Dor crônica que mais incomoda professores do ensino básico: diferenciais entre distintas regiões do corpo

Dor crônica que mais incomoda professores do ensino básico: diferenciais entre distintas regiões do corpo

Autores:

Flávia Lopes Gabani,
Alberto Durán González,
Arthur Eumann Mesas,
Selma Maffei de Andrade

ARTIGO ORIGINAL

BrJP

versão impressa ISSN 2595-0118versão On-line ISSN 2595-3192

BrJP vol.1 no.2 São Paulo abr./jun. 2018

http://dx.doi.org/10.5935/2595-0118.20180029

INTRODUÇÃO

A dor é um fenômeno complexo e multifatorial, capaz de prejudicar o indivíduo física1 e psicologicamente2. O enfoque na literatura sobre dor em professores, população com exigentes cargas de trabalho, está nas desordens musculoesqueléticas, as quais possuem elevada prevalência3, e é explorada, principalmente, como dor na coluna lombar4,5.

Revisão sistemática da literatura realizada por Erick e Smith5 encontrou prevalências de dor musculoesquelética entre docentes variando de 39 a 95%, com principal localização nas regiões de coluna torácica, pescoço e membros superiores. Essa variação nas prevalências reflete diversidades quanto aos critérios metodológicos adotados nas diferentes pesquisas, como importante variação do tamanho amostral, do nível de ensino em que atuam os docentes entrevistados, bem como da localização do fenômeno doloroso e do tempo considerado para definição de dor, crônica ou aguda.

Poucos estudos abordam especificamente a dor crônica em professores conforme definição recomendada pela International Association for the Study of Pain (IASP) para fins de pesquisas epidemiológicas, ou seja, dor com duração de seis meses ou mais6. Ainda, poucos comparam as características da dor crônica conforme a região do corpo afetada, o que poderia direcionar medidas preventivas específicas5.

Dessa forma, esta pesquisa buscou caracterizar a dor crônica referida como a que mais incomodava, segundo a região do corpo, em professores da rede estadual de ensino em um município do Sul do Brasil.

MÉTODOS

Trata-se de estudo epidemiológico do tipo transversal, o qual faz parte de projeto intitulado “Saúde, estilo de vida e trabalho de professores da rede pública do Paraná - PRÓ-MESTRE” - do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O local de estudo foi o município de Londrina, situado ao norte do Estado do Paraná e com população projetada de 515.707 habitantes no ano de 2012.

Para esta pesquisa foram selecionadas as 20 escolas da zona urbana do município com maior número de professores (cerca de 70% dos professores dos ensinos fundamental e médio), distribuídas em todas as regiões da zona urbana. O tamanho amostral foi calculado para que houvesse poder estatístico suficiente para as análises das associações planejadas pelo estudo maior (PRÓ-MESTRE).

O instrumento para a coleta de dados foi composto por formulário (para anotação dos dados obtidos por entrevistadores) e por questionário, respondido pelo próprio professor após a entrevista. A aplicação do questionário teve o objetivo de preservar a privacidade do professor em questões mais sensíveis, como, por exemplo, renda familiar. Todos os entrevistadores foram previamente treinados e um estudo piloto foi conduzido em município vizinho para treinamento prático dos entrevistadores, readequação do instrumento e para melhor conhecimento da logística para a abordagem dos professores. A coleta de dados aconteceu de agosto a dezembro de 2012 e de fevereiro a junho de 2013.

Foram incluídos professores com vínculo temporário ou definitivo com a rede estadual de ensino, e que atuavam no ensino básico regular (médio e fundamental). Não foram incluídos educadores com atuação exclusiva em outras modalidades de ensino (por exemplo, educação de jovens e adultos), readaptados ou afastados da função, aqueles com tempo de profissão menor que um ano e com diagnóstico de neoplasia maligna, pela diferença existente entre dor oncológica e não oncológica.

Caracterizaram-se como perdas: (1) professores que não aceitaram participar da pesquisa; (2) professores cujo contato não foi possível após a quinta tentativa; (3) professores que se encontravam afastados por motivo de licença, independentemente do tipo, e que não retornaram em até 30 dias após o encerramento da coleta; e (4) entrevistas cujas informações sobre dor eram ignoradas, isto é, não foram preenchidas pelo entrevistador.

