Dor e dificuldade para dormir em idosos

Dor e dificuldade para dormir em idosos

Autores:

Élen dos Santos Alves,
Nathalia Alves de Oliveira,
Mariélli Terassi,
Bruna Moretti Luchesi,
Sofia Cristina Iost Pavarini,
Keika Inouye

ARTIGO ORIGINAL

BrJP

versão impressa ISSN 2595-0118versão On-line ISSN 2595-3192

BrJP vol.2 no.3 São Paulo jul./set. 2019 Epub 23-Set-2019

http://dx.doi.org/10.5935/2595-0118.20190039

INTRODUÇÃO

Atualmente, o Brasil apresenta mudanças no perfil sociodemográfico em decorrência da diminuição das taxas de natalidade e do aumento da longevidade1. Esse fenômeno que leva ao envelhecimento populacional alinha-se ao contexto mundial. Em 2012, havia 810 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que constituía 11,5% da população global. Estima-se que em 2050 haverá mais idosos que crianças menores de 15 anos e a projeção é de que o número de idosos alcance 2 bilhões no mesmo ano, o que representará 22% da população mundial2. Estas transformações demográficas acarretam importantes mudanças no perfil epidemiológico, constituindo relevantes alterações nos indicadores de morbimortalidade e saúde. O envelhecimento populacional vem acompanhado do aumento de agravos à saúde. No Brasil, o número de idosos que apresentam algum tipo de doença crônica não transmissível (DCNT) cresce exponencialmente e com maior probabilidade de redução da autonomia e independência dos indivíduos1.

A velhice frequentemente associa-se à alta incidência de doenças crônicas e degenerativas que podem comprometer a independência3. Muitos quadros são acompanhados por dor, e a dor crônica (DC) é o tipo mais frequente de queixa do indivíduo4. A DC vem sendo associada a processos patológicos e é uma frequente causa de limitações funcionais5.

De acordo com a Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), a dor é um sinal de alerta e proteção para o corpo. No entanto, a DC perde sua função de alerta e sobrevivência, e ganha outros aspectos de cunho emocional, físico e social, sendo uma resposta anormal e não protetora, podendo também ser definida como uma experiência sensorial e emocional - desagradável e desproporcional, ocasionando desconforto físico e psíquico ao sujeito6. Entende-se que a dor é crônica se permanecer por um período maior que seis meses e é considerada uma doença e não um sintoma.

Identificada como um problema crítico de saúde pública, a dor é responsável por elevados custos com a saúde, redução da produtividade e da qualidade de vida (QV)7. A persistência da dor está fortemente associada à exacerbação de sintomas e piora da qualidade do sono. Estudos evidenciam associação entre qualidade do sono e dor8.

O sono é uma função essencial à vida. Atua como reparador das funções vitais e reguladoras, sendo fundamental para uma boa saúde mental. É constituído por duas fases, denominadas de sono Non-Rapid Eye Movement (não-REM ou NREM) e sono Rapid Eye Movement (REM). O sono NREM, é caracterizado pela ausência de movimentos oculares rápidos, divide-se em quatro estágios - I, II, III e IV, iniciando com o sono superficial, seguido das três fases com crescente profundidade. Em seguida há retorno a fase superficial até atingir o sono mais profundo, chamado de REM. A primeira fase do sono, NREM, é caracterizada por relaxamento muscular, porém com manutenção de tônus, redução progressiva de movimentos corporais e respirações regulares. O sono REM é caracterizado pela presença de movimentos oculares rápidos, pode-se dizer que essa fase também é caracterizada por um cérebro ativo, em um corpo paralisado e respirações irregulares, sendo nessa fase a ocorrência de sonhos. As fases são distintas e se alternam em ciclos, variando de quatro a seis ciclos em uma noite9,10.

O processo normal do envelhecimento leva a modificações na estrutura do sono em mais da metade da população idosa, provocando um impacto negativo na QV11. Com o avançar da idade, os idosos tendem a dormir menos, com significativa redução da quantidade e qualidade do sono12,13. Segundo Kreling14, indivíduos com dor aguda ou crônica podem apresentar alterações no padrão do sono, manifestações de irritabilidade e diminuição da capacidade de concentração.

