, o médico Edgar Roquette-Pinto,20 ensinassem na Faculdade de Medicina de Assunção. Muitas dessas iniciativas, no entanto, teriam sua continuidade comprometida devido às dificuldades provocadas pelo confronto entre conservadores (colorados) e liberais, que ficou conhecido como Guerra Civil, e ocorreu de 1922 a 1923.

É preciso, no entanto, considerar que os enfermos paraguaios seguiam contando com curandeiros, boticários, farmacêuticos e parteiras, que ofereciam seus conhecimentos nas artes de curar, os quais se aproximavam daqueles adotados pelos médicos formados.21 Estes, por não contar com instrumentos capazes de confirmar diagnósticos,22 dependiam, essencialmente, da observação e recorriam a procedimentos que conciliavam a farmacopeia popular com pressupostos de uma medicina, ainda, em muitos aspectos, pré-pasteuriana. De acordo com Romañach e Paz (2011, p.269-270), “No começo do século XX, nas boticas existentes a medicação era preparada por prescrição médica. Somente em meados dos anos 1920 começaram a ser importados alguns poucos medicamentos industrializados. ... Até 1930, o país só importava medicamentos prontos”.

Parece-nos plausível supor que Bertoni, por sua atuação em cargos públicos – primeiramente, na Escuela Nacional de Agricultura e, posteriormente, na Dirección de Agricultura – e por seus contatos – de amizade ou profissionais – com políticos, intelectuais ou médicos paraguaios, tais como Juan Daniel Anisits, Juan O’Leary, Rodolfo Ritter, Edgar Roquette-Pinto e Andrés Barbero, tenha convivido de perto ou tido acesso às informações sobre as condições da prática médica e de saúde pública de Assunção e de outras cidades paraguaias nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX. Pode-se, ainda, supor que em Puerto Bertoni ele tenha podido conviver diariamente com as condições sanitárias que caracterizavam tanto as áreas urbanas quanto as rurais do Paraguai, bem como com as enfermidades que atingiam, indistintamente, os camponeses da região, os guaranis que trabalhavam nas plantações da colônia e os membros de sua família.23

Vale lembrar que, por ter ocupado funções ligadas à gestão da agricultura em 1913, Bertoni, certamente, conviveu proximamente com o médico Andrés Barbero, que, no mesmo período, esteve à frente “do Diretório do Banco Agrícola” e, posteriormente, do Conselho de Agricultura e Indústria (Romañach, Paz, 2011, p.288). Anos mais tarde, Barbero assumiria a direção do Departamento Nacional de Higiene, e ordenaria “a escavação de 1.500 poços de água potável e a construção de 37.500 latrinas higiênicas” e também uma campanha contra a ancilostomíase (Romañach, Paz, 2011, p.286). Independentemente do convívio facultado pelo exercício de cargos públicos, o médico, com certeza, teve contato com a produção de Bertoni, em especial com seus trabalhos sobre a medicina e a higiene guaranis, o que parece justificar sua proposição, na condição de presidente da Sociedade Científica do Paraguai, da publicação do livro II de La civilización guaraní (Bertoni, 1954), em 1929.

À precariedade do atendimento hospitalar, da formação acadêmica dos médicos e de abastecimento de medicamentos se somavam a predominância da influência estrangeira (sobretudo, francesa e italiana) e as dificuldades decorrentes de surtos epidêmicos, dos constantes conflitos político-partidários, que provocavam instabilidade política e restrições orçamentárias, e aquelas resultantes de conflitos internacionais, como a Primeira Guerra Mundial, e que parecem explicar, em parte, suas críticas à medicina praticada no Paraguai.

A valorização e a defesa dos saberes ligados à higiene e à alimentação e das práticas curativas empregadas pelos guaranis parecem, portanto, encontrar respaldo não exclusivamente em suas pesquisas e teorias, mas na observação da dura realidade vivida pelos paraguaios e no firme propósito de contribuir para amenizar ou contornar o precário estado sanitário e de saúde pública do Paraguai. E, para tanto, “se apela, então, aos recursos dos ‘naturais’, a fim de garantir melhores possibilidades de sobrevivência em um meio hostil” (Di Liscia, 2009, p.257).

Na abertura do capítulo XV do segundo livro – intitulado “Consideraciones generales al respecto de la Medicina Guarani y de lo que actualmente sucede en nuestras poblaciones rurales. Lo que el País ofrecería a la Medicina Científica” –, Bertoni (1927, p.140; destaques nossos) afirma que:

‘Todo médico, que fugindo do burburinho das cidades se entranhar pelos campos e roças para o exercício da sua profissão, se maravilhará ao ver como ali são aproveitadas nossas riquezas naturais em termos de matéria médica; e se tratasse de fazer uma lista das plantas que são empregadas pelos médicos indígenas e pelos curandeiros, se espantaria pelo elevado número a que teria que chegar’. ... não poderia, no entanto, deixar de aceitar muitas plantas, por serem verdadeiramente ativas, apesar de tóxicas, como agentes dignos de figurar em um levantamento científico de medicamentos.

