Dor lombar, índices antropométricos e flexibilidade em trabalhadores rurais

Dor lombar, índices antropométricos e flexibilidade em trabalhadores rurais

Autores:

Patrik Nepomuceno,
Luíza Müller Schmidt,
Marcelo Henrique Glänzel,
Miriam Beatrís Reckziegel,
Hildegard Hedwig Pohl,
Éboni Marília Reuter

ARTIGO ORIGINAL

BrJP

versão impressa ISSN 2595-0118versão On-line ISSN 2595-3192

BrJP vol.2 no.2 São Paulo abr./jun. 2019 Epub 19-Jun-2019

http://dx.doi.org/10.5935/2595-0118.20190022

INTRODUÇÃO

A saúde do trabalhador tem recebido destaque em pesquisas na área da saúde coletiva, fato esse que está relacionado à incidência de problemas de saúde advindos da atividade laboral. Entretanto, em algumas populações, essas questões precisam ser aprofundadas, como é o caso dos trabalhadores rurais1. Esses trabalhadores apresentam mais agravos à saúde e doenças, quando comparados aos trabalhadores da zona urbana, ao mesmo tempo que apresentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde2.

Os produtores rurais costumam desempenhar atividades que necessitam de esforço físico intenso, sendo frequentes os distúrbios osteomusculares. Como consequência, referem dor e desconforto que interferem nas atividades de vida diária. Entre os principais desconfortos identificados nesses trabalhadores está a dor lombar (DL). A DL pode ocorrer devido a diversos fatores, como a redução da flexibilidade da cadeia muscular posterior, relacionada à sobrecarga laboral e à falta de ações de prevenção aos agravos, bem como pode vincular-se com a presença de obesidade. Estimativas apontam que de 60 a 80% da população geral apresentará, em algum momento da vida, dor na região lombar1.

Tais desordens na coluna, que se expressam em dor, levam ao comprometimento das atividades laborais e alterações posturais. Esses trabalhadores podem apresentar dores de elevada intensidade, que associadas a disfunções musculoesqueléticas, ocasionam alterações na estabilidade postural. Além disso, é frequente o excesso de peso nessa população, fato esse, que pode agravar sua condição. A sobrecarga física durante a atividade laboral, pode favorecer o surgimento de DL e diminuição da flexibilidade dessa população, sendo importante a detecção dessas alterações para o desenvolvimento de ações que visem prevenir distúrbios relacionados2.

Considerando que o Brasil possui um contingente expressivo de trabalhadores no setor que não são acompanhados em suas necessidades em saúde, fica evidente a importância de conhecer o seu perfil de adoecimento.

Nesse contexto, o presente estudo justifica-se por dar ênfase aos sintomas dolorosos, referidos como comum em trabalhadores rurais, buscando identificar os elementos contributivos associados à aptidão física. Sabe-se que devido às características do trabalho rural, é comum prevalências elevadas de DL, chegando a 98%, porém ainda existe uma lacuna a ser preenchida nas pesquisas sobre esse tema na população. Além disso, tem sido descrito o aumento exponencial de doenças crônicas não transmissíveis no meio rural, sobretudo a obesidade1,3. Portanto, o objetivo foi verificar se há relação entre a DL, medidas antropométricas e níveis de flexibilidade de trabalhadores rurais.

MÉTODOS

Trata-se de estudo retrospectivo transversal4 realizado com trabalhadores rurais de Santa Cruz do Sul e municípios do Conselho Regional de Desenvolvimento do Vale do Rio Pardo (COREDE-VRP). Para estimar o poder estatístico foi considerado α (two-sided) 0,05 e poder de 80%. Dessa forma, com 55 trabalhadores foi possível atingir magnitude de efeito de 0,454. O tamanho da amostra foi calculado pelo software G*Power. A amostra foi selecionada por meio de seminários externos de apresentação do projeto, sendo os sujeitos convidados a participarem do estudo.

