Efeitos do Hormônio do Crescimento na Remodelação Cardíaca Durante Treinamento Resistido em Ratos

Efeitos do Hormônio do Crescimento na Remodelação Cardíaca Durante Treinamento Resistido em Ratos

Autores:

Adriana Junqueira,
Antônio Carlos Cicogna,
Letícia Estevam Engel,
Maiara Almeida Aldá,
Loreta Casquel de Tomasi,
Rogério Giuffrida,
Inês Cristina Giometti,
Ana Paula Coelho Figueira Freire,
Andreo Fernando Aguiar,
Francis Lopes Pacagnelli

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.106 no.1 São Paulo jan. 2016 Epub 08-Dez-2015

https://doi.org/10.5935/abc.20160003

Resumo

Fundamento:

Apesar de os efeitos benéficos do treinamento resistido (TR) sobre o sistema cardiovascular estarem bem estabelecidos, poucos estudos têm investigado os efeitos crônicos da administração de hormônio do crescimento (GH) sobre a remodelação cardíaca durante um programa de TR.

Objetivo:

avaliar os efeitos do GH sobre a remodelação cardíaca em suas características morfológicas e na expressão dos genes do trânsito de Ca2+ em ratos submetidos ao TR.

Métodos:

Ratos Wistar machos foram divididos em 4 grupos (n = 7 por grupo): controle (CT), GH, TR e TR com GH (TRGH). A dose de GH foi de 0,2 UI/kg, a cada dois dias, por 30 dias. O modelo de TR utilizado foi o salto vertical em água (4 séries de 10 saltos, 3 vezes/semana) durante 30 dias consecutivos. Após o período experimental, as seguintes variáveis foram analisadas: peso corporal final (PCF), peso do ventrículo esquerdo (PVE), razão PVE/PCF, área seccional de cardiomiócitos (ASC), fração de colágeno, creatina quinase fração músculo-cérebro (CK-MB) e expressão gênica de SERCA2a, fosfolambam (PLB) e rianodina (RyR).

Resultados:

Não houve diferença significativa (p > 0,05) entre os grupos para PCF, PVE, razão PVE/PCF, ASC, e expressão gênica de SERCA2a, PLB e RyR. O grupo TR mostrou um significativo aumento (p < 0,05) da fração de colágeno em comparação aos outros. Além disso, os grupos treinados (TR e TRGH) apresentaram maiores níveis de CK-MB em comparação aos não treinados (CT e GH).

Conclusão:

Esses resultados indicam que o GH pode atenuar os efeitos negativos do TR na remodelação cardíaca por contrabalançar o aumento da síntese de colágeno, sem afetar a expressão de genes que regulam o trânsito de Ca2+ cardíaco.

Palavras-Chave: Hormônio do Crescimento; Ratos; Atividade Motora; Exercício; Remodelação Ventricular

Abstract

Background:

Although the beneficial effects of resistance training (RT) on the cardiovascular system are well established, few studies have investigated the effects of the chronic growth hormone (GH) administration on cardiac remodeling during an RT program.

Objective:

To evaluate the effects of GH on the morphological features of cardiac remodeling and Ca2+ transport gene expression in rats submitted to RT.

Methods:

Male Wistar rats were divided into 4 groups (n = 7 per group): control (CT), GH, RT and RT with GH (RTGH). The dose of GH was 0.2 IU/kg every other day for 30 days. The RT model used was the vertical jump in water (4 sets of 10 jumps, 3 bouts/wk) for 30 consecutive days. After the experimental period, the following variables were analyzed: final body weight (FBW), left ventricular weight (LVW), LVW/FBW ratio, cardiomyocyte cross-sectional area (CSA), collagen fraction, creatine kinase muscle-brain fraction (CK-MB) and gene expressions of SERCA2a, phospholamban (PLB) and ryanodine (RyR).

