Efeito do treinamento auditivo-motor no processamento auditivo de escolares

Efeito do treinamento auditivo-motor no processamento auditivo de escolares

Autores:

Fátima Aparecida Gonçalves,
Márcia Ribeiro Vieira,
Liliane Desgualdo Pereira

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.16 no.4 São Paulo 2018 Epub 29-Nov-2018

http://dx.doi.org/10.31744/einstein_journal/2018ao4359

INTRODUÇÃO

Aproximadamente 50% dos escolares do Ensino Fundamental público chegam ao Ensino Médio com graves problemas de leitura e escrita ou, praticamente, não alfabetizados, e 30% deles apresentam algum transtorno, distúrbio ou dificuldade de aprendizagem.(1)

Geralmente estes índices são explicados por dificuldades de aprendizagem que incluem principalmente déficits na leitura, na escrita e no raciocínio lógico matemático. Estas dificuldades têm sido foco de pesquisas recentes, provavelmente dada à importância da aprendizagem para o completo desenvolvimento sociocultural e emocional do ser humano.(2,3)

O processamento auditivo se refere à eficiência e à eficácia com que as vias auditivas do sistema nervoso central utilizam a informação auditiva, e inclui vários mecanismos auditivos, que seguem diferentes habilidades, destacando-se a localização sonora, a resolução temporal e a sequenciação de sons.(4) A habilidade de resolução temporal é de fundamental importância para a compreensão da fala humana, constituindo-se em um pré-requisito para as habilidades linguísticas, bem como para a leitura.(5) Da mesma forma, a localização sonora atua na mobilidade e na comunicação, contribuindo consideravelmente para a atenção seletiva − habilidade esta essencial para o aprendizado de um conteúdo escolar novo.(6)

Alterações nas habilidades auditivas em distúrbios de aprendizado já foram verificadas em estudos anteriores,(3,7-10) os quais concluíram que a maioria das crianças com estes distúrbios apresentam alterações no processamento auditivo.(3,10,11) A redução da capacidade de utilizar informações contidas em estímulos auditivos para perceber a fala pode contribuir para déficits na aprendizagem da leitura e da escrita. Desta forma, a avaliação das habilidades do processamento auditivo fornece importante contribuição na identificação e na intervenção de crianças com dificuldades escolares.(12-14)

As principais queixas apontadas em escolares com distúrbio de processamento auditivo central (DPAC) são incapacidade em seguir instruções verbais complexas; desempenho cognitivo verbal pobre em comparação com o desempenho não verbal; dificuldades de leitura e escrita; atraso de linguagem; dificuldade em processar informação verbal em ambiente ruidoso e de manter a atenção em informações auditivas.(15)

Os avanços da neurociência cognitiva demonstraram a plasticidade funcional do sistema nervoso central, a existência de períodos críticos para aprendizagem e o fortalecimento das ligações sinápticas com a repetição.(16) Pesquisas têm evidenciado que a estimulação auditiva e o treino auditivo-verbal provocam mudanças funcionais e estruturais no sistema nervoso auditivo central.(7,16-18) Esta perspectiva abriu espaço para a implementação de programas de intervenção dirigidos − principalmente a escolares com DPAC. Neste caso, a terapia fonoaudiológica se estabeleceu como principal estratégia de intervenção terapêutica, incluindo modificações ambientais, processo terapêutico propriamente dito e utilização de estratégias compensatórias.(19,20)

Testes comportamentais têm se mostrado ferramenta importante para caracterizar a alteração do processamento auditivo central na escola, e facilitar a identificação de escolares com inabilidades auditivas e evidências de dificuldade de aprendizagem.(7,12,13,21)

A Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central (ASPAC) é um instrumento de fácil aplicação, que tem o objetivo de identificar inabilidades auditivas em escolares. Esta avaliação é composta pelas provas de localização da fonte sonora e memória sequencial, verbal e não verbal, para três e quatro sons. O desempenho abaixo do esperado nesta avaliação pode indicar alterações na função perceptiva auditiva, e sua detecção precoce, ainda na escola, favoreceria o encaminhamento da criança para a avaliação completa do processamento auditivo central e a orientação terapêutica adequada.(7,14,21)

