Dor de dentes e fatores associados entre adolescentes de um município de grande porte populacional no Nordeste brasileiro

Dor de dentes e fatores associados entre adolescentes de um município de grande porte populacional no Nordeste brasileiro

Autores:

Andreza Cristina de Lima Targino Massoni,
Érika Porto,
Luizy Raquel Barbosa Oliveira Ferreira,
Monalisa da Nóbrega Cesarino Gomes,
Ana Flávia Granville-Garcia,
Sérgio D’Avila

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.25 no.2 Rio de Janeiro fev. 2020 Epub 03-Fev-2020

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232020252.32222017

Introdução

A dor de dente constitui um tema relevante, pois nos dias atuais ainda é apontada como um dos principais problemas que levam as pessoas a procurar atendimento odontológico, tornando-se assim, um fator impactante na saúde pública1,2. Isto acontece, porque sua amplitude é suficientemente capaz de gerar situações indesejáveis e negativas na vida dos indivíduos, como dificuldades para comer e dormir, bem como a diminuição da produtividade no trabalho e na escola3. Profissionais envolvidos com os cuidados com a saúde reafirmam a importância deste assunto, ressaltando que a dor de dente demanda a capacidade de um adequado diagnóstico e técnicas de manuseio na Odontologia4.

A dor é uma experiência por meio da qual a maioria das afecções se manifesta, podendo se expressar de diferentes formas e em distintas populações. De acordo com o Comitê de Taxonomia da International Associaton for the Study of Pain, um dos modelos explicativos da dor a define como uma experiência sensorial e emocional desagradável, decorrente ou descrita em termos de lesões teciduais5. Na área da Odontologia, a dor de dente consiste em um dos principais sintomas de sua prática, apresentando etiologia em componentes neurológicos, fisiológicos e psicológicos, além de ser caracterizada como proveniente ou originária dos tecidos inervados do dente, ou em estruturas adjacentes6. Destaca-se que fatores psicológicos podem apresentar influência na percepção que os indivíduos têm do atendimento odontológico, e assim, a ansiedade, o estado de atenção e as emoções podem levar a superestimar a dor que sentiram7.

Neste contexto, Lucas et al.8 fizeram importantes reflexões sobre o que, realmente, seria a dor. Destacando que qualquer indivíduo pode se reportar à sua experiência pessoal e dizer que sabe o que é a dor, ainda que a busca de palavras para expressar esta sensação seja difícil. Os autores ressaltaram que muitas definições podem ser dadas, mas nunca abarcará a dimensão do que é este problema, isto porque a dor é uma experiência subjetiva, privada, e qualquer informação sobre ela somente a pessoa que a sente pode expressá-la. Às vezes pode-se deduzir pelo comportamento, postura e expressões faciais que o individuo está sentindo dor e por estas indicações até pode-se localizá-la, mas os demais aspectos a seu respeito só o indivíduo pode informar.

Apesar de acometer indivíduos de diferentes faixas etárias, tem-se percebido que esta se evidencia no grupo dos adolescentes, ao qual, segundo a Organização Mundial de Saúde, se enquadra na faixa etária entre 10 e 19 anos9. Considerando o último levantamento epidemiológico a nível nacional, o SB Brasil10, 24,6% dos adolescentes brasileiros procuraram atendimento odontológico devido à dor de dente. Aspecto que pode ser justificado pelo fato de ser a adolescência uma fase onde existe a busca pelo equilíbrio físico, psíquico e social, fazendo com que na maioria das vezes esses indivíduos apresentem comportamentos extremos e sejam de difícil adaptação/ aceitação, mostrando-se às vezes negligentes e omissos nos cuidados com a saúde bucal9.

Estudos têm destacado relações estreitas entre a dor de dente e determinados fatores, dentre eles: o acesso aos serviços de saúde bucal, a ansiedade e o medo odontológico11-13.