O presente estudo faz parte da pesquisa "Triagem de fatores de risco relacionados ao excesso de peso em trabalhadores da agroindústria usando novas tecnologias analíticas e de informação em saúde - Fase III" desenvolvido na Universidade de Santa Cruz do Sul. Foram selecionados sujeitos com idade entre 18 e 65 anos, que exercem atividade laboral no meio rural e que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os critérios de exclusão foram indivíduos que não conseguiram finalizar todos os testes ou que já realizaram procedimento cirúrgico na coluna vertebral.

Para a caracterização da amostra foi aplicado um questionário autorreferido sobre dados sociodemográficos e de estilo de vida. Os trabalhadores responderam questões sobre sexo (feminino/masculino), idade (em anos), classe socioeconômica (critérios da Associação Brasileira de Empresas), estado civil (casado/outros), jornada doméstica (menos de 2h e mais de 2h), tempo de atividade no ramo (em anos), horas de trabalho por dia, número de filhos, postura predominante no trabalho (em pé, sentado, alternado) e prática de atividade física (sim/não).

A DL foi mensurada por meio da escala analógica visual (EAV). Os indivíduos foram orientados que zero seria sem dor e 10 seria a dor máxima, olhando a escala referiram o valor correspondente. Os resultados foram classificados em "sem dor" (pontuação zero), "dor leve a moderada" (pontuação de 1 a 5) e "dor moderada a intensa" (pontuação de 6 a 10)5.

Para a avaliação antropométrica foram considerados índices de obesidade total, como índice de massa corporal (IMC) e percentual de gordura (%G), e de regionalização da gordura, como circunferência da cintura (CC), relação cintura-quadril (RCQ) e área de gordura visceral (AVG).

O peso e a altura foram obtidos em balança analógica com estadiômetro para o cálculo do IMC (kg/m2), sendo classificado de acordo com as categorias da World Health Organization6 e posteriormente dicotomizados em "faixa recomendável" e "excesso de peso". O %G de sete dobras cutâneas, obtido com Compasso de Lange, sendo todas as mensurações realizadas no hemicorpo direito, e calculado através da equação de Jackson e Pollock, seguido da equação de Siri, foi classificado utilizando a proposta por Pollock e Wilmore7, sendo os resultados "excelente", "bom" e "acima de média" considerados como "adequado" e "média", "abaixo da média", "ruim" e "muito ruim", como "inadequado".

A CC foi obtida com fita antropométrica, no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca. Ela foi classificada de acordo com Lean, Han e Morrison8 em "normal" considerado "adequado" e "risco aumentado" e "alto risco" sendo "inadequado". A RCQ, calculada pela razão entre CC e quadril, sendo obtida a circunferência do quadril no trocânter maior do fêmur, foi classificada de acordo com Heyward9 em "risco baixo" como "adequado" e "risco moderado", "risco alto" e "risco muito alto" considerado "inadequado". A AVG, obtida através de bioimpedanciometria (InBody 720®) e expressa em cm3, foi classificada de acordo com Pitanga et al.10 em "normal" e "elevada".

A flexibilidade foi medida em cm com o teste de sentar e alcançar no Banco de Wells, sendo realizadas três manobras e considerada a de melhor resultado. Foi classificada de acordo com Wells e Dillon11 em "fraco", "regular", "médio" classificados como "inadequado" e "bom" e "ótimo" como "adequado".

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição sob parecer de número 2.349.234/2017.

Análise estatística

Os resultados foram apresentados em tabelas e expressos através de média e desvio padrão para dados numéricos e frequência e percentual para dados categóricos e analisados através do software SPSS Statistics®. A normalidade dos dados foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk. Para a análise correlacional foram utilizados os testes de Pearson (variáveis paramétricas) e Spearman (variáveis não paramétricas). A comparação de médias entre os grupos foi verificada através do teste t de Student para amostras independentes e ANOVA com post hoc GT2 de Hochberg (variáveis paramétricas) e U de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis (variáveis não-paramétricas). Para as variáveis categóricas utilizou-se o teste de Qui-quadrado, considerando p<0,05.