AAmerican Academy of Audiology (AAA),(22) desde 2010, recomenda a utilização de questionários de autopercepção, para serem usados como indicadores de queixas auditivas e contribuírem na análise qualitativa, apoiando os testes comportamentais no diagnóstico do DPAC. Um deles é denominado Scale of Auditory Behaviors (SAB)(23) com versão em português.(24) Este questionário permite quantificar, na percepção de pais e/ou professores, o comportamento da criança nas demandas do dia a dia, considerando as informações recebidas por meio da audição. São questões que abordam comportamentos em relação à compreensão diante de instruções verbais, à qualidade atencional, à discriminação dos sons da fala, à capacidade de se organizar nas tarefas da vida diária e ao procedimento leitor, de forma a buscar sinais observáveis de ordem disfuncional.

A correlação entre as respostas da SAB e dos testes comportamentais auditivos já foi verificada em estudo português, sugerindo que se trata de um instrumento que pode ser utilizado como triagem de alunos que apresentam dificuldades escolares relacionadas ao processamento auditivo.(13)

O presente estudo propôs uma abordagem terapêutica e educacional, com estimulação auditiva e motora, com grupos dentro do ambiente escolar, para melhorar a capacidade perceptual auditiva da criança em fase escolar. A contribuição do estudo contempla a parceria saúde/educação, por meio de programas terapêuticos educacionais de intervenção multissensorial, para escolares com queixas de dificuldade de aprendizagem e sem acesso imediato à terapêutica especializada.

OBJETIVO

Comparar as respostas na Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central com as respostas da Scala of Auditory Behaviors, antes e depois de um treinamento auditivo e de habilidades motoras.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo longitudinal, com delineamento do tipo experimental. Foi planejado um programa de treinamento não formal, o qual foi executado com crianças em uma escola da rede pública municipal de ensino da cidade de São Paulo (SP). Foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, sob parecer número 542.418, CAAE: 25398314.7.0000.5505.

Participaram da pesquisa 162 crianças, sendo 86 do sexo feminino, com faixa etária entre 9 e 11 anos, que preencheram todos os critérios de inclusão (faixa etária, adequação cognitiva, ausência de alterações neurológicas e/ou psiquiátricas e Termo de Consentimento autorizando a participação).

Todos os participantes efetuaram os procedimentos de avaliação inicial (AI) e final (T2), nos instantes pré e pós-programa de treinamento, que foi denominado de Estimulação Multissensorial.

Procedimentos de avaliação

Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central (ASPAC)

Composta pelas tarefas exclusivamente auditivas de localização sonora e memória sequencial verbal e não verbal. O teste de localização sonora em cinco direções foi apresentado em tarefa diótica de sons de alta frequência em cinco direções (frente, acima, atrás, direita e esquerda), em que o indivíduo deveria apontar a direção do som. Por meio deste teste, foram analisados a habilidade auditiva de localização e o mecanismo fisiológico de discriminação da direção da fonte sonora. O critério de normalidade adotado foi a partir de quatro acertos, desde que fossem incluídos acertos no plano lateral.

No Teste de Memória Sequencial para Sons Verbais (MSV), foram apresentadas, oralmente, três diferentes sequências de quatro sílabas (“pa”, “ta”, “ca” e “fa”), que deveriam ser repetidas na ordem como foram apresentadas. Inicialmente, o indivíduo foi orientado a repetir cada sílaba isoladamente. Para o Teste de Memória Sequencial Não Verbal (MSnV), foram utilizados quatro instrumentos sonoros (guizo, coco, agogô e sino), percutidos em três diferentes sequências. Após demonstração, os indivíduos foram orientados a fechar os olhos e apontar os instrumentos musicais na ordem ouvida. O critério de normalidade para os dois testes foi o acerto de pelo menos duas sequências de quatro sons em três tentativas. Quando não houve êxito, foram apresentadas as sequências com três sons, e foi aplicado o mesmo critério de normalidade citado.

