Dor e desconforto musculoesquelético em fisioterapeutas da unidade de terapia intensiva e enfermaria de um hospital universitário: um estudo de coorte retrospectivo

Dor e desconforto musculoesquelético em fisioterapeutas da unidade de terapia intensiva e enfermaria de um hospital universitário: um estudo de coorte retrospectivo

Autores:

Renata Maria Eloi dos Santos,
Paula Andreatta Maduro,
Tarcísio Fulgêncio Alves da Silva,
Francis Trombini-Souza

ARTIGO ORIGINAL

BrJP

versão impressa ISSN 2595-0118versão On-line ISSN 2595-3192

BrJP vol.1 no.2 São Paulo abr./jun. 2018

http://dx.doi.org/10.5935/2595-0118.20180025

INTRODUÇÃO

Os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) são caracterizados por um processo crônico-degenerativo e psicossocial. Fatores como repetitividade de movimentos, sobrecarga mecânica nos segmentos corporais, trabalho muscular estático, posturas inadequadas por tempo prolongado, impactos, vibração, frio, esforço físico, fatores organizacionais e psicossociais podem dar origem a esses distúrbios e seus sintomas físicos como dor, edema, parestesia, enrijecimento articular, diminuição de força e fadiga1.

Os profissionais de saúde, especialmente aqueles que realizam atendimentos diários de pacientes, estão entre as profissões com a maior taxa de DORT2, o que resulta no comprometimento da realização de suas atividades laborais, desde a limitação de movimentos até a invalidez temporária3. Um estudo mostrou que em fisioterapeutas, a prevalência de DORT ao longo da vida foi de 91%, e que um em cada seis fisioterapeutas mudou de área de atuação ou deixou a profissão por algum DORT4.

As constantes transferências de pacientes, a manutenção de posturas corporais inadequadas e a realização de condutas manuais, rotineiramente executadas pelos fisioterapeutas5 que trabalham nas enfermarias, podem ser destacadas como um dos principais fatores de risco biomecânico para o desenvolvimento de DORT.

Por outro lado, a unidade de terapia intensiva (UTI) é vista como o mais tenso, traumatizante e agressivo ambiente hospitalar, em decorrência da rotina intensa de trabalho e das diversas situações estressantes como as crises frequentes dos pacientes, os ruídos intermitentes de monitores, bombas de aspiração, respiradores, bem como gemidos, gritos de dor e choros6.

Contudo, embora se tenha observado diversos fatores, tanto biomecânicos quanto emocionais que podem contribuir para o surgimento de DORT em fisioterapeutas, ainda não se sabe se esses profissionais que atuam dentro de um hospital universitário, apresentarão sintomas osteomusculares relacionados ao setor de trabalho (UTI e enfermaria) e se, depois de 12 meses trabalhando dentro desse hospital universitário, a prevalência desses sintomas será a mesma que a do momento de admissão nesse serviço hospitalar.

Diante disso, os objetivos foram: (i) comparar o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético entre fisioterapeutas da UTI e enfermarias de um hospital universitário e (ii) avaliar retrospectivamente, após 12 meses de trabalho, o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético de fisioterapeutas que atuam na UTI e nas enfermarias desse hospital.

As premissas eram que haveria uma associação entre o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético e: (i) o setor de atuação dos fisioterapeutas desse hospital universitário, (ii) o tempo de trabalho desses fisioterapeutas, tanto na UTI quanto nas enfermarias desse hospital.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo. Foi acessado o banco de dados do Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) / Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) para a avaliação dos dados de autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético de cada um dos 18 fisioterapeutas efetivos do HU-UNIVASF / EBSERH/. Desse modo, os dados adquiridos entre fevereiro e agosto do 2015 (T1) foram comparados, retrospectivamente, com os dados já existentes no banco de dados quando da admissão dos funcionários desse HU (T0). Esses dados foram avaliados por meio da versão adaptada e traduzida para o Brasil do Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO)8, compreendendo todas as áreas anatômicas do corpo. Dessa forma, toda a população de fisioterapeutas do HU-UNIVASF (n=18) foi avaliada atualmente (T1) e então comparada com os dados retrospectivos adquiridos um ano antes (T0), no momento da admissão desses profissionais. Vale ressaltar que tanto as avaliações admissionais (T0) quanto as atuais (T1) foram realizadas pelo mesmo pesquisador. Nessas avaliações foram considerados: (i) os sintomas nos últimos 12 meses, (ii) se houve impedimento de realizar atividades normais por causa desse problema nos últimos 12 meses; (iii) se houve consulta a algum profissional da área da saúde por causa dessa condição nos últimos 12 meses e (iv) os sintomas nos últimos 7 dias. A aplicação dos instrumentos de coleta, tanto em T0 quanto em T1, ocorreu em sessões individuais, no próprio ambiente de trabalho desses profissionais. Inicialmente, aplicou-se um questionário de avaliação de dados demográficos, antropométricos e ocupacionais dos fisioterapeutas, assim como a existência de 2ª jornada de trabalho e Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ)7 para avaliar o nível de atividade física.

