versão On-line ISSN 2316-9117
Fisioter. Pesqui. vol.23 no.4 São Paulo out./dez. 2016
http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/15809523042016
Debido al accidente cerebrovascular (ACV), los miembros superiores pueden presentar problemas motores, que pueden llevar a incapacidades funcionales. La terapia del espejo (TE) presenta una posibilidad terapéutica de rehabilitar los miembros superiores (MS). El propósito de este estudio es reunir evidencias que muestran cuáles son los efectos de la TE en la rehabilitación motora y funcional de MS con paresia pos-ACV. Se buscó en las bases de datos SciELO, LILACS, PubMed, PEDro y ScienceDirect, empleando los siguientes criterios de inclusión: estudios clínicos, en los cuales los sujetos de más de 18 años presentaron ACV de cualquier etiología y de cualquier tiempo tras la lesión cerebral, con secuela en MS; textos publicados integralmente entre 2010 y 2015 en revistas científicas de las citadas bases de datos, en lengua inglesa y en portugués brasileño, que empleasen la TE en la rehabilitación de MS de pacientes con ACV y presentasen como resultados función motora e independencia funcional. Los textos recolectados fueron evaluados por la escala PEDro en función de la calidad metodológica. Trece estudios clínicos evaluaron los efectos de la TE en MS parético. Las pruebas más empleadas fueron la escala Fugl-Meyer y la Medida de Independencia Funcional. En estos estudios se comprobó la eficacia de la TE en la rehabilitación motora de MS y en la independencia funcional de los pacientes, especialmente en los aspectos transferencia y autocuidado. Se evaluaron los textos como de moderada a alta calidad metodológica. Se concluye que la TE mejora significativamente la función motora y la independencia funcional de MS parético pos-ACV independiente del tiempo transcurrido de la lesión cerebral.
Palabras clave Accidente Cerebrovascular; Extremidad Superior; Destreza Motora; Modalidades de Fisioterapia; Retroalimentación Sensorial
O acidente vascular cerebral (AVC) é definido em termos de uma disfunção vascular hemorrágica ou isquêmica que pode atingir diferentes regiões do encéfalo e resultar em danos neurológicos e déficits sensoriomotores. As alterações mais frequentes são a hemiparesia ou hemiplegia e os distúrbios de sensibilidade e coordenação1. O membro superior (MS) encontra-se comprometido devido à fraqueza e/ou espasticidade2. Esses déficits podem levar à limitação de atividades de vida diária (AVD) e incapacidades funcionais, restringindo a participação social do paciente3.
No rol terapêutico da neurorreabilitação do MS com paresia pós-AVC, encontram-se métodos e técnicas voltadas para a diminuição dos comprometimentos funcionais e recuperação das capacidades do indivíduo, de modo que ele possa atingir o maior grau de independência funcional possível. A terapia espelho (TE), um desses métodos, utiliza retroalimentação visual para estimular a plasticidade neuronal na área motora primária e reorganização cortical, mecanismos responsáveis pelos resultados terapêuticos obtidos por essa terapia4),(5. Além disso, outros mecanismos têm sido sugeridos, como a estimulação de determinadas áreas do córtex motor primário e pela ativação dos neurônios-espelho, induzidas pela TE6),(7.
A técnica consiste na realização de atividades bimanuais com o uso de uma caixa com espelho unilateral colocado no plano sagital (em relação ao paciente). Dessa forma, o paciente visualiza o reflexo do seu membro superior sadio como se fosse o membro comprometido8. Para aplicação da técnica, são propostos basicamente dois protocolos: a realização de movimentos isolados de ombro, cotovelo, punho e dedos, ou tarefas funcionais do membro superior9),(10.
Apesar de já existirem alguns estudos avaliando os efeitos da TE, conforme indicado pelas revisões de Toh e Fong11 e Thieme et al. (12, estudos clínicos mais homogêneos com amostras maiores e de melhor qualidade metodológica têm sido realizados em anos recentes. Esses estudos apresentam resultados mais robustos, que podem respaldar a utilização da técnica na recuperação funcional de pacientes com sequelas de AVC. O objetivo deste estudo foi reunir evidências que pudessem mostrar os efeitos da TE na recuperação motora e funcional do membro superior com paresia pós-AVC.
