Ensino sobre Segurança do Paciente em curso de graduação em Enfermagem na perspectiva docente

Ensino sobre Segurança do Paciente em curso de graduação em Enfermagem na perspectiva docente

Autores:

Elena Bohomol

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.23 no.2 Rio de Janeiro 2019 Epub 21-Mar-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2018-0364

INTRODUÇÃO

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Segurança do Paciente é a ausência de danos desnecessários ou danos potenciais associados aos cuidados de saúde1. As estimativas de erros e eventos adversos evitáveis são alarmantes, portanto, cabe discutir ações que devem ser implantadas para a melhoria da assistência2,3. Dentre elas, está o processo de formação dos profissionais do qual fazem parte as instituições de ensino4.

A formação dos estudantes envolve um sistema complexo, com inúmeras variáveis que abarcam diferentes práticas de ensino, diversidade de conteúdo, reflexão permanente sobre as informações da realidade e problematização do método de trabalho, indo muito além dos recursos estruturais disponíveis em cada instituição4.

Há muito tempo que se chama a atenção das organizações formadoras para a necessidade da reavaliação dos currículos, incorporação dos conceitos de Segurança do Paciente e do desenvolvimento de competências específicas, visando à educação dos graduandos com oportunidades para o desenvolvimento da prática interdisciplinar3,5.

Nesse contexto, a OMS, lançou, em 2011, o programa para o ensino multiprofissional, com foco na educação dos futuros dentistas, médicos, obstetrizes, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais que assistem os pacientes, auxiliando gestores, professores e tutores a tratarem desse tema no dia a dia6.

No Brasil, em 2013, o Ministério da Saúde (MS) apresentou o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) e, dentre seus objetivos, está o de fomentar a inclusão do tema Segurança do Paciente no ensino técnico, de graduação e pós-graduação na área da Saúde7.

A formação dos profissionais para o século XXI deve estar direcionada para atender aos princípios da educação transformativa e interprofissional e demanda a transformação dos Projetos Pedagógicos (PP) das escolas8.

No tocante ao ensino sobre Segurança do Paciente no Brasil, a Enfermagem destaca-se nessa discussão, uma vez que representa a maior força de trabalho em Saúde, lida diretamente com o paciente e seus familiares e deve estar preparada para responder às necessidades do sistema de saúde8. Suas contribuições passam por pesquisas sobre o tema, propostas para a melhoria das organizações e protagonismo sobre a discussão das necessidades de mudança na formação dos profissionais8-9.

A Rede Brasileira de Enfermagem e Segurança do Paciente (REBRAENSP), fundada em 2008 e vinculada à Organização Pan-Americana de Saúde e à OMS, dissemina a cultura de Segurança do Paciente em instituições de saúde e de ensino por meio do trabalho de seus polos e núcleos, fomentando, assim, a discussão sobre a necessidade da construção do cuidado seguro e de qualidade10.

Por se tratar de um assunto novo nos currículos, estudos têm sido realizados nas matrizes curriculares de cursos de graduação na área da Saúde, e também em Enfermagem, a fim de se conhecer o que é ensinado sobre Segurança do Paciente e se promover a reflexão sobre mudanças curriculares11,12. São tipos de estudos importantes e encontram convergência nas diretrizes do guia da OMS, pois orientam que, primeiramente, as escolas devem analisar o currículo existente e determinar os pontos que já são ensinados por meio de um mapeamento, para identificar as oportunidades de incluir os princípios e conceitos novos6.

O guia não determina que haja uma disciplina isolada sobre Segurança do Paciente no PP, mas enfatiza a importância da integração entre as diversas áreas do conhecimento e linhas do cuidado à saúde. Além disso, o guia aborda uma variedade de métodos de ensino que podem ser empregados para introduzir os tópicos sobre Segurança do Paciente e, também, estratégias de avaliação com diversos formatos para que sustentem os objetivos pedagógicos ao fim da aprendizagem.6

Com vistas a atender o que preconiza a Resolução nº 569/2017, as escolas devem considerar essa temática em seus PP, pautando o seu compromisso com o PNSP na busca das melhores evidências científicas para a redução de agravos e iatrogenias13. Como contribuição para a temática, o estudo tem por objetivo identificar os conteúdos relacionados à Segurança do Paciente contemplados nas Unidades Curriculares (UC) de um curso de graduação em Enfermagem, segundo docentes que atuam em uma instituição pública brasileira, além de conhecer as metodologias de ensino e estratégias de avaliação utilizadas.