Análise estatística

Foi utilizado o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 22.0. Inicialmente, testou-se a normalidade (teste de Shapiro-Wilk) e a homocedasticidade (teste de Levene) das seguintes variáveis: idade (anos), massa (kg), estatura (m), índice de massa corpórea (kg/m2). Os dados referentes à presença ou não (dicotômica) de sintomas osteomusculares foram apresentados por meio de estatística descritiva em números absolutos e percentuais, para cada um dos grupos. Utilizou-se também, para verificar as associações, o teste de McNemar (autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético e o setor de trabalho; e também o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético e 2ª jornada de trabalho e nível de atividade física) para os grupos estudados.

Adotou-se o nível de significância de 0,05 para diferenças significativas.

RESULTADOS

Do total de 18 fisioterapeutas (n=18) desse HU, 15 (83%) eram do sexo feminino. Desses 18 fisioterapeutas, 11 (61%) exerciam suas atividades na UTI, cujas características antropométricas foram: 30±5 anos; 63,42±8,06kg; 1,66±0,06m; 23,09±2,56kg/m2 e sete (39%) nos setores de enfermaria, cujas características antropométricas foram: 31±5 anos; 64,54±10,34kg; 1,72±0,10m; 21,93±3,03 kg/m2, formando assim os dois grupos avaliados e analisados (UTI e enfermaria).

Na UTI, tinham 10 (91%) fisioterapeutas do sexo feminino, com idade de 30±5 anos, e apresentaram os seguintes dados antropométricos: 63,96±8,29kg; 1,65±0,06m; 23,39±2,48kg/m2. O único (9%) fisioterapeuta do sexo masculino, tinha 29 anos; 58kg; 1,70m; 20,07kg/m2. No setor de enfermaria, trabalhavam cinco (71%) fisioterapeutas do sexo feminino, com idade de 31±6 anos, cujas características antropométricas foram: 59,96±6,63kg; 1,69±0,11m, 20,95±1,99kg/m2 e dois (29%) fisioterapeutas do sexo masculino, com idade de 30±1 anos e cujas características antropométricas foram: 76±9,90kg; 1,77±0,06m; 24,40±4,72kg/m2.

Os grupos de UTI e enfermaria foram homogêneos entre si em relação à idade, massa, estatura e índice de massa corpórea.

Em termos de nível de atividade física, avaliado pela versão brasileira do IPAQ7 e classificado como baixo, moderado e alto, observou-se que no grupo de fisioterapeutas da UTI, (40%; n=4) apresentaram nível baixo, (50%; n=5) moderado e (10%; n=1) alto. Para o da enfermaria, (14%; n=1) apresentaram nível baixo, (57%; n=4) moderado e (29%; n=2) alto. Ao caracterizar a população de fisioterapeutas desse hospital universitário (n=18) em termos de nível de atividade física, não se observou associação entre o setor de trabalho o nível de atividade física baixo (p=0,338), moderado (p=1) e alto (p=0,536).

