Dor nas costas em adolescentes: prevalência e fatores associados

Dor nas costas em adolescentes: prevalência e fatores associados

Autores:

Mirna Namie Okamura,
Wilma Madeira,
Moisés Goldbaum,
Chester Luiz Galvão Cesar

ARTIGO ORIGINAL

BrJP

versão impressa ISSN 2595-0118versão On-line ISSN 2595-3192

BrJP vol.2 no.4 São Paulo out./dez. 2019 Epub 02-Dez-2019

http://dx.doi.org/10.5935/2595-0118.20190059

INTRODUÇÃO

A dor nas costas é conhecida como uma das principais causas de incapacidade1 para o trabalho e atividades cotidianas. Sua origem, em parte, se refere ao uso do corpo humano, que se inicia na infância, mas que começa a apresentar seus sinais de uso (ou de mau uso) de forma mais intensa na adolescência. Há indicativo de que uma intervenção mais precoce nesse problema traria resultados mais efetivos para a vida adulta.

Existem poucos estudos sobre dor nas costas, apesar de ser um problema de saúde frequente na população mundial. Swain et al.2, em revisão sistemática de adolescentes (9 a 17 anos), estimou a prevalência mundial de dor nas costas em 37%. Em estudos locais no Brasil, as prevalências encontradas de dor nas costas foram: em adultos nas cidades de Campinas-SP, 30,6%3 e Pelotas-RS, 63,1%4, e em adolescentes (10 a 17 anos), em Uruguaiana-RS, 16,1%5.

“Dor nas costas” é um termo amplo, utilizado de forma coloquial3. Sua importância se baseia na elevada prevalência mundial, no impacto na qualidade de vida das pessoas, e em seu potencial de incapacitação para o trabalho. Dada a amplitude do termo, vários estudos preferem tratar apenas de dor lombar. Neste estudo será utilizado o termo “dor nas costas”, considerando-o como o agrupamento dos termos cervicalgia, dorsalgia e lombalgia.

O objetivo deste estudo foi estimar a prevalência, fatores associados e características relacionadas à dor nas costas em adolescentes da cidade de São Paulo em 2015.

MÉTODOS

Foram analisados os dados do Inquérito de Saúde no Município de São Paulo 2015 (ISA-Capital 2015), estudo transversal de base populacional, com coleta de dados realizada entre setembro de 2014 e dezembro de 2015.

O ISA-Capital 2015 é um estudo constituído de amostra composta por pessoas com idade a partir de 12 anos, residentes em domicílios particulares permanentes, em área urbana da cidade de São Paulo, que é a maior cidade e compõe a maior e mais complexa região metropolitana do Brasil. Neste estudo foi utilizada amostragem probabilística estratificada, com sorteio em dois estágios: (1) setores censitários; e (2) domicílios6,7.

A prevalência refere-se à população do estudo ISA-Capital 2015, que considerou somente a população com domicílio em área urbana, 9.349.890 habitantes6.

Os domínios do estudo foram constituídos por: (a) regiões e (b) entrevistados nas faixas etárias de 12 a 19 anos, 60 anos ou mais, e sexo e idade na faixa de 20 a 59 anos por sexo (masculino e feminino). Para fins de inferência estatística, cada indivíduo da amostra foi associado a um peso amostral. O peso final foi calculado conforme três componentes: (1) peso de delineamento, que leva em conta as frações de amostragem das duas etapas de sorteio; (2) ajuste de não respostas; e (3) pós-estratificação, que ajusta a distribuição da amostra por sexo, faixa etária e região de residência, de acordo com a distribuição da população no município e conforme estimativa populacional6.

Para este estudo foram selecionados 539 (98,4%) entrevistados, amostra composta por adolescentes com idades entre 15 e 19 anos, parte do estrato de faixa etária de 12 a 19 anos do ISA-Capital 2015. Os adolescentes de 12 a 14 anos foram retirados da amostra porque as questões relacionadas ao Self Report Questionnaire (SRQ), parte integrante do ISA-Capital 2015, não foram aplicados em menores de 15 anos.

Foi considerada a seguinte variável dependente:

1. dor nas costas.

Foram consideradas as seguintes variáveis independentes:

2. Variáveis sociodemográficas: sexo, idade, raça/cor e escolaridade;

3. Variáveis relacionadas a condições de saúde e estilo de vida: estado nutricional8; tabagismo, uso de álcool e atividade física recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Fisicamente ativos são aqueles que atenderam à recomendação da OMS de praticar atividade física, de intensidade leve ou moderada por pelo menos 150 minutos semanais ou atividades de intensidade vigorosa por pelo menos 75 minutos semanais9.