Results:

There was no significant (p > 0.05) difference among groups for FBW, LVW, LVW/FBW ratio, cardiomyocyte CSA, and SERCA2a, PLB and RyR gene expressions. The RT group showed a significant (p < 0.05) increase in collagen fraction compared to the other groups. Additionally, the trained groups (RT and RTGH) had greater CK-MB levels compared to the untrained groups (CT and GH).

Conclusion:

GH may attenuate the negative effects of RT on cardiac remodeling by counteracting the increased collagen synthesis, without affecting the gene expression that regulates cardiac Ca2+ transport.

Keywords: Growth Hormone; Rats; Motor Activity; Exercise; Ventricular Remodeling

Introdução

O uso do hormônio do crescimento (GH) como um auxílio ergogênico aumentou acentuadamente nas duas últimas décadas, em especial entre os atletas envolvidos com treinamento de força, hipertrofia e potência (fisiculturistas e levantadores de peso) e praticantes recreativos interessados em manter a saúde e melhorar a estética corporal. No entanto, o uso do GH como um auxílio ergogênico para atletas é proibido pela Agência Mundial Anti-Doping (WADA),1 devido a seus efeitos diretos sobre o desempenho, incluindo a redução de gordura corporal, o aumento de força e massa muscular, e a melhora regenerativa do músculo esquelético. Por outro lado, o uso indevido de GH pode levar ao declínio do desempenho e irreparáveis danos à saúde.

O GH pode afetar o funcionamento do coração e causar hipertrofia cardíaca, sem aumento de fibrose.2,3 Essa resposta é acompanhada por um aumento da contratilidade, alterações na gênese dos potenciais de ação cardíacos e vasodilatação periférica.2,3 Algumas pesquisas têm mostrado o efeito cardioprotetor do GH após infarto do miocárdio, amenizando a remodelação cardíaca patológica.2 Por outro lado, há estudos que relatam os danos do GH em indivíduos com hipersecreção crônica desse hormônio (acromegalia), conduzindo ao desenvolvimento de hipertrofia cardíaca concêntrica com fibrose intersticial e infiltrado linfomononuclear. Nesse contexto, se a sobrecarga do hormônio não for controlada, pode evoluir para insuficiência cardíaca.3,4 Embora outros fatores de risco estejam relacionados com acromegalia, é provável que o excesso de GH e de seu mediador [fator de crescimento semelhante à insulina I (IGF-I)] seja o principal contribuinte para a doença cardiovascular.4

O GH tem sido muitas vezes utilizado para aumentar a massa muscular e a força, e para melhorar a função cardíaca durante programas de treinamento resistido (TR). Embora os efeitos benéficos do TR no sistema cardiovascular estejam bem estabelecidos (aumento da densidade capilar, hipertrofia ventricular esquerda, alterações no tecido conjuntivo e benefícios na função cardíaca),5,6 poucos estudos investigaram os efeitos da administração crônica de GH na remodelação cardíaca durante um programa de TR.

Portanto, este estudo teve como propósito testar a hipótese de que a administração de GH durante o TR modula a remodelação cardíaca interferindo nos parâmetros morfológicos e na expressão gênica de proteínas envolvidas na homeostase do Ca2+, como a bomba cálcio-ATPase do retículo sarcoplasmático (SERCA2a), fosfolambam (PLB) e rianodina (RyR). Analisamos a expressão gênica de SERCA2a, PLB e RyR devido ao seu importante papel na função contrátil cardíaca atuando na homeostase do Ca2+ intracelular.7

Métodos

Animais e Procedimentos

Foram utilizados 28 ratos Wistar machos, com peso médio de 235 ± 15,2 gramas, 9 semanas de idade, provenientes do Biotério Central da Universidade do Oeste Paulista (UNOESTE), São Paulo, Brasil. Os animais foram alojados em 7 caixas com 4 animais cada, receberam marcação individual e tiveram acesso livre a água e ração (SupraLab®). Foram mantidas as condições ambientais padrão, com controle de luz (ciclos claro/escuro de 12 horas, luz a partir das 7 AM), de temperatura ambiente (21 ± 5°C) e de umidade relativa de ar (55 ± 5%). Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal (CEUA) da UNOESTE com os protocolos n° 1688 e 1689 e realizado conforme o Guide for the Care and Use of Laboratory Animals, publicado pelo National Research Council.