Dos 11 fisioterapeutas da UTI, no período T0, seis (55%) referiram algum tipo de sintoma osteomuscular nos últimos 12 meses, cujas maiores prevalências foram na região do pescoço (27%; n=3) e parte inferior das costas (18%; n=2). Três (27%) fisioterapeutas desse setor relataram ter tido a necessidade de procurar algum profissional da saúde em função da dor e do desconforto motivados pelas queixas referentes à região do ombro (9%; n=1), parte inferior das costas (9%; n=1) e quadril e coxas (9%; n=1). Um (9%) dos entrevistados desse grupo referiu dor e desconforto musculoesquelético em pelo menos uma das regiões corporais nos últimos sete dias. Os fisioterapeutas desse setor não relataram a necessidade de afastamento das atividades exercidas em função dos sintomas, conforme mostrado nas tabelas 1 e 3.

Tabela 1 Associação entre dor e desconforto musculoesquelético autorreferido pelos dois grupos (T0) 

Regiões anatômicas Sintomas nos últimos 12 meses Impedimento de realizar atividades normais por causa desse problema nos últimos 12 meses Consulta a algum profissional da área da saúde por causa dessa condição nos últimos 12 meses Sintomas nos últimos 7 dias
n=6 (33%) n=0 (0%) n=3 (17%) n=2 (11%)
T0 T0 T0 T0
UTI ENF Valor de p UTI ENF Valor de p UTI ENF Valor de p UTI ENF Valor de p
Pescoço 3 (27%) 1 (14%) 0,505 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Ombros 1 (9%) 0 (0%) 1 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 0 (0%) 1 0 (0%) 0 (0%) §
Parte superior das costas 1 (3%) 0 (0%) 1 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Cotovelos 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Punho/mãos 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Parte inferior das costas 2 (18%) 0 (0%) 0,496 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 0 (0%) 1 0 (0%) 0 (0%) §
Quadril/Coxas 1 (9%) 0 (0%) 1 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 0 (0%) 1 1 (9%) 0 (0%) 1
Joelhos 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Tornozelo/pé 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §

UTI = unidade de terapia intensiva; ENF = enfermarias; § = ausência de valor para a realização do teste Exato de Fisher.

Tabela 2 Associação entre dor e desconforto musculoesquelético autorreferido pelos dois grupos após 12 meses (T1) 

Regiões anatômicas Sintomas nos últimos 12 meses Impedimento de realizar atividades normais por causa desse problema nos últimos 12 meses Consulta a algum profissional da área da saúde por causa dessa condição nos últimos 12 meses Sintomas nos últimos 7 dias
n=16 (89%) n=1 (6%) n=4 (22%) n=9 (50%)
T1 T1 T1 T1
UTI ENF Valor de p UTI ENF Valor de p UTI ENF Valor de p UTI ENF Valor de p
Pescoço 6 (55%) 2 (29%) 0,334 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 2 (18%) 1 (14%) 1
Ombros 1 (9%) 4 (57%) 0,100 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 1 (14%) 1
Parte superior das costas 3 (27%) 5 (71%) 0,153 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 2 (18%) 2 (29%) 1
Cotovelos 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Punho/Mãos 1 (9%) 1 (14%) 1 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 1 (14%) 0,411
Parte inferior das costas 3 (27%) 3 (43%) 0,643 0 (0%) 1 (14%) 0,411 1 (9%) 1 (14%) 1 2 (18%) 3 (43%) 0,592
Quadril/Coxas 3 (27%) 1 (14%) 0,602 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 1 (14%) 1 1 (9%) 1 (14%) 1
Joelhos 2 (18%) 1 (14%) 1 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Tornozelo/pé 1 (9%) 2 (29%) 0,536 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 1 (14%) 0,411

UTI = unidade de terapia intensiva; ENF = enfermarias; § = ausência de valor para a realização do teste Exato de Fisher.