Scale of Auditory Behaviors

A SAB(13,23,24) é um questionário desenvolvido para ser aplicado aos pais e/ou professores de escolares, visando compor os dados e apoiar as conclusões sobre DPAC. Os professores das crianças avaliadas responderam 12 questões do questionário adaptado para o português, referentes a eventos do dia a dia, que avaliavam o comportamento de domínios auditivos e atencionais dos escolares. Àquele que ocorreu com muita frequência foi atribuído valor 1,0; o que ocorreu quase sempre teve valor 2,0; algumas vezes, valor 3,0; aos esporádicos, o valor atribuído foi 4,0, e aos que nunca ocorreram, 5,0. Os valores foram somados, resultando em um escore final, que variou de 12 a 60 pontos (pontuação total). Na análise deste estudo, foi utilizada a interpretação de SAB normal se 46 pontos; alerta para DPAC se 45 a 36; e evidência de DPAC se ≤35.(13)

O programa de treinamento Estimulação Multissensorial foi elaborado com o intuito de levar tipos de estimulação auditiva, visuoespacial e motora para grupos no ambiente escolar. Foi composto por 16 sessões, sendo que, a cada semana, realizaram-se duas sessões, com duração de 30 minutos cada (resultando 8 horas de estimulação no total do programa). O programa foi dividido por tipo de estimulação (isolada ou combinada) e aplicado em três grupos reunidos aleatoriamente e sorteados dentro de cada sala de aula. Ao final de cada etapa de oito sessões de estimulação, os escolares foram reavaliados, e os grupos de estimulação isolada alternavam o tipo intervenção. Os grupos formados foram denominados de: Grupo Auditivo/Motor (GAM), com 40 escolares que receberam estimulação isolada, iniciando com oito sessões de estimulação auditiva e, após, mais oito sessões de estimulação visuoespacial e motora; Grupo Motor/Auditivo (GMA), com 41 escolares que, da mesma forma, receberam estimulação isolada, iniciando com estimulação visuoespacial e motora e, após, auditiva; Grupo Multissensorial (GMS), com 41 escolares que receberam estimulação combinada, auditiva, visuoespacial e motora, integradas durante as 16 sessões; e Grupo Controle (GC), formado por 40 escolares, que não receberam estimulação, sendo utilizado para caracterizar o desenvolvimento típico neste ambiente e nesta faixa etária, e comparar aos grupos experimentais.

Este programa de treinamento não formal foi baseado na proposta de Pereira et al.(25) A descrição dos tipos de estimulação aplicada em cada grupo se encontra no apêndice 1.

Os dados foram demonstrados por estatística descritiva e analisados por método estatístico com o nível de significância adotado de 0,05 em todos os testes. Para análise da diferença entre os grupos e instantes de AI e T2, na SAB pontuação total, utilizou-se o teste não paramétrico de Wilcoxon, pois, apesar desta escala produzir pontuação discreta, estes valores são uma conversão de variáveis ordinais, sendo possível distinguir os elementos da amostra por suas qualidades/diferenças. Para análise da correlação entre os dois instrumentos, isto é, se a avaliação do questionário SAB (feita pelos professores) apresentou relação positiva com a ASPAC (considerando que quanto maior a pontuação na SAB, maior deve ser o número de acertos nas provas da ASPAC), foi usado o teste não paramétrico de correlação de Spearman. Para o estudo das diferenças de pontuação por provas da ASPAC, por grupo e valor de p calculado, para comparar AI e T2, para os grupos (GMA versus GAM versus GMS versus GC), segundo o tipo de intervenção, foi utilizado o teste paramétrico e calculado o valor de T (que corresponde ao menor valor da soma dos postos). Para a análise de variância, considerando todos os grupos nos dois instantes de avaliação, AI e T2, foi usada a análise de variância (ANOVA).

RESULTADOS

A tabela 1 mostra a estatística descritiva dos grupos de estimulação e do Grupo Controle na SAB, para a pontuação total por grupos estudados e por instante de avaliação.

