Ensino da sexualidade na formação médica no Brasil

Ensino da sexualidade na formação médica no Brasil

Autores:

Andrea Cronemberger Rufino,
Alberto Pereira Madeiro

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.13 no.1 São Paulo jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S1679-45082015ED3306

A inserção da sexualidade nos currículos das escolas médicas se justifica pela associação entre sexualidade e saúde, que pauta cotidianamente o exercício da medicina. Essa associação é notada pela importância conferida à sexualidade nos relacionamentos interpessoais e na qualidade de vida, e, também, pela prevalência das disfunções sexuais na população. Além disso, há altas expectativas dirigidas ao preparo dos médicos para a assistência em saúde sexual, inclusive a grupos vulneráveis, como a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.(1,2)

Apesar desse cenário atual de demandas e expectativas, diversas barreiras são apontadas para uma adequada assistência em saúde sexual. Tais barreiras são antigas e estão relacionadas ao desconforto dos profissionais diante das queixas sexuais dos pacientes, aliado a atitudes heterossexistas, que reforçam vulnerabilidades. A inabilidade de comunicação para a coleta de uma anamnese sexual e o desconhecimento sobre a intersecção entre sexualidade e saúde são também destacados. É nesse contexto que as recomendações para a melhoria da formação médica em sexualidade são reiteradas.(3)

A oferta de temas sexuais nos currículos médicos permanece na pauta mundial dos estudos sobre a sexualidade nos últimos 65 anos. O impacto positivo da inserção de temas sexuais nos currículos médicos foi evidenciado por alunos que apontaram a educação sexual como capaz de ajudá-los a lidar melhor com a própria sexualidade, a reconhecer a diversidade sexual das pessoas e a valorizar as queixas sexuais dos pacientes.(4) Há consenso de que a sexualidade deve ser ofertada em um modelo curricular centrado no aluno e apoiado no tripé constituído por conhecimentos, atitudes e habilidades.(5)

A aquisição de conhecimentos deve abranger aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais da sexualidade. O tópico das atitudes é considerado o mais valioso pela observação de que os alunos não se disponibilizam para aprender em situações de desconforto. Então, promover mudanças de atitude diante de situações que envolvam a sexualidade estimula a mudança de comportamento, melhora o conforto dos alunos com o tema, suas habilidades de comunicação e, ainda, favorece a absorção de conhecimentos.(6)

A aquisição de habilidades prepara para a assistência em saúde sexual. Dessa forma, devem ser enfatizadas as habilidades de comunicação, que incluem falar confortavelmente sobre sexo, com o uso de uma linguagem não discriminatória e apropriada ao gênero. Também deve haver treinamento para ensinar os alunos a coletar uma história sexual, fazer o exame físico genital dos pacientes e diagnosticar as disfunções sexuais em seus aspectos orgânicos, psicológicos e sociais.(6) O ensino da sexualidade deve ser ofertado em uma abordagem interdisciplinar, de forma a permear toda a extensão do currículo médico, garantindo a integralidade da saúde sexual na formação médica.(5,6)

Vários inquéritos mundiais foram realizados para conhecer o número de escolas médicas que oferecem o ensino da sexualidade durante a graduação, os assuntos ofertados e o tempo despendido para tal.(3,7) Recente levantamento nacional evidenciou que 96,3% dos professores de 110 escolas médicas brasileiras ofertam temas sexuais com média de 6 horas por disciplina. No entanto, a abordagem ocorre por um viés organicista, patológico e heteronormativo, de forma fragmentada em disciplinas que não se comunicam. Os aspectos psicológicos e sociais da sexualidade que influenciam nos comportamentos sexuais foram pouco abordados pelos professores. Esses dados destacam a necessidade de melhoria na oferta de educação sexual pelas escolas médicas brasileiras para a garantia da assistência integral à saúde sexual da população.(7)

REFERÊNCIAS

Leiblum SR. An established medical school human sexuality curriculum: description and evaluation. Sex Relation Ther. 2001;16(1):59-70.
National Center for Health Statistics. Healthy People 2010 final review [internet]. Hyattsville, MD; 2012 [Acesso em 29 ago. 2014]. Disponível em: http://www.cdc.gov/nchs/data/hpdata2010/hp2010_final_review.pdf
Coleman E, Elders J, Satcher D, Shindel A, Parish S, Kenagy G, et al. Medical school education in sexual health: Report of an expert consultation. J Sex Med. 2013;10(4):924-38.
Rufino AC, Madeiro AP, Girão MJ. O ensino da sexualidade nos cursos médicos: a percepção de estudantes do Piauí. Rev Bras Educ Med. 2013;37(2):178-85.
Eardley I. A curriculum for sexual medicine? J Sex Med. 2009;6(5):1195-8.
Kingsberg SA, Malemud CJ, Novak T, Cole-Kelly K, Wile MZ, Spanos P, et al. A comprehensive approach to enhancing sexual health education in Case Western Reserve University School of Medicine. Int J Impot Res. 2003;15(Suppl 5):S51-7.
Rufino AC, Madeiro AP, Girão MJ. Sexuality education in Brazilian medical schools. J Sex Med. 2014;11(5):110-7.
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