4. Variáveis relacionadas às doenças crônicas e aos sintomas: consideradas e testadas todas as autorreferidas.

5. Variáveis relacionadas ao quadro emocional, aqueles que responderam ‘sim’ para oito ou mais questões do Bloco E do ISA-Capital 2015, composto por questões do Self Report Questionnaire 20 (SRQ20), instrumento com 20 questões para Transtorno Mental Comum (TCM) podendo ser utilizada na atenção básica, revalidado por Gonçalves, Stein e Kapczinski10.

6. Características da dor nas costas: localização, frequência, intensidade e atitudes para alívio da dor.

Para a análise de inquéritos baseados em delineamentos complexos utilizou-se o módulo survey do programa STATA14, que permitiu incorporar os pesos distintos.

A análise foi construída por um modelo de regressão logística para testar a associação isolada entre as variáveis dependentes (dor nas costas) e cada independente, além de analisar as que entraram no modelo final.

Todos os participantes, ou respectivos responsáveis, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no qual foram explicados os objetivos da pesquisa e as informações que seriam solicitadas, sendo garantida a confidencialidade das informações obtidas. O protocolo da pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - Parecer 1.420.473 (2015).

Análise estatística

As prevalências entre variáveis categóricas foram quantificadas pelo teste Qui-quadrado de Pearson (p), aquelas selecionadas para o modelo foram as que obtiveram p<0,20. No modelo final, após testes de seleção, manteve-se no modelo somente variáveis com p<0,05. As associações entre variáveis foram medidas por Odds Ratio (OR). O ajuste do modelo de regressão foi avaliado pelo teste de Archer e Lemeshow11.

RESULTADOS

Dos 554 adolescentes (de 15 a 19 anos) entrevistados no ISA-Capital 2015, identificou-se como população estudada 539 (98,4%) que responderam a todas as variáveis deste estudo.

Dos 539 adolescentes entrevistados, 50,5% eram do sexo masculino e 49,5% do sexo feminino, portanto a proporção foi bastante aproximada. A distribuição das idades desta amostra apresentou diferenças entre 17,0 e 22,1%, aqui também com proporções aproximadas. Todas as demais variáveis de caracterização desta população apresentaram-se homogêneas (Tabela 1).

Tabela 1 Perfil demográfico dos adolescentes de residentes na cidade de São Paulo em 2015 

Caracterização demográfica % total (IC95%) n
Sexo
Masculino 50,5 (46,3 - 54,7) 269
Feminino 49,5 (45,3 - 53,7) 270
Idade (anos)
15 21,2 (18,1 - 24,6) 116
16 17,0 (13,6 - 21,0) 91
17 21,0 (17,3 - 25,3) 112
18 18,7 (15,4 - 22,6) 104
19 22,1 (18,4 - 26,5) 116
Raça/cor
Branco 44,8 (39,7 - 50,1) 230
Preto 14,2 (11,1 - 18,0) 78
Pardo 37,0 (32,3 - 41,8) 206
Outros 4,0 (2,4 - 6,4) 22
Escolaridade
Fundamental II completo 33,3 (29,4 - 37,3) 180
Fundamental I completo 54,1 (49,3 – 58,8) 287
Fundamental I incompleto 12,6 (9,6 - 16,4) 72

IC = Intervalo de Confiança.

Quando se estudou a população que se identificou como tendo problemas relacionados à dor nas costas - que neste estudo abrange as dores lombar, cervical e dorsal - foi possível verificar diferenças de prevalência significativas entre o sexo feminino 28,1% (IC95% 22,6 - 34,2) e o sexo masculino 16,8% (IC95% 12,2 - 22,7), significando que meninas têm quase o dobro de dor nas costas que os meninos (Tabela 2).

Tabela 2 Adolescentes com dor nas costas: prevalência das caracterizações demográfica e estilo de vida de residentes na cidade de São Paulo, 2015 

Variáveis % Adolescentes com dor nas costas (IC95%) Valor de p
Caracterização demográfica
Sexo 0,0028
Masculino 16,8 (12,2 – 22,7)
Feminino 28,1 (22,6 – 34,2)
Idade (anos) 0,3329
15 25,3 (18,1 – 34,1)
16 14,1 (8,2 – 23,3)
17 24,0 (17,2 – 32,4)
18 24,2 (16,4 – 34,1)
19 22,8 (15,5 – 32,4)
Raça/cor 0,2178
Branco 19,5 (14,3 – 25,9)
Preto 28,0 (19,0 – 39,2)
Pardo 24,7 (19,1 – 31,2)
Outros 13,3 (4,6 – 32,7)
Escolaridade 0,5989
Fundamental II completo 22,8 (16,4 – 30,8)
Fundamental I completo 21,0 (15,9 – 27,2)
Fundamental I incompleto 27,3 (18,4 – 40,3)
Caracterização de estilo de vida
Tabagismo 0,7368
Não fuma 22,7 (18,6 – 27,2)
Fuma atualmente 17,5 (8,0 – 34,3)
Uso de álcool 0,6195
Não bebe 26,3 (20,5 – 33,1)
Bebe atualmente 33,1 (20,0 – 49,4)

