Efeito do uso do taping na redução do volume do linfedema secundário ao câncer de mama: revisão da literatura

Efeito do uso do taping na redução do volume do linfedema secundário ao câncer de mama: revisão da literatura

Autores:

Jaya Paula Thomaz,
Tamires dos Santos Maximo Dias,
Laura Ferreira de Rezende

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.17 no.2 Porto Alegre abr./jun. 2018 Epub 14-Maio-2018

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.007217

INTRODUÇÃO

O linfedema secundário ao câncer de mama é uma das complicações que pode aparecer após cirurgia de ressecção de linfonodos, devido a alterações estruturais ou de função linfática. Pode estar presente de 12 a 30% das mulheres submetidas ao tratamento cirúrgico do câncer de mama, e pode ter como consequência dificuldades nas atividades diárias, privação das atividades usuais e alterações emocionais, como tristeza, frustração, lembrança constante da não recuperação da doença e piora da autoimagem, progredindo, assim, para a piora na qualidade de vida tanto em aspectos físicos quanto psicológicos 1-5 . Devido à sua cronicidade, é necessário que o tratamento tenha suporte multiprofissional, com o objetivo de promover evolução do quadro clínico e da qualidade de vida.

Atualmente o tratamento padrão-ouro é a terapia física complexa (TFC), uma combinação de cuidados com a pele, drenagem linfática manual (DLM), enfaixamento compressivo elástico e inelástico e exercícios miolinfocinéticos 1,3,4 .

O taping é uma técnica desenvolvida pelo quiroprático Kenzo Kase como base do método Kinesio Taping®, que surgiu por volta da década de 1970, inicialmente aplicado por ortopedistas e terapeutas com o objetivo de promover suporte muscular sem gerar restrição do movimento. O ganho da popularidade do método surgiu na comunidade de esportes do Japão, após o uso deste pela equipe de vôlei em uma edição dos Jogos Olímpicos. A partir do final da década de 1990, o método se espalhou para Europa, Ásia e América, sendo cada vez mais utilizado e estudado 3,4,6 .

O taping é uma técnica aplicada por bandagens elásticas neurofuncionais para disfunções ortopédicas, mas que tem sido utilizado na prática clínica para disfunções de outros sistemas, inclusive o sistema linfático. A fita de taping é um material composto de 100% de algodão, resistente a água, hipoalérgico, termoadesivo e com alongamento no sentido longitudinal. É similar em espessura e peso à pele, com propriedade elástica de até 140%, correspondente à mesma da pele. A camada adesiva absorve o calor do corpo, portanto é ativada uma única vez, após atingir a temperatura corporal, depois que a fita foi esfregada. Pode permanecer na pele de 3 a 5 dias, com descanso de 24 horas entre uma aplicação e outra 4,6 .

Na prática clínica, está sendo utilizado como técnica complementar no tratamento de linfedemas, edemas duros ou estáticos, cicatrizes, fibroses e para edemas que são de difícil acesso em regiões de face, esterno e tórax. Por outro lado, é contraindicado em caso de fragilidade tecidual, infecções cutâneas, lesões tumorais, história de alergia ao produto, diabetes melito, insuficiência renal e hipertensão arterial sistêmica não controlada 4,6 .

A associação da elasticidade do taping com o estiramento cutâneo provoca a elevação da pele, promovendo um aumento entre os espaços da derme e da epiderme, mecanismo esse chamado de circunvolução. O espaço que foi liberado garante que haja uma redução na pressão e, com isso, permite que o fluxo linfático com pressão elevada no interstício se desloque para área de menor pressão. Com a elevação da pele e a combinação com os movimentos realizados pelo corpo, o tecido conjuntivo se torna mais flexível estruturalmente, formando assim um percurso de orientação para a linfa no tecido conjuntivo. Esse processo gera a abertura das válvulas dos pequenos vasos linfáticos iniciais e a linfa é direcionada, podendo ser drenada durante 24 horas e absorvida pela pele, onde se encontram 80% dos vasos linfáticos 2-4,6 .

Sendo assim, a elasticidade da fita taping promoveria a descompressão de receptores mecânicos e dolorosos, levando à diminuição da dor, ao aumento do movimento linfático, auxiliando nos movimentos corporais, ao aumento nos espaços da pele e ao amolecimento do tecido 3 .

O presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão da literatura de artigos científicos que relacionem o uso de taping como forma de tratamento alternativo para a redução do linfedema secundário ao câncer de mama.

MÉTODOS

Foram analisados artigos na base de dados científicos, PubMed, LILACS, MEDLINE, PEDro e Google Acadêmico. Foram cruzadas as palavras-chaves câncer e/ou neoplasia com Kinesio Taping®, linfotaping, taping, athletic tape, sistema linfático, linfa e linfedema, sem restrição de período de tempo.

Os critérios de inclusão para os estudos encontrados foram a abordagem terapêutica do uso da técnica de Kinesio Taping®/linfotaping/ taping como forma de tratamento do linfedema secundário ao câncer de mama e estudos comparativos desta e de outras formas de tratamento ( Figura 1 ). Artigos com pacientes com outros tipos de câncer que não o de mama ou com câncer metastático foram excluídos.

Figura 1 Fluxograma de busca e seleção de estudo. 

Foram incluídos artigos com variados níveis de evidências, para englobar todos os artigos científicos publicados sobre o assunto.

RESULTADOS

Foram encontrados nove artigos originais nas bases de dados consultadas que abordavam a utilização do taping como meio ou associado ao tratamento padrão-ouro para a redução de linfedema secundário ao câncer de mama. A Tabela 1 descreve o desenho do estudo e a forma de aplicação do taping .

Tabela 1 Forma de aplicação do taping.  

Autor Método Aplicação do taping
Finnerty et al. 7 10 pessoas com linfedema Aplicação do taping, direcionando a linfa para a região de linfonodos menos congestionados.
Smykla et al. 8 Ensaio clínico randomizado com 65 mulheres com linfedema com diferença > 20% entre os membros, divididas em três grupos: taping ; sem taping; TFC A aplicação foi realizada no antebraço com tensão de 5-15% do taping e deixada na pele por 3 dias.
Pekyavas et al. 9 Ensaio clínico randomizado com 45 pacientes com linfedemas graus II e III, divididos em três grupos: TFC; taping associado ao TFC; apenas o taping Método Kinesio Taping® de correção linfática.
Taradaj et al. 10 Ensaio clínico randomizado, com 70 pacientes com linfedemas, divididos em três grupos: taping e DLM; DLM e CPI; TFC e CPI Taping em toda região de braço e antebraço
Martins et al. 11 24 pacientes com linfedema Taping foi aplicado na pele do tronco, anterior e posteriormente, com o objetivo de estimular a formação de anastomoses axiloaxilares, e de proximal para distal no membro superior, na região oposta à fisiologia normal do fluxo linfático.
Pop et al. 12 Estudo de caso Taping aplicado na mão, braço e tronco, com pressão longitudinal de 30-40% sentido longitudinal.
Do et al. 13 Ensaio clínico randomizado com 44 pacientes com linfedema: com taping espiralado e taping tradicional. Aplicação do taping espiralado: quatro tiras de taping ao longo do comprimento do braço, anguladas a 45 graus, com 10% de pressão e direcionadas para facilitar a drenagem linfática. Técnica de correção linfática Kinesio Taping®.
Malicka et al. 14 Ensaio clínico randomizado com 28 pacientes com linfedema grau I, divididos em dois grupos com dois subgrupos para a intervenção. Taping aplicado com 1 cm de largura na base, dividido em quatro caudas. A tensão utilizada foi de 15%, no sentido da base para a cauda.
1º subgrupo: taping aplicado sobre o linfedema com caudas individuais sobre o braço, o antebraço e o tronco
2º subgrupo: taping aplicado sobre o linfedema com caudas individuais sobre o braço e antebraço
Taradaj et al. 15 Estudo de caso Taping aplicado na região anterolateral do membro superior. A âncora foi colocada na região anterior da mão, sem tensão. As caudas foram aplicadas nas regiões anteriores, mediais e posteriores no braço e antebraço, e na região anterior do tórax com tensão de 5-15%.

Na Tabela 2 , são discutidos os resultados encontrados.

Tabela 2 Resultados da aplicação da técnica taping .  