Este estudo é uma revisão sistemática da literatura. Uma busca eletrônica nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed, PEDro e ScienceDirect foi realizada no período de setembro a outubro de 2015, usando estratégia integrativa de busca avançada, com a combinação dos quatro termos conectados pelo operador booleano “and”. Foram utilizados os seguintes termos de busca, em português: “terapia espelho”, “reabilitação”, “membro superior”, “acidente vascular cerebral”, e em inglês: “Mirror” “Therapy”, “Rehabilitation”, “Upper Limb”, “Stroke”.
A busca e a seleção dos artigos foram realizadas por quatro pesquisadores e ocorreu de acordo com os seguintes critérios de inclusão: ensaios clínicos controlados, nos quais os indivíduos acima de 18 anos apresentassem diagnóstico clínico de AVC de qualquer etiologia e em qualquer fase, e com sequela no membro superior; estudos publicados na íntegra em revistas científicas indexadas nas bases supracitadas, nos idiomas inglês e português, com data de publicação entre 2010 e 2015 e que utilizassem a TE para reabilitação do MS de pacientes com AVC, apresentando como desfechos função motora e independência funcional. Foram excluídos os artigos identificados como duplicatas. O resumo dos procedimentos dessa pesquisa foi feito de acordo com os critérios do Prisma13 e pode ser observado na Figura 1.
Assim, a amostra final dessa revisão foi constituída por treze artigos, que tiveram sua qualidade metodológica avaliada pela escala PEDro14 e foram avaliados independentemente por dois pesquisadores. Em caso de ausência de consenso, nova avaliação foi realizada por um terceiro avaliador. A referida escala é composta por onze itens, cada item equivale a um ponto quando o critério é obedecido, exceto o item 1, que não deve ser pontuado. Sendo assim, a pontuação varia de 0 a 10. Os itens são: critérios de elegibilidade, alocação aleatória, alocação secreta, homogeneidade da amostra, amostra cega, terapeuta cego, avaliador cego, desfecho em 85% dos sujeitos inicialmente distribuídos pelos grupos, tratamento ou controle conforme alocação, comparação estatística intergrupos para pelo menos um resultado-chave e medidas de precisão e medidas de variabilidade para pelo menos um resultado-chave.
Os treze estudos clínicos com amostra total de 368 indivíduos foram caracterizados de acordo com as variáveis analisadas, tipo de intervenção e principais resultados, conforme mostrado na Tabela 1.
Tabela 1 Caracterização dos estudos quanto à amostra, principais avaliações, intervenções e principais resultados
Autor/ Ano | Amostra | Principais Avaliações | Intervenções | Principais Resultados |
---|---|---|---|---|
Michielsen et al., 201110 | 40 pacientes Fase crônica | fMRI | 1 h por dia, 1X semana no centro de reabilitação e 5X semana em casa, durante 6 semanas | Melhora na função motora estatisticamente significativa no GE. Em ambos os grupos houve reorganização cortical, mas não houve correlação estatisticamente significativa com a terapia. Sem resultados significativos após follow-up (6 meses). |
GE=20 | EFM | GE=TE | ||
GC=20 | GC= movimentos bilaterais sem espelho | |||
Lee; Cho; Song, 201215 | 26 pacientes Fase aguda | EFM | 25 min por sessão, 2X dia, 5X semana, durante 4 semanas | Melhora estatisticamente significativa no GE quanto a função motora. Sem diferença estatisticamente significativa em coordenação pela EFM. |
GE=13 | BMRS | GE= reabilitação convencional + TE | ||
GC=13 | MFT | GC= reabilitação convencional | ||
Thieme etal., 201216 | 60 pacientes Fase aguda | EFM | 30 min por sessão, 20 sessões, durante 5 semanas | Não há diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto a função motora. Aumento estatisticamente significativo quanto ao grau de espasticidade nos flexores de dedos comparando o GI com o GG. Melhora estatisticamente significativa comparando o GI com o GC quanto à negligência visuo-espacial. |