Os distúrbios do sono ocorrem com maior frequência em idosos, afetando a qualidade do sono noturno e a necessidade de repouso durante o dia. A dor, independentemente de sua natureza, quando não tratada, pode resultar em prejuízos no padrão do sono. No entanto, sua avaliação no idoso pode ser difícil considerando que alterações fisiológicas, psicossociais e cognitivas podem estar presentes15. O tratamento deve ter como alvo primário as causas, priorizando a higiene do sono a fim de melhorar a QV do idoso, com ênfase na capacidade funcional, padrão do sono e até mesmo na socialização do indivíduo. No entanto, o tratamento farmacológico, tem sido uma prática muito comum que pode trazer alguns riscos como quedas, sedação diurna, declínio cognitivo e alteração da arquitetura do sono. Assim, há evidências de que o emprego da higiene do sono seja uma boa opção terapêutica com eficácia documentada na literatura6,16,17. A presença de dor no idoso constitui um problema de relevância no contexto social e de saúde atual, principalmente quando ela influencia os padrões do sono do idoso.

O objetivo deste estudo foi identificar a associação entre dificuldade para dormir autorrelatada e a intensidade da DC.

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva, de corte transversal. Os dados foram coletados em 16 Unidades de Saúde da Família (USF) da cidade de São Carlos (SP). O município de porte médio, tem uma população total de 221.950 habitantes e, destes, 28.868 são idosos - o equivalente a 13% da população total18. A cobertura das USF é de 39.768 habitantes nas zonas urbana e rural19. Os critérios de inclusão dos participantes foram: ter 60 anos de idade ou mais, estar cadastrado e residir na área de cobertura de uma das USF do município e apresentar DC auto percebida. A coleta de dados foi realizada por integrantes do Grupo de Pesquisa (GP) do qual os autores fazem parte. Foi realizado contato com as USF para a identificação dos domicílios com pelo menos dois idosos. De posse de uma lista com todos os nomes e endereços (n=594), todas as casas foram visitadas pelos integrantes do referido GP. Foram coletados dados de 351 idosos, pois alguns potenciais sujeitos se recusaram participar, não foram localizados, mudaram de endereço ou haviam falecido. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Com base nos dados populacionais, na proporção de idosos e no número de indivíduos atendidos pelas USF do município, foi possível estimar o número de idosos atendidos nas USF do município de São Carlos (5172). Calculou-se que 300 idosos constituiriam uma amostra com nível de confiança de 95% e margem de erro de 5,0%. Esse cálculo foi realizado por meio da plataforma Survey Monkey®, disponível em <https://pt.surveymonkey.com/mp/sample-size-calculator/#>. Dados de 351 idosos foram analisados, destes 187 apresentavam DC. O tamanho da amostra corrobora dados da literatura, uma vez que 53% dos idosos apresentavam DC20.

Os idosos foram divididos em dois grupos para comparação: Grupo A - (GA) com dificuldade para dormir (n=104) e Grupo B (GB) sem dificuldade para dormir (n=83) - a partir da questão norteadora: “O Sr.(a) tem dificuldade para dormir?” com as opções de resposta: “Sim” ou “Não”.

A coleta dos dados referente à variável dependente “dor” foi realizada por meio da Escala Multidimensional de Avaliação da Dor (EMADOR). Esse instrumento foi validado para uso no Brasil em 2010 e é utilizado para a avaliação e mensuração nas dimensões sensitiva, afetiva e cognitiva da variável dor. Tem como objetivo avaliar a dor aguda e crônica mediante análise quantitativa e qualitativa. O instrumento contém questão para avaliação da intensidade, com escores que variam numa escala de zero a 10 pontos, sendo que quanto maior a nota referida pelo sujeito, maior é a intensidade da dor. Para a análise qualitativa, o participante escolhia entre 10 descritores o que melhor representava sua dor. A escala ainda contempla um diagrama corporal que permite ao indivíduo sinalizar os locais acometidos pela dor21.

Todas as etapas deste trabalho obedeceram às diretrizes éticas que regulamentam as pesquisas com seres humanos. A coleta de dados foi iniciada somente após a aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Carlos, parecer número 711.592 de 2014.

Análise estatística

Os dados obtidos foram digitados em um banco no programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS) for Windows para a realização de: (a) análises descritivas para caracterizar o perfil sociodemográfico e a dor dos idosos; (b) testes de Qui-quadrado de Pearson e Mann-Whitney para comparar o perfil sociodemográfico e a dor dos participantes segundo a dificuldade para dormir. O valor de p para considerar diferença estatisticamente significativa foi de p≤0,05.