Desenho do estudo

Os ratos foram direcionados ao Biotério de Experimentação Animal da UNOESTE e, após 7 dias de aclimatação, foram distribuídos em 4 grupos: controle (CT, n = 7); com administração de GH (GH, n = 7); com TR (TR, n = 7); e associação de TR com administração de GH (TRGH, n = 7).

Administração de GH

Os animais do grupo GH receberam 0,2 UI/kg de GH recombinante humano (rhGH, Saizen® - Merck) por via subcutânea, a cada 2 dias, por 30 dias consecutivos.8 Os demais animais receberam solução fisiológica (NaCl 0,9%) em volume similar.

Treinamento resistido

O treinamento físico foi realizado por meio de um protocolo de saltos verticais na água, 3 vezes por semana por 30 dias consecutivos. Uma semana antes de iniciar o experimento, os ratos foram adaptados ao exercício na água, aumentando o número de séries a cada dia de adaptação e com sobrecarga de 50% do seu peso corporal total. O treinamento ocorreu dentro de um tubo de PVC (25 cm de diâmetro com 38 cm de profundidade), com água aquecida (30°C) no seu interior, conforme descrito por De Mello Malheiro et al.9 Após esse período de adaptação, os animais iniciaram o protocolo de treinamento e cada sessão consistiu de 4 séries de 10 saltos com intervalo de 1 minuto entre as séries para descanso. Os ratos foram pesados antes de cada sessão, a fim de recalcular a carga acrescentada (sobrecarga de 50% do seu peso corporal total). A sobrecarga foi feita por meio de pesos fixos com um colete com velcro posicionado na região anterior do tórax. Ao final de cada treino, os animais foram secados para retornarem às suas caixas.

Parâmetros analisados

Ao final das 4 semanas, após 72 horas da última sessão de treinamento, os animais foram pesados, anestesiados com éter etílico e sacrificados por exsanguinação. Seus corações foram retirados e pesados, sendo o ventrículo esquerdo (VE) dissecado e então pesado. O ápice do VE foi congelado em nitrogênio líquido e a porção superior foi fixada em formol tamponado a 10% para as análises de expressão gênica e morfológica, respectivamente. O peso úmido do VE (PVE) normalizado para peso corpóreo final do rato (PCF) foi utilizado como índice de hipertrofia ventricular.

Estudo morfológico

Amostras de tecido cardíaco foram fixadas em solução de formol tamponado a 10% por um período de 48 horas. Após fixação, o tecido foi incluído em blocos de parafina, obtendo‑se a seguir cortes histológicos coronais de 4 micrômetros. Esses cortes histológicos foram corados em lâmina com solução de Hematoxilina-Eosina (HE) para aferição de áreas seccionais dos cardiomiócitos, empregando-se microscópio LEICA DM LS acoplado a câmera de vídeo, que envia imagens digitais a computador dotado de programa de análise de imagens (Image Pro‑plus, Media Cybernetics, Silver Spring, Maryland, EUA). As imagens foram obtidas por meio de microscópio óptico binocular. Todas as imagens foram capturadas por câmara de vídeo no aumento de 40x. A seleção das imagens para captura e digitalização foi feita visualmente. Todas as análises foram realizadas por um único avaliador cego para o grupo de imagens. A morfometria dessas imagens obtidas e digitalizadas foi realizada utilizando‑se software apropriado para tal fim. Quatro cortes de VE foram obtidos para cada animal. Em cada corte, realizou-se a captura de diferentes campos, escolhidos de acordo com o local contendo o maior número de células visualizadas em corte transversal. Foram mensuradas 50 células por ventrículo analisado. Os miócitos selecionados estavam seccionados transversalmente e apresentavam forma redonda, núcleo visível no centro da célula e localizavam-se na camada subendocárdica da parede muscular do VE. Esse cuidado visou a uniformizar ao máximo o conjunto de miócitos dos diferentes grupos. As áreas seccionais médias obtidas para cada grupo foram utilizadas como indicador do tamanho celular.10