Neste contexto, observa-se que a dor de dente pode estar intimamente ligada às condições de acesso da população aos serviços de saúde bucal14,15. Assim, a persistência das dificuldades no acesso aos serviços odontológicos por expressiva parcela da população brasileira, impede a prevenção ou tratamento dos agravos em saúde bucal16,17, acarretando na exacerbação de sintomatologia dolorosa de origem dentária e, consequentemente, afetando, inclusive, a qualidade de vida dos adolescentes18.

Outro aspecto importante na relação entre dor de dente e atendimento odontológico diz respeito às sensações de medo e ansiedade, as quais são capazes de tornar os adolescentes menos propensos a procurar o serviço odontológico receosos de sentirem dor e pela grande ansiedade2,19.

Estes agravos podem ser considerados indicadores de saúde, se observados os impactos psicossociais que os mesmos ocasionam, como, por exemplo, o fato de ser um sintoma motivador para que o paciente procure ou retarde ainda mais o tratamento odontológico20,21.

Se tem observado que a maioria dos trabalhos que avaliam a dor de dente, o fazem de maneira isolada, ou seja, verificam, principalmente, a percepção dos indivíduos sobre a sintomatologia. Assim, torna-se relevante o desenvolvimento desse estudo; que busca verificar, justamente, a auto percepção da dor de dente associada a fatores como acesso aos serviços de saúde bucal, medo e ansiedade. Acrescenta-se a relevância do tema e a necessidade de quantificá-lo, de modo que estratégias no campo da saúde coletiva sejam lançadas no sentido de melhorar as ações educativas e a abordagem desses indivíduos.

Nesta perspectiva, este artigo tem como objetivo descrever e analisar o histórico de dor de dente e seus fatores associados, entre adolescentes de escolas públicas, de um município de grande porte populacional, do Nordeste do Brasil.

Métodos

Tratou-se de uma pesquisa observacional, descritiva, quantitativa, do tipo transversal, realizada nas escolas públicas de Campina Grande, um município de grande porte populacional, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) igual a 0,720, localizado na mesorregião do Agreste Paraibano, a 112 km da Capital do Estado, João Pessoa, Nordeste do Brasil22.

O universo desse estudo foi constituído por 29.838 adolescentes de 10 a 19 anos, matriculados em escolas públicas. Para determinação do tamanho amostral, utilizou-se fórmula para calcular populações finitas, e se considerou: população finita de 29.838 adolescentes, erro aceitável de 5,0%, nível de confiança de 95% e prevalência de 50,0% (para valor desconhecido do fenômeno). Desta forma, obteve-se uma amostra de 380 alunos, a qual foi acrescentada 20% para suprir possíveis perdas (76 adolescentes)23. Assim, a amostra final pode ser constituída por um número de participantes entre 380 e 456 voluntários, distribuídos de forma estratificada, nos 8 Distritos Sanitários do município.

Quanto à coleta de dados, foram aplicados quatro questionários junto aos adolescentes, os quais eram relacionados: à dor de dente24, ao acesso aos serviços de saúde25, à avaliação do medo odontológico26 e à avaliação da ansiedade dental27. Acrescenta-se que foram adicionadas variáveis ligadas ao sexo e a idade dos participantes.

O questionário relacionado à dor de dente24 foi utilizado com a finalidade de verificar a presença ou ausência deste agravo entre os adolescentes, em dois momentos: alguma vez na vida e nos últimos seis meses. Utilizou-se uma escala crescente para avaliar a duração da dor de dente. A intensidade da dor de dente foi avaliada por uma escala verbal28.

O questionário de acesso aos serviços de saúde objetivou avaliar a entrada nos serviços de saúde bucal por parte dos adolescentes e a procura por atendimento odontológico. Este questionário foi baseado no inquérito adotado na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios25. O medo odontológico foi avaliado utilizando-se o Dental Fear Survey26, validado para a língua portuguesa por Cesar et al.29 e Costa e Moraes30. Este instrumento é uma escala tipo likert de 5 pontos (com cinco opções de resposta) com 20 itens que, na versão original, mede 3 fatores: a fuga ao tratamento odontológico, as manifestações fisiológicas do medo e o medo provocado. Após primeira observação dos dados, os participantes foram classificados em com ou sem medo odontológico.