Tabela 3 Associação entre dor e desconforto musculoesquelético autorreferido pelos fisioterapeutas e o tempo de trabalho dos fisioterapeutas nos dois grupos 

Setor Sintomas nos últimos
12 meses
Impedimento de realizar atividades normais por causa desse problema nos últimos 12 meses Consulta a algum profissional da área da saúde por causa dessa condição nos últimos 12 meses Sintomas nos últimos
7 dias
Região
corporal
T0 T1 Valor de p T0 T1 Valor de p T0 T1 Valor de p T0 T1 Valor de p
UTI Pescoço 3 (27%) 6 (55%) 1,000 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 2 (18%) 0,043
Ombro 1 (9%) 1 (9%) 0,027 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 0 (0%) 0,016 0 (0%) 1 (9%) 0,009
Parte superior das costas 1 (3%) 3 (27%) 0,078 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 2 (18%) 0,043
Cotovelo 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Punho 0 (0%) 1 (9%) 0,008 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Parte inferior das costas 2 (18%) 3 (27%) 0,182 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 1 (9%) 0,027 0 (0%) 2 (18%) 0,043
Quadril/Coxa 1 (9%) 3 (27%) 0,077 0 (0%) 0 (0%) § 1 (9%) 1 (9%) 0,027 1 (9%) 1 (9%) 0,027
Joelho 0 (0%) 2 (18%) 0,013 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Tornozelo/pé 0 (0%) 1 (9%) 0,078 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Enfermaria Pescoço 1 (14%) 2 (29%) 0,220 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 1 (14%) 0,077
Ombro 0 (0%) 4 (57%) 0,249 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 1 (14%) 0,077
Parte superior das costas 0 (0%) 5 (71%) 0,480 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 2 (29%) 0,182
Cotovelo 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Punho/Mão 0 (0%) 1 (14%) 0,041 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 1 (14%) 0,077
Parte inferior das costas 0 (0%) 3 (43%) 0,134 0 (0%) 1 (14%) 0,041 0 (0%) 1 (14%) 0,041 0 (0%) 3 (43%) 0,342
Quadril/Coxa 0 (0%) 1 (14%) 0,041 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 1 (14%) 0,041 0 (0%) 1 (14%) 0,077
Joelho 0 (0%) 1 (14%) 0,041 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) §
Tornozelo 0 (0%) 2 (29%) 0,074 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 0 (0%) § 0 (0%) 1 (14%) 0,077

Dos sete fisioterapeutas das enfermarias, também no período T0, apenas um (14%) referiu algum tipo de sintoma osteomuscular nos últimos 12 meses, referente à região do pescoço. Nenhum dos entrevistados desse grupo relatou dor e desconforto musculoesquelético nos últimos sete dias, bem como necessidade de afastamento das atividades laborais em função dos sintomas ou necessidade de procurar algum profissional da saúde em função da dor e desconforto, conforme mostrado nas tabelas 1 e 3.

Após 12 meses de trabalho (T1), dos 11 fisioterapeutas da UTI, nove (82%) referiram algum tipo de sintoma osteomuscular nos últimos 12 meses, cujas maiores prevalências foram: a região do pescoço (55%; n=6), parte superior das costas (27%; n=3), parte inferior das costas (27%; n=3) e quadril e coxas (27%; n=3). Dois (18%) fisioterapeutas desse setor relataram ter tido a necessidade de procurar algum profissional da saúde em função da dor e do desconforto, motivados pelas queixas referentes à região inferior das costas (9%; n=1) e quadril e coxas (9%; n=1). Quatro (36%) dos entrevistados desse grupo referiram sintomas osteomusculares em pelo menos uma das regiões corporais nos últimos sete dias, cujas maiores prevalências foram: a região do pescoço (18%; n=2), parte superior (18%; n=2) e parte inferior das costas (18%; n=2). Os fisioterapeutas desse setor não relataram a necessidade de afastamento das atividades exercidas em função dos sintomas, conforme mostrado nas tabelas 2 e 3.

Depois de 12 meses de trabalho (T1) nesse hospital universitário, todos os fisioterapeutas das enfermarias referiram algum tipo de sintoma osteomuscular nos últimos 12 meses, cujas maiores prevalências foram na região superior das costas (71%; n=5), ombros 4 (57%) e parte inferior das costas 3 (43%). Dois (29%) fisioterapeutas desse setor relataram ter tido a necessidade de procurar algum profissional da saúde em função da dor e do desconforto motivados pelas queixas referentes à região inferior das costas (14%; n=1) e quadril e coxas (14%; n=1). Cinco (71%) dos entrevistados desse grupo referiram sintomas osteomusculares em pelo menos uma das regiões corporais nos últimos sete dias, sendo as regiões de maior prevalência: parte inferior das costas (43%; n=3) e parte superior das costas (29%; n=2). Um fisioterapeuta (14%) relatou a necessidade de afastamento das atividades exercidas em função dos sintomas, conforme mostrado nas tabelas 2 e 3.