Tabela 1 Estatística descritiva para a Scale of Auditory Behaviors considerando a pontuação total por grupos estudados e instante de avaliação 

Grupo Tempo n Máximo Mínimo Média Mediana Desvio padrão Q1 Q3 Valor de p AI versus T2
GMA AI 41 60 12 40,75 42 12,89 32 49 <0,001*
T2 41 60 29 47,14 49 8,70 44 54
GAM AI 40 60 12 48,65 53 12,56 43 59 0,143
T2 40 60 31 51,07 53 7,90 45,75 58
GMS AI 41 60 23 46,61 50 12,17 39 58 0,264
T2 41 60 23 49,02 50 8,39 44 56
GC AI 40 60 27 47,90 49,5 10,39 42 59,25 0,479
T2 40 60 22 48,60 51 10,95 44,25 60

* Estatisticamente significante. Q1: Primeiro quartil; Q3: terceiro quartil; AI: avaliação inicial; T2: avaliação final; GMA: Grupo Motor/Auditivo; GAM: Grupo Auditivo/Motor; GMS: Grupo Multissensorial; GC: Grupo Controle.

Foi observado que, na AI, GMA apresentou alerta para DPAC, e os demais grupos se encontravam dentro dos padrões de normalidade (SAB normal). Na comparação entre AI e T2, todos os grupos apresentaram maiores pontuações no instante T2. Porém, a análise estatística (T=61; n=41; p<0,001) mostrou significância estatística para o GMA.

A tabela 2 mostra a estatística descritiva nas provas de localização sonora, MSV4 e MSnV4 da ASPAC, por grupos estudados e instante de avaliação.

Tabela 2 Estatística descritiva para Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central, por grupo estudado e instante de avaliação 

Grupo Testes Tempo n Mínimo Máximo Média Mediana Desvio padrão Q1 Q3 Valor de p AI versus T2
GMA LS AI 41 4 5 4,87 5 0,331 5 5 0,103
T2 41 4 5 4,97 5 0,156 5 5
MSV4s/3 AI 41 0 3 1,95 2 0,947 1 3 0,000*
T2 41 2 3 2,63 3 0,488 2 3
MSnV4s/3 AI 41 0 3 1,90 2 0,889 2 2 0,001*
T2 41 1 3 2,43 2 0,550 2 3
GAM LS AI 40 3 5 4,77 5 0,480 5 5 0,785
T2 40 4 5 4,80 5 0,405 5 5
MSV4s/3 AI 40 0 3 1,85 2 1,210 1 3 0,000*
T2 40 2 3 2,60 3 0,496 2 3
MSnV4s/3 AI 40 0 3 1,80 2 0,883 1 2 0,000*
T2 40 1 3 2,52 3 0,640 2 3
GMS LS AI 41 4 5 4,87 5 0,331 5 5 0,421
T2 41 4 5 4,92 5 0,264 5 5
MSV4s/3 AI 41 0 3 1,85 2 1,108 1 3 0,001*
T2 41 0 3 2,36 3 0,799 2 3
MSnV4s/3 AI 41 0 3 2,04 2 0,921 1 3 0,030*
T2 41 1 3 2,41 2 0,591 2 3
GC LS AI 40 4 5 4,87 5 0,335 5 5 0,486
T2 40 4 5 4,92 5 0,267 5 5
MSV4s/3 AI 40 0 3 2,25 2 0,809 2 3 0,838
T2 40 0 3 2,23 3 1,012 2 3
MSnV4s/3 AI 40 0 3 2,20 2 0,823 2 3 0,030*
T2 40 0 3 1,82 2 0,970 1 2.5

* Estatisticamente significante. Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil; AI: avaliação inicial; T2: avaliação final; GMA: Grupo Motor/Auditivo; LS: localização sonora; MSV4s/3: memória sequencial verbal 4 sons/3 sequências; MSNV4s/3: memória sequencial não verbal 4 sons/3 sequências; GAM: Grupo Auditivo/Motor; GMS: Grupo Multissensorial; GC: Grupo Controle.

Na localização sonora, não ocorreram diferenças entre os instantes de avaliação em nenhum dos grupos estudados. Em T2, os três grupos experimentais apresentaram variação positiva superiores ao GC para MSV e MSnV.

Na tabela 3, está demonstrada a comparação dos dados obtidos entre os grupos estudados e por instante de avaliação.