O Modified Dental Anxiety Scale foi utilizado para identificar a ansiedade dental27,31. A escala é composta de cinco questões com cinco alternativas de respostas, sendo que se atribui valor 1 à alternativa correspondente a de menor grau de ansiedade e valor 5, à de maior grau. O mínimo escore possível é 5 (sem ansiedade) e o máximo, 25 (extrema ansiedade). Para este estudo, os indivíduos foram categorizados de acordo com a presença ou ausência de ansiedade.

É válido ressaltar que os questionários referentes às sensações de ansiedade e medo foram respondidos apenas pelos adolescentes que já haviam visitado o Cirurgião-Dentista em algum momento da vida, inviabilizando assim, que adolescentes que nunca utilizaram os serviços de saúde bucal os respondessem.

Para a análise estatística, os dados obtidos foram categorizados em dois grupos segundo a idade (10 a 14 anos, 15 a 19 anos) e o sexo (masculino e feminino). Os dados foram processados no programa estatístico SPSS (Statistical Package for Social Science) versão 20.0. Foi realizada análise bivariada e multivariada através da Regressão de Poisson para verificar a relação entre o histórico da dor de dente na vida e nos últimos 6 meses e seus fatores associados (sexo, faixa etária, visita ao dentista alguma vez na vida, visita ao dentista nos últimos 6 meses, ansiedade e medo) entre os adolescentes. As variáveis com um valor de p < 0,20 no modelo bivariado foram inseridas no modelo de regressão multivariado por meio de um procedimento backward stepwise. No modelo final foram consideradas como associadas às variáveis com um valor de p<0,05. Em todos os testes foram adotados níveis de significância de 5%.

Esta pesquisa foi submetida à apreciação do Comitê de Ética da Universidade Estadual da Paraíba, obtendo aprovação. O mesmo seguiu os princípios éticos propostos na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, sendo garantido o sigilo dos dados referentes aos participantes.

Resultados

Ao término da coleta de dados, 458 adolescentes participaram do presente estudo, obtendo uma taxa de resposta de mais de 100,0%. De modo geral, a prevalência de dor de dente na vida entre os adolescentes foi de 65,7%; enquanto nos últimos 6 meses foi de 28,6%. Os adolescentes relataram que a sensação de dor durou um período muito pequeno (32,2%). Sendo esta, principalmente, desconfortável (40,2%) (Tabela 1).

Tabela 1 Frequência da prevalência, a intensidade e as características da dor de dente entre os adolescentes de escolas públicas. 

Variáveis Frequência (%)
Dor de dente na vida
Não 136(29,7)
Sim 301(65,7)
Não lembra 21(4,6)
Dor de dente nos últimos 6 meses
Não 299(65,3)
Sim 131(28,6)
Não lembra 28(6,1)
Duração da dor
Tempo muito pequeno 97(32,2)
O dia inteiro 39(13,1)
A noite inteira 51(16,9)
Mais que um dia 38(12,6)
Não lembra 76(25,2)
Intensidade da dor
Leve 55(18,3)
Desconfortável 121(40,2)
Estressante 42(14,0)
Horrível 68(22,6)
Intolerável 15(5,0)

Fonte: elaboração própria.

Ao analisar os dados acerca do histórico da dor de dente na vida e seus fatores associados, como demonstrado na Tabela 2, consideraramse as respostas de 437 adolescentes, aqui então, obtendo-se uma taxa de resposta de 95,4%. Um total de 21 adolescentes não participou desta parte da análise, por responderem não lembro/não sei sobre o histórico de dor de dente na vida.

Tabela 2 Análise bivariada e multivariada através da Regressão de Poisson em relação ao histórico de dor de dente e seus fatores associados entre adolescentes de escolas públicas. 