A dor crônica foi definida conforme recomendação internacional para pesquisas científicas, isto é, com seis meses ou mais de duração6. Para sua identificação, os professores foram questionados: “Você sofre de algum tipo de dor crônica, ou seja, dor que o(a) incomoda há seis meses ou mais? Caso o professor respondesse positivamente, o entrevistador mostrava um cartão com a figura do corpo humano e solicitava que o entrevistado apontasse os locais em que sentia dor, sendo admitidas múltiplas localizações. Os professores que referiram dor crônica foram inquiridos também sobre a localização da dor que mais os incomodava, sendo admitida uma única resposta, posteriormente classificada conforme as regiões do corpo. As variáveis estudadas foram divididas em: (1) características demográficas e hábitos de vida: sexo, faixa etária, índice de massa corporal (IMC), baseado em peso e altura autorreportados, e atividade física; (2) características e consequências da dor crônica que mais incomodava, na percepção do professor: tempo, frequência e intensidade da dor, interferência da dor no lazer e no trabalho, e dificuldade para dormir devido à dor; (3) absenteísmo e capacidade para o trabalho: falta ao trabalho por problemas de saúde, tempo de afastamento do trabalho por problemas de saúde, e capacidade para o trabalho, na percepção do entrevistado, quanto às exigências físicas e mentais (muito boa, boa, moderada, baixa e muito baixa); e (4) tratamento da dor: procura médica para tratamento da dor, recomendação de tratamento médico e tratamento sem indicação médica. Todas as questões usadas neste estudo foram elaboradas pela equipe de pesquisa do PRÓ-MESTRE, com base na literatura.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UEL sob o parecer CAAE nº 01817412.9.0000.5231. Todos os professores entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Análise estatística

O programa Epi Info® versão 3.5.4 foi usado para dupla digitação dos dados e o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 19.0 para depuração e tabulação. Os professores que referiram dor que mais os incomodava em distintas regiões de corpo (cabeça, coluna lombar, membros superiores e membros inferiores) foram comparados com a população que não referiu dor, conforme características demográficas, de estilo de vida, absenteísmo e capacidade para o trabalho. Utilizou-se o teste Qui-quadrado com correção de Yates para essas comparações, considerando-se que houve diferenças estatisticamente significativas quando o valor de p<0,05. As características e consequências da dor e com relação a tratamento foram tratadas de forma descritiva, em números absolutos e percentuais.

RESULTADOS

Dos 1.505 docentes com vínculo profissional nas instituições selecionadas, não foram incluídos 254 por atuarem apenas em outras modalidades de ensino e 125 por estarem readaptados ou afastados da função, restando 1.126 educadores elegíveis. Desses, houve perdas de 65 professores que se encontravam em licença e não retornaram em até 30 dias após o término da coleta de dados, 63 que se recusaram a participar da pesquisa, 20 que não foram localizados após a quinta tentativa e quatro por não terem registro sobre dor crônica, totalizando 974 docentes. Foram excluídos outros nove docentes com tempo de profissão menor que um ano e sete com diagnóstico de neoplasia maligna, resultando na população final de 958 professores. A dor crônica foi referida por 408 (42,6%) docentes.

Dos 408 professores com dor crônica, seis não souberam definir em qual local do corpo se situava a dor que mais incomodava, restando 402 docentes. Essa exclusão foi necessária porque as perguntas subsequentes eram direcionadas a apenas uma região do corpo. As regiões reportadas como as que apresentavam dor que mais incomodava foram membros superiores (94; 23,4%), cabeça (91; 22,6%), membros inferiores (72; 17,9%) e coluna lombar (64; 15,9%), totalizando 321 professores. Somente professores com dores localizadas nessas regiões foram analisados, devido ao reduzido número de casos que referiram dores em outras regiões do corpo.

Comparativamente à população sem dor, as mulheres predominaram entre aqueles que referiram dor que mais incomodava na cabeça (87,9%; p<0,001) e nos membros superiores (81,9%; p<0,001, enquanto a proporção de homens foi maior entre os com dor na coluna (43,7%; p=0,039). A proporção de professores com idade acima de 50 anos foi significativamente maior entre aqueles que referiram dor em membros inferiores (30,6%; p=0,030), bem como daqueles com IMC classificado como sobrepeso/obesidade (71,8%; p<0,001) (Tabela 1).