Tabela 3 Análise de variância entre grupos, considerando os instantes inicial e final de avaliação 

Prova de ASPAC por instante de avaliação LS MSnV4s/3 MSV4s/3
AI 0,526 0,197 0,262
T2 0,044* 0,001 0,050

Post-hoc comparação usando Tukey HDS. * diferença entre Grupo Motor/Auditivo e Grupo Auditivo/Motor (T=3,906; p= 0,029); todos os grupos diferem do Grupo Controle. ASPAC: Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central; LS: localização sonora; MSnV4s/3: memória sequencial não verbal 4 sons/3 sequências; MSV4s/3: memória sequencial verbal 4 sons/3 sequências; AI: avaliação inicial; T2: avaliação final.

Ao utilizar a ANOVA para analisar os dados da AI, não foi identificada diferença entre os grupos, o que significa que não houve viés de um grupo inicialmente ter menor ou maior desempenho na execução das tarefas que envolviam o processamento auditivo.

A tabela 4 e as figuras 1 a 4 mostram a interação (p<0,05) entre as variáveis SAB e ASPAC nos diferentes grupos em AI e T2.

Tabela 4 Interação entre as variáveis Scale of Auditory Behaviors (SAB) e Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central para os grupos estudados nos instantes inicial e final 

Grupos Testes AI T2


Correlação LS MSV4s/3 MSnV4s/3 Correlação LS MSV4s/3 MSnV4s/3
GMA SAB ρ (rhô) -0,092 0,239 0,192 ρ (rhô) -0,080 0,236 0,000
p 0,285 0,066 0,115 p 0,309 0,069 0,499
n 41 41 41 n 41 41 41
GAM SAB ρ (rhô) 0,083 0,068 0,261 ρ (rhô) 0,204 0,022 0,330
p 0,306 0,338 0,052 p 0,104 0,446 0,019*
n 40 40 40 N 40 40 40
GMS SAB ρ (rhô) -0,266 0,103 0,299 ρ (rhô) 0,044 0,465 0,224
p 0,046* 0,262 0,029* p 0,393 0,001* 0,079
n 41 41 41 N 41 41 41
GC SAB ρ (rhô) 0,013 0,239 -0,008 ρ (rhô) 0,079 0,187 -0,234
p 0,468 0,069 0,479 p 0,314 0,127 0,076
n 40 40 40 n 40 39 39

Correlação de Spearman. ρ (rhô) é a correlação valor p. * estatisticamente significante. LS: localização sonora; MSV4s/3: memória sequencial verbal 4 sons/3 sequências; MSnV4s/3: memória sequencial não verbal 4 sons/3 sequências; GMA: Grupo Auditivo/Motor; GAM: Grupo Motor/Auditivo; GMS: Grupo Multissensorial; GC: Grupo Controle. SAB: Scale of Auditory Behaviors; AI: avaliação inicial; T2: avaliação final.

LS: localização sonora; MSNV4s/3: memória sequencial não verbal 4 sons/3 sequências; MSV4s/3: memória sequencial verbal 4 sons/3 sequências; SAB: Scale of Auditory Behaviors; ASPAC: Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central.

Figura 1 Relação entre Scale of Auditory Behaviors e Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central para o Grupo Motor/Auditivo, no instante inicial da intervenção (AI; coluna da esquerda) e no instante final (T2; coluna da direita) 

LS: localização sonora; MSNV4s/3: memória sequencial não verbal 4 sons/3 sequências; MSV4s/3: memória sequencial verbal 4 sons/3 sequências; SAB: Scale of Auditory Behaviors; ASPAC: Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central.

Figura 4 Relação Scale of Auditory Behaviors e Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central para o Grupo Controle, no instante inicial da intervenção (AI; coluna da esquerda) e final (T2; coluna da direita) 

Para o GMA e GC, não foi observada interação entre ASPAC e SAB em nenhum dos momentos; já no GAM, verificou-se interação no MSnV para 4 sons nos dois momentos, ou seja, a pontuação da escala SAB aumentou na mesma proporção que as respostas do teste auditivo ASPAC. No GMS, verificou-se interação entre as variáveis também para o teste LS (correlação negativa) em AI e para o teste MSV (correlação positiva) em T2. O GC não demonstrou as mesmas variações identificadas nos experimentais, entre AI e T2.