Variável Histórico de dor de dente na vida Bivariada Multivariada
Sim
n(%)
Não
n(%)
RP Não ajustada**
p-valor (95% IC)
RP Ajustada
p-valor (95% IC)
Sexo
Feminino 161(73.2) 59(26.8) 0.052 1.13(0.99-1.28) 0.524 1.04(0.92-1.17)
Masculino 140(64.5) 77(35.5) 1.00 1.00
Faixa etária
10 a 14 anos 120(76.9) 36(23.1) 0.004 1.19(1.05-1.34) 0.003 1.19(1.06-1.34)
15 a 19 anos 181(64.4) 100(35.6) 1.00 1.00
Visita ao dentista alguma vez na vida
Sim 287(72.1) 111(27.9) 0.001 2.00(1.31-3.06) 0.306 1.22(0.96-1.78)
Não 14(35.9) 25(64.1) 1.00 1.00
Visita ao dentista nos últimos 6 meses
Sim 157(74.8) 53(25.2) 0.011 1.17(1.03-1.33) 0.401 1.05(0.93-1.19)
Não 144(63.4) 83(36.6) 1.00 1.00
Ansiedade
Com ansiedade 263(74.3) 91(25.7) 0.029 1.36(1.03-1.79) 0.408 1.12(0.85-1.48)
Sem ansiedade 24(54.5) 20(45.5) 1.00 1.00
Medo
Com medo 271(74.9) 91(25.1) 0.006 1.68(1.16-2.43) 0.006 1.65(1.15-2.37)
Sem medo 16(44.4) 20(55.6) 1.00 1.00

Fonte: elaboração própria.

** Regressão de Poisson não ajustada para as variáveis independentes e histórico de dor de dente.

Variáveis incorporadas no modelo multivariado (p < 0,20): sexo, faixa etária, visita ao dentista alguma vez na vida, visita ao dentista nos últimos 6 meses, ansiedade e medo.

Percebe-se que a ocorrência de dor de dente na vida apresenta uma grande prevalência entre os adolescentes do sexo feminino (73,2%), como também entre os adolescentes de menor faixa idade (76,9%). Entre essas duas variáveis analisadas, apenas a variável faixa etária obteve valores com diferença estatisticamente significativa, em ambas as análises: bivariada (p = 0,004) e multivariada (p = 0,003) (Tabela 2).

É possível observar também dados relacionados ao acesso dos adolescentes aos serviços de saúde bucal, onde a ocorrência de dor de dente na vida aconteceu com maior prevalência entre os adolescentes que visitaram o Cirurgião-Dentista alguma vez na vida (72,1%), com diferença estatisticamente significativa na análise bivariada (p = 0,001), porém, na análise multivariada os valores não se mantiveram. Quanto a variável visita ao dentista nos últimos 6 meses, ela teve uma associação na análise bivariada com a variável dor de dente (p=0,011), no entanto essa associação foi perdida na análise multivariada (p > 0,05) (Tabela 2).

Dentre os adolescentes com histórico de dor de dente na vida, 74,3% relataram se sentirem ansiosos frente ao atendimento odontológico, porém, sem diferença estatisticamente significativa. Todavia, estes relataram sentir medo (74,9%) frente ao atendimento odontológico, com diferença estatisticamente significativa para as análises bivariada (p = 0,006) e multivariada (p = 0,006) (Tabela 2).

Na Tabela 3 se verificam dados sobre o histórico de dor de dente apenas nos últimos 6 meses e seus fatores associados. 430 adolescentes responderam aos questionários referentes à dor de dente nos últimos seis meses (taxa de resposta de 93,8%). Um total de 28 adolescentes não participou desta investigação, por responderem não lembro/não sei sobre o histórico de dor de dente nos últimos seis meses ou por terem se recusado a participar do estudo.

Tabela 3 Análise bivariada e multivariada através da Regressão de Poisson em relação ao histórico de dor de dente nos últimos 6 meses e seus fatores associados entre adolescentes de escolas públicas. 

