Dor lombar em adolescentes do semiárido: resultados de um censo populacional no município de Caracol (PI), Brasil

Dor lombar em adolescentes do semiárido: resultados de um censo populacional no município de Caracol (PI), Brasil

Autores:

Rodrigo Dalke Meucci,
Angélica Ozório Linhares,
Daniel Wenceslau Votto Olmedo,
Ewerton Luiz Porto Cousin Sobrinho,
Vlanice Madruga Duarte,
Juraci Almeida Cesar

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.3 Rio de Janeiro mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018233.04312016

Abstract

The scope of this article is to assess low back pain prevalence and associated factors in the last 12 months among adolescents in a city in the south of the State of Piauí. It was a cross-sectional study which included 1,112 adolescents aged 13-19 in the city of Caracol, Piauí. Demographic, socio-economic, nutritional, behavioral and comorbidty characteristics were investigated. The outcome was the occurrence of low back pain (LBP) in the last 12 months. The outcome prevalence was calculated in accordance with independent variables. The proportion of individuals with chronic LBP was calculated among adolescents with LBP in the last 12 months. Crude and adjusted Poisson regression was used to estimate the prevalence ratio in the analysis of associated factors. The prevalence of LBP in the last 12 months was 32.9%. According to the adjusted analysis, being female (PR = 1.75; 95%CI:1.45-2.10), being aged 18-19 (PR = 1.27; 95%CI:1.01-1.62), having higher income (PR = 1.33; 95%CI:1.06-1.67), having a job (PR 1.25 95%CI:1.02-1.53) and having minor psychiatric disorders (PR 1.51 95%CI: 1.25-1.82) were associated with LBP in the last 12 months. This study found a high prevalence of LBP among adolescents in a poor city in the semiarid region of Northeast Brazil.

Key words: Low back pain; Back pain; Chronic low back pain; Adolescence; Epidemiology; Prevalence

Introdução

A dor lombar (DL) é caracterizada como dor ou desconforto abaixo da décima segunda costela e acima da prega glútea inferior1. A DL é altamente incapacitante, sendo a principal causa global de anos vividos com incapacidade2. Trata-se de uma queixa comum e na maioria das vezes inespecífica, que acomete cerca de 80% da população adulta em algum momento da vida3.

De acordo com a literatura, a prevalência de DL em adolescentes varia não apenas devido a características das populações avaliadas, mas de acordo com a definição do desfecho, a qual possui grande heterogeneidade4. Um estudo de meta-análise estimou prevalências de 12,0%, 18,3%, 33,6% e 39,9% para DL pontual, no último mês, nos últimos 12 meses e na vida, respectivamente5. No Brasil, são poucos os estudos que avaliam a prevalência de DL em adolescentes. Estimativas de Porto Alegre, Bauru e Uruguaiana mostram que as prevalências de DL no último mês, no último ano e na vida, foram respectivamente de 31,6%, 19,5% e 16,1%6-8. Contrariamente ao estimado em outros países5, a prevalência de DL no último mês foi maior do que a encontrada para outros períodos de recordatório. Isso pode ser devido ao fato de que esta estimativa é proveniente de um estudo realizado com uma amostra não representativa da população alvo8. Além disso, evidencia a necessidade de mais estudos brasileiros sobre a prevalência de DL, de forma a melhorar a consistência dos achados.

Em relação aos fatores associados à DL entre adolescentes, pertencer ao sexo feminino6,7, possuir maior idade7, sobrepeso/obesidade7, permanecer número excessivo de horas assistindo televisão6 e sintomas depressivos9 são fatores de risco para DL6,7. Entretanto, existem controvérsias na literatura, uma vez que outros estudos não encontraram associação entre DL e idade9,10, tempo assistindo televisão9,10, atividade física9,10 e escore de saúde mental10. A possibilidade de progressão da DL para a vida adulta, juntamente com seu potencial incapacitante, coloca como necessária a realização de estudos que meçam sua ocorrência e seus fatores associados, sobretudo em municípios de pequeno porte, baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) e baixa renda per capita. Estas informações podem ser úteis ao planejamento dos serviços de saúde quanto à prevenção e o manejo da DL em adolescentes. Dessa forma, este estudo tem como objetivo avaliar a prevalência e os fatores associados à dor lombar no último ano em adolescentes de Caracol, município pequeno e com baixo IDHM do sul do estado do Piauí.