RESULTADOS

Foram avaliados 55 indivíduos com média de idade de 48,4±12,2 anos, sendo 30 (54,5%) do sexo feminino, na maioria casados (76,4%) com filhos (85,5%) e classificação socioeconômica C1 e C2 (56,4%). O tempo médio de atuação na agricultura foi de 26,64±15,88 anos. Com relação ao trabalho doméstico, a maioria da amostra relatou realizar menos de 2h diárias (72,2%), não havendo relação entre trabalho doméstico e dor. Também não foram observadas diferenças entre sexo sobre tempo de jornada doméstica (p=0,269), embora apenas as mulheres tenham referido se dedicar de 4 a 6h para tais atividades (n=5).

Na comparação das variáveis sociodemográficas e de estilo de vida nos grupos de dor, observou-se que não há diferença para sexo, idade, estado civil, jornada doméstica, tempo de atividade, horas de trabalho por dia, número de filhos e prática de atividade física. Entretanto, é possível constatar que indivíduos da classe socioeconômica B apresentam mais dor que aqueles pertencentes à classe C. Além disso, indivíduos com maior intensidade de dor realizam as atividades laborais alternando entre em pé e sentado (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização da amostra quanto aos dados sociodemográficos e estilo de vida 

Variáveis Dor lombar Valor de p
Sem dor
(n=18)
Leve a moderada
(n=24)
Moderada a intensa
(n=13)
Sexo*
Feminino 8 (32,0) 12 (48,0) 5 (20,0) 0,793a
Masculino 10 (33,3) 12 (40,0) 8 (26,7)
Idade** 49,89 (11,62) 46,96 (13,04) 48,92 (12,20) 0,739b
Classe socioeconômica*
B 2 (9,5) 14 (66,7) 5 (23,8) 0,005a
C 15 (48,4) 8 (25,8) 8 (25,8)
Estado civil*
Casado 13 (31,0) 18 (42,9) 11 (26,2) 0,710a
Outros 5 (38,5) 6 (46,2) 2 (15,4)
Jornada doméstica*
Menos de 2 horas 13 (32,5) 19 (47,5) 8 (20,0) 0,516a
Mais de 2 horas 5 (33,3) 5 (33,3) 5 (33,3)
Tempo de atividade** 21,17 (13,80) 29,75 (16,48) 28,46 (16,65) 0,302b
Horas de trabalho/dia** 8,67 (2,50) 9,33 (2,26) 10,46 (1,85) 0,067c
Filhos*
Sim 15 (31,9) 21 (44,7) 11 (23,4) 0,926a
Não 3 (37,5) 3 (37,5) 2 (25,0)
Número de filhos** 2,07 (0,88) 1,81 (0,93) 2,36 (0,81) 0,187c
Postura predominante*
Em pé 15 (40,5) 17 (45,9) 5 (13,5) 0,028a
Alterna em pé/sentado 3 (16,7) 7 (38,9) 8 (44,4)
Atividade física*
Sim 3 (37,5) 5 (62,5) - 0,219a
Não 15 (31,9) 19 (40,4) 13 (27,7)

*frequência absoluta (frequência relativa);

**média (desvio padrão);

ateste Qui-quadrado;

bANOVA com post hoc GT2 de Hochberg;

cteste de Kruskal-Wallis.

Ao serem questionados sobre DL, 37 (67,3%) referiram queixas de algia nessa região, sendo a pontuação média de dor na EAV de 3,4±2,7. Com relação às variáveis avaliadas, mais da metade da amostra apresentava os valores de IMC, %G, CC e RCQ classificados em categorias indesejáveis (Tabela 2).

Tabela 2 Caracterização dos sujeitos quanto às variáveis antropométricas e de flexibilidade 

Variáveis Adequado n (%) Inadequado n (%)
IMC 19(34,5) 36(65,5)
%G 24(43,6) 31(56,4)
CC 25(45,5) 30(54,5)
RCQ 10(18,2) 45(81,8)
AVG 29(52,7) 26(47,3)
TSA 32(58,2) 23(41,8)

IMC = índice de massa corporal; %G = percentual de gordura; CC = circunferência da cintura; RCQ = relação cintura-quadril; AVG = área de gordura visceral; TSA = teste de sentar e alcançar.