DISCUSSÃO

Na comparação entre a AI e T2, todos os grupos, com exceção do GC, obtiveram pontuações maiores no SAB; porém, no GMA, houve diferença estatisticamente significante entre os dois instantes de avaliação. Isto sugere que os professores observaram que os treinamentos auditivo e motor aplicados aos escolares promoveram modificação positiva no comportamento auditivo.(13,23,24)

Os resultados mostram ainda que a média de pontos do GMA na AI sugere alerta para DPAC.(13) No entanto, após 8 horas de estimulação, houve melhora em todos os grupos, mostrando comportamento auditivo adequado. Isso sugere eficácia no treinamento, mas também a importância da utilização de instrumentos que direcionem os professores para perceber comportamentos que possam indicar evidências disfuncionais de algum mecanismo para a aprendizagem, ou seja, recursos observáveis, que vão além de métodos pedagógicos avaliativos tradicionais. Isso corrobora estudos anteriores, que revelaram que os professores geralmente apresentam pouco conhecimento sobre os distúrbios de leitura e escrita e suas causas, destacando pouca ou nenhuma formação durante a graduação.(26,27)

Com relação à ASPAC, todos os grupos apresentaram adequação em AI na LS. A pouca variabilidade nas respostas desta prova se deu provavelmente ao fato de que, já na AI, a média de acertos dos indivíduos estava dentro da normalidade, corroborando estudos anteriores, que não encontraram alterações na habilidade de localização sonora em escolares com alterações de leitura e escrita.(12)

A alteração observada nas provas de MSV e MSnV-4 sons, na AI, nas crianças participantes deste estudo, já foi demonstrada anteriormente na literatura, em escolares com dificuldades de aprendizagem com e sem diagnóstico de DPAC.(12,14) Isso mostra que a inabilidade na sequenciação temporal de sons é essencial no processamento da linguagem. No entanto, no presente estudo, após o treinamento (T2), os grupos experimentais apresentaram normalização desta habilidade auditiva, e houve diferença estatisticamente significante entre AI e T2 nesses grupos.

Aos três anos, a criança já é capaz de reproduzir sequências de sílabas verbais com três sons; a partir dos sete, sequências maiores, melhorando seu desempenho com o avanço da idade. Aos seis anos, a criança já pode memorizar quatro sons instrumentais (não verbais), percutidos em uma sequência determinada, tendo êxito em pelo menos duas sequências diferentes em três tentativas.(7)

Na comparação entre os grupos, todos apresentaram, em AI, desempenho similar na execução das tarefas que envolveram o processamento auditivo. Ainda, na prova de MSnV, os grupos que passaram pelo treinamento se diferenciaram estatisticamente do GC. Este dado concorda com estudo anterior, que observou que, após estimulação auditiva, os escolares aprimoraram a ordenação temporal.(20)

Neste estudo, as alterações iniciais nas provas de sequenciação temporal poderiam predizer dificuldades acadêmicas. A melhora destas habilidades, após a estimulação T2 dos grupos experimentais, demonstra o efeito positivo do programa terapêutico proposto e contribui para uma melhor condição neurobiológica de aprendizagem do escolar.

Nessa perceptiva, sob o conceito de plasticidade neural, a estimulação e a experiência puderam ativar e reforçar vias neurais específicas, auxiliando as crianças a reconhecerem novos padrões e a adquirirem novas informações e habilidades.(15-18,28) Este resultado aproxima-se da afirmação de que tanto o sistema sensorial quanto o motor estão sujeitos ao aprimoramento pela experiência e pela aprendizagem, que integram o reconhecimento dos estímulos ambientais com as mais variadas respostas motoras. Pode-se, então, sugerir que as deficiências em crianças com distúrbios de leitura e escrita não se limitam ao domínio verbal.(28)

Ficou assim demonstrado que a estimulação auditiva e motora dentro da escola foi capaz de produzir, em pouco tempo, mudanças no comportamento auditivo dos escolares. A ASPAC demonstrou ser um instrumento sensível à estas variações de comportamento, mostrando-se eficaz para ser aplicado na escola, para triagem de evidências de DPAC nos escolares.(7,13,19,21)

Foi detectada correlação estatisticamente significante entre as variáveis da ASPAC e as respostas do questionário SAB dadas pelos professores, em AI e T2, para o GAM, na prova de MSnV, e o GMS, na de MSnV e LS. Nas demais habilidades que se correlacionaram em AI, os efeitos da estimulação não foram notados pelos professores.