Métodos

Estudo transversal de base populacional realizado no município de Caracol, localizado no sul do estado do Piauí, a cerca de 500 km de Teresina. Em 2010, Caracol tinha 10.212 habitantes e seu IDHM era de 0,5511. Foi realizado um censo de todos os adolescentes do município, sendo que dos 1133 indivíduos com idade entre 13 a 19 anos elegíveis para este estudo, foram entrevistados 1112, o que corresponde a 1,9% de perdas e recusas. Foram considerados inelegíveis os indivíduos com limitação cognitiva ou física que impossibilitasse responder ao questionário, bem como aqueles que estavam institucionalizados.

Por se tratar de um censo populacional não foi realizado cálculo de tamanho amostral para o estudo da prevalência de DL nesta população. Entretanto, para exame dos fatores associados ao desfecho foi realizado cálculo de poder estatístico a posteriori, considerando os seguintes parâmetros: nível de confiança de 95%; prevalência de DL entre não expostos de 20%; razão exposto/não exposto variando entre 1:1 a 1:9; e razão de prevalência de 1,6. De acordo com estes parâmetros, o número total de entrevistados garante um poder estatístico mínimo de 80% para detectar possíveis associações.

A coleta de dados foi realizada nos domicílios dos adolescentes, sendo executada por 8 entrevistadores e antropometristas treinados que eram estudantes de graduação do Campus de São Raimundo Nonato da Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Utilizou-se um questionário que avaliou questões socioeconômicas (elaboradas pelos autores), demográficas, comportamentais e de dor nas costas (cervical, torácica e lombar), bem como o questionário autoaplicável Self Report Questionnaire (SRQ-20)12, que avaliou a presença de distúrbios psiquiátricos menores (DPM). Para mensuração de peso e altura foram utilizadas balança com precisão de 100 g e um antropômetro com precisão de 1 cm. Todos os questionários foram revisados e codificados para serem duplamente digitados no programa Epi-Info 6.0. Cerca de 5% dos indivíduos foram reentrevistados para controle de qualidade.

A DL foi caracterizada através da aplicação de uma versão modificada do questionário Nórdico13. Os adolescentes que afirmaram ter tido dor nas costas no último ano eram orientados a apontar a localização exata da dor em uma figura humana de costas com as regiões cervical, torácica e lombar da coluna vertebral, cada uma delas identificadas por uma cor14. Os adolescentes que apontaram para a região lombar, área indicada na cor vermelha, foram considerados como tendo dor lombar. Entre aqueles que referiram DL, foi caracterizada a presença de dor lombar crônica a partir de resposta afirmativa quanto à presença de DL contínua por três meses ou mais no último ano. Além disso, foram investigadas a procura por atendimento médico e a falta ao trabalho/aula devido à DL.

Como variáveis independentes, foram avaliadas características sociodemográficas (sexo, idade, estado civil, renda familiar, área de residência e trabalho), antropométricas (Índice de Massa Corporal - IMC), comportamentais (tempo assistindo televisão e níveis de atividade física durante a semana) e comorbidades (distúrbios psiquiátricos menores), considerando como ponto de corte para resultado positivo 6 ou mais respostas positivas para o sexo masculino e 8 ou mais para o sexo feminino12. A renda per capita do domicílio (R$) foi categorizada em tercis. O IMC foi categorizado em magreza, eutrofia e excesso de peso de acordo com a classificação proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS)15. A variável tempo assistindo televisão, coletada a partir da pergunta, “Quantas horas por dia você assiste televisão?”, foi dicotomizada em até 2 horas e 2 horas ou mais diárias. Atividade física, coletada através da pergunta “Nos últimos sete dias, isto é, <desde dia da semana passada> até ontem, em quantos dias você praticou atividades físicas com pelo menos 1 hora de duração?”, foi categorizada em inativos (0 dias), insuficientemente ativos (1-4 dias) e ativos (5-7 dias)16.