Tabela 1 Características demográficas, índice de massa corporal e atividade física dos professores conforme a região do corpo com dor crônica que mais incomoda, Londrina (PR), 2012-2013 

Características demográficas e hábitos de vida* População sem dor
(n=550)
Regiões (n=321)
Membros superiores
(n=94)
Cabeça
(n=91)
Membros inferiores
(n=72)
Coluna lombar
(n=64)
n % n % n % n % n %
Sexo
Masculino 206 37,5 17 18,1 11 12,1 24 33,3 28 43,7**
Feminino 344 62,5 77 81,9 80 87,9 48 66,7 36 56,3
Faixa etária (anos)
≤ 30 101 18,4 11 11,7 13 14,3 11 15,3 9 14,1
31 a 40 175 31,8 23 24,5 29 31,9 13 18,0 15 23,4
41 a 50 176 32,0 38 40,4 36 39,5 26 36,1 29 45,3
≥ 51 98 17,8 22 23,4 13 14,3 22 30,6** 11 17,2
Índice de massa corporal
Desnutrição/eutrófico 269 49,2 45 47,3 53 58,2 20 28,2 23 35,9
Sobrepeso/obesidade 278 50,8 49 52,1 38 41,8 51 71,8 41 64,1
Atividade física
Suficientemente ativo 174 31,6 19 20,2 17 18,7 25 34,7 13 20,3
Insuficientemente ativo 90 16,4 13 13,8 15 16,5 11 15,3 10 15,6
Inativo 286 52,0 62 66,0 59 64,8 36 50,0 41 64,1

*Excluídos registros com informações ignoradas.

**p<0,05;

p<0,001 (teste Qui-quadrado com correção de Yates comparando a dor em cada região do corpo com a população sem dor).

Entre os professores que referiram que a dor que mais os incomodava localizava-se na cabeça, elevado percentual referiu que essa dor durava mais de 10 anos (46,2%), com ocorrência semanal (51,1%) e de intensidade intensa a insuportável (65,9%). Os professores com dor em membros superiores e inferiores afirmaram existência dessa dor principalmente entre seis meses e cinco anos (71,3 e 72,3%, respectivamente), com frequência diária e de intensidade moderada a insuportável. Os docentes que referiram dor na coluna lombar reportaram duração principalmente até dois anos (31,3%), com episódio álgico diário a semanal e de intensidade moderada. A dor na região da cabeça foi, proporcionalmente, a mais referida como interferindo no lazer e no trabalho dos professores. A dor em membros superiores e inferiores dificultaram o sono dos docentes em maior proporção (Tabela 2).

Tabela 2 Características e consequências da dor crônica que mais incomoda professores conforme região do corpo, Londrina (PR), 2012-2013 

Características e consequências da dor* Regiões (n=321)
Membros superiores (n=94) Cabeça
(n=91)
Membros inferiores
(n=72)
Coluna lombar
(n=64)
n % n % n % n %
Tempo da dor
6 meses a 2 anos 31 33,0 9 9,8 30 41,7 20 31,3
Mais de 2 anos até 5 anos 36 38,3 15 16,5 22 30,6 13 20,3
Mais de 5 anos até 10 anos 17 18,1 25 27,5 14 19,4 13 20,3
Mais de 10 anos 10 10,6 42 46,2 6 8,3 18 28,1
Frequência da dor
Diária 51 54,3 12 13,3 44 65,7 26 40,6
Semanal 32 34,0 46 51,1 17 25,3 29 45,3
Esporádica 11 11,7 32 35,6 6 9,0 9 14,1
Intensidade da dor
Leve 8 8,5 8 8,8 13 18,4 13 20,3
Moderada 42 44,7 23 25,3 29 40,8 28 43,8
Intensa/Insuportável 44 46,8 60 65,9 29 40,8 23 35,9
Interferência da dor no lazer
Nada 8 8,6 2 2,2 6 8,4 5 7,8
Pouco/moderadamente 48 51,6 41 45,1 33 45,8 38 59,4
Muito/completamente 37 39,8 48 52,7 33 45,8 21 32,8
Interferência da dor no trabalho
Nada 5 5,3 3 3,3 7 9,7 5 8,0
Pouco/moderadamente 43 45,8 41 45,1 50 69,5 46 73,0
Muito/completamente 46 48,9 47 51,6 15 20,8 12 19,0
Dificuldade de dormir por dor
Não 42 44,7 48 52,7 31 43,1 31 48,4
Sim 52 55,3 43 47,3 41 56,9 33 51,6