IC = Intervalo de Confiança

Também foi possível verificar a existência de diferenças significativas entre autopercepção de saúde. Verificou-se que aqueles com autopercepção de saúde ‘não boa’ apresentaram prevalência de 36,4% (IC95% 28,6 - 45,0), enquanto 19,0% (IC95% 14,9 - 23,9) tinham autopercepção de saúde ‘boa’, como seria de se esperar. O que chamou a atenção foi justamente os 19,0% de adolescentes que reconhecendo-se com problemas de dores nas costas, ainda assim identificavam-se com autopercepção de saúde ‘boa’ (Tabela 3).

Tabela 3 Adolescentes com dor nas costas: prevalência das caracterizações de estilo de vida e problemas de saúde autorreferidos em residentes na cidade de São Paulo, 2015 

Variáveis % Adolescentes com dor nas costas (IC95%) Valor de p
Caracterização de estilo de vida
Estado nutricional 0,0862
Normal e baixo peso 20,3 (15,8 – 25,6)
Sobrepeso 26,0 (17,3 – 37,0)
Obeso 36,1 (21,5 – 53,8)
Atividade física com lazer e transporte 0,7389
Não cumpre recomendação 22,8 (18,3 – 28,1)
Cumpre recomendação 21,7 (16,2 – 28,4)
Atividade física trabalho 0,812
Não cumpre recomendação 22,5 (18,2 – 27,4)
Cumpre recomendação 21,4 (14,0 – 31,1)
Atividade física trabalho doméstico 0,0019*
Não cumpre recomendação 19,0 (15,1 – 23,7)
Cumpre recomendação 32,9 (24,6 – 42,3)
Percepção de saúde 0,0001*
‘Boa' 19,0 (14,9 - 23,9)
‘Não boa' 36,4 (28,6 – 45,0)
Caracterização de problemas de saúde
Doença referida: rinite 23,4 (16,7 - 31,8) 0,6200
Doença referida: sinusite 34,7 (24,2 - 46,8) 0,0107*
Doença referida: ansiedade 34,1 (21,9 - 49,1) 0,0374*
Problema referido: cefaleia 33,3 (27,0 - 40,3) <0,0001*
Insônia 46,4 (36,0 - 57,1) <0,0001*
Tontura 49,9 (37,3 - 62,4) <0,0001*
Transtorno metal comum 49,0 (38,6 - 59,4) <0,0001*

IC = Intervalo de Confiança; Valor de p = Coeficiente de Correlação de Pearson;

*Variáveis selecionadas para o modelo de regressão logística.

Quanto aos sintomas, doenças e outros problemas de saúde, os adolescentes com problemas de dores nas costas apresentam prevalência maior de fatores associados como cefaleia 33,3% (IC95% 27,0 - 40,3), ansiedade 34,1% (IC95% 21,9 - 49,1), sinusite 34,7% (IC95% 24,2 - 46,8), insônia 46,4% (IC95% 36,0 - 57,1), TMC 49,0% (IC95% 38,6 - 59,4) e tontura 49,9% (IC95% 37,3 - 62,4). Significou que do total de adolescentes entrevistados, pelo menos um terço refere comorbidades (Tabela 3).

A prevalência estimada de dor nas costas entre os adolescentes da cidade de São Paulo, com idades entre 15 e 19 anos foi de 22,4% (IC95% 18,4 - 26,9) (Tabela 4).