GI=18 | ARAT | GI= 1ª semana com movimentos isolados até 4X50 para cada direção. 2ª e 3ª semana com tarefas funcionais adicionadas | ||
GG=21 | IB | GG= 2 a 6 pacientes em grupo utilizando o mesmo protocolo anterior | ||
GC=21 | SIS | GC= mesmo protocolo, mas sem espelho | ||
SCT | ||||
Invernizzi et al., 201317 | 26 pacientes Fase aguda GE=13 | ARAT | 1 h cada sessão, 5X semana, durante 4 semanas | Melhora estatisticamente significativa em ambos os grupos quanto à função motora e independência funcional, sendo de maior significância no GE. |
GC=13 | MIF | GE= reabilitação convencional + 30 min de TE nas 2 primeiras semanas e 1 h nas 2 últimas semanas | ||
MI | GC= reabilitação convencional + FES + terapia com espelho coberto | |||
Wu et al., 201318 | 33 pacientes Fase crônica | EFM | 1,5 h por dia, 5X semana, durante 4 semanas | Melhora estatisticamente significativa na função motora (distal e total), cinemática e função sensorial térmica, não havendo significância nos escores táteis. Sem resultados significativos após follow-up (6 meses). |
GE=16 | RNSA | GE= TE | ||
GC=17 | ABILHAND-q | GC= movimentos bilaterais sem espelho | ||
MAL | ||||
AC | ||||
Kim; Lee; Song, 201419 | 27 pacientes Fase aguda | EFM | 30 min por sessão, 5X semana, durante 4 semanas | Melhora estatisticamente significativa na função motora (EFM) em ambos os grupos, função motora da mão (BMRS) nos referidos grupos com maior resultado no GE e na função motora de ombro e mãos (MFT) em ambos os grupos com maior significância na função motora da mão no GE. Melhora estatisticamente significativa na destreza manual (BBT) nos grupos estudados. |
GE=14 | BMRS | GE= TE + FES + reabilitação convencional | ||
GC=13 | MFT | GC= terapia com lado do espelho não reflexivo + FES + reabilitação convencional | ||
BBT | ||||
Lin et al., 201420 | 16 pacientes Fase crônica | EMA | 1,5 h por dia, 5X semana, durante 4 semanas | Melhora na espasticidade da região distal (EMA) e na destreza manual (BBT) no GE. Melhora estatisticamente significativa na função motora (ARAT) no escore total e preensão manual para ambos os grupos e melhora nos subtestes no GC. Melhora estatisticamente significativa da independência funcional (MIF) quanto à transferência e melhora não significativa na subescala motora no GE. |
GC=8 | BBT | GE= Electro-Mesh Glove (estimulação elétrica somatossensorial) + TE + reabilitação convencional | ||
GE=8 | ARAT | GC= TE + reabilitação convencional | ||
MIF | ||||
Medeiros et al., 201421 | 6 pacientes Fase crônica | EFM | 50 min por sessão sendo 10 min iniciais de MIA e alongamentos + 30 min de TE com 1-2 min de descanso entre atividades, 3X semana, 15 sessões, durante 5 semanas | Melhora estatisticamente significativa na independência funcional (MIF) no domínio cognitivo e no total na junção dos grupos. |
GMI=3 | EMA | GMI: TE com movimentos isolados | ||
GTF=3 | MIF | GTF: TE com tarefas funcionais | ||
Paik et al., 201422 | 4 pacientes Fase crônica | EFM | 30 min por sessão, 15 sessões, durante 15 dias | Melhora das tarefas manuais funcionais com relação ao aumento da velocidade de execução dos movimentos de dedos e punho em ambos os grupos (CTT). Melhora da função motora (EFM) em ambos os grupos. |
GMI=2 | BBT | GMI: TE com movimentos isolados (10 repetições para cada movimento) | ||
GTF=2 | BMRS | GTF: TE com tarefas funcionais | ||
MFT | ||||
CCT | ||||
CTT | ||||