Os dados foram analisados no programa estatístico STATA 13 IC. Foi realizada uma análise descritiva dos adolescentes através do cálculo das proporções de cada uma das categorias das variáveis de interesse. Em seguida, foi calculada a prevalência do desfecho de acordo com as variáveis independentes. Dentre os adolescentes com DL no último ano, foram calculadas as proporções de indivíduos com dor lombar crônica, que faltaram à escola/trabalho e que procuraram atendimento médico.

Para análise dos fatores associados, foi utilizada a regressão de Poisson bruta e ajustada com variância robusta para cálculo das razões de prevalência e dos respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Foram consideradas associadas ao desfecho as variáveis com valor p<5% nos testes de Wald de heterogeneidade ou de tendência linear para exposições ordinais. A medida de efeito utilizada foi a razão de prevalências (RP).

A análise ajustada com seleção para trás das variáveis foi realizada de acordo com um modelo hierárquico17 composto por três níveis: no primeiro, foram inseridas variáveis sociodemográficas (sexo, idade, renda, estado civil, área de residência e trabalho); no segundo, variáveis biológicas e comportamentais (IMC, atividade física, tempo assistindo televisão); e no terceiro, a comorbidade (distúrbios psiquiátricos menores). Foram mantidas no modelo as variáveis que apresentaram valor p < 0,20 dentro do seu nível, controlando para fatores de confusão do mesmo nível ou de níveis anteriores.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (CEPAS/UFPEL). Os adolescentes menores de 18 anos tiveram o termo de consentimento livre e esclarecido assinado pelos responsáveis. Os jovens menores de 18 anos tiveram seus termos assinados pelos responsáveis.

Resultados

De acordo com a Tabela 1, 53,3% dos adolescentes eram do sexo feminino, 47,5% tinham idade entre 15 e 17 anos, e 33,2% pertenciam ao segundo tercil de renda familiar. Mais da metade dos indivíduos (57,5%) viviam na área rural e 20% tinham algum trabalho. Quanto ao estado nutricional, 84% dos adolescentes foram considerados eutróficos e 11% tinham excesso de peso. Aproximadamente 75% dos adolescentes ficavam mais de 2 horas por dia assistindo TV, mais da metade (54,6%) não praticava atividade física por mais de 60 minutos em nenhum dia da semana, e 23,0% apresentavam distúrbios psiquiátricos menores. A prevalência geral de DL nos últimos 12 meses foi de 32,9% (IC95%: 30,1-35,7).

Tabela 1 Descrição da amostra de adolescentes de 13 a 19 anos. Caracol, PI, 2011. (n = 1.112). 

Variável N %
Sexo (n = 1.112)
Masculino 519 46,7
Feminino 593 53,3
Idade (anos) (n = 1.112)
13-14 341 30,7
15-17 529 47,5
18-19 242 21,8
Vive junto com companheiro (n = 1.112)
Não 1003 90,2
Sim 109 9,8
Renda familiar (em reais) (n = 1.112)
Tercil mais pobre 375 33,7
Tercil intermediário 369 33,2
Tercil mais rico 368 33,1
Área de residência (n = 1.112)
Urbana 472 42,5
Rural 640 57,5
Está trabalhando (n = 1.112)
Não 890 80,0
Sim 222 20,0
Estado nutricional (OMS) (n = 1.111)
Magro 55 5,0
Eutrofia 934 84,0
Excesso de peso 122 11,0
Tempo na frente da TV (n = 1.112)
Até 2 horas 268 24,1
2 horas ou mais 844 75,9
Atividade física (dias que realizou mais que 60 min na última semana) (n = 1.112)
Inativos (0 dias) 607 54,6
Insuficientemente ativos (1 – 4 dias) 275 24,7
Ativos (5 – 7 dias) 230 20,7
Prevalência geral de DPM (n = 906)
Negativo 698 77,0
Positivo 209 23,0
Dor lombar (n = 1.109)
Não 744 67,1
Sim 365 32,9

DPM – Distúrbios psiquiátricos menores. DPM - Minor psychiatric disorders.