No presente estudo, não houve associação entre o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético e os setores de atuação desses profissionais (Tabelas 1 e 2), porém, observou-se uma associação temporal entre o relato de sintomas nos últimos 12 meses no setor de UTI nas regiões de ombros (p=0,027), punho/mão (p=0,008) e joelhos (p=0,013) e associação temporal entre o relato de sintomas nos últimos 12 meses no setor de enfermaria nas regiões de punho/mão (p=0,041), quadril/coxa (p=0,041) e joelho (p=0,041). Observou-se também uma associação temporal entre o autorrelato de dor e desconforto somente no setor de UTI nas regiões de pescoço (p=0,043), ombros (p=0,009), parte superior das costas (p=0,043), parte inferior das costas (p=0,043) e região de quadril e coxas (p=0,027) nos últimos 7 dias, conforme mostra a tabela 3.

A segunda jornada de trabalho desses fisioterapeutas não se mostrou associada com a dor e desconforto musculoesquelético relatados nos últimos 12 meses (T1) pelos fisioterapeutas desses setores (Tabela 4).

Tabela 4 Associação entre dor e desconforto musculoesquelético autorreferido pelos fisioterapeutas nos últimos 12 meses (T1) e a 2ª jornada de trabalho nos dois grupos 

Setor Dor e desconforto Sintomas nos últimos 12 meses (T1)
Região corporal Sem 2ª jornada
n=12 (67%)
Com 2ª jornada
n = 6 (33%)
Valor de p
UTI Pescoço 5 1 1
Ombro 1 0 1
Parte superior das costas 2 1 1
Cotovelo 0 0 §
Punho 0 1 0,300
Parte inferior das costas 2 1 1
Quadril/Coxa 3 0 0,475
Joelho 2 0 1
Tornozelo 0 1 0,300
Enfermaria Pescoço 2 0 0,428
Ombro 3 1 0,485
Parte superior das costas 3 2 1
Cotovelo 0 0 §
Punho 1 0 1
Parte inferior das costas 1 2 1
Quadril/Coxa 1 0 1
Joelho 1 0 1
Tornozelo/pé 2 0 0,428

UTI = unidade de terapia intensiva; §Ausência de valor necessário para realização do teste Exato de Fisher.

DISCUSSÃO

A primeira premissa de que haveria associação entre o autorrelato desses sintomas e o setor de atuação dos fisioterapeutas desse hospital foi refutada, uma vez que os presentes resultados demostraram a não associação em relação ao autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético no período de T0 e T1 e o setor para a maior parte dos segmentos corporais entre os dois grupos.

Inicia-se essa discussão relembrando que, entre as várias atribuições dos fisioterapeutas, podemos destacar atividades laborais que vão desde a avaliação de sinais vitais e monitoramento do paciente até a realização de procedimentos de aspiração, mudanças de decúbito e exercícios passivos, os quais exigem força física e longa permanência em bipedestação9. Além disso, a instabilidade dos pacientes durante o tratamento, especialmente durante os esforços e movimentos imprevisíveis, bem como a possibilidade de caírem do leito, pode requerer respostas motoras imediatas e abruptas dos fisioterapeutas, gerando assim sobrecargas musculoesquelética, especialmente na coluna vertebral10. Entretanto, embora existam algumas diferenças biomecânicas para a realização das atribuições laborais de fisioterapeutas da UTI e das enfermarias, estas, possivelmente, não contribuíram para que houvesse associação entre as queixas álgicas e os setores de trabalho dos fisioterapeutas nos dois momentos que foram avaliados.

Olkowski e Stolfi11 afirmaram que fisioterapeutas do sexo feminino são mais propensos a desenvolverem dor e desconforto musculoesquelético do que os do sexo masculino. Isso pode ser explicado pelo fato de as mulheres apresentarem, geralmente, massa e estatura menores que os homens, gerando, assim, desvantagens físicas na prática laboral em fisioterapia12,13. Contudo, possivelmente pelo fato de que a grande maioria da amostra tenha sido do sexo feminino, nenhuma associação foi observada em relação ao setor de trabalho (UTI e enfermarias) e a dor e desconforto musculoesquelético autorreferido por esses fisioterapeutas.