Samuelkamaleshkumar et al., 201423 | 20 pacientes Fase crônica | EFM | 1 h por dia divididos em 2X de 30 min sendo os primeiros 15 min de movimentos isolados bilateral e os últimos 15 min tarefas funcionais, 5X semana, durante 3 semanas | Melhora estatisticamente significativa da destreza manual (BBT) no GE. Quanto à função motora (EFM) e escores de mão e braço da recuperação motora (BMRS) houve melhora estatisticamente significativa em ambos os grupos com maior resultado no GE. Não foi encontrada diferença significativa para espasticidade (EMA) entre os grupos. |
GE=10 | BMRS | GE= reabilitação convencional + TE | ||
GC=10 | BBT | GC= reabilitação convencional | ||
EMA | ||||
Arya et al., 201524 | 33 pacientes Fase aguda | BMRS | 90 min por sessão, 5X semana, 40 sessões, durante 8 semanas | Melhora estatisticamente significativa na função motora do punho, mão e braço no GE, porém essa melhora não foi constatada no ombro. Quanto à recuperação motora foi observado melhora estatisticamente significativa no GE. |
GE=17 | EFM | GE= Terapia Ocupacional + TE | ||
GC=16 | GC= Terapia Ocupacional | |||
Cho; Cha, 201525 | 27 pacientes | BBT | 20 min por sessão, 3X semana, durante 6 semanas | Melhora estatisticamente significativa na força de preensão (DM) e realização de tarefas manuais funcionais (JTT) em ambos os grupos. Quanto à função motora e destreza manual (BBT), melhora estatisticamente significativa apenas no GE. Aumentos mais significativos de BBT e DM no GE. |
Fase aguda | DM | GE= TE | ||
GE=14 | JTT | GC= terapia com lado do espelho não reflexivo | ||
GC=13 | EFM | |||
tDCS | ||||
Park et al., 201526 | 30 pacientes Fase crônica | MIF | 5X semana, durante 6 semanas | Melhora estatisticamente significativa nas escalas em ambos os grupos, com maior significância no GE no domínio autocuidados da MIF e MFT. |
GE=15 | MFT | GE= TE | ||
GC=15 | GC= terapia com lado do espelho não reflexivo |
GE: grupo experimental; GC: grupo controle; fMRI: ressonância magnética funcional; EFM: escala Fugl-Meyer; TE: terapia espelho; MFT: Manual function test; BMRS: Brunnstrom motor recovery stage; GI: grupo TE realizado individualmente; GG: Grupo TE realizado em grupo; ARAT: action research arm test; IB: índice de Barthel; SIS: Stroke impact scale; SCT: Star cancellation test; MI: motricity index; FES: functional electrical stimulation; RNSA: revised Nottingham sensory assessment; ABILHAND-q: ABILHAND questionnaire; MAL: motor activity log; AC: análise cinemática; BBT: box and block test; EMA: escala modificada de Ashworth; MIF: medida de independência funcional; GMI: grupo de movimentos isolados; GTF: grupo de tarefas funcionais; MIA: mobilização intrarticular; CCT: cube carry test; CTT: card turning test (subscore do JTT); DM: dinamômetro de mão; JTT: Jebsen-Taylor test; tDCS: transcranial direct current stimulation
De modo geral, esses estudos avaliaram função motora, função sensorial e independência funcional. Alguns incluíram alguma medida de força muscular, espasticidade e cinemática, além de análises eletroencefalográficas e de ressonância magnética funcional. As variáveis mais estudadas foram a função motora do MS parético, por meio das escalas Fugl-Meyer - EFM (8 estudos), Brunnstrom Motor Recovery Stage - BMRS (4 estudos), Manual Function Test - MFT (3 estudos) e Box and Block Test - BBT (4 estudos). A independência funcional foi avaliada pela Medida de Independência Funcional - MIF (4 estudos). A maioria desses estudos demonstrou a eficácia da TE na recuperação motora do MS, comparada com a terapia controle.
Em termos gerais, foi observado que a TE melhora significativamente a função motora grossa e fina do MS parético. Em relação à independência funcional, observou-se que a TE proporcionou mudanças significativas especialmente nos itens transferências e autocuidados na MIF. Os artigos foram agrupados de acordo com a qualidade metodológica, conforme análise pela escala PEDro. O resultado dessa análise pode ser visualizado na Tabela 2.