Autor Resultados
Finnerty et al. 7 Resultados satisfatórios na redução do linfedema em 70% das pacientes.
Smykla et al. 8 A utilização do taping foi ineficaz para a redução do linfedema, sugerindo que possa ser uma técnica complementar ao TFC. Redução de 24,45% do edema, não significativa em relação ao demais grupos.
Pekyavas et al. 9 O uso do taping em conjunto com o tratamento padrão apresentam resultados mais satisfatórios (p = 0,008), além de potencializar o efeito do tratamento. Não houve diferença significativa entre os grupos em relação aos sintomas relacionados ao linfedema e satisfação com o tratamento.
Taradaj et al. 10 Taping pode ser uma boa opção para pacientes com resistência ou contraindicação para o uso da TFC.
Redução de 22,45% do volume do membro (p = 0,000118) e 24,13% do edema (p = 0,00041). Redução não significativa em relação ao demais grupos.
Martins et al. 11 Aumento da funcionalidade do membro superior foi observada com o uso do taping (p < 0,001), mas nenhuma alteração no volume do membro (p = 0,638).
Pop et al. 12 Foi observado redução de 55% volume do membro edemaciado, com melhores resultados na técnica espiralda. Resultado significativo em relação ao grupo taping convencional (55% x 27% - p < 0,001).
Do et al. 13 Houve melhora na qualidade de vida e na capacidade funcional, além de redução de 79,5% do volume do edema
Malicka et al. 14 Taping é eficaz para linfedemas em estágios iniciais (p = 0,0009), podendo ser uma alternativa segura para a TFC quando existe contraindicação ao seu uso.
Taradaj et al. 15 Taping foi eficaz para a redução do linfedema (redução de 627 cm3) em 3 semanas. A redução do edema pode ser acelerada com o uso do taping.

DISCUSSÃO

A técnica taping é uma forma alternativa com pouca evidência científica para o uso no tratamento de linfedema no pós-operatório de câncer de mama. Existe apenas uma metanálise sobre a eficácia e segurança do uso do taping em pacientes com linfedema secundário a neoplasia maligna, a qual demonstrou que o uso do taping parece ser superior ao uso da TFC em relação aos sintomas, mas os pacientes que realizaram TFC têm melhor qualidade de vida 16 . Existem apenas cinco ensaios clínicos randomizados sobre o assunto, com significativa controvérsia em relação à forma de aplicação da técnica taping. Nesses estudos há consenso que a fita taping seja aplicada sobre o membro edemaciado.

O taping parece ser mais eficaz para linfedemas em estágios iniciais e como complemento à TFC. Não parece ser mais confortável que o enfaixamento compressivo, e ainda precisa ser utilizado com maior cautela. É um método seguro e tolerável a ser utilizado em pacientes oncológicos. Como tratamento complementar/ alternativo, o taping deve ser considerado, já que aumenta o espaço entre a pele e o músculo, e promove o aumento do fluxo sanguíneo e linfático 2,4-6 , aumentando a absorção do líquido intersticial e fluxo linfático 4-6 . Pode ser uma técnica a ser somada ao método padrão-ouro para o tratamento do linfedema secundário ao câncer de mama.

Algumas desvantagens encontradas foram que o taping pode ser constrangedor aos pacientes, por ser visível, e a presença de pelo pode interferir na aderência da fita 6 . Martins et al. 11 demonstraram baixa incidência de alterações de pele e boa tolerância das pacientes. Não são frequentes o aparecimento de lesões cutâneas ou hipertermia da pele, mas vermelhidão pode ser frequente 16 .

O taping permite que as vias linfáticas se abram, em decorrência do levantamento da pele, favorecendo o fluxo linfático através da melhora da microcirculação, além de direcionar a linfa até o local desejado. Deve-se levar em consideração a individualidade de cada paciente e as atividades do cotidiano. É necessário conhecer a técnica para que se possam conseguir melhores resultados, levando em conta a qualidade da fita, a aceitação do paciente e a forma de aplicação.

CONCLUSÃO

O taping é uma técnica alternativa e complementar na redução e manutenção do linfedema secundário ao câncer de mama, podendo ser utilizada como forma auxiliar, mas sem capacidade para substituir a TFC. Ainda são necessários mais estudos sobre a técnica, com explicações descritivas das formas de aplicações, e que comparem os diferentes tipos de aplicações com o taping.

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