Ecocardiografia Tridimensional e Análise do Strain Miocárdico: Prontos para Uso na Prática Clínica

Ecocardiografia Tridimensional e Análise do Strain Miocárdico: Prontos para Uso na Prática Clínica

Autores:

Frederico Jose Neves Mancuso

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.113 no.5 São Paulo nov. 2019 Epub 02-Dez-2019

https://doi.org/10.5935/abc.20190179

A capacidade da ecocardiografia de quantificar volumes e de avaliar a função contrátil das câmaras cardíacas teve grande evolução nos últimos anos, particularmente devido ao desenvolvimento da ecocardiografia tridimensional (eco3D) e com a possibilidade de evolução da deformação miocárdica (Strain) pela técnica de speckle tracking.1-3

Diferente da ecocardiografia bidimensional, na qual há necessidade de inferências geométricas e cálculos matemáticos, o exame tridimensional permite a medida direta dos volumes ventriculares e atriais, dos quais são obtidos dados de função, como a fração de ejeção dos ventrículos esquerdo e direito, além da função atrial esquerda, incluindo os parâmetros de fração de esvaziamento total e fração de esvaziamento ativa.4-7

Além disso, a fração de ejeção do ventrículo esquerdo pela eco3D se mostrou um melhor parâmetro prognóstico que a obtida pela imagem bidimensional,8 sendo ainda um método com melhor reprodutibilidade e correlação com a ressonância magnética cardíaca do que a ecocardiografia bidimensional.1,9,10

Mais recentemente, houve o desenvolvimento da técnica de speckle tracking para a mensuração da deformação miocárdica (Strain) - um novo parâmetro para avaliação da função sistólica dos ventrículos esquerdo e direito e dos átrios.1,3

O Strain miocárdico é um parâmetro que parece se alterar antes da fração de ejeção em diversas doenças que possam evoluir com comprometimento da função sistólica, como nas cardiomiopatias, valvopatias, quimioterapia cardiotóxica, hipertensão pulmonar, entre outras, além de ter valor prognóstico em diferentes condições clínicas.1,3,11-13

Para o uso destas novas tecnologias na prática clínica, é fundamental existirem valores de referência. Diretrizes internacionais sugerem estes valores, porém eles são baseados em poucos estudos.1-3,6,14 Mais recentemente, a European Association of Cardiovascular imaging, realizou um estudo multicêntrico que incluiu 440 indivíduos para determinar valores de referência de eco3D e Strain para a população europeia.6

Assim, o estudo publicado por Saraiva et al.,15 tem grande importância no cenário nacional, já que os valores de referência oriundos de publicações internacionais nem sempre são apropriados para uso na população brasileira, a qual possui distribuição étnica e miscigenação peculiares.15

O presente estudo teve a preocupação em selecionar um grupo de indivíduos representativos da população brasileira, incluindo uma população com distribuição étnica semelhante à observada no censo demográfico do IBGE.15 Destaca-se também o cuidado em avaliar as sorologias para Chagas em todos os indivíduos incluídos.

Foram determinados os valores de referência para diferentes parâmetros obtidos pela eco3D, incluindo os volumes ventriculares diastólico e sistólico, assim como a fração de ejeção do ventrículo esquerdo e os diferentes volumes atriais esquerdos ao longo do ciclo cardíaco, permitindo determinar suas frações de esvaziamento total, ativa e passiva.15

Em relação aos parâmetros derivados do speckle tracking e Strain miocárdico, foram determinados os valores de normalidade do Strain longitudinal global do ventrículo esquerdo - parâmetro mais confiável e utilizado para avaliação da deformação miocárdica1,3 - assim como o Strain radial e o Strain circunferencial desta câmara. Para o ventrículo direito, foram determinados seu Strain global e o Strain da parede livre.15

Completando, foram também determinados os valores de normalidade para os diferentes Strains atriais ao longo do ciclo cardíaco e valores de rotação basal e apical, twist, untwist e torção do ventrículo esquerdo.15

Considerando o uso na prática clínica de valores normais como aqueles compreendidos entre dois desvios-padrões abaixo e acima da média, podemos concluir que os serviços de ecocardiografia brasileiros já podem implementar estes novos valores de referência para a população brasileira quando utilizarem as novas técnicas ecocardiográficas, sem necessidade de recorrer a valores de referência obtidos em outras populações.

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