Doenças Cardiovasculares em Português: A Importância da Medicina Preventiva

Doenças Cardiovasculares em Português: A Importância da Medicina Preventiva

Autores:

Fausto J. Pinto

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.110 no.6 São Paulo jun. 2018

https://doi.org/10.5935/abc.20180103

As doenças cardiovasculares (DCV) representam a principal causa de mortalidade e morbidade em todo o mundo.1 Muitas dessas patologias cardiovasculares deixam sequelas significativas com repercussão maior na vida das pessoas afetadas, daí a relevância de se conhecer bem a sua importância, bem como os fatores associados, de forma a desenvolver as medidas preventivas que permitam reduzir o seu impacto.2-4

O trabalho apresentado neste número dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia5 faz uma avaliação epidemiológica das DCV nos países de língua oficial portuguesa (PLP) no período de 1996 a 2016, sendo, nesse sentido, absolutamente inédito e, como tal, muito relevante. Apesar de algumas limitações, sempre presentes em trabalhos desse gênero, é um documento de grande mérito e que permite tirar conclusões muito interessantes. Desde logo, o fato de fazer uma análise numa perspectiva diferente da habitual, incidindo num conjunto de países dispersos pelo mundo, tendo a língua e uma base cultural comum, mas inseridos em pontos geográficos totalmente distintos. Naturalmente que, num estudo desse gênero, o impacto dos aspectos locais, como estruturas sanitárias, políticas de saúde, condições econômico-políticas, entre outras, nos resultados observados tem de ser devidamente enquadrado, o que é feito com bastante elegância nesse trabalho. Os autores concluem, de forma clara, que existem grandes diferenças na importância relativa da carga de DCV nos diferentes PLP e indicam que essas diferenças estão diretamente relacionadas com as condições socioeconômicas de determinado país. Entre as DCV, a doença isquêmica coronariana é a principal causa de morte em todos os PLP, com exceção de Moçambique e São Tomé e Príncipe. Também se conclui que os fatores de risco atribuíveis mais relevantes para as DCV são comuns entre os PLP, sendo eles a hipertensão arterial e os fatores dietéticos. Os autores também concluem que "Possivelmente os fatores genéticos, implícitos na identidade cultural, os fatores inerentes ao hospedeiro, bem como as enormes desigualdades sociais tenham contribuído para a explicação das mortalidades observadas". Um outro ponto a se realçar consiste na observação de uma redução generalizada de mortalidade por DCV, que, embora não tendo a mesma intensidade em todos os países, foi um denominador comum.

A introdução de várias estratégias terapêuticas, quer com fármacos, quer com dispositivos médicos, tem permitido reduzir substancialmente a mortalidade das DCV, em geral. De fato, os avanços diagnósticos terapêuticos na área cardiovascular traduzem-se, hoje, numa contribuição de cerca de 80% no aumento de esperança de vida da população mundial. Trata-se, pois, de um feito excepcional. Contudo, sabe-se hoje em dia que, ao mesmo tempo que a mortalidade tem baixado, há vários fatores de risco que são responsáveis pelo aumento da prevalência das DCV. Hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia, obesidade, tabagismo são algumas das situações que têm contribuído para um aumento generalizado da prevalência das DCV. É, pois, importante realçar que, apesar dos avanços terapêuticos significativos, medidas preventivas devem ser urgentemente tomadas, nomeadamente no controle dos fatores de risco e na promoção de estilos de vida saudáveis. Existe hoje em dia evidência científica da relação entre a implementação de estratégias de prevenção e a correspondente redução de eventos cardiovasculares e mortalidade.6,7 Um exemplo disto é o impacto imediato que a introdução de legislação de ambientes sem tabaco tem na incidência de infarto agudo do miocárdio.8-10 A redução nas taxas de hospitalização tem sido acompanhada de reduções significativas nas taxas de mortalidade5 quer na fase aguda quer no follow-up, refletindo o uso disseminado de tratamentos baseados na evidência, como sejam terapêuticas de reperfusão e fármacos para prevenirem progressão da doença coronária. Muitas dessas intervenções também são protetores contra outras manifestações de DCV, tal como o acidente vascular cerebral.

O trabalho mencionado vem, de certa forma, confirmar esses aspectos e reforçar a necessidade de políticas de medicina preventiva, que têm claramente demonstrado serem de grande eficácia quando implementadas de forma adequada. Vem também trazer, pela primeira vez, um conjunto vasto e robusto de dados sobre um grupo de países, que, embora com situações específicas, também partilham várias similaridades. Esse documento deve ser devidamente divulgado junto das respectivas autoridades sanitárias, a fim de poder reforçar a implementação das medidas necessárias para ajudar a reduzir o impacto das DCV nos respectivos países. É, acima de tudo, um excelente exemplo de cooperação que deve ser devidamente realçado e replicado. Parabéns aos seus autores, em particular, e à comunidade cardiológica de língua portuguesa, em geral.

REFERÊNCIAS

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6 Smolina K, Wright FL, Rayner M, Goldacre MJ. Determinants of the decline in mortality from acute myocardial infarction in England between 2002 and 2010: linked national database study. BMJ. 2012;344:d8059. Erratum in: BMJ. 2013;347:f7379.
7 O'Flaherty M, Buchan I, Capewell S. Contributions of treatment and lifestyle to declining CVD mortality: why have CVD mortality rates declined so much since the 1960s? Heart. 2013;99(3):159-62.
8 Abreu D, Sousa P, Matias-Dias C, Pinto FJ. Longitudinal Impact of the Smoking Ban Legislation in Acute Coronary Syndrome Admissions. Biomed Res Int. 2017;2017:6956941.
9 Mackay DF, Irfan MO, Haw S, Pell JP. Meta-analysis of the effect of comprehensive smoke-free legislation on acute coronary events. Heart. 2010;96(19):1525-30.
10 Cox B, Vangronsveld J, Nawrot TS. Impact of stepwise introduction of smoke free legislation on population rates of acute myocardial infarction deaths in Flanders, Belgium. Heart. 2014;100(18):1430-5.
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