Variável Histórico de dor de
dente nos últimos 6
meses
Bivariada Multivariada
Sim
n(%)
Não
n(%)
RP Não ajustada**
p-valor (95% IC)
RP Ajustada
p-valor (95% IC)
Sexo
Feminino 82(38.5) 131(61.5) < 0.001 1.70(1.26-2.29) 0.002 1.63(1.20-2.22)
Masculino 49(22.6) 168(77.4) 1.00 1.00
Faixa etária
10 a 14 anos 57(36.8) 98(63.2) 0.031 1.36(1.02-1.81) 0.037 1.35(1.01-1.80)
15 a 19 anos 74(26.9) 201(73.1) 1.00 1.00
Visita ao dentista alguma vez na vida
Sim 123(31.5) 267(68.5) 0.161 1.57(0.83-2.98) 0.898 1.05(0.49-2.20)
Não 8(20.0) 32(80.0) 1.00 1.00
Visita ao dentista nos últimos 6 meses
Sim 70(33.8) 137(66.2) 0.147 1.23(0.92-1.64) 0.755 1.04(0.77-1.41)
Não 61(27.4) 162(72.6) 1.00 1.00
Ansiedade
Com ansiedade 114(33.0) 231(67.0) 0.103 1.65(0.90-3.02) 0.142 1.54(0.86-2.76)
Sem ansiedade 9(20.0) 36(80.0) 1.00 1.00
Medo
Com medo 115(32.6) 238(67.4) 0.203 1.50(0.80-2.83) - -
Sem medo 8(21.6) 29(78.4) 1.00 - -

Fonte: elaboração própria.

**Regressão de Poisson não ajustada para as variáveis independentes e histórico de dor de dente nos últimos 6 meses.

Variáveis incorporadas no modelo multivariado (p <0,20): sexo, faixa etária, visita ao dentista alguma vez na vida, visita ao dentista nos últimos 6 meses e ansiedade.

*Valor ausente devido a variável não ter sido incluída no modelo multivariado.

Percebe-se que a ocorrência de dor de dente nos últimos 6 meses apresentou menor frequência para as variáveis sexo e faixa etária quando comparados ao histórico de dor de dente na vida. Ainda assim, se manteve o padrão de adolescentes do sexo feminino mais jovens, com maior relato da dor de dente (Tabela 3).

É possível observar também na Tabela 3, dados relacionados ao acesso dos adolescentes aos serviços de saúde bucal, situação na qual a ocorrência de dor de dente nos últimos 6 meses apresentou baixa frequência. Enquanto 31,5% dos adolescentes que visitaram o Cirurgião-Dentista alguma vez na vida sentiram dor de dente; 33,8% daqueles adolescentes que visitaram o CirurgiãoDentista nos últimos 6 meses relataram sentir dor de dente. Ambos demonstraram relação estatisticamente significativa no modelo bivariado, mas estas relações não se mantiveram no modelo multivariado.

Dentre os adolescentes com histórico de dor de dente nos últimos 6 meses, 33,0% relataram se sentirem ansiosos frente ao atendimento odontológico, sem diferença estatisticamente significante (p = 0,103). Nesta mesma análise, em relação ao medo, 21,6% relataram sentir medo frente ao atendimento odontológico, sem diferença estatisticamente significante.

Discussão

A dor de dente é um agravo de grande impacto na Saúde Pública, pois, dependendo de sua intensidade, pode refletir de forma negativa nas atividades cotidianas dos indivíduos acometidos, bem como na sociedade. Entre essas repercussões, destacam-se os custos econômicos decorrentes, sejam eles diretos relativos aos serviços de saúde, ou indiretos, referentes à ausência nas atividades laborais e acadêmicas, no caso de estudantes.

A prevalência de dor de dente entre os adolescentes foi alta, com a ressalva de que a maioria dos investigados relatou uma duração muito pequena da sensação dolorosa, sendo esta, considerada predominantemente como desconfortável. Aspecto que está de acordo com outros estudos13,19.