Dentre os adolescentes que relataram DL no último ano, 10,7% tinham dor lombar crônica, 17,8% tinham faltado ao trabalho ou aula devido à DL e 22,7% procuraram atendimento médico por causa dessa dor.

Indivíduos do sexo feminino, com idade entre 18-19 anos, maior renda, que viviam junto com companheiro, insuficientemente ativos e com distúrbios psiquiátricos menores apresentaram maiores prevalências do desfecho em relação aos seus grupos de comparação (Tabela 2).

Tabela 2 Prevalência da dor lombar no último ano em adolescentes. Caracol, PI, 2011. (n = 1.112). 

Variável Dor Lombar valor-p*

P (%) RP (IC 95%)
Sexo (n = 1.112) <0,001
Masculino 24,6 1,00
Feminino 40,2 1,64 (1,37-1,96)
Idade (anos) (n = 1.112) 0,001**
13-14 27,1 1,0
15-17 34,7 1,28 (1,04-1,58)
18-19 37,2 1,37 (1,08-1,75)
Vive junto com companheiro (n = 1.112) 0,03
Não 32,0 1,0
Sim 41,7 1,30 (1,02-1,66)
Renda familiar (em reais) (n = 1.112) 0,06**
Tercil mais pobre 28,7 1,0
Tercil intermediário 35,0 1,22 (0,99-1,51)
Tercil mais rico 35,2 1,23 (0,99-1,51)
Área de residência (n = 1.112) 0,36
Urbana 31,4 1,0
Rural 34,0 1,08 (0,91-1,29)
Está trabalhando (n = 1.112) 0,10
Não 31,8 1,0
Sim 37,4 1,18 (0,97-1,43)
Estado nutricional (OMS) (n = 1.111) 0,45
Magreza 30,1 1,0
Eutrofia 32,3 1,05 (0,70-1,57)
Excesso de peso 37,7 1,22 (0,77-1,93)
Tempo na frente na TV (n = 1.112) 0,79
Até 2 horas 33,6 1,0
2 horas ou mais 32,7 0,97 (0,80-1,18)
Atividade física (dias que realizou mais que 60 min na última semana) (n = 1.112) 0,001**
Inativos (0 dias) 37,1 1,58 (1,22 – 2,04)
Insuficientemente ativos (1 – 4 dias) 31,5 1,34 (1,01 – 1, 80)
Ativos (5 – 7 dias) 23,5 1,0
Prevalência geral de DPM (n = 906) <0,001
Negativo 28,4 1,0
Positivo 44,5 1,57 (1,29-1,90)

* valor p do teste de Wald de heterogeneidade ** valor p do teste de Wald de tendência linear DPM – Distúrbios Psiquiátricos Menores.

De acordo com a análise ajustada, sexo feminino (RP 1,75 IC95%: 1,45-2,10), idade entre 18-19 anos (RP 1,27 IC95%: 1,01-1,62), maior renda (RP 1,33 IC95%: 1,06-1,67), estar trabalhando (RP 1,25 IC95%: 1,02-1,53) e apresentar distúrbios psiquiátricos menores (RP 1,51 IC95%: 1,25-1,82) permaneceram associados ao desfecho (Tabela 3). Não foram associadas as variáveis IMC, nível de atividade física e tempo assistindo TV.

Tabela 3 Análise ajustada dos fatores associados à dor lombar no último ano em adolescentes. Caracol, PI, 2011. (n = 1.112). 