Lâminas com cortes histológicos coronais de 6 micrômetros e corados pela técnica de Picrosirius Red, específica para visualização de colágeno, foram feitas para avaliação do interstício do miocárdio do VE. Assim, as fibras colágenas foram visualizadas em vermelho e os miócitos em amarelo. O volume de fração do colágeno em porcentagem foi calculado automaticamente e correspondeu à soma das áreas de colágeno dividida pela soma da área de tecido colágeno e a área seccional de cardiomiócitos. As imagens do tecido cardíaco foram capturadas por microscópio LEICA DM LS acoplado a câmera de vídeo, que envia imagens digitais a computador dotado de programa de análise de imagens (Image Pro-plus, Media Cyberetics, Silver Spring, Maryland, EUA). Foram analisados 20 campos por ventrículo, utilizando objetiva de 40X. Os campos escolhidos estavam afastados da região perivascular.

Expressão gênica relativa de reguladores do Ca2+ intracelular

O RNA total foi extraído do tecido cardíaco ventrículo esquerdo (VE) utilizando‑se TRIzol (Invitrogen), sendo em seguida tratado com DNAse de acordo com orientação do fabricante. A integridade do RNA foi avaliada por eletroforese. O kit High Capacity cDNA Reverse Transcription (Applied Biosystems, CA, EUA) foi usado para a síntese de DNA complementar (cDNA) a partir de 1000 ng de RNA total. Utilizou-se RT-qPCR para medir quantitativamente os níveis relativos de RNAm de SERCA2a (Rn00568762_m1), RyR (Rn01470303_m1) e PLB (Rn01434045_m1). Para tal, utilizaram-se TaqMan Universal PCR Master Mix (Applied Biosystems, CA, EUA), conforme as instruções do fabricante, e o sistema de detecção Applied Biosystems StepOne Plus. Todas as amostras foram avaliadas duas vezes. As condições de ciclagem foram as seguintes: ativação da enzima a 50°C por 2 minutos; desnaturação a 95°C por 10 minutos; amplificação dos produtos de cDNA por 40 ciclos de desnaturação a 95°C por 15 segundos; e anelamento/extensão a 60°C por 1 minuto. A expressão gênica foi quantificada em relação aos valores do grupo CT e após normalização por um controle interno β-actina (ACTB, Rn00667869_m1), sendo determinada pelo método 2-ΔΔCt, como anteriormente descrito.11

Dosagem de CK-MB

Foi realizada coleta de sangue para bioquímica sérica da creatina quinase fração músculo-cérebro (CK-MB) em tubos (Vacutainer®) sem anticoagulante. Após a coleta, o sangue total foi centrifugado a 3000 rpm (g = 1257). O soro obtido foi acondicionado em microtubos plásticos e mantido a -20°C. A bioquímica sérica foi realizada por meio do método cinético UV automatizado (Cobas C111, Roche®).

Análise dos dados

Para comparar os parâmetros estudados entre os grupos experimentais e validar os pressupostos de normalidade dos dados e homogeneidade de variâncias, realizaram-se os testes de Shapiro-Wilk e Levene, respectivamente. Para os dados com distribuição normal, recorreu-se a análise de variância em uma via (ANOVA one-way) com contrastes pelo método de Tukey ou ainda teste de Kruskal-Wallis para os dados com distribuição não normal. As variáveis paramétricas foram expressas em média ± desvio padrão e as não paramétricas em mediana e percentis a 25% e 75%. Todas as análises foram realizadas com o uso do software SPSS para Windows v.13.0. O nível de significância estatística adotado para todas as análises foi de 5%.

