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Doença renal crônica no Peru: um desafio para um país com uma economia emergente

Doença renal crônica no Peru: um desafio para um país com uma economia emergente

Autores:

Percy Herrera-Añazco,
Vicente A. Benites-Zapata,
Ivan León-Yurivilca,
Rosembert Huarcaya-Cotaquispe,
Manuela Silveira-Chau

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Nephrology

versão impressa ISSN 0101-2800versão On-line ISSN 2175-8239

J. Bras. Nefrol. vol.37 no.4 São Paulo out./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20150081

Prezado Editor,

Uma revisão sistemática recente sobre o acesso à terapia renal substitutiva (TRS) em nível mundial concluiu que na América Latina os pacientes que precisam TSR são 663 a 1317 pmp, de acordo com um modelo estimativo conservador ou não.1 Para uma nação de 30 milhões de pessoas como o Peru, o número de pacientes com uma potencial necessidade de TSR, poderia ser entre 19.890 e 39.510.

A prevalência da doença renal crônica (DRC) no mundo varia entre 1,7 a 8,1%.2 No Peru, a prevalência de algum grau de DRC em algumas regiões do país pode chegar até 16,8%,3 maior que a média calculada nesta revisão sistemática, o que poderia significar que a necessidade de TSR poderia ser maior do que a de outros países da região.

O Peru tem um sistema de saúde fragmentado, no qual as duas principais instituições que fornecem TSR são o Ministério da Saúde (MINSA), por meio do Fondo Intangible de Solidaridad en Salud (FISSAL) e a segurança social (Essalud). No ano 2010, a Essalud teve 9.814 pacientes que receberam alguma forma de TSR4 e, em 2014, o FISSAL reportou 1.983 pacientes em hemodiálise (HD).

De acordo com o Registo Nacional de Centros de Saúde, há estados no país onde não existe ou um centro de HD em um hospital, ou um centro de HD privado contratado por FISSAL para fornecer a terapia nos pacientes do MINSA. Da mesma forma, é importante notar que há subnotificação dos pacientes que recebem ou que necessitam de TSR, o que torna difícil o planejamento dos recursos para seu atendimento (Tabela 1).

Tabela 1 Cobertura da hemodiálise no Peru pelo Fondo Intangible de Solidaridad en Salud (FISSAL). Ano 2014 

Estado Pacientes em HD N° hospitais MINSA com HD N° centros privados contratados por FISSAL
Amazonas SR 0 0
Ancash 70 0 2
Apurímac SR 0 0
Ayacucho SR 0 0
Arequipa 120 1 0
Cajamarca SR 0 0
Cuzco 80 1 0
Huancavelica SR 0 0
Huánuco 52 1 0
Ica 81 1 0
Junín SR 0 0
La Libertad 209 0 2
Lambayeque 238 1 1
Lima 749 4 6
Loreto 58 1 0
Madre de Dios 10 0 0
Moquegua SR 0 0
Pasco SR 0 0
Piura 32 0 0
Callao 208 0 0
Puno SR 0 0
San Martín 6 0 1
Tacna 18 0 1
Tumbes 15 0 1
Ucayali 37 0 2
Total 1983 10 16

HD: hemodiálise SR: Sem registro MINSA: Ministério da Saúde. Fonte: Fondo Intangible de Solidaridad en Salud (FISSAL).

É claro que há um grande número de peruanos que, mesmo precisando, não estão recebendo alguma forma de TSR, o que é um desafio para as instituições responsáveis que, como em outros países do mundo, na melhor das hipóteses só podem fornecer a terapia para 50% dos pacientes, o que resulta num aumento da mortalidade e custos sociais daqueles que não recebem TSR.1 Destaca-se que no caso do MINSA tem sido relatado que a mortalidade da população incidente em HD pode chegar até 50% em 7 meses, e que quase a metade dos pacientes abandonam a terapia, na maioria dos casos por falta de vagas de HD nos hospitais.5

No MINSA, então, distinguem-se dois problemas principais: a falta de cobertura de TSR no país e a alta mortalidade da população incidente em HD. Ambos os problemas requerem uma abordagem multidisciplinar e estruturada, focada na detecção precoce, tratamento adequado das etapas iniciais da DRC e o início programado da HD, cujas deficiências têm sido associadas ao aumento da mortalidade na população em HD do MINSA.5 É também necessário que as instituições como a Sociedade Peruana de Nefrologia e as universidades sejam parte das soluções para este problema, promovendo investigações que identifiquem os pontos a serem trabalhados e a formação de recursos humanos treinados para tratar pacientes com DRC.

REFERÊNCIAS

1 Liyanage T, Ninomiya T, Jha V, Neal B, Patrice HM, Okpechi I, et al. Worldwide access to treatment for end-stage kidney disease: a systematic review. Lancet 2015;385:1975-82. PMID: 25777665 DOI: http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(14)61601-9
2 McCullough K, Sharma P, Ali T, Khan I, Smith WC, MacLeod A, et al. Measuring the population burden of chronic kidney disease: a systematic literature review of the estimated prevalence of impaired kidney function. Nephrol Dial Transplant 2012;27:1812-21. DOI: http://dx.doi.org/10.1093/ndt/gfr547
3 Francis ER, Kuo CC, Bernabe-Ortiz A, Nessel L, Gilman RH, Checkley W, et al.; CRONICAS Cohort Study Group. Burden of chronic kidney disease in Peru: a population-based study. BMC Nephrol 2015;16:114. DOI: http://dx.doi.org/10.1186/s12882-015-0104-7
4 Pecoits-Filho R, Rosa-Diez G, Gonzalez-Bedat M, Marinovich S, Fernandez S, Lugon J, et al. Renal replacement therapy in CKD: an update from the Latin American Registry of Dialysis and Transplantation. J Bras Nefrol 2015;37:9-13. DOI: http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20150002
5 Herrera-Añazco P, Benitez-Zapata V, V. Hernandez A, Mezones-Holguin E, Silveira-Chau M. Mortality in patients with chronic kidney disease undergoing hemodialysis in a public hospital of Peru. J Bras Nefrol 2015;37:192-7.