Tabela 4 Prevalências e distribuição das características da dor nas costas referida de adolescentes residentes na cidade de São Paulo, 2015 

Prevalência % (IC95%)
Dor nas costas 22,4 (18,4 - 26,9)
Distribuição por localização
Cervical 16,7 (11,6 - 23,3)
Dorsal 23,2 (16,1 - 20,4)
Lombar 42,9 (34,5 - 51,8)
Difusa (1 ou mais locais) 17,2 (11,6 - 24,8)
Frequência da dor nas costas
Menos de uma vez por mês 14,7 (8,5 - 24,2)
Algumas vezes por mês 27,2 (20,4 - 35,3)
Alguns dias da semana 41,0 (31,8 - 50,8)
Todos os dias 17,2 (11,7 - 24,4)
Intensidade da dor
Fraca 38,6 (30,0 - 48,0)
Moderada 39,6 (30,7 - 49,2)
Intensa 11,9 (7,6 - 18,2)
Insuportável 9,9 (5,4 - 17,5)
Limita as atividades diárias
Não limita 62,3 (51,9 - 71,7)
Limita pouco 30,6 (21,7 - 41,1)
Limita muito 7,2 (3,9 - 12,8)
Atitudes para alívio da dor nas costas
Não faz nada 46,6 (35,9 - 57,6)
Automedicação 17,6 (11,7 - 25,6)
Fármaco prescrito 8,9 (4,8 - 16,1)
Repouso 11,2 (6,6 - 18,4)
Atividade física 9,6 (4,6 - 18,7)
Massagem 4,0 (1,8 - 9,0)
Outros 2,1 (0,5 - 8,1)

IC = Intervalo de Confiança.

As características da dor nas costas, para os adolescentes, apresentaram-se relacionadas a maior identificação com a localização da dor na região lombar 42,9% (IC95% 34,5 - 51,8). Quanto à frequência da dor, identificou-se que 58,2% referiram ter dores nas costas pelo menos 2 vezes por semana (41,0% têm dores alguns dias da semana e 17,2% têm todos os dias). Sobre a intensidade da dor sentida, 21,8% relataram ter dor intensa ou insuportável e 62,3% informaram que essa dor sentida não é limitante para a realização de suas atividades cotidianas. Atitudes na busca por alívio da dor nas costas: o uso de fármaco foi referido por 26,5% (8,9% fármaco prescrito e 17,6% automedicação). Outras práticas não farmacológicas referidas foram: 11,2% fazem repouso, 9,6% fazem atividades físicas e 46,6% afirmam que não fazem nada (Tabela 4).

Da análise univariada foram selecionadas as variáveis: sexo (Tabela 2), estado nutricional e atividades físicas relacionadas ao trabalho doméstico (Tabela 3), além de caracterização de situação de saúde: sinusite, ansiedade, cefaleia, insônia, tontura e TMC (Tabela 3).

Para o modelo de regressão logística, as variáveis independentes associadas à dor nas costas foram: tontura (OR 3,1), TMC (OR 2,4), insônia (OR 2,6) e fazer atividades físicas relacionadas ao trabalho doméstico (OR 1,8) (Tabela 5).

Tabela 5 Análise de regressão logística para adolescentes com dor nas costas residentes na cidade de São Paulo em 2015 

Variáveis OR Bruto OR ajustado (IC 95%)* Valor de p
Tontura 4,5 (2,5 - 8,1) 3,1 (1,6 – 5,9) 0,001
Transtorno metal comum 4,3 (2,7 - 7,1) 2,4 (1,4 – 4,4) 0,002
Insônia 3,7 (2,3 - 6,1) 2,6 (1,6 – 4,3) <0,001
Atividade física em domicílio 2,1 (1,3 – 3,3) 1,8 (1,1 – 2,9) 0,027

*Variáveis de ajuste; OR = Odds Ratio; IC = Intervalo de Confiança.

Para verificar a capacidade preditiva do modelo de regressão logística foi aplicado o teste de Archer e Lemeshow11, que indicou 96,4% de chance de um adolescente apresentar dor nas costas na presença desses fatores.

DISCUSSÃO

O estudo de O’Sullivan et al.12 reconheceu que a dor nas costas - dores lombar, cervical e dorsal - em adolescentes é multifatorial, podendo ser por fatores biológicos, psicológicos, físicos, anatômicos, de estilo de vida e comorbidades.

Swain et al.2, em estudo com dados de 28 países, estimou a prevalência mundial de dor nas costas em adolescentes (9 a 17 anos) em 37%, sendo a menor prevalência na Polônia (27,7%) e a maior na República Tcheca (50,5%). Neste estudo, a prevalência estimada de dor nas costas em adolescentes (15 a 19 anos) da cidade de São Paulo, Brasil, é de 22,4% (IC95% 18,4 - 26,9), resultado abaixo em relação a outros países.

A associação entre TCM e dor e dor nas costas foi encontrada em diferentes estudos12,13. No presente estudo também se identificou importante associação entre TCM e dor nas costas em adolescentes da cidade de São Paulo (OR 2,4 IC95% 1,4 - 4,4). Viana et al.14 concluíram em seu estudo que indivíduos com TMC correm maior risco de desenvolver dor nas costas, o que pode significar que a experiência de dor física e o emocional em adolescentes podem não ser independentes, salientando a importância da detecção de tais associações.