Resultados

Os parâmetros que indicam remodelação cardíaca, anatômicos e morfológicos, estão apresentados na Tabela 1 e Figura 1, e os dados de expressão gênica estão apresentados na Figura 2. As variáveis PCF, PVE, relação PVE/PCF e a área seccional de cardiomiócitos (Tabela 1) não mostraram diferença estatística (p > 0,05), nem a expressão das proteínas regulatórias (RyR, SERCA2a, e PLB) (Figura 2). No entanto, o grupo TR apresentou um aumento significativo (p < 0,05) na fração de colágeno intersticial, quando comparado com todos os outros grupos (Tabela 1). Esse aumento não ocorreu quando o TR foi combinado com GH (grupo TRGH) (Tabela 1). Além disso, os grupos treinados (TR e TRGH) apresentaram maiores níveis de CK-MB quando comparados aos não treinados (CT e GH) (Figura 3).

Tabela 1 Parâmetros anatômicos (pesos) expressos em média ± desvio padrão, mediana e percentis a 25% e 75% e área seccional de cardiomiócitos e fração de colágeno intersticial expressos em média ± desvio padrão 

Variáveis Grupos
CT GH TR TRGH
PCF (g) 297,27 ± 22,14 313,81 ± 14,02 304,30 ± 29,08 292,05 ± 15,96
305,10 309 307,10 285,30
[286,90 – 315,00] [300,40 – 332,40] [286,5 – 332,00] [273,40 – 332,40]
PVE (g) 0,74 ± 0,31 0,87 ± 0,25 0,75 ± 0,26 0,77 ± 0,23
0,61 0,74 0,67 0,68
[0,53 – 1,16] [0,62 – 1,14] [0,43 – 0,73] [0,60 – 0,98]
PVE/PCF (mg/g) 2,48 ± 0,95 2,76 ± 0,79 2,55 ± 1,04 2,64 ± 0,81
2,04 2,35 2,12 2,38
[1,85 – 3,80] [2,07 – 3,53] [1,27 – 2,38] [2,03 – 3,35]
ASC (μm2) 343,64 ± 56,67 364,06 ± 48,31 412,84 ± 78,50 344,44 ± 35,43
IC (%) 2,55 ± 1,10 2,19 ± 0,70 5,74 ±2,62 2,54± 0,65

CT: Grupo controle (sem exercício e sem hormônio do crescimento); GH: Grupo sem exercício + hormônio do crescimento; TR: Grupo treinamento resistido; TRGH: Grupo treinamento resistido + hormônio do crescimento; PCF: Peso corpóreo final; PVE: Peso do ventrículo esquerdo; ASC: Área seccional de cardiomiócitos; μm2: Micrômetro; IC: Fração de colágeno intersticial; g: Gramas. * p < 0,05 vs. grupo CT, GH, TRGH.

Figura 1 Técnica de coloração do colágeno miocárdico - Picrosirius Red. Microscópio óptico com objetiva de 40X. O colágeno é corado em vermelho. A – grupo controle (CT); B – grupo hormônio do crescimento (GH); C – grupo treinamento resistido (TR); D – grupo treinamento resistido e hormônio do crescimento (TRGH). 

Figura 2 Níveis relativos de RNAm determinados por qPCR da rianodina (RyR), Ca+2-ATPase do retículo sarcoplasmático (SERCA2a) e fosfolambam (PLB), expressos em média ± desvio padrão. CT: Grupo controle; GH: Grupo hormônio do crescimento; TR: Grupo treinamento resistido; TRGH: Grupo treinamento resistido e hormônio do crescimento. 