*Excluídos registros com informações ignoradas;

O percentual de faltas ao trabalho por motivo de saúde foi maior entre educadores com dor, independentemente da região analisada, em comparação àqueles sem dor (Tabela 3). Os professores que referiram dor que mais incomodava na coluna lombar afastaram-se do trabalho com maior frequência, acima de 30 dias, comparativamente à população sem dor (p<0,05). Quanto à capacidade para o trabalho considerando as exigências físicas, observou-se maior proporção de respostas “baixa/muito baixa” entre educadores com dor crônica em membros superiores (14,9%; p<0,001). Houve maior proporção de professores com dor na cabeça que refeririam “baixa/muito baixa” capacidade para o trabalho quanto às exigências mentais, em comparação aos professores que não referiram dor, porém sem significância estatística (p=0,063).

Tabela 3 Absenteísmo e capacidade para o trabalho de professores conforme a região do corpo com dor crônica que mais incomoda, Londrina (PR), 2012-2013 

Absenteísmo e capacidade para o trabalho* População sem dor
(n=550)
Regiões (n=321)
Membros superiores
(n=94)
Cabeça
(n=91)
Membros inferiores
(n=72)
Coluna lombar
(n=64)
n % n % n % n % n %
Falta ao trabalho por problemas de saúde
Não 294 53,5 37 39,4 37 40,7 29 40,3 26 40,6
Sim 256 46,5 57 60,6 54 59,3 43 59,7 37 58,7
Tempo de afastamento do trabalho por problemas de saúde (dias)**
1 a 7 195 76,2 40 70,2 43 81,1 31 72,1 25 67,6
8 a 30 45 17,6 10 17,5 7 13,2 9 20,9 5 13,5
> 30 16 6,2 7 12,3 3 5,7 3 7,0 7 18,9
Capacidade para o trabalho quanto às exigências físicas
Muito boa/boa 383 69,6 31 33,0 52 57,1 39 54,2 32 50,0
Moderada 141 25,6 49 52,1 33 36,3 25 34,7 25 39,1
Baixa/muito baixa 26 4,8 14 14,9 6 6,6 8 11,1 7 10,9
Capacidade para o trabalho quanto às exigências mentais
Muito boa/boa 396 72,0 67 71,3 58 63,7 58 80,6 45 70,3
Moderada 126 22,9 21 22,3 23 25,3 10 13,9 16 25,0
Baixa/muito baixa 28 5,1 6 6,4 10 11,0 4 5,5 3 4,7

*Excluídos registros com informações ignoradas;

**Percentual calculado considerando os professores que faltaram ao trabalho por problemas de saúde.

p<0,05 (teste Qui-quadrado com correção de Yates comparando a dor em cada região do corpo com a população sem dor).

Os professores com dor crônica em membros superiores foram os que, proporcionalmente, mais demandaram atenção médica nos 12 meses que antecederam a pesquisa (63,8%) e que receberam recomendação de tratamento (Tabela 4). O alívio da dor com fármacos foi mais frequentemente citado por docentes com dor na região da cabeça (70,5%). Os professores com dor em membros inferiores referiram, em maior proporção, melhora com tratamento não farmacológico (33,3%). O alívio da dor após tratamento médico foi relatado, com maior frequência, por professores com dor na coluna lombar (58,6%). A realização de tratamento sem indicação médica predominou entre aqueles com dor na região da cabeça (56,0%).