Assim, para o naturalista suíço, cabia aos médicos paraguaios reconhecer que:

Antes de outros povos civilizados, os guaranis souberam chegar ao conceito de gênero, na botânica e na zoologia, conceito que exige muito fino espírito de observação ... e excepcional faculdade para a abstração e a síntese, qualidades a que as massas populares europeias não chegaram ainda, não obstante século e meio de ensino e de estímulo científico e filosófico que de muitas e diversas maneiras receberam. ... ‘Na medicina popular, na tradição médica conservada pelos curandeiros e médicos indígenas, há um valioso corpo de conhecimentos práticos, o que pode servir de base para o começo da construção do formoso edifício de uma matéria médica nacional que esteja à altura dos atuais progressos da medicina. ... Os médicos europeus, e os estrangeiros em geral, mediante tais pesquisas, poderão enriquecer a matéria médica universal, para a qual os guaranis já trouxeram direta ou indiretamente notável aporte. Mas é aos jovens médicos nacionais que me dirijo principalmente, seguro de que alguns deles verão em semelhantes estudos uma dupla missão, científica e patriótica’ (Bertoni, 1927, p.141-143; destaques nossos).

No capítulo XVIII, Bertoni (1927, p.161) acrescentaria que: “Aos nossos médicos cabe especialmente a grande e ilimitada obra de estudar metodicamente as plantas empregadas pelos médicos indígenas e pelos curandeiros para que sejam conhecidas, para o bem da ciência e do país”. E prossegue, recomendando que o governo refletisse sobre os efeitos

‘de que todo o ensino científico nos vem de países frios ou temperados. Nossos médicos se formaram sob a ordem direta ou indireta de professores europeus, e quando foram aperfeiçoar-se, foram à Europa. Europeus são os textos, os livros de consulta do estudante, a biblioteca do médico, e por fim todas as sugestões’. Nisto, como em todas as outras coisas, o Paraguai é um país tropical e subtropical, sem relações com outros países de iguais condições. Tudo vem de países que têm outro clima, outra natureza, outra flora, especialmente, assim como outros gêneros de vida e elementos sociais muito distintos. ... Outras condições nossas desfavoráveis ... ‘são principalmente a falta de um herbário nacional ..., a escassez de médicos no interior e, especialmente, nas regiões afastadas ... e por fim ... a prevenção exagerada contra o curandeirismo. Além do mais – entre a gente instruída da nossa capital – todo curandeiro é um impostor, mais ou menos farsante, e sempre um grande ignorante. Esse é um grave erro’ (Bertoni, 1927, p.162-163; destaques nossos).

A adoção de farmacopeia nativa seria, portanto, “uma saída mais prática ... porque não estão dadas as condições técnicas nem os recursos humanos”. Assim, a medicina guarani poderia ser não apenas “uma opção baseada na escolha circunstancial, devido às necessidades específicas e as carências próprias”, mas, também, “uma escolha cultural, onde se coloca à consideração da cultura ocidental as vantagens de outro sistema higiênico e, também, de uma ética sobre a natureza e o corpo substancialmente diferente da própria” (Di Liscia, 2009, p.257).

Ao dirigir-se aos “jovens médicos nacionais”, Bertoni recomendou que fugissem “do barulho das cidades”, se entranhassem “pelos campos e pelas roças, para o exercício de sua profissão”, e que atentassem para a medicina popular e, em especial, para a tradição médica conservada pelos curandeiros indígenas, condição fundamental, segundo ele, para a elaboração “de uma matéria médica nacional que esteja à altura dos atuais progressos da medicina” (Bertoni, 1927, p.140-141). Os estudos da flora, extensivos aos “médicos europeus, e aos estrangeiros em geral”, deveriam ser por eles encarados como “uma dupla missão, científica e patriótica” (Bertoni, 1927, p.143), evidenciando não apenas a defesa da “civilização guarani”, mas, também, a postura nacionalista do botânico e naturalista suíço em relação ao Paraguai.