Ao comparar as médias das variáveis antropométricas e de flexibilidade dos indivíduos sem DL, com dor leve a moderada e moderada a intensa, foi identificado que aqueles com dor apresentaram valores de IMC e AVG superiores, sendo que os valores dessas variáveis aumentam com a intensidade de dor referida. Nas comparações múltiplas, foram identificadas diferença da AVG e IMC entre os grupos sem dor e dor moderada a intensa (p=0,031; p=0,046, respectivamente) (Tabela 3).

Tabela 3 Comparação de médias entre grupos de dor 

Variáveis Dor lombar Valor de p
Sem dor
(n=18)
Leve a moderada
(n=24)
Moderada a intensa
(n=13)
IMC 25,94 (2,78) 27,18 (5,92) 30,97 (6,02) 0,035a
%G 25,26 (5,84) 25,48 (7,85) 29,26 (5,83) 0,209b
CC 86,86 (9,24) 87,85 (10,08) 93,72 (13,43) 0,182b
RCQ 0,87 (0,08) 0,86 (0,08) 0,86 (0,10) 0,988b
AVG 86,91 (29,15) 98,01 (43,00) 124,24 (41,46) 0,034b
TSA 28,09 (7,83) 26,72 (9,70) 23,53 (7,26) 0,343b

IMC = índice de massa corporal; %G = percentual de gordura; CC = circunferência da cintura; RCQ = relação cintura-quadril; AVG = área de gordura visceral; TSA = teste de sentar e alcançar;

ateste Kruskal-Wallis;

bANOVA com post hoc GT2 de Hochberg.

Quando comparados os valores antropométricos e da EAV considerando as categorias de flexibilidade, verifica-se que os indivíduos com níveis inadequados de flexibilidade apresentam valores maiores de AGV (p=0,035) e DL (p=0,014) (Tabela 4).

Tabela 4 Comparação de médias entre grupos de flexibilidade 

Variáveis Flexibilidade Valor de p
Adequada
(n=32)
Inadequada
(n=23)
Idade 45,39 (11,16) 50,53 (12,69) 0,125b
IMC 26,40 (3,42) 29,44 (7,03) 0,162a
%G 25,60 (6,82) 27,28 (7,00) 0,378b
CC 86,90 (8,17) 91,72 (13,44) 0,136b
RCQ 0,87 (0,09) 0,86 (0,08) 0,945b
AVG 90,89 (33,54) 114,06 (45,90) 0,035b
EAV 2,63 (2,47) 4,35 (2,64) 0,014a

IMC = índice de massa corporal; %G = percentual de gordura; CC = circunferência da cintura; RCQ = relação cintura-quadril; AVG = área de gordura visceral; EAV = escala analógica visual;

ateste U de Mann-Whitney;

bteste t de Student.

Além disso, observa-se associação entre a EAV da região lombar e as variáveis de IMC (r=0,304; p=0,024) e AVG (r=0,314; p=0,020), assim infere-se que quanto maior o IMC e AVG maior a pontuação de dor referida. Também foi identificada uma associação fraca e inversa entre o RCQ e a flexibilidade que envolve a região lombar, sendo que quanto maior a RCQ menor os valores no TSA (r=-0,276; p=0,042).

Na comparação das variáveis quanto à idade, observou-se que não houve diferença para valores de IMC, AVG, TSA e EAV, indicando que a idade não influencia na dor e flexibilidade. Entretanto, valores de adiposidade central, avaliada pela CC e RCQ aumentam progressivamente com a idade, bem como de obesidade total pelo %G. Nas comparações múltiplas foi observada diferenças entre 18 e 39 e 40 e 59 anos para %G (p=0,025), entre 40-59 e 60-65 anos para RCQ (p=0,015) e entre 18 e 39 e 60 e 65 anos para CC (p=0,026) e RCQ (0,004) (Tabela 5).