Tabela 2 Avaliação metodológica dos estudos pela escala de PEDro
Autor/ano | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | Pontuação total |
---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
Kim; Lee; Song, 2014 | - | x | x | x | x | x | x | x | x | X | X | 10/10 |
Wu et al., 2013 | - | x | x | x | x | x | x | x | x | X | 9/10 | |
Arya et al., 2015 | - | x | x | x | x | x | x | x | X | 8/10 | ||
Lin et al., 2014 | - | x | x | x | x | x | x | x | X | 8/10 | ||
Samuelkamaleshkumar et al., 2014 | - | x | x | x | x | x | x | x | X | 8/10 | ||
Thieme et al., 2012 | - | x | x | x | x | x | x | x | X | 8/10 | ||
Michielsen et al., 2011 | - | x | x | x | x | x | x | x | X | 8/10 | ||
Lee; Cho; Song, 2012 | - | x | x | x | x | x | x | X | 7/10 | |||
Medeiros et al., 2014 | - | x | x | x | x | x | X | 6/10 | ||||
Park et al., 2015 | - | x | x | x | x | x | X | 6/10 | ||||
Cho; Cha, 2015 | - | x | x | x | x | X | 5/10 | |||||
Paik et al., 2014 | - | x | x | x | x | X | 5/10 | |||||
Invernizzi et al., 2013 | - | x | x | x | x | X | 5/10 |
A literatura apresenta alguns estudos que respaldam o uso da TE na reabilitação pós-AVC, embora muitos desses estudos sejam inconclusivos11),(12. No entanto, pesquisas envolvendo a TE evoluíram no decorrer dos últimos anos, com o desenvolvimento de maior qualidade metodológica.
Os estudos encontrados nesta revisão avaliaram indivíduos nas fases aguda e crônica pós-AVC e apresentaram efeitos semelhantes quanto à eficácia da TE na recuperação da função motora (entendendo-se fase aguda como o período de até seis meses pós-AVC e fase crônica após esse período). Dois desses estudos16),(21 não apresentaram resultados significativos, quando comparados à terapia controle. No entanto, no estudo de Medeiros et al. (21 a ausência de efeitos pode ser atribuída à pequena amostra de apenas seis pacientes, não sendo possível generalizar seus resultados, e ao fato de que esses pesquisadores compararam dois grupos que utilizaram diferentes protocolos de TE. Por outro lado, o estudo de Thieme et al. (16 utilizou frequência e intensidade relativamente baixas, com a prática total de menos de dez horas de TE.
Os estudos envolvendo independência funcional avaliaram predominantemente pacientes em fase crônica. Como exceção, o estudo de Thieme et al. (16 avaliou pacientes em fase aguda, com o índice de Barthel (IB), mas não demonstrou nenhum resultado significativo. Por outro lado, Invernizzi et al. (17 avaliaram independência funcional com a MIF e mostraram resultados estatisticamente significativos na fase aguda. Os estudos que avaliaram independência funcional em pacientes na fase crônica, com a MIF20),(21),(26, observaram melhora estatisticamente significativa da independência funcional após a intervenção.
Os estudos que utilizaram a MIF observaram melhora estatisticamente significativa especialmente nas categorias de transferência e autocuidados17),(20),(21),(26. Dois estudos avaliaram a independência funcional com o IB e a ABILHAND16),(18, porém não relataram diferença significativa entre os grupos experimental e controle. Algumas limitações metodológicas talvez expliquem essa ausência de diferença. Primeiramente, o tamanho da amostra foi relativamente pequeno para detectar a dimensão de efeito, com alto índice de perda da amostra em um deles16. Em segundo lugar, o primeiro estudo não utilizou de cegamento na avaliação pelo IB, o que pode ter introduzido algum viés nela, além disso, utilizou na amostra pacientes em fase subaguda, com comprometimento distal severo, e prognóstico reconhecidamente pobre para recuperação16. Adicionalmente, o questionário ABILHAND avalia a dificuldade do paciente em realizar 23 AVD que requerem manipulação bimanual, de modo que é possível que os efeitos na função motora e cinemática observados nesse mesmo estudo18 não tenham sido refletidos em atividades que exigem uso simultâneo e conjunto das mãos e, portanto, requerem treinamento específico.