RESULTADOS

A amostra foi composta por 187 idosos que apresentavam DC e eram cadastrados nas áreas de abrangência da USF. Em relação às características sociodemográficas, a amostra tinha média de idade de 68,9±7,07 anos, predominantemente do sexo feminino (n=151; 80,7%) e 88,8% (n=166) viviam com companheiro. Quanto à escolaridade, 109 (58,3%) cursaram o primário e 18,7% (n=35) nunca havia frequentado a escola. No que se refere à religiosidade, 114 (61%) afirmaram ser católicos. Quanto à etnia, a maioria dos idosos se declarou branco (n=131; 70,1%). Em relação à renda, 58,3% (n=109) responderam não ser suficiente.

As características sociodemográficas detalhadas dos idosos entrevistados e a análise comparativa entre os grupos divididos segundo a dificuldade para dormir estão apresentadas nas tabelas 1 e 2.

Tabela 1 Distribuição dos idosos segundo as variáveis de caracterização quanto à dificuldade para dormir e análise comparativa entre os grupos. São Carlos, 2014 

Variáveis Sem dificuldade para dormir (GB) Com dificuldade para dormir (GA) Ambos os grupos Análise comparativa
n % n % n % χ2* gl Valor de p*
Sexo 2,254 1 0,133 ns
Feminino 63 75,9 16 15,4 151 80,7
Masculino 20 24,1 88 84,6 36 19,3
Situação conjugal 1,669 3 0,644 ns
Com companheiro 73 88 93 89,4 166 88,8
Solteiro 5 6 4 3,8 9 4,8
Separado 3 3,6 2 1,9 5 2,7
Viúvo 2 2,4 5 4,8 7 3,7
Escolaridade 6,601 6 0,359 ns
Nunca foi à escola 13 15,7 22 21,2 35 18,7
Curso alfabetizante 2 2,4 5 4,8 7 3,7
Primário 50 60,2 59 56,7 109 58,3
Ginásio 10 12 5 4,8 15 8
Científico/clássico 5 6 10 9,6 15 8
Curso superior 3 3,6 2 1,9 5 2,7
Pós-graduação 0 0 1 1 1 0,5
Religião 11,187 6 0,083 ns
Católico (a) 54 65,1 60 57,7 114 61
Evangélico (a) 21 25,3 30 28,8 51 27,3
Congregação cristã 5 6 3 2,9 8 4,3
Adventista 1 1,2 3 2,9 4 2,1
Espírita 0 0 7 6,5 7 3,7
Umbandista 0 0 1 1 1 0,5
Não possui 2 2,4 0 0 2 1,1
Etnia 3,283 3 0,350 ns
Branca 58 69,9 73 70,2 131 70,1
Preta 5 6 12 11,5 17 9,1
Mulata 19 22,9 19 18,3 38 20,3
Indígena 1 1,2 0 0 1 0,5
Amarela 0 0 0 0 0 0
Renda suficiente 1,359 2 0,507 ns
Não 47 56,6 62 59,6 109 58,3
Sim 35 42,2 42 40,4 77 41,2
NR 1 1,2 0 0 1 0,5
Total 83 100 104 100 187 100

*Qui-Quadrado;

**Significativo;

nsNão significativo.

Tabela 2 Análises descritivas e comparativas das variáveis de caracterização segundo à dificuldade para dormir. São Carlos, 2014 

Variáveis Sem dificuldade para dormir (GB) Com dificuldade para dormir (GA) Ambos os grupos U* Valor de p*
Idade (anos) 3678,00 0,082ns
Média 68,13 69,60 68,95
Mediana 67,00 68,00 97,00
Desvio padrão 7,04 7,06 7,07
Mínimo 60 60 60
Máximo 95 91 95
Escolaridade (anos) 3837,00 0,183ns
Média 4,41 3,92 4,14
Mediana 4,00 4,00 4,00
Desvio padrão 3,68 3,58 3,62
Mínimo 0,00 0,00 0,00
Máximo 17,00 15,00 17,00
Renda do idoso (reais) 3762,00 0,235 ns
Média 815,29 710,33 756,53
Mediana 724,00 724,00 724,00
Desvio padrão 949,57 777,66 856,73
Mínimo 0,00 0,00 0,00
Máximo 6.500 4.500 6.500
Renda familiar (reais) 3641,00 0,384 ns
Média 2293,32 2265,20 2277,45
Mediana 1980,00 1604,00 1848,00
Desvio padrão 1249,66 1576,682 1439,55
Mínimo 724,00 724,00 724,00
Máximo 6.500 10000,00 10000,00

*Mann-Whitney;

**Significativo;

nsNão significativo.