A tontura como principal associação com dor nas costas em adolescentes da cidade de São Paulo não tem sido apresentada como fator associado quando se estuda dor nas costas, apesar de ter sido encontrado neste estudo. Em estudo aproximado, Janssens et al.15 publicou sobre adolescentes americanos e holandeses, no qual identificou associação entre atraso no período puberal com dor nas costas, cansaço excessivo e, também, tontura. Neste estudo, a associação aparece simultaneamente, porém não é possível confirmar a associação direta.

Insônia é uma incapacidade de dormir adequadamente, portanto sintoma de má qualidade do sono. Auvinen et al.16 e Dey, Jorm e Mackinnon17 encontraram associação entre má qualidade do sono e dor nas costas. Nesses estudos há importante associação entre dor nas costas e insônia (OR 2,6 - IC95% 1,6 - 4,3). É difícil identificar a origem dessa associação; se a dor nas costas leva à má qualidade do sono (insônia), ou se a insônia contribui para ter dor nas costas.

O problema de saúde relacionado à dor nas costas refere-se, em parte, ao uso e desuso do corpo humano. Foi identificada a associação entre dor nas costas em adolescentes da cidade de São Paulo e a realização de atividade física doméstica, (OR 1,8 - IC95% 1,1 - 2,9). Porém, a classificação relacionada ao bloco Atividade Física do ISA-Capital 2015 apresentou somente resultados relacionados ao cumprimento, ou não, de recomendações da OMS9, o que tornou-se um importante limitador deste estudo, uma vez que tal classificação não apresenta faixa que permita reconhecer o excesso, por parte dos adolescentes, em relação à realização de tais atividades físicas.

Como o estudo se refere a adolescentes, um fator contemporâneo de conhecimento comum relacionado à intensa atividade física no trabalho doméstico, identificado com posturas corporais inadequadas e frequentes, é o uso intenso de novas tecnologias nessa faixa etária. Sjolie18 demonstrou existir associação entre atividade excessiva de lazer e dor nas costas. Noll et al.19, em estudo com adolescentes, identificaram uma associação entre diferentes posturas e usos do corpo (uso de computadores, tempo diário gasto assistindo televisão, estudando na cama, postura sentada para escrever e modo de carregar mochila) com dor nas costas. Neste estudo, não foi possível identificar tais associações uma vez que as classificações relacionadas ao uso intenso e/ou inadequado de tecnologias não faz parte dos dados disponíveis no ISA-Capital 2015.

Por fim, Hestbaek et al.20 mostraram que houve correlação entre dor lombar diagnosticada na infância/adolescência e permanência do problema na idade adulta, e sugerem que o foco de prevenção, tratamento e pesquisas relacionadas a problemas de dor nas costas deveria ser em crianças e adolescentes. Os resultados deste estudo coadunam tal conclusão.

Complementarmente, identificou-se que a dor nas costas geralmente são tratadas com analgésicos, mas há outros tratamentos que incluem fisioterapia, exercícios físicos e manipulação da coluna vertebral1. A automedicação tem sido considerada um importante problema de saúde pública. Pardo et al.21 relacionam a automedicação como principal busca de alívio para enfrentar problemas relacionados à dor. Arrais et al.22 estimam a prevalência da automedicação no Brasil em 16,1%. No presente estudo, a automedicação utilizada na busca por alívio da dor nas costas foi referida por 17,6% dos adolescentes.

Shipton23 alerta que o tratamento não farmacológico para enfrentar o problema de dor nas costas é importante porque melhora a função do corpo e diminui a incapacidade. Neste estudo, aproximadamente um quarto (24,8%) dos adolescentes da cidade de São Paulo que referiram ter dor nas costas, referiram fazer uso de outros mecanismos não farmacológicos para aliviá-la, tais como massagem (4,0%), atividade física (9,6%) e repouso (11,2%).

CONCLUSÃO

Entender a dor nas costas como um problema de saúde pública nos obriga a pensar em estratégias que permitam compreender origens, fatores associados e estratégias de enfrentamento que podem influenciar novas formas de priorizar e organizar a atenção à saúde no Sistema Único de Saúde (SUS) e em serviços de saúde complementares no país.

Assim, os quatro fatores (tontura, transtorno metal comum, insônia e atividade física doméstica) associados à dor nas costas devem ser considerados para o diagnóstico, tratamento e para o adequado manuseio clínico.

Por fim, é importante destacar que doenças detectadas e mal manuseadas na adolescência podem se agravar na vida adulta.

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