Tabela 5 Comparação de médias entre os grupos de idade 

Variáveis Idades Valor de p
18-39 anos
(n=12)
40-59 anos
(n=32)
60-65 anos
(n=11)
IMC 25,21 (3,47) 28,30 (5,77) 28,53 (5,61) 0,248a
%G 21,65 (5,66) 27,71 (7,05) 27,27 (5,75) 0,027b
CC 83,46 (11,58) 88,79 (9,95) 95,21 (10,08) 0,031b
RCQ 0,82 (0,82) 0,86 (0,08) 0,94 (0,06) 0,003b
AVG 83,41 (25,38) 103,56 (43,03) 110,64 (43,56) 0,225b
TSA 28,32 (7,03) 26,87 (8,55) 23,02 (10,05) 0,308b
EAV 3,25 (2,67) 3,28 (2,78) 3,64 (2,50) 0,888a

IMC = índice de massa corporal; %G = percentual de gordura; CC = circunferência da cintura; RCQ = relação cintura-quadril; AVG = área de gordura visceral; TSA = teste de sentar e alcançar; EAV = escala analógica visual;

ateste de Kruskal-Wallis;

bANOVA com post hoc GT2 de Hochberg.

DISCUSSÃO

A agricultura caracteriza-se por um trabalho manual pesado, os agricultores precisam manusear consideráveis quantidades de peso para transportar seus materiais e produtos. Durante essa atividade, adotam posturas inadequadas que podem causar lesões aos tecidos, especialmente músculos e articulações, que favorecem o surgimento da DL12. A DL pode estar associada à dor irradiada ou a dores em membros inferiores, especialmente em trabalhadores rurais, que passam longas jornadas de trabalho em pé13. No presente estudo, observou-se que os indivíduos com valores elevados de dor realizavam suas atividades alternando entre em pé e sentado, podendo esse fato estar relacionado à adaptação da rotina de trabalho em função da dor.

Apesar da atividade agrícola ser considerada como um fator de risco para o desenvolvimento de DL, ela permanece pouco explorada sobre como influencia na saúde do trabalhador, especialmente nos quadros álgicos14. Os presentes resultados revelam que tanto o IMC quanto a AVG se relacionam com a dor e a sua intensidade em trabalhadores rurais. Também é possível observar que a dor, a AVG e RCQ estão associadas à flexibilidade, podendo ser explicada por uma possível sobrecarga na coluna lombar e alteração do centro de gravidade.

Estudo de Briggs et al.15 observou que sujeitos com CC aumentada apresentam valores de dor significativamente maiores (OR=2,39; IC: 1,09-5,21), resultado diferente do observado no presente estudo. Entretanto, também observaram que sujeitos classificados pelo IMC com sobrepeso ou obesidade apresentaram maior frequência de DL, bem como inflamação sistêmica que pode contribuir para o agravamento do quadro álgico.

Hashimoto et al.16 em estudo de larga escala realizado com homens japoneses encontraram que a chance de DL é maior em indivíduos com excesso de peso quando comparados àqueles que têm resultados desejáveis no IMC, destacando a necessidade do controle do IMC tanto para prevenção quanto tratamento da DL. Já em inquérito nacional nos Estados Unidos17 foi observado que indivíduos com sobrepeso ou obesidade, avaliado pelo IMC, apresentavam maior chance de apresentar DL (OR=1,21; IC: 1,11-1,32 e OR=1,55; IC: 1,44-1,67 respectivamente). Esse inquérito constatou que homens e mulheres brancos apresentavam maior risco de desenvolver DL. Considerando as características da nossa região, essa poderia ser uma justificativa para a alta prevalência de dor observada neste estudo. Os achados descritos corroboram os encontrados no presente estudo. Dessa forma, pode-se inferir que o excesso de peso está relacionado à chance aumentada de desenvolver DL.

Iizuka et al.18 analisaram a prevalência de DL crônica não específica e fatores relacionados em indivíduos de meia idade e idosos, sendo que não identificaram relação entre IMC e a presença de dor (p=0,422). Esse resultado, oposto ao observado no presente estudo, pode ter sido devido à amostra apresentar baixa prevalência de DL (24,8%). Entretanto, apontaram que o hábito tabágico e a qualidade de vida se relacionam com a DL (p=0,021; p=0,016, respectivamente), porém os autores não trazem uma justificativa para tais resultados.

Su et al.19 estudaram a associação do IMC com a prevalência, gravidade e frequência de DL. Quando comparada a frequência de DL com a classificação do IMC, foi observado que a frequência é maior (p<0,05) no excesso de peso e obesidade, assim como na obesidade grave e mórbida (p<0,01), quando comparado ao grupo com peso normal ou baixo peso. Assim, esses dados corroboram os deste estudo, considerando que quanto maior o IMC e AVG maior a intensidade da dor. Entretanto, os autores não identificaram uma relação do IMC com a gravidade dos episódios ou frequência da lombalgia.