Considerações finais

Desde sua morte, a figura do “sábio Bertoni” tem exercido fascínio pelos “múltiplos aspectos da sua personalidade ... sua multiforme e gigantesca produção científica ... suas contraditórias manifestações políticas, assim como as singularidades de sua vida cotidiana e, finalmente, as redes sociais e científicas tecidas ao seu redor e de sua família” (Di Liscia, 2009, p.249).24 Muitos de seus biógrafos têm chamado a atenção para “as facetas mais recônditas de seu caráter”, para seu “autoritarismo paternalista marcado por ambições desmedidas” refletidas em sua vasta produção, “escrita em várias línguas e sobre as mais diversas disciplinas” (Di Liscia, 2009, p.249). Para Baratti e Candolfi (2009, p.283), é preciso, por isso, evitar “a compreensível tentação de idealizá-lo sem ter em conta sua complexidade e sua relação não linear com a sociedade e com as ideologias de seu tempo”. O botânico e naturalista suíço, segundo esses autores, foi “um personagem excessivo e multiforme, que se envolveu com as ideias e as paixões mais contraditórias de sua época” e realizou “uma experiência titânica de emigração, colonização e pesquisa, buscada e levada a cabo com energia e obstinação” (p.283).

De acordo com o antropólogo Bartomeu Melià, Bertoni “teve uma influência considerável na ideologia etnológica das primeiras décadas do século XX”, apesar do “discurso de exaltação poética”, que pode ser observado em alguns de seus estudos. (Melià, Saul, Muraro, 1987, p.59). Ao ser analisadas pelos historiadores Justo Pastor Benítez (1955), Efraim Cardozo (1959) e Miguel Bartolomé (1978) e, ainda, pela antropóloga Branislava Susnik (1965), as teorias de Bertoni e, sobretudo, os dados etnográficos por ele levantados foram considerados um verdadeiro “delírio etnológico” (Baratti, 2002-2003, p.46). Para Cardozo, a produção intelectual de Bertoni teria sido “a primeira tentativa de construir uma historiografia guarani” (citado em Melià, Saul, Muraro, 1987, p.59), por representar “o primeiro intento de construção etnológica guarani em que convergem história, geografia, etnografia e linguística, mas com frequência a documentação [geralmente, obras jesuíticas] é levada a conclusões exageradas e as provas etnográficas mostram-se insuficientes”. O antropólogo paraguaio Miguel Chase-Sardi (1990, p.95), por sua vez, afirma que as conclusões de Bertoni derivam principalmente de suas leituras – “com lentes deformantes e a partir de uma bibliografia impressionante” –, e não de estudo de campo, já que, apesar de seus rigorosos estudos empíricos das ciências naturais, “foi arrastado por um romantismo que acabou por tornar seus estudos sem utilidade para a antropologia paraguaia”.

Hoje em dia, suas teses nos soam ingênuas e demasiadamente ideológicas, mas a importância de sua produção intelectual para a história político-cultural do Paraguai é quase inversamente proporcional ao seu valor científico. Com suas conferências e obras, Bertoni contribuiu para o nascimento de uma geração nacionalista-indigenista (Bareiro Saguier, 1990; Baratti, 2002-2003), assim chamada pela revalorização do elemento indígena como essência da identidade nacional paraguaia. Em razão disso, tornou-se alvo de críticas ferozes de intelectuais positivistas e liberais que viam o índio como um peso social, uma vez que “aplicaram o evolucionismo positivista para consagrar a inferioridade do índio em relação aos brancos” (Bareiro Saguier, 1990, p.115). Bertoni, no entanto, se teria empenhado em aproximar a religião guarani da católica, “aceitando e justificando implicitamente a tarefa de suplantação cultural realizada pelos catequizadores” (p.116), o que apontaria para certa contradição em relação à defesa da visão idealizada da “bela raça guarani”.

Consciente dos “efeitos das transformações ocidentais” e dotado de “uma sensibilidade diferente em relação aos conhecimentos das sociedades indígenas”, Bertoni “incorpora o guarani e o faz seu ... em vez de fazer uma apropriação imperialista do entorno, que descarta a experiência anterior, desumanizando-a e negando-a” (Di Liscia, 2009, p.263).

Apesar de terem sido escritos e divulgados entre a última década do século XIX e a primeira metade do século XX, os artigos, conferências, relações de viagens e obras de Moisés Santiago Bertoni parecem ter antecipado as recentes discussões travadas no âmbito da nova história da medicina e da saúde acerca da “atuação de atores locais, incluindo indígenas e afrodescendentes na circulação global de materiais, ideias e práticas médicas” (Cueto, Palmer, 2016, p.20). A elas se somam as que vêm sendo feitas por estudiosos da história da ciência, que consideram “insuficientes a unidirecionalidade e a dicotomia implícita nos modelos anteriores, que enfatizavam as noções de difusão cultural, centro-periferia ou imperialismo científico como elementos para análise” (p.20).

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