Figura 3 Dosagem da creatina quinase fração músculo-cérebro (CK-MB) por análise bioquímica, expressa em média ± desvio padrão. CT: Grupo controle; GH: Grupo hormônio do crescimento; TR: Grupo treinamento resistido; TRGH: Grupo treinamento resistido e hormônio do crescimento. *p < 0,05 (diferença estatisticamente significativa): CT versus TR; p < 0,05 CT versus TRGH; p < 0,05 GH versus TR; p < 0,05 GH versus TRGH. 

Discussão

O objetivo deste estudo foi investigar os efeitos da administração de GH, isolada ou combinada com TR, nos parâmetros morfológicos e na expressão gênica das principais proteínas envolvidas no trânsito de Ca2+ (SERCA2a, PLB e RyR) durante a remodelação cardíaca. Os achados deste estudo foram: 1) o TR isolado atuou na remodelação cardíaca, promovendo aumento na densidade de colágeno no VE; e 2) o GH durante o TR modulou a remodelação cardíaca, atenuando o aumento da fração de colágeno, sem alterar a lesão miocárdica e as proteínas envolvidas no trânsito de Ca2+.

O grupo TR apresentou maior síntese de colágeno em comparação aos outros. Uma possível explicação para esses achados é que a sobrecarga de pressão cardíaca imposta pelo estresse mecânico do TR pode ter induzido a degradação do colágeno e, assim, estimulado a síntese do colágeno.12,13 Essa hipótese é apoiada por estudo anterior que mostrou um aumento na formação de colágeno intersticial induzido pelo treinamento aeróbio ou de resistência.4 O estudo De Souza et al.5 mostrou que a fração do colágeno intersticial aumentou em 2,8% no grupo que realizou TR (grupo controle = 5,5% e grupo treinado = 9%). No nosso estudo, o aumento foi de 2,55% para 5,74%. Nossos valores de fração do colágeno discordam daqueles do estudo de De Souza et al.,5 uma vez que a idade e o peso dos animais eram diferentes. Entretanto, outras pesquisas do nosso grupo com ratos Wistar machos e pesos semelhantes corroboram nossos dados, onde a fração de colágeno variou de 2,5% a 3% no grupo controle.14,15 Nossos resultados expandem as observações anteriores, mostrando pela primeira vez que um aumento na síntese de colágeno pode ocorrer durante TR sem mudança da área seccional de cardiomiócitos. Esse efeito pode ser atribuído, pelo menos em parte, à lesão dos cardiomiócitos16 induzida pelo exercício físico,17-19 como demonstrado no nosso estudo por elevação dos níveis de CK-MB.

Curiosamente, o aumento na síntese de colágeno foi atenuado quando o GH foi combinado com TR. Esse resultado é consistente com estudos prévios que mostraram um efeito cardioprotetor do GH na síntese de colágeno tipo I e III durante a remodelação cardíaca patológica.20,21 Em ratos com hipertrofia ventricular induzida por sobrecarga crônica de pressão, o GH induziu efeito cardioprotetor, atenuando a fibrose miocárdica.21 No entanto, uma limitação do nosso estudo foi não ter analisado o tipo de colágeno (IαI, IαII e III), que pode variar de acordo com o tipo de estímulo (fisiológico ou patológico), bem como com a suplementação de substâncias e a intensidade de exercício. Assim, mais pesquisas são necessárias para determinar o tipo de colágeno e as vias moleculares que são ativadas em resposta a diferentes tipos de exercícios.