Corroborando com os achados de prevalência desse trabalho, Hack-Comunello et al.32 realizaram um estudo com 603 escolares de 12 anos na cidade de Joaçaba-SC e perceberam que 71,9% dos sujeitos da pesquisa relataram ter tido o sintoma pelo menos uma vez durante a vida. Dados semelhantes foram encontrados nos Estados de Sergipe9, no ano de 2011, com prevalência de 71% e São Paulo19, no ano de 2012, com prevalência de 71,29%. Todavia, em outros estudos12,33 a prevalência de dor de dente nos últimos 6 meses foi inferior àquelas relatadas anteriormente, com 14,8% e 22,1%, respectivamente, porém, semelhantes também aos dados contidos neste estudo. A menor prevalência pode ter sido decorrente das peculiaridades nas metodologias de cada estudo, como localização, tipo de oferta de serviço: público/privado e, principalmente, tempo da última visita ao Cirurgião-Dentista. Outra reflexão capaz de justificar essa disparidade é bastante lógica; ora, se a prevalência de dor de dente na vida foi maior do que nos últimos 6 meses, então, este fato se deu, pois as chances de um adolescente ter sentido dor de dente pelo menos uma vez ao longo de até 19 anos, é muito maior do que se comparada a apenas os últimos 6 meses.

Se considerando a associação entre dor de dente e a variável sexo, observa-se que a prevalência foi baixa, havendo diferença estatisticamente significativa entre os adolescentes do sexo masculino que não apresentaram dor de dente nos últimos 6 meses. É perceptível que não há consenso na literatura científica quanto à associação entre dor de dente e o sexo, ora havendo uma maior prevalência deste agravo no sexo masculino34, ora no sexo feminino5,19. Em relação à faixa etária, foi observada diferença estatisticamente significativa da seguinte forma: entre os adolescentes de menor idade que apresentaram dor de dente em algum momento da vida, corroborando com os achados de outros autores11,12,33; bem como, entre os adolescentes de maior idade, ao qual não sentiram dor de dente nos últimos 6 meses, concordando com outros estudos12,35.

É relevante refletir que a relação entre idade e dor de dente talvez não seja diretamente proporcional, uma vez que os adolescentes de menor idade relataram em sua maioria a dor. Este fato leva a análise de que os pré-adolescentes vivenciam uma série de mudanças e que estas, influenciam diretamente em seu comportamento e atitudes diárias, que podem ser percebidas pela carga acumulada de estresse e rebeldia, sendo mais adeptos aos cuidados estéticos com o corpo e cabelos, se comparadas à boca, gerando então a recusa nos cuidados diários com a higiene oral e, consequentemente, maiores casos de dor de dente no grupo de menor idade. Em adição, é interessante observar o estudo de Cabral et al.12, onde não houve casos de dor de dente entre indivíduos de maior idade. Os autores refletiram sobre a possibilidade de os mesmos começarem apresentar sensibilidade diminuída, devido à esclerose dos tecidos dentinários, bem como ao fato de serem mais independentes e procurarem mais o serviço odontológico.

O acesso aos serviços de saúde bucal é tido como um importante preditor de qualidade de vida, devendo então ser refletido considerando a presença da dor de dente5. Desta forma, é recomendada a visita periódica ao Cirurgião-Dentista, pelo menos uma vez ao ano, a fim de identificar precocemente problemas de saúde bucal.

Neste contexto, pôde-se perceber no presente estudo e em outros19,36 que a ocorrência de dor de dente na vida é diretamente proporcional ao tempo de visita dos adolescentes ao CirurgiãoDentista, com diferença estatisticamente significante. Ou seja, os adolescentes que mais sentiram dor de dente foram aqueles que procuraram o atendimento há mais tempo. Logo, questiona-se se estes adolescentes só procuravam o atendimento quando realmente não suportavam mais a dor? Tal reflexão pode ser válida desde que outros aspectos também sejam considerados, como a existência de barreiras que poderiam dificultar este atendimento e, consequentemente, postergar a ida, como: falta de profissional na Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF) mais próxima, falta de material para execução de procedimentos, demanda exacerbada, entre outros fatores. Os impactos negativos causados pela dor de dente na vida dos indivíduos reforçam a necessidade de ações prioritárias na atual política de saúde bucal, ampliando o acesso da atenção àqueles com piores condições e saúde bucal.