Ressalta-se que os grupos não se diferenciaram em relação às variáveis demográficas. Esse pareamento garante maior controle da análise comparativa da variável dependente dor, minimiza vieses e aumenta a confiabilidade dos resultados em relação ao objetivo geral da pesquisa.

Sobre a intensidade e descrição da dor houve grande variabilidade de respostas. As intensidades moderada e intensa foram as mais relatadas em ambos os grupos, com deslocamento de maiores intensidades para o grupo com dificuldade para dormir, ou seja, a proporção de pessoas com dor moderada era maior no grupo sem dificuldade para dormir. Por outro lado, a proporção de idosos com dor intensa era maior no grupo com dificuldade para dormir (χ2=6,508, gl=1, p=0,011) (Tabela 3).

Tabela 3 Análises descritivas e comparativas da dor e segundo à dificuldade para dormir. São Carlos, 2014 

Variáveis Sem dificuldade para dormir (GB) Com dificuldade para dormir (GA) Ambos os grupos Análise comparativa
n % n % n % χ2*** gl Valor de p***
Classificação da dor 6,508 1 0,011**
Nenhuma (0)
0 4 4,8 1 1,0 5 2,7
Leve (1 a 3)
1 4 4,8 0 0 4 2,1
2 1 1,2 1 1,0 2 1,1
3 3 3,6 6 5,8 9 4,8
Moderada (4 a 6)
4 7 8,4 4 3,8 11 5,9
5 18 21,7 25 24,0 43 23,0
6 12 14,5 7 6,7 19 10,2
Intensa (7 a 9)
7 6 7,2 13 12,5 19 10,2
8 16 19,3 23 22,1 39 20,9
9 5 6,0 9 8,7 14 7,5
Insuportável (10)
10 7 8,4 15 14,4 22 11,8
Total 83 100 104 100 187 100
Descritores da dor n % n % n % χ2* gl Valor de p*
Deprimente 9,060 1 0,003**
Sim 36 43,4 68 65,4 104 55,6
Não 47 56,6 36 34,6 83 44,4
Persistente 4,378 1 0,036**
Sim 55 66,3 83 79,8 138 73,8
Não 28 33,7 21 20,2 49 26,2
Angustiante 0,959 1 0,328 ns
Sim 46 55,4 65 62,5 111 59,4
Não 37 44,6 39 37,5 76 40,6
Desastrosa 0,002 1 0,963 ns
Sim 29 34,9 36 34,6 65 34,8
Não 54 65,1 68 65,4 122 65,2
Prejudicial 0,309 1 0,578 ns
Sim 51 61,4 68 65,4 119 63,6
Não 32 38,6 36 34,6 68 36,4
Dolorosa 2,170 1 0,141 ns
Sim 69 83,1 94 90,4 163 87,2
Não 14 16,9 10 9,6 24 12,8
Insuportável 2,763 1 0,096 ns
Sim 41 49,4 64 61,5 105 56,1
Não 42 50,6 40 38,5 82 43,9
Assustadora 0,541 1 0,462 ns
Sim 23 27,7 34 32,7 57 30,5
Não 60 72,3 70 67,3 130 69,5
Cruel 1,517 1 0,218 ns
Sim 34 41 52 50 86 46
Não 49 59 52 50 101 54
Desconfortável 4,484 1 0,034**
Sim 73 88 100 96,2 173 92,5
Não 10 12 4 3,8 14 7,5
Total 83 100 104 100 187 100

*Qui-quadrado;

***Linear-by-Linear Association;

**Significativo;

nsNão significativo.

Sobre os descritores da dor, os mais relatados foram persistentes (n=138; 73,8%), deprimente (n=104; 55,6%) e desconfortável (n=173; 92,5%). Todos com diferenças significativas entre os grupos (p=0,036; p=0,003; p=0,034, respectivamente) (Tabela 3).