Outro aspecto avaliado e constatado foi que apenas um baixo número de fisioterapeutas (n=4) procurou algum profissional da área da saúde por causa dos sintomas osteomusculares relatados. Os fatores culturais podem ser responsáveis, em parte, por esse comportamento, pois segundo Campo et al.14 uma das principais crenças inerentes à cultura da fisioterapia, independente do setor de atuação, é que os fisioterapeutas são conhecedores e capazes de tratarem a si próprio. Assim, essa crença, segundo esse estudo, foi expressa como uma expectativa de que os participantes não experimentariam algum distúrbio musculoesquelético relacionado ao trabalho porque sabiam o modo “correto” de executar essas tarefas laborais.

A segunda premissa de que haveria uma associação entre o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético e o tempo de trabalho desses fisioterapeutas, tanto na UTI quanto nas enfermarias desse hospital, foi parcialmente confirmada, visto que apenas os fisioterapeutas que atuam na UTI apresentaram aumento no número de sintomas osteomusculares autorreferidos nos últimos 7 dias, nos ombros, coluna vertebral, quadril e coxas. Apesar do tamanho e da força resistiva das vértebras da coluna lombar, bem como do grupamento muscular e ligamentar, essa região está sujeita à sobrecarga constante, visto que o peso de todo o segmento superior de tronco, cabeça e membros superiores é transmitido para esse segmento corporal10 e a incidência de dor lombar está associada à fraqueza isométrica e isocinética dos extensores do tronco, enquanto sua gravidade está associada à fraqueza dos flexores de tronco15. O fato dos fisioterapeutas desse setor precisarem realizar, rotineiramente, em bipedestação, atividades de mobilização passiva dos membros inferiores e superiores dos pacientes, bem como drenagens de secreções pulmonares e manobras respiratórias dos mesmos, pode justificar o aumento de autorrelato de sintomas osteomusculares nas regiões da coluna vertebral, quadril e coxas. Além disso, a inclinação do tronco durante a realização dessas atividades laborais, e a repetição de padrões de movimento em posições, às vezes, não ergonômicas, são as principais posturas que levam a queixas musculoesqueléticas16,17. Pode-se perceber, dessa forma, que as queixas musculoesqueléticas podem estar diretamente relacionadas às posturas corporais adotadas durante a execução de diferentes habilidades motoras, e que medidas de prevenção devem ser planejadas de acordo com a análise do movimento e da postura corporal18,19.

De acordo com o estudo de Campo et al.14 fisioterapeutas que transferem pacientes de seis a 10 vezes por dia tiveram 2,4 mais chances de desenvolver DORT em relação àqueles que não realizaram esse tipo de atividade. Sabe-se que nas enfermarias, os fisioterapeutas acabam realizando esse tipo de procedimento com maior frequência. Porém, não se observou nenhuma associação entre os setores de trabalho e o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético.

Pode-se pensar que muitos fisioterapeutas, independentemente do setor (UTI ou enfermaria), acabam vivenciando condições de trabalho, muitas vezes semelhantes do ponto de vista biomecânico, o que poderia expor, igualmente, esses profissionais aos DORT e, consequentemente aos sintomas osteomusculares. Não obstante, os resultados do presente estudo mostraram associação temporal (admissional x atual) apenas no grupo de fisioterapeutas da UTI. Isso pode ser explicado pelo fato que, o ambiente tenso, traumatizante e agressivo, inerente à UTI6, pode potencializar, ao longo do tempo, a percepção de dor e desconforto musculoesquelético autorreferido pelos fisioterapeutas da UTI e não pelos fisioterapeutas das enfermarias. Nesse setor, a percepção álgica pode ser ainda maior, pois segundo Hudak e Gallo6, esse é um ambiente altamente estressante em decorrência da intensa rotina de trabalho, dos riscos constantes por contágio, dos possíveis acidentes com perfuro-cortantes, das situações de crises frequentes, dos ruídos intermitentes de monitores, bombas de aspiração, respiradores, bem como gemidos, gritos de dor e choros.