No entanto, na correlação entre SAB e ASPAC nos grupos experimentais, pode-se perceber variação pequena, porém positiva, das médias entre AI e T2, demonstrando que a amostra que participou do estudo se beneficiou do treinamento. É importante destacar, ainda, que, no GC, esta variação positiva não foi identificada.

A relação entre a percepção dos professores sobre o comportamento dos alunos e suas respostas nos testes auditivos, observada no presente estudo, concorda com o que Nunes et al. observaram, ou seja, quanto melhor o resultado na avaliação do processamento, melhores os escores do questionário SAB.(13)

Os resultados deste estudo sugerem que o programa terapêutico proposto(25) e realizado dentro do ambiente escolar pode caracterizar e diferenciar os escolares que realmente apresentaram evidências para DPAC e que deveriam ser encaminhados, pela escola, ao serviço terapêutico especializado.(13) Ainda, a aplicação dos testes comportamentais na escola pode auxiliar o professor a reconhecer evidências de alterações auditivas nos escolares.(7,22-24) No entanto, apesar de a literatura recomendar o uso de questionário de autoavaliação e de a versão da SAB em português ter sido utilizada em recentes pesquisas, ainda não temos sua validação para uma população brasileira, podendo considerar tal fato como uma limitação do estudo.

As experiências multissensoriais promovem o desenvolvimento de mecanismos perceptivos, e seu impacto na cognição tem sido amplamente demonstrado. Considerando-se que a integração multissensorial entre os sistemas sensoriais e motores só atingem sua maturidade ao redor de 11 anos,(16,28) este estudo traz a relevância de criar programas de estimulação, contemplando o ensino fundamental, e utilizando o espaço da escola e suas dinâmicas para beneficiar os escolares com dificuldades na leitura e na escrita. Desta forma, ressalta-se que as abordagens interdisciplinares devam ser utilizadas como recurso para a integralidade dos sujeitos com dificuldades de aprendizagem.

Neste estudo, foi utilizada uma amostra aleatória. No entanto, um programa de estimulação direcionado aos escolares das salas de apoio pedagógico, com sessões mais longas e capacitação dos professores responsáveis, poderia contribuir para o desenvolvimento e a reabilitação da leitura e da escrita.

CONCLUSÃO

A avaliação inicial da Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central foi similar em todos os grupos estudados. Após um treinamento auditivo e de habilidades motoras, ocorreu melhora significativa destas habilidades nos escolares, também relatado pelos professores por meio da Scale of Auditory Behaviors. Este modelo de intervenção se mostrou uma boa ferramenta para uso na escola.

LS: localização sonora; MSNV4s/3: memória sequencial não verbal 4 sons/3 sequências; MSV4s/3: memória sequencial verbal 4 sons/3 sequências; SAB: Scale of Auditory Behaviors; ASPAC: Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central.

Figura 2 Relação entre Scale of Auditory Behaviors e Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central para o Grupo Auditivo/Motor, no instante inicial da intervenção (AI; coluna da esquerda) e no final (T2; coluna da direita) 

LS: localização sonora; MSNV4s/3: memória sequencial não verbal 4 sons/3 sequências; MSV4s/3: memória sequencial verbal 4 sons/3 sequências;SAB: Scale of Auditory Behaviors; ASPAC: Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central.

Figura 3 Relação entre Scale of Auditory Behaviors e Avaliação Simplificada do Processamento Auditivo Central para o Grupo Multissensorial, no instante inicial da intervenção (AI; coluna da esquerda) e final (T2; coluna da direita) 

REFERÊNCIAS

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