Apesar do aumento da síntese de colágeno, nenhuma diferença foi observada na área seccional de cardiomiócitos ou na relação PVE/PCF seguindo TR isolado ou combinado com GH, demonstrando que não ocorreu hipertrofia cardíaca. Os nossos valores da área seccional de cardiomiócitos (grupo CT: média de 343,64 µ2) estão de acordo com os de outro estudo que também utilizou ratos machos Wistar e com pesos semelhantes (grupo controle: 305,6 - 333 µ2).15

Esses resultados discordam daqueles de outros estudos envolvendo diferentes estímulos de sobrecarga.21-26 Por exemplo, Moreira et al.21 não encontraram alterações na relação PVE/PCF de ratos submetidos a sobrecarga crônica de pressão em um modelo de estenose aórtica após um curto período de tratamento com GH (1 mg/kg durante 14 dias). Esses autores mostraram apenas a atenuação da fibrose do miocárdio como efeito cardioprotector, o que indica um efeito específico desse hormônio. Além disso, Sugizaki et al.22 não evidenciaram diferenças de PVE/PCF em ratos submetidos a natação com sobrecarga de peso (5% do peso corporal). Os animais foram submetidos a 5 sessões de natação semanalmente durante 12 semanas consecutivas. No entanto, Baraúna et al.23 observaram um aumento no diâmetro dos cardiomiócitos em ratos submetidos a um protocolo de TR que consistia na extensão do tronco com a sobrecarga do equipamento por 4 séries de 12 repetições com 65% a 75% de uma repetição máxima por 4 ou 12 semanas.

Esse tipo de treinamento induziu hipertrofia cardíaca concêntrica sem disfunção ventricular e diminuição das câmaras. As razões para os resultados conflitantes não são claras, mas eles podem ser devidos ao protocolo de treinamento (período, intensidade, volume) e às doses de GH utilizadas.23,26

Os exatos mecanismos celulares e moleculares relatados referentes aos efeitos do GH e do TR no coração não foram totalmente elucidados23,24,26. Neste estudo não houve alterações nos genes relacionados ao trânsito de Ca2+ cardíaco. Os cardiomiócitos expressam receptores para a secreção de GH e IGF-I e esses receptores são influenciados por alterações hemodinâmicas. Acredita-se que ambos os hormônios têm efeitos estimuladores sobre a contratilidade do miocárdio.26 Além disso, esses hormônios e peptídeos liberadores de GH, tais como a grelina, têm efeitos cardíacos benéficos.26-28 Ma et al.7 mostraram que a ativação do receptor de grelina GHS-R1a produziu um efeito inotrópico em cardiomiócitos isquêmicos resultantes de lesões por isquemia/reperfusão provavelmente por proteger ou recuperar as proteínas do trânsito de Ca2+, como SERCA2a e PLB. Esperava-se no presente estudo que esse efeito na remodelação cardíaca pudesse ser mediado pela elevação na expressão desses genes, devido à administração do GH, uma vez que ele estimula a síntese proteica da célula e a formação de RNAm. Isso, porém, não ocorreu.

Duas possíveis explicações fisiológicas para esse fato poderiam ser a menor sensibilidade do tecido cardiovascular à ação direta do GH24 e o feedback negativo de GH e IGF pela sua administração exógena, o que pode ter interferido na regulação da síntese e secreção de GH.27-29 Além disso, a falta de efeitos do GH sobre o TR e os genes do trânsito de Ca2+ pode dever-se ao protocolo de treino. Estudos anteriores já haviam observado a mudança na expressão gênica de Ca2+ cardíaca após um programa de treinamento de 8 semanas.29-32 Embora o TR promova uma elevação na concentração de Ca2+ no interior da célula, aumentando o grau de contratilidade dos cardiomiócitos e a superexpressão alvo de SERCA2a e, consequentemente, do seu regulador PLB,30,31 nossos resultados mostram que não houve alteração das variáveis em questão no período de tempo avaliado.

Conclusões

O TR promoveu remodelação intersticial do colágeno cardíaco sem alterações da área seccional de cardiomiócitos. Esse aumento, no entanto, não ocorreu quando o TR foi combinado com o GH. Esses resultados indicam que o GH pode atenuar os efeitos do TR na remodelação cardíaca por contrabalançar o aumento da síntese de colágeno, sem afetar a expressão dos genes que regulam o trânsito de Ca2+ cardíaco.

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