Houve associação temporal e o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético nas regiões de ombro, punho/mãos e joelho no setor de UTI nos últimos 12 meses, no qual pode-se perceber que os fisioterapeutas desse setor já relatavam sintomas musculoesqueléticos. Embora no setor de enfermaria tenha havido associação temporal e o autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético nas regiões de punho/mão, quadril/coxa e joelho, esses sintomas não se perpetuaram, o que pode ser explicado pela exposição a fatores de risco no local de trabalho anterior.

Outro aspecto que vale ser destacado é a idade dos fisioterapeutas desse estudo. Cromie, Robertson e Best4 demonstraram grande prevalência de queixas de dor e desconforto musculoesquelético em fisioterapeutas jovens e nos primeiros anos de trabalho. Segundo os autores, isso pode ser explicado pela aparente falta de experiência e treinamento desses fisioterapeutas ao utilizarem técnicas de tratamento específicas, o que poderia resultar em situações ergonômicas desfavoráveis que agravam ou provocam o desconforto musculoesquelético desses profissionais. Segundo Cromie, Robertson e Best4 com o passar do tempo, e o com ganho de experiência laboral, poderá se observar uma redução na incidência desses distúrbios musculoesqueléticos em fisioterapeutas. Nesse aspecto de experiência e treinamento, podemos destacar, inclusive, a capacidade de lidar com esse ambiente estressor, que de certa forma pode explicar o fato de se ter encontrado associação temporal apenas no ambiente da UTI e não nas enfermarias.

Além do estresse mental, outros fatores de risco como a baixa aptidão física, a nutrição não adequada, o estilo de vida e os fatores psicossociais, têm se mostrado relacionados com o surgimento de queixas musculoesqueléticas em fisioterapeutas10. Nenhuma associação foi observada entre os sintomas osteomusculares e o nível de atividade física por ambos os grupos. Por outro lado, por não se tratar de objetivos do presente estudo, não se avaliou o aspecto nutricional e os fatores psicossociais desses fisioterapeutas, o que limita nossa discussão sobre esses aspectos.

Embora na literatura tenham sido observadas maiores prevalências de queixas musculoesqueléticas em fisioterapeutas com excesso de peso20, os grupos estudados não apresentaram diferença significativa entre si, tampouco ao longo do tempo, para essa variável antropométrica.

Outro ponto levantado na literatura é a carga horária de trabalho, a qual tem sido associada com as prevalências de DORT21. Contudo, a segunda jornada de trabalho desses fisioterapeutas não se mostrou associada com a dor e desconforto musculoesquelético relatado pelos fisioterapeutas desses setores. Dessa forma, para esse hospital universitário, não podemos encarar a carga horária como um preditor para o surgimento de dor e desconforto musculoesquelético.

Fatores relacionados com o ambiente de trabalho, como a falta de equipamentos ou equipamentos de trabalho não-ergonômicos dificultam as atividades laborais dos profissionais e passam a se constituir como perigos potenciais para o desenvolvimento dos DORT10,22. No entanto, esses aspectos ergonômicos não foram avaliados por não se tratarem de objetivos específicos do mesmo; no qual, devem ser levantados aqui como sugestão para futuros estudos.

Embora tenha-se avaliado todos os fisioterapeutas desse hospital universitário público (n=18), trabalhando assim com uma população e não com uma amostra, sugerem-se futuros estudos que avaliem, de forma longitudinal (prospectiva ou retrospectiva), os fisioterapeutas de outros hospitais universitários brasileiros para que se possa melhor subsidiar futuras intervenções multiprofissionais voltadas a esses profissionais da área de saúde, os quais tanto contribuem para o processo de recuperação de pacientes hospitalizados.

CONCLUSÃO

O autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético de fisioterapeutas dentro de um hospital universitário, tanto no período admissional (T0) quanto após 12 meses de trabalho (T1) não se mostrou associado com o setor de atuação desses profissionais. Contudo, depois de 12 meses, os fisioterapeutas que trabalham na UTI evidenciaram um aumento na quantidade de autorrelato de dor e desconforto musculoesquelético.

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