Variável Dor Lombar valor-p*

RP (IC 95%)
Sexo (n = 1.112) < 0,001
Masculino 1,0
Feminino 1,75 (1,45-2,10)
Idade (anos) (n = 1.112) 0,04**
13-14 1,0
15-17 1,23 (1,00-1,52)
18-19 1,27 (1,01-1,62)
Renda familiar (em reais) (n = 1.112) 0,01**
Tercil mais pobre 1,0
Tercil intermediário 1,27 (1,02-1,57)
Tercil mais rico 1,33 (1,06-1,67)
Área de residência (n = 1.112) 0,12
Urbana 1,0
Rural 1,15 (0,96-1,37)
Está trabalhando (n = 1.112) 0,04
Não 1,0
Sim 1,25 (1,02-1,53)
Atividade física (dias que realizou mais que 60 min na última semana) (n = 1.112) 0,16**
Inativos (0 dias) 1,24 (0,95-1,63)
Insuficientemente ativos (1 – 4 dias) 1,27 (0,96-1,70)
Ativos (5 – 7 dias) 1,0
Prevalência geral de DPM (n = 906) < 0,001
Negativo 1,0
Positivo 1,51 (1,25-1,82)

* valor p do de Wald para heterogeneidade ** valor p do teste de Wald para tendência linear DPM – Distúrbios Psiquiátricos Menores.

Discussão

No presente estudo, a prevalência do desfecho foi de 32,9%, sendo que 11% dos adolescentes que relataram DL nos últimos doze meses tinham dor lombar crônica e um quinto havia procurado por atendimento médico. Pertencer ao sexo feminino, possuir maior idade e renda, estar trabalhando e positividade para distúrbios psiquiátricos foram identificados como fatores significativamente associados ao desfecho.

A prevalência encontrada neste estudo é semelhante à relatada em outros países (33,6%; IC95%: 26,9-41,0)5. Entretanto, no Brasil, um estudo de base escolar que utilizou o mesmo período de recordatório (DL nos últimos 12 meses) relatou prevalência menor de DL entre escolares de 11 a 14 anos da cidade de Bauru (19,5%)6. Além das diferentes estruturas etárias dos indivíduos avaliados, no presente estudo, foram incluídos adolescentes que não estavam frequentando a escola. Além disso, os municípios avaliados são completamente distintos em relação a características socioeconômicas, sendo que Caracol possuía, em 2010, um IDH-M baixo (0,55), enquanto Bauru tinha um IDH-M considerado muito alto (0,80)18. Isso pode ter contribuído para a maior prevalência de DL entre os adolescentes de Caracol.

A procura de atendimento médico gerada pela dor lombar nos últimos 12 meses pode ser considerada baixa, embora a comparabilidade seja limitada pela escassez de estudos que avaliaram a utilização de serviço por DL entre adolescentes. A falta ao trabalho/aula é um indicador de gravidade e este resultado é relatado em outro estudo19. A prevalência de dor lombar crônica entre os adolescentes com DL pode ser considerada alta, o que é preocupante nesta etapa da vida, uma vez que sintomas crônicos são associados à incapacidade entre adultos3.

A associação entre sexo feminino e DL nos últimos 12 meses é consistente com a literatura, mesmo entre estudos que utilizam diferentes períodos de recordatório para caracterização do desfecho4,20. Estes resultados podem refletir diferenças estruturais e psicossociais entre os sexos, sendo que as mulheres podem relatar a dor com maior frequência do que os homens. Além disso, diferenças na estrutura músculo-esquelética podem tornar as mulheres mais predispostas à DL, uma vez que tenham maior gasto energético do que os homens quando expostas a demandas físicas similares6. Entretanto, as razões pelas quais as mulheres relatam mais DL do que os homens são especulativas6. Cabe ressaltar ainda, que neste estudo não foi avaliado se a DL entre as mulheres era decorrente da menstruação, o que pode ter superestimado a prevalência e, consequentemente, o risco de DL neste grupo em relação aos homens.

A maior sobrecarga sobre a coluna vertebral devido aos longos períodos sentados e o carregamento de peso que aumentam na medida em que os adolescentes se tornam mais velhos pode explicar a associação linear direta entre idade e o desfecho4,7,8,21.