Tabela 4 Tratamento da dor crônica que mais incomoda os professores conforme a região do corpo, Londrina (PR), 2012-2013 

Tratamento da dor* Regiões (n=321) Total
Membros superiores
(n=94)
Cabeça
(n=91)
Membros inferiores
(n=72)
Coluna lombar
(n=64)
n % n % n % n % n %
Procura médica para tratamento dessa dor nos últimos 12 meses
Não 34 36,2 41 45,6 32 44,4 31 48,4 138 43,1
Sim 60 63,8 49 54,4 40 55,6 33 51,6 182 56,9
Recomendação de tratamento médico**
Não 4 6,7 5 10,2 4 10,0 4 12,1 17 9,3
Sim 56 93,3 44 89,8 36 90,0 29 87,9 165 90,7
Tratamento médico que proporcionou alívio da dor***
Farmacológico 21 37,5 31 70,5 11 30,6 7 24,1 70 42,4
Não farmacológico 14 25,0 3 6,8 12 33,3 9 31,1 38 23,0
Ambos 18 32,1 2 4,5 9 25,0 11 37,9 40 24,2
Nenhum 3 5,4 8 18,2 4 11,1 2 6,9 17 10,4
Intensidade de alívio da dor após tratamento médico***
Nada 4 7,2 7 15,9 5 13,9 1 3,5 17 10,3
Pouco/moderadamente 26 46,4 18 40,9 17 47,2 11 37,9 72 43,6
Muito/completamente 26 46,4 19 43,2 14 38,9 17 58,6 76 46,1
Tratamento sem indicação médica
Não 57 60,6 40 44,0 44 61,1 40 62,5 181 56,4
Sim 37 39,4 51 56,0 28 38,9 24 37,5 140 43,6

*Excluídos registros com informações ignoradas;

**Percentual calculado considerando o número de professores que procuraram atendimento médico;

***Percentual calculado considerando o número de professores que realizaram tratamento recomendado por médico.

DISCUSSÃO

Nesta pesquisa, a dor crônica na região da cabeça, ainda que relatada com menor frequência semanal, foi a mais reportada como intensa/insuportável e com maior interferência no lazer e no trabalho. A predominância desse tipo de dor no sexo feminino, principalmente quando há diagnóstico de enxaqueca, é consenso na literatura, um resultado que não é exclusivamente identificado em professores7-9. No presente estudo, não foi determinado o local específico de origem da dor na região da cabeça, o que dificulta comparações. Alterações vocais, por exemplo, são frequentemente observadas nessa categoria profissional, pela intensa utilização da voz como instrumento de trabalho10.

A dor na região da cabeça foi a que, proporcionalmente, mais gerou automedicação. O recurso farmacológico para alívio da dor, seja por indicação médica ou por automedicação, é frequentemente utilizado quando se trata de quadro intenso e incapacitante. A automedicação tem raiz cultural e está relacionada à dificuldade de acesso à atenção médica. O desafio torna-se maior quando o objetivo é aliviar dores de cabeça, por serem geralmente intensas, mas com boa resposta terapêutica farmacológica por meio de fármacos de baixo custo e fácil aquisição11,12.

O uso de fármacos sem prescrição e acompanhamento médico pode trazer reações de hipersensibilidade, dependência, sangramento digestivo, síndrome de abstinência, resistência bacteriana, e ainda aumentar o risco de determinadas neoplasias e mascarar a evolução de algumas doença13. Além disso, o professor é visto como modelo por seus alunos, os quais podem reproduzir práticas e comportamentos observados. Nesse contexto, o hábito da automedicação deve ser desencorajado para que não seja perpetuado pelos discentes ou por outras pessoas que convivem com os professores. Outras pesquisas também ressaltam a elevada frequência de automedicação em casos de cefaleias11,14.

Quanto à dor crônica em membros superiores e inferiores, posturas e condições laborais inadequadas são frequentemente associadas ao seu surgimento e perpetuação15,16. Enquanto não há adequação das condições trabalhistas, educadores buscam adaptações para tentar garantir qualidade de vida e força laboral. Mas, quando esse esforço supera as capacidades físicas e mentais, o equilíbrio emocional é descompensado, com manifestação nos diversos sistemas orgânicos. O sofrimento do sistema musculoesquelético, nessas situações, é consenso em pesquisas, sendo os membros superiores e inferiores amplamente prejudicados nessa profissão5.

Nesta pesquisa, os docentes que referiram dor crônica que mais incomodava nos membros superiores e inferiores referiram, em proporção mais elevada, maior dificuldade para dormir, mas, por se tratar de estudo transversal, não há como estabelecer relação de causalidade nessa associação. A relação entre condições crônicas dolorosas e distúrbios do sono pode ser bidirecional, podendo a pior qualidade do sono também agravar o processo álgico17,18.

