Doença pulmonar intersticial aguda induzida por adalimumabe em paciente com artrite reumatoide

Doença pulmonar intersticial aguda induzida por adalimumabe em paciente com artrite reumatoide

Autores:

Olívia Meira Dias,
Daniel Antunes Silva Pereira,
Bruno Guedes Baldi,
André Nathan Costa,
Rodrigo Abensur Athanazio,
Ronaldo Adib Kairalla,
Carlos Roberto Ribeiro Carvalho

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713

J. bras. pneumol. vol.40 no.1 São Paulo jan./fev. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132014000100012

Introdução

O uso de imunobiológicos no tratamento das doenças autoimunes é cada vez mais frequente na prática médica. Terapias anti-TNF e terapias com agentes depletores de células B (rituximabe) têm sido cada vez mais utilizadas nas doenças autoimunes refratárias, especialmente na artrite reumatoide (AR), esclerose sistêmica e lúpus eritematoso sistêmico, com resultados promissores. O TNF é uma interleucina secretada por macrófagos ativados e células T como via comum em uma série de respostas inflamatórias, autoimunes ou neoplásicas; seu bloqueio, seja na forma de bloqueio de seus receptores ou na forma de anticorpos solúveis, diminui a expressão de moléculas de adesão na superfície endotelial dos órgãos alvo, diminui a migração leucocitária e inibe a produção de outras citocinas inflamatórias. Entretanto, o uso dessas terapias está relacionado ao aumento do risco do desenvolvimento de outras doenças autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico, hepatite autoimune, tireoidites e vasculites cutâneas. Na literatura, o uso de agentes anti-TNF particularmente no pulmão é pouco eficaz no controle da doença pulmonar intersticial (DPI) secundária à colagenose, podendo levar a outras complicações, como a reativação de infecções por micobactérias e fungos, desenvolvimento de sarcoidose e de outras DPIs.( 1 )

A associação de DPI e uso dos agentes anti-TNF, em especial infliximabe e etanercepte, já foi descrita.( 2 ) O adalimumabe é a mais nova droga dessa classe e, por ser um anticorpo monoclonal humanizado, teria a vantagem potencial de ser menos imunogênico do que seus precursores. Contudo, apesar do uso incipiente, algumas publicações sugerem que o adalimumabe pode determinar a indução ou mesmo a exacerbação de DPIs preexistentes.( 3 - 9 )

O objetivo do presente estudo foi relatar o primeiro caso brasileiro de DPI aguda secundária à utilização de adalimumabe, em uma paciente portadora de AR sem DPI prévia.

Relato de caso

Paciente do sexo feminino, 62 anos, com antecedente de AR há 20 anos, vinha em uso de metotrexato, leflunomide e prednisona. Devido à manutenção do quadro inflamatório articular, optou-se pela introdução de adalimumabe, mantendo-se o metotrexato. A radiografia de tórax não demonstrava alterações sugestivas de tuberculose prévia ou sinais de DPI incipiente; e a intradermorreação para tuberculose (PPD) foi não reagente (0 mm). Uma semana após a segunda dose de adalimumabe (40 mg semanais), a paciente iniciou um quadro de tosse seca, dispneia aos moderados esforços e febre diária (38°C). Naquele momento, a radiografia de tórax, o exame físico e os exames laboratoriais, incluindo hemograma, eram normais - hemoglobina, 13,1 g/dL; hematócrito, 39,2%; 8.380 leucócitos (75% neutrófilos, 0,4% eosinófilos, 9,8% linfócitos); e 355.000 plaquetas, exceto por um aumento dos marcadores inflamatórios (proteína C reativa, 326 mg/dL; valor de referência < 3 mg/dL) e na VHS (67 mm, valor de referência < 20,2 mm). As pesquisas para BAAR no escarro e as hemoculturas foram negativas. Foi iniciado o tratamento empírico com levofloxacina; porém, a paciente manteve febre e dispneia. A TCAR de tórax, realizada duas semanas após o início dos sintomas, evidenciou opacidades em vidro fosco com predomínio nos campos superiores e médios do pulmão, associadas a áreas de espessamento liso dos septos interlobulares (Figura 1). Foi feita então a hipótese diagnóstica de DPI secundária ao uso de adalimumabe. Optou-se pela suspensão do agente anti-TNF e do metotrexato com manutenção de prednisona em baixa dose (5 mg/dia). A paciente apresentou melhora progressiva da dispneia, remissão da febre e normalização dos marcadores inflamatórios, sem reativação do quadro articular. Três semanas após o início do quadro, o exame físico e a espirometria eram normais, com SpO2 de 98% em ar ambiente. A nova TCAR realizada três semanas após o início dos sintomas mostrou resolução quase completa das áreas em vidro fosco (Figura 2).