Não foram encontrados estudos que avaliem a associação entre maior renda e DL no último ano, sendo que apenas um estudo brasileiro avaliou a relação entre nível socioeconômico e DL, mas não encontrou diferença significativa7. Por se tratar de um município com IDHM baixo, adolescentes que trabalham possuem maior renda, sendo desta forma, mais expostos a cargas de trabalho que podem predispor à DL. Estudo realizado em Pelotas, com crianças e adolescentes, observou que alguns tipos de trabalho estavam associados à dor nas costas, tais como trabalhos domésticos e trabalho em indústrias22. No entanto, esta comparação é limitada devido às diferentes definições dos desfechos e às diferenças socioeconômicas entre os municípios.

Dentre os estudos brasileiros, apenas um encontrou associação entre hiperatividade e sintomas emocionais com DL em adolescentes8. Entretanto, além de não ser um estudo de base populacional, o instrumento utilizado foi o questionário de capacidade e dificuldades – SDQ, o qual difere substancialmente do SRQ-20. É importante ressaltar que o delineamento utilizado limita a avaliação da temporalidade da associação encontrada, e que este achado é controverso na literatura. Enquanto alguns estudos relatam associação, outros não encontram resultados semelhantes9,10. Neste caso, o uso de diferentes instrumentos e definições para mensurar variáveis psicossociais pode contribuir para achados contraditórios.

Neste estudo, não houve associação significativa entre atividade física e DL, achado consistente com um estudo de coorte com adolescentes do ensino médio do Canadá10. Entretanto, além das diferenças metodológicas, bem como em relação à idade média dos participantes, neste estudo, não foram avaliadas em detalhes as atividades físicas praticadas pelos adolescentes, o que limita a capacidade de discernir entre as que seriam benéficas das que seriam de risco para DL. Desta forma, persistem muitas incertezas na literatura sobre quais atividades físicas seriam protetoras e quais seriam de risco para DL10,20.

Embora um estudo brasileiro apresente maior risco de DL entre indivíduos com sobrepeso/obesidade7, não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre estado nutricional e DL. Um aspecto que pode ser mencionado é a baixa proporção de adolescentes com excesso de peso (11%) no presente estudo, o que pode ter contribuído para este achado negativo.

Por se tratar de um estudo transversal, a interpretação dos achados em relação aos fatores associados à DL nos últimos 12 meses requer considerar que algumas das associações podem ser decorrentes de causalidade reversa. Este estudo também pode apresentar erro de recordatório pelo desfecho ter sido caracterizado como prevalência no último ano. Desta forma, a alta prevalência de DL nos últimos 12 meses pode ter sido subestimada. Assim, a proporção encontrada é o número mínimo de casos esperados na população avaliada.

O estudo da prevalência e dos fatores associados à DL em adolescentes pode ser uma ferramenta útil na busca por intervenções que visem o tratamento da DL. De acordo com uma revisão sistemática recente, existem evidências de que a realização de exercícios pode reduzir os níveis de dor em curto prazo23. Dessa forma, é recomendável que profissionais de saúde procurem identificar adolescentes com DL de forma a tratar adequadamente estes indivíduos. Em relação a medidas preventivas, os achados na literatura são controversos e não há evidência de que intervenções ergonômicas ou educativas sejam eficazes na prevenção da DL entre adolescentes23,24. Neste sentido, a baixa qualidade metodológica contribui para que os achados da maioria dos estudos de intervenção sejam inválidos23.

Deste modo, existem importantes lacunas no conhecimento sobre a ocorrência e os fatores associados à DL em adolescentes, bem como em relação ao seu tratamento e prevenção. São necessários, desta forma, mais estudos observacionais e experimentais metodologicamente adequados sobre o tema.

Conclusão

Por ser um censo com adolescentes de um município com baixo IDHM do semiárido nordestino, este estudo traz uma contribuição original ao estudo da DL. Evidencia elevada prevalência de DL (32,9%), bem como identifica os principais fatores associados (sexo feminino, possuir maior idade e renda, estar trabalhando e positividade para distúrbios psiquiátricos). Estes achados podem ser úteis a profissionais que trabalhem com adolescentes, de forma que identifiquem oportunamente os indivíduos mais suscetíveis.

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