A incapacidade funcional quando há acometimento dos membros por dor crônica é destacada em alguns estudos19,20, assim como a necessidade de atendimento médico21,22. Não é surpreendente que pessoas com dor crônica procurem assistência médica com maior frequência que as demais22,23. Nesse contexto, uma pesquisa australiana realizada por Blyth et al.22 identificou que o processo álgico crônico, quando interfere significativamente nas atividades da vida diária, pode aumentar o número de consultas médicas em até cinco vezes, e o de hospitalizações em até duas vezes, mesmo controlando as análises por possíveis variáveis de confusão.

O alívio da dor nesses pacientes é um desafio, pois normalmente são pessoas que passam por longo processo doloroso, e apresentam sofrimento psíquico e comprometimentos físico e laboral, além de descrença terapêutica por resultados prévios insatisfatórios. Essas condições podem favorecer a não adesão ao tratamento médico e estimular a realização de terapêuticas alternativas de eficácia não comprovada ou a prática de automedicação24. Como estratégia adjuvante, a busca de tratamentos alternativos vem ganhando destaque entre esses indivíduos25.

A ocorrência de sintomas osteomusculares localizados na coluna lombar é encontrada em diversos estudos com professores21,26. A maior prevalência dessa dor em mulheres foi encontrada neste e em outros trabalhos26,27. Entretanto, nesta pesquisa, comparativamente a dores em outros locais do corpo, houve maior proporção de homens com dor na coluna lombar. Já Yue, Liu e Li28 não observaram diferença entre os sexos, mas associaram o IMC ≥ 28kg/m2 como fator de risco para a dor na coluna lombar. Apesar do tempo de existência dessa dor ser proporcionalmente menor em relação às demais regiões do corpo analisadas, sua ocorrência é preocupante pelo caráter incapacitante. Neste estudo, professores com dor nessa região do corpo apresentaram, em maior proporção, faltas ao trabalho com duração superior a 30 dias, corroborando resultados que revelam associação entre lombalgia e elevadas taxas de absenteísmo por longo tempo29.

Assim como a dor crônica nas demais regiões do corpo, a lombalgia requer terapêutica farmacológica e não farmacológica, sendo alvo de diversas pesquisas científicas30-33. Entretanto, por ser uma dor complexa e multifatorial, capaz de gerar elevados gastos públicos e repercutir negativamente na qualidade de vida do trabalhador, requer cuidadosa atenção para seu manuseio. Estudos que aprofundem o conhecimento sobre as condições que se associam à lombalgia crônica, por meio de variáveis de ajuste relevantes, são necessários para planejamento de ações mais específicas e direcionadas.

Alguns investimentos em saúde ocupacional poderiam minimizar os relatos de dor crônica em diversas regiões do corpo. A estrutura física do colégio deve ser planejada e/ou remodelada para que sempre haja opções de acessibilidade, e os mobiliários e equipamentos precisam estar de acordo com a necessidade ergonômica do docente. Deve-se incentivar estratégias que minimizem o sedentarismo, garantindo espaços físicos e horários reservados para a prática de atividade física. Programas dentro do ambiente escolar para prevenção e controle da dor precisam ser prioritários, com inclusão de profissionais capacitados em técnicas de relaxamento, alongamento e fortalecimento muscular. Outra vertente é o investimento em reabilitação dos professores com dor crônica já instalada. Terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas são indicadas para a recuperação da autoconfiança e encorajamento na execução das atividades diárias16,19,25.

CONCLUSÃO

Nesta pesquisa, as regiões do corpo com dor crônica que mais incomodou os professores foram membros superiores, cabeça, membros inferiores e coluna lombar. A dor na região da cabeça destacou-se pelo longo período de duração, pela intensidade percebida como intensa/insuportável e por interferir no lazer e trabalho dos professores em maior proporção que as demais regiões. A dor crônica em membros superiores e inferiores dificultaram o sono dos docentes com maior frequência.

Os professores com dor crônica na coluna lombar tiveram maior proporção de afastamento do trabalho acima de 30 dias em comparação àqueles com dor em outros locais do corpo. É importante que pesquisas futuras procurem compreender melhor a relação entre as condições de trabalho e a dor na região da cabeça, por ser talvez a que mais traga prejuízos aos docentes.

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