MÉTODO

Estudo de caso descritivo, com abordagem qualitativa, uma vez que se centra na identificação de um evento contemporâneo, de difícil quantificação que é o ensino sobre Segurança do Paciente.14 O estudo foi realizado no curso de graduação de Enfermagem de uma instituição pública federal, fundada em 1939, na região metropolitana de São Paulo, que busca formar enfermeiros generalistas, com competências para atuar nas dimensões biopsicossociais que envolvem o processo de saúde, doença e cuidado do indivíduo, família e comunidade, com base nos princípios do Sistema Único de Saúde. Tem carga horária de 4.652 horas, período integral, duração de quatro anos e é estruturado em três áreas de conhecimento: Ciências Biológicas e da Saúde; Ciências Humanas e Sociais; e Ciência da Enfermagem. O curso é baseado nas Diretrizes Curriculares Nacionais de 2001, e promoveu a mudança de currículo no ano de 2010, tendo implantado o novo PP em 2012, vigente até a coleta de dados15.

O PP é estruturado de modo tradicional, e os estudantes aprendem, primeiramente, as Ciências Biológicas e da Saúde (básicas) e as Ciências Humanas e Sociais para então se concentrarem em áreas específicas necessárias à prática da profissão relacionadas à Ciência da Enfermagem, sem que haja uma abordagem integrada entre as UC, eixos ou departamentos.

A população foi constituída pelos docentes responsáveis por UC do curso de graduação em Enfermagem, cuja identificação foi confirmada pela secretaria acadêmica do curso. São denominadas UC as modalidades obrigatórias que compõem o PP com conteúdo e duração referendados pela Comissão de Curso e Conselho de Graduação da Universidade. São ministradas na categoria disciplina (contemplam atividades teóricas ou teórico-práticas) ou estágio (contemplam atividades eminentemente práticas)

O critério de inclusão dos participantes foi a identificação de sua UC em um estudo documental16, ocasião em que foram analisados os PP dos cursos da Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia e Medicina da mesma universidade. Foram convidados 25 docentes, primeiramente pessoalmente e depois, oficialmente, por convite eletrônico, com um link para o Google Docs. No caso do aceite, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido era apresentado e somente após a concordância confirmada no sistema é que as três telas relacionadas à pesquisa eram disponibilizadas. Cada tela continha três partes: a pergunta, o texto e um campo para a resposta. A primeira tela constituía-se da pergunta “Qual conteúdo sobre Segurança do Paciente você ensina?”, seguida do texto com a apresentação dos tópicos do guia e conteúdos possíveis de serem ensinados, conforme os termos rastreadores baseados nos tópicos do guia da OMS.

A segunda tela apresentava a pergunta “Qual(is) metodologia(s) de ensino você utiliza?” e uma lista com metodologias de ensino extraídas do guia da OMS. Na terceira tela, foi apresentada a pergunta “Qual(is) estratégia(s) de avaliação você utiliza?” e uma lista de estratégias de avaliação também extraídas do guia.

As respostas às questões foram redigidas pelos participantes em campo aberto, sem limitação de espaço, para que pudessem ponderar, elaborar e revisar seus próprios textos. O envio das informações do formulário Google Docs dava-se por meio eletrônico e era acessado somente pelo pesquisador ao abrir a tela “exibir resumo das respostas”.

Participaram 15 docentes, que responderam a um questionário online. Foram excluídos os participantes que não enviaram suas respostas após três lembretes quinzenais. Os dados foram coletados no período de julho a outubro de 2014.

Para a análise dos dados, tomou-se como referência o guia da OMS, que estabelece orientações para o ensino da segurança do paciente quanto a conteúdo, metodologia e avaliação. O guia da OMS é considerado um documento eficaz para integrar e fortalecer a formação acadêmica e profissional visando a Segurança do Paciente e a qualidade do cuidado em saúde, disponibilizando requisitos e ferramentas que devem ser incorporadas na educação17-18.

Os dados foram operacionalizados mediante a leitura das respostas e para a organização das informações foi utilizada a planilha Excel®. Foi feita uma análise classificatória, ou seja, a partir da identificação da resposta do participante, essa era alocada em um dos tópicos do guia da OMS, em relação a conteúdo, formatos e estratégias de ensino e avaliação sugeridos em cada um. A interpretação dos achados foi feita a partir dessa classificação.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, parecer nº 9852 de 25 de abril de 2012, respeitando os preceitos éticos previstos na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Os 15 docentes que participaram do estudo eram responsáveis pelas UCs de Fundamentos, Métodos e Técnicas de Ensino e Epidemiologia, ministradas na primeira série; Administração Geral e Economia, Gerenciamento de Serviços de Saúde e Enfermagem (GSSE) I, Enfermagem em Saúde Mental e Enfermagem Clínica, ministradas na segunda série; Sistemas e Tecnologias da Informação e Comunicação em Saúde, Integralidade da Assistência à Saúde, GSSE II, Enfermagem na Promoção à Saúde da Criança e do Adolescente, Legislação e Ética; Enfermagem em Pediatria Clínica e Cirúrgica, Enfermagem na Saúde Neonatal, ministradas na terceira série; e