Apesar dos avanços tecnológicos e científicos nos equipamentos e procedimentos odontológicos, os sentimentos de ansiedade e medo em relação às consultas com o Cirurgião-Dentista ainda permeiam a vida das pessoas.

Neste estudo, não houve diferença estatisticamente significante entre o histórico de dor de dente na vida, nos últimos 6 meses e a ansiedade. No entanto, é sabido que pelo simples fato de o adolescente sentir dor de dente e necessitar de algum procedimento mais invasivo, o indivíduo pode apresentar algum grau de ansiedade. Tais considerações foram evidenciadas em outros estudos11,37. Quanto ao medo, houve diferença estatisticamente significativa entre este e o histórico de dor de dente alguma vez na vida, no entanto, não houve diferença para a variável dor de dente nos últimos 6 meses. Outros estudos também relataram a grande prevalência do medo13,38, cuja sensação ocasiona diversos problemas periódicos, pois quando o tratamento preventivo não é realizado, as doenças bucais progridem e tomam proporções que necessitam de tratamentos curativos mais invasivos e, consequentemente, mais dolorosos que despertam tal sensação, conjunta com a fuga do atendimento.

A dor de dente pode ser reconhecida como preditor, no que diz respeito ao acesso aos serviços odontológicos entre os adolescentes. Não só ela, mas também outros fatores, que variam desde problemas técnicos e de gestão, até sensações de medo e ansiedade, são condições que influenciam direta ou indiretamente no estado psicológico do paciente, gerando recusa e/ou adiamento do atendimento odontológico. É necessário que haja maior emprego de medidas preventivas; e de promoção em saúde bucal, através de ações coletivas que esclareçam a população quanto a sua importância; bem como a ampliação do acesso aos serviços de saúde, preferencialmente os de ordem pública, no intuito de trazer uma visão positiva dos indivíduos frente ao atendimento odontológico. Tais estratégias se tornam essenciais para a melhoria das condições bucais, diminuindo o sofrimento e, melhorando a qualidade de vida.

Conclusão

Os dados permitem concluir que a prevalência de dor de dente relatada pelos adolescentes foi alta.

Pela análise bivariada foi constatado que a ocorrência de dor de dente na vida foi mais prevalente entre os adolescentes de menor idade: 10 a 14 anos, que visitaram o Cirurgião-Dentista alguma vez na vida e que relataram sentir medo, frente ao atendimento odontológico. Se observou também que a ocorrência de dor de dente nos últimos 6 meses apresentou baixa frequência, onde os adolescentes do sexo masculino e de maior idade: 14 a 19 anos, relataram não terem sentido dor de dente nos últimos 6 meses.

A análise multivariada demostrou que houve maior prevalência de dor de dente na vida, entre os adolescentes de menor faixa etária e aqueles que relataram a sensação de medo frente ao atendimento odontológico. No entanto, a prevalência de dor de dente nos últimos 6 meses apresentou baixa frequência, onde os adolescentes do sexo masculino e de maior idade relataram não terem sentido dor de dente nos últimos 6 meses.

Os dados desse estudo permitem entender que a dor de dente ocasiona consequências na vida das pessoas, influenciando no bem-estar e na qualidade de vida. Permitem também alertar os sistemas de saúde, no sentido de que melhorias precisam ser executadas no campo da saúde pública, incluindo estratégias de educação em saúde, no sentido de diminuir as sensações de medo e ansiedade frente ao atendimento odontológico, como também a ampliação do acesso aos serviços de saúde.

REFERÊNCIAS

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