Figura 1  TCAR de tórax evidenciando opacidades pulmonares em vidro fosco com predomínio pelos lobos superiores, em A, e pelas regiões centrais, em B, associada a áreas de espessamento liso dos septos interlobulares (setas). 

Figura 2  TCAR de tórax realizada três semanas após o início do quadro. A análise comparativa dos cortes mostra melhora importante e espontânea das opacidades em vidro fosco com relação ao exame anterior nos campos pulmonares superiores, em A, e no nível da carina principal, em B. Restam discretas opacidades em vidro fosco junto a um discreto infiltrado reticular em regiões subpleurais com predomínio no hemitórax direito, especialmente no lobo médio. 

Discussão

A patogênese da lesão pulmonar pelas terapias com agentes anti-TNF ainda é desconhecida; acredita-se que o TNF tenha uma ação pró-fibrótica ao estimular a síntese de colágeno por fibroblastos e miofibroblastos.( 10 ) Especula-se ainda que o aumento da resposta linfocitária do tipo Th2,( 7 ) a ação do IFN-γ sem oposição pelo TNF(7) e a ação sinérgica do metotrexato possam ter um papel no desenvolvimento da lesão pulmonar.( 8 , 9 , 11 , 12 )

Os achados clínicos são inespecíficos, e incluem tosse seca, febre e dispneia,( 2 ) que podem ser progressivas ou mais intensas após cada aplicação da medicação.( 6 ) Os sintomas podem iniciar-se de um mês( 9 ) até três anos e meio após o início do tratamento.( 7 ) À TCAR, podem ser evidenciadas opacidades em vidro fosco, focos de consolidação, padrão reticulado e bronquiolectasias de tração.( 6 , 8 )

A atribuição da lesão pulmonar a drogas e, no presente caso, aos agentes anti-TNF é um desafio. O diagnóstico é geralmente presuntivo, e estabelece-se o nexo causal pela associação temporal entre a introdução da droga com o início dos sintomas e pela melhora após sua suspensão, sempre após a exclusão de outras etiologias. Nesses pacientes, no contexto de imunossupressão, deve-se considerar infecção como um importante diferencial.( 13 ) Deve-se lembrar que há relatos da associação entre o uso de adalimumabe com casos de criptococose pulmonar( 14 ) e micobacteriose disseminada.( 15 ) Nesse contexto clínico, opacidades em vidro fosco difusas em associação a espessamento septal intralobular também devem suscitar a exclusão de outras etiologias, como infecções virais ou por Pneumocystis jiroveci,( 16 ) hemorragia alveolar, congestão pulmonar e toxicidade a drogas pelo uso concomitante do metotrexato. A broncoscopia com lavado broncoalveolar auxilia no diagnóstico diferencial.

Na maior casuística de pacientes com lesão pulmonar secundária ao uso de terapia anti-TNF, foram relatados 122 casos (3 deles secundários ao adalimumabe). O tempo médio para o aparecimento dos sintomas foi de 26 semanas. Os padrões histológicos mais comumente encontrados foram o de pneumonia intersticial usual, pneumonia organizante, dano alveolar difuso e até pneumonia intersticial linfocítica. Nos casos onde houve seguimento até o desfecho houve melhora da DPI em 40%, resolução parcial em 25% e nenhuma resolução em 35%, com óbito em 29% dos pacientes. Fatores preditores para um pior prognóstico foram idade > 65 anos, surgimento tardio dos sintomas, uso frequente de outros imunossupressores (principalmente o metotrexato) e diagnóstico prévio de DPI.( 2 ) A despeito de um relato isolado de melhora da DPI com o uso dessa medicação para AR,( 9 ) a recomendação atual não contraindica, mas preconiza cautela quanto ao uso do adalimumabe e de outras drogas anti-TNF em pacientes com DPI ou pneumopatias preexistentes.( 1 - 3 , 10 )

A evolução dos casos de DPI por adalimumabe é variável, podendo ocorrer desde a remissão completa após a simples suspensão da droga até refratariedade aos tratamentos empregados,( 2 , 6 ) com rápida evolução a óbito.( 3 ) A utilização de corticosteroides e/ou de imunoglobulina intravenosa deve ser considerada em casos selecionados. Pela potencial gravidade do quadro, optamos pelo seguimento tomográfico com exames realizados em curto intervalo de tempo a despeito da carga de irradiação com o exame de imagem.

Uma vez constatada a reação à droga, não se recomenda sua reintrodução ou mesmo substituição por outro fármaco pertencente à mesma classe de agentes anti-TNF.( 2 , 10 ) Dessa forma, o adalimumabe, a exemplo de outras drogas anti-TNF, também deve ser considerado na listagem de drogas potencialmente causadoras de lesão pulmonar.

REFERÊNCIAS

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