Os instrumentos mais utilizados para função motora foram a EFM10),(15),(18),(19),(22)-(25, BMRS15),(19),(23),(24, MFT15),(19),(26 e BBT19),(20),(23),(25, que avaliam função motora grossa e fina do MS. De modo geral, os estudos que utilizaram esses testes apresentaram resultados estatisticamente significativos, com melhora do grupo que recebeu TE, em comparação com o grupo controle. Alguns estudos utilizaram os instrumentos Action Research Arm Test, Jebsen-Taylor Test e o índice de Motricidade e também verificaram melhora do grupo experimental, em relação ao grupo controle17),(20),(22),(23.
Algumas pesquisas avaliaram ainda função sensorial16),(18 e aspectos como força de preensão25, cinemática18) e espasticidade16),(20, com instrumentos variados. Nesses estudos, a TE apresentou resultados significativos, com exceção dos estudos de Lin et al. (20) e Thieme et al. (16) , que observaram melhora não significativa da espasticidade e aumento da espasticidade em flexores dos dedos, respectivamente, após a intervenção. Houve disparidade nos resultados dos estudos que utilizam diferentes instrumentos de avaliação para o mesmo desfecho, enquanto alguns apresentaram resultados significativos, outros não apresentaram nenhuma melhora clínica estatisticamente significativa. Isso talvez seja explicado pela variedade dos aspectos que são avaliados dentro de cada teste, principalmente nas escalas que avaliam conjuntamente a função motora grossa e fina a partir de variados movimentos e de diferentes maneiras.
Apenas dois dos treze estudos avaliaram a manutenção dos efeitos da TE, com acompanhamento de seis meses. Ambos relataram que não houve manutenção dos efeitos obtidos com TE após seis meses10),(18.
Foram identificados três protocolos de intervenção com a TE: movimentos isolados bilaterais (cinco estudos), tarefas funcionais uni ou bilaterais (três estudos) ou a combinação dos dois protocolos (quatro estudos). Em relação à melhora da função motora e independência funcional, houve melhora desses desfechos com cada um dos protocolos. Em dois estudos, duas modalidades de TE foram comparadas uma com a outra. O estudo de Paik et al. (22 comparou a TE com movimentos isolados com a TE com tarefas funcionais. Foi observada melhora em ambos os grupos, sem diferença significativa quanto à função motora. O estudo de Medeiros et al. (21, que fez a mesma comparação, observou melhora estatisticamente significativa no escore total da MIF e no domínio da cognição, sem relatar, no entanto, diferença intergrupo. O estudo de Samuelkamaleshkumar et al. (23 ao comparar TE e reabilitação convencional verificou que houve melhora significativa da destreza manual (BBT), houve recuperação motora das mãos e braços (avaliada pela BMRS) e da função motora (avaliada pela EFM) em comparação com o grupo controle.
A maioria dos estudos utilizou um período de intervenção de quatro a seis semanas, com uma frequência de cinco vezes por semana, em sessões de trinta minutos por dia. Quanto a séries e repetições, não houve muita homogeneidade, com alguns estudos variando de 1 a 4 séries de 10 até 100 repetições para cada movimento ou padrão motor utilizado.
Na avaliação da qualidade metodológica (pela escala PEDro) sete estudos apresentaram pontuações entre 8 e 10 (boa qualidade) e seis apresentaram pontuações de 5 a 7 (qualidade moderada). A maior limitação desses trabalhos que apresentaram moderada qualidade foi ausência de cegamento (ou de informações sobre o cegamento) por parte dos avaliadores, interventores e participantes.
Conclui-se que a TE promove melhora clinicamente significativa da função motora e da independência funcional do membro superior com paresia pós-AVC, independente da fase de recuperação. Essas melhorias, evidenciadas por estudos de moderada a alta qualidade metodológica, fortalecem a indicação da TE como medida terapêutica adjunta na reabilitação. Os efeitos da TE sobre a independência funcional na fase aguda do AVC ainda não estão totalmente estabelecidos, portanto, torna-se necessária a realização de maior número de estudos de boa qualidade metodológica, para testar essa hipótese. Além disso, são necessários estudos que investiguem a duração dos efeitos de melhora da função motora do MS e independência funcional, por meio de seguimento desses pacientes após o término do tratamento. Os únicos dois estudos que realizaram seguimento após intervenção mostraram que os efeitos não se mantiveram.