Rahmani et al.20 utilizaram a ultrassonografia para verificar as dimensões do músculo multífido em adolescentes com e sem DL e encontraram associação entre o tamanho do músculo e o IMC, sendo esta uma possível explicação para a alta prevalência de DL em indivíduos com excesso de peso observada na presente pesquisa. Além disso, observaram que todas as medidas do músculo se correlacionam inversamente com a intensidade da dor e a incapacidade funcional, sugerindo que quanto menor as dimensões, maior a dor e a incapacidade.

Em estudo com trabalhadores rurais de uma região de Santa Catarina1 foi verificada a prevalência de 98,3% de DL, com média de dor na EAV de 5,89±2,49, sendo mais intensa nas mulheres (média: 6,14±2,45. Houve relação entre dor e TSA (r=-0,42; p<0,01). Esses dados vão ao encontro dos presentes resultados considerando que indivíduos com flexibilidade inadequada apresentaram valores maiores de dor.

Silva et al.21 encontraram resultados semelhantes com trabalhadores rurais no Vale do Rio Pardo, RS sendo observado que os indivíduos com elevadas intensidades de dor, apresentaram menores níveis de flexibilidade e consideráveis alterações posturais. A DL é comum em agricultores tailandeses da borracha. Udom, Janwantanakul e Kanlayanaphotporn22 encontraram alta prevalência de DL (55,7%) com elevada intensidade, identificando relação entre IMC e dor (p=0,048), corroborando com o presente estudo. Assim, é possível inferir que o IMC é um importante preditor da DL em diferentes populações. Diversos estudos observaram que há associação entre os marcadores antropométricos, como peso, IMC, CC, e a DL, confirmando que o aumento da adiposidade é um fator de risco para o desenvolvimento de DL23,24.

Trabalhadores de diversos setores estão expostos à redução de elementos da aptidão física de acordo com a atividade laboral desempenhada. Nepomuceno et al.25 analisaram o perfil de trabalhadores industriários e detectaram prevalência de dor, redução da flexibilidade e alterações antropométricas, reforçando os resultados encontrados no presente estudo. Também observaram uma tendência na associação entre a flexibilidade e a presença de dor. Portanto, a flexibilidade pode exercer influência na dor.

Paz et al.26 identificaram que as variáveis antropométricas não se relacionaram à incapacidade funcional lombar. Entretanto, a amostra do estudo foi considerada relativamente saudável, o que pode ter contribuído para esse resultado. Foi destacado que a flexibilidade lombar, avaliada pelo TSA, apresentou maior associação com a incapacidade.

A obesidade pode exercer influência não somente na dor e na flexibilidade, mas também na resistência muscular. Ummunah, Ibkunle e Ezeakunne27 identificaram relação inversa entre o IMC e a circunferência do quadril com o tempo de sustentação de contração isométrica máxima. Isso significa que quanto maior a adiposidade, menor o tempo de manutenção da contração muscular, podendo esses resultados serem importantes na explicação da DL em indivíduos com excesso de peso.

Considerou-se que o tamanho da amostra pode ter sido um fator limitante do estudo, em parte decorrente da dificuldade de acesso a essa população, historicamente desassistida. Entretanto, este estudo traz importantes considerações sobre a saúde da população rural e também para o planejamento de ações de promoção da saúde e prevenção de agravos relacionados à DL. Além disso, constatou-se que indivíduos com classe socioeconômica mais elevada apresentam mais dor. Entretanto, os mecanismos que associam essa variável à dor ainda permanecem desconhecidos.

CONCLUSÃO

Evidenciou-se, no presente estudo, que os trabalhadores rurais com DL apresentaram valores de IMC e AVG maiores, assim como aqueles com flexibilidade inadequada na mesma região apresentam valores maiores de AGV e dor. Também é possível inferir que há associação entre os valores de IMC e AVG com o nível de dor, bem como a RCQ se associa aos níveis de flexibilidade.

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