Sobre a localização da dor, as regiões foram comuns em ambos os grupos, sendo a lombar, ilíaca e joelho direito os locais mais referidos, variando apenas no grupo com dificuldade para dormir, em que o joelho esquerdo também foi apontado (Figura 1). No entanto, a dor apresentou-se significativamente mais intensa no grupo de idosos que tem dificuldade para dormir (U=3516,50, p=0,028), fato que confirma a hipótese da pesquisa e a associação entre as variáveis do estudo (Tabela 4 e Figura 2).

Figura 1 Localização da dor dos idosos 

Figura 2 Comparativo da intensidade da dor entre grupos de idosos com e sem dificuldade para dormirGrupo B = sem dificuldade para dormir; Grupo A = com dificuldade para dormir. 

Tabela 4 Análises descritivas e comparativas de dor e a dificuldade para dormir. São Carlos, 2014 

Sem dificuldade para dormir (GB) Com dificuldade para dormir (GA) Ambos os grupos U* Valor de p
Intensidade da dor 3516,50 0,028**
Média 5,90 6,82 6,41
Mediana 6,0 7,0 7,00
Desvio padrão 2,61 2,21 2,43
Mínimo 0 0 0
Máximo 10 10 10

*Mann-Whitney;

**Significativo.

DISCUSSÃO

A amostra de idosos estudada tinha idade média de 68,9 anos, em sua maioria mulheres (80,7%) que viviam com companheiros (88,8%), retrata o perfil típico da literatura. Segundo Augusti, Falsarella e Coimbra22, as pesquisas nacionais e internacionais têm apresentado um perfil feminino na população com mais de 60 anos, fato atribuído à maior aceitabilidade das mulheres em relação a tratamentos de saúde no decorrer de suas vidas e às condições de autocuidado. Houve predomínio de idosos mais jovens nessa pesquisa, sendo uma condição que corrobora outros estudos23,24.

Quanto à escolaridade, apenas 58,3% dos idosos tinham o primário completo e 18,7% dos entrevistados nunca havia frequentado a escola. Em nosso país, os estudos apontam que a baixa escolaridade dos idosos pode ser explicada pela cultura da época em que cresceram. No passado, o nível de instrução não era tão relevante quanto a necessidade de trabalhar a terra ou aprender afazeres domésticos, além de condições socioeconômicas que dificultavam a acesso à escola23.

A religião católica foi predominante (61%). Isso era esperado, pois segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística1, no censo realizado em 2010, a população brasileira é composta por 65% de católicos. Sobre a renda em que 58,3% dos idosos afirmaram não estarem satisfeitos, estudos realizados com idosos brasileiros apontam na mesma direção. Em geral, a renda é considerada baixa e muitos a apontam como a principal fonte de manutenção da casa12,25,26.

A DC pode estar associada a uma imagem negativa e a processos patológicos que podem ou não acompanhar o processo de envelhecimento. Seu prolongamento por meses ou anos pode provocar dependência. No entanto, a localização e a intensidade variam influenciando a capacidade funcional5,27.

Um estudo sobre DC realizado no estado de São Paulo, com uma população idosa, apontou prevalência de 30% de dor lombar, com 54,5% de dor regional ou em um segmento do corpo e 14,1% de dor generalizada28. Outro estudo realizado na Bahia, com 68 idosos institucionalizados, apontou a ocorrência de dor em 73,3% da amostra, sendo que 51,7% a descreveu como dor intensa, referindo como locais mais comuns os membros inferiores (47,7%) e a coluna (25%)4. Um estudo realizado com 1.271 idosos residentes em São Paulo descreveu que 58,45% dos idosos referiram a região lombar como a localização mais frequente de dor, dados que corroboram com os apresentados neste estudo29. Celich e Galon30 apontaram a coluna lombar (44,4%), seguida pela região das pernas (40,7%) e articulação do joelho (25,9%) como as regiões com maior prevalência de DC entre idosos. O mesmo estudo apontou menor incidência de dor nos dedos dos pés, articulação do tornozelo (7,4%), região cefálica, tórax e abdômen (3,7%), que se harmonizam com os dados encontrados neste estudo.

Uma investigação realizada em Campinas evidenciou uma associação positiva entre dores nas costas e dormir mal31. Em um município de porte pequeno na região norte do Paraná, em 2013, um estudo qualitativo realizado com idosos com DC observou a presença de sentimentos de esperança quanto à cura dessa dor, seguidos do sentimento de conformismo e impotência32.

A DC vem sendo considerada um fator impactante na vida do idoso, havendo uma provável relação entre a dor e dificuldade de adormecer. Ferretti et al.33 com o objetivo de avaliar a qualidade do sono em 385 idosos, com e sem dores crônicas, identificaram que 58,18% dos idosos apresentavam DC, sendo que 57,59% obtiveram pontuação para qualidade do sono ruim. Além disso, dos idosos com a presença de DC, 48,66% referiram intensidade da dor moderada, contrapondo os idosos sem DC (56,52%) que apresentaram boa qualidade do sono.

Um estudo realizado em São Luís, MA, com 50 idosos, permitiu identificar a influência negativa da DC na QV dos idosos entrevistados, observando uma forte relação com fadiga, alterações do sono e dependência de tratamentos ou uso de fármacos34.

Monteiro e Ceolim35 descreveram a qualidade do sono no domicílio e na hospitalização de uma amostra de 160 idosos residentes em um município do interior de São Paulo. Durante a internação, os escores das escalas analógicas visuais de sono (EAV-Sono), a respeito de distúrbio (inferior a 300), suplementação (inferior a 100) e efetividade (superior a 300), apontam qualidade satisfatória do sono e sonolência diurna moderada. Porém, os autores alertam para o fato de os indivíduos hospitalizados terem rotina alterada e tomarem vários fármacos que podem afetar a variável. No domicílio, a mesma amostra apresentava sono de má qualidade (70%) segundo os escores do (PSQI - Índice de Qualidade de sono de Pittsburg). Acordar durante a noite (80,0%), levantar-se para urinar (77,5%) e as dores (33,1%) foram frequentemente indicados como causas de fragmentação do sono. Embora a fragmentação não seja positiva, ela foi auto percebida como normal entre os entrevistados, uma vez que 62,5% dos idosos afirmaram dormir “bem” em casa.

Um estudo descritivo, realizado em João Pessoa, PB, com o objetivo de avaliar as características do padrão de sono de idosos atendidos no ambulatório de geriatria em um hospital universitário (n=100), observou que 46% dos idosos apresentavam sono muito alterado segundo os escores do Mini-Sleep Questionnaire. Além disso, os idosos relataram “frequentemente”, “muito frequentemente” ou “sempre” acordar durante a noite (71%), ter sono agitado (33%), roncar (33%) e não voltar a dormir se acordar (33%). No entanto, 57% da amostra classificou seu padrão de sono como bom36.

Chen et al.37 avaliaram a relação entre intensidade e distribuição da dor e a dificuldade para dormir em idosos. Dos 765 participantes com 64 anos e mais, foi observado uma prevalência de problemas para dormir de acordo com o Brief Pain Inventory (BPI), variando respectivamente de 17,8% a 37,0% para os quartis de menor a maior intensidade da dor. Ajustadas as análises, a dor foi fortemente associada com problemas para dormir, concluindo que dor disseminada, moderada a intensa são fortemente associadas à dificuldade para dormir em idosos.

Dados longitudinais holandeses do Doetinchem Cohort Study obtidos por meio de quatro medidas de dor autorreferida realizadas a cada 5 anos com uma amostra de 3485 adultos com idade entre 25 e 71 anos até a idade de 40 a 86 anos concluíram que indivíduos com menor duração do sono, tabagismo, obesidade e má percepção de saúde mental estão mais propensos à dor38. Em consonância, o Estudo PAINEL, derivado do Estudo da Rede FIBRA, realizado em Belo Horizonte com 378 participantes acima de 60 anos, dentre as conclusões, apontou que indivíduos com lombomialgia incapacitante eram mais propensos a menor duração do tempo de sono39.

De modo geral, a manifestação de resposta à dor dos indivíduos pode gerar alterações no padrão do sono e a outros processos fisiopatológicos, considerando uma associação entre a dor e o sono adequado14,27.

Em relação às limitações do estudo, uma vez que esta investigação se baseou em autorrelato, seria interessante que estudos futuros utilizassem exames e testes multiparamétricos para a avaliação de distúrbios do sono.

Os resultados obtidos durante a pesquisa demonstraram associação entre dor e sono em idosos e corrobora a literatura científica, elucidando práticas e intervenções para o trabalho com idosos.

CONCLUSÃO

As análises comparativas do presente estudo permitem concluir que existe uma associação significativa entre dificuldade para dormir autorrelatada e a intensidade da DC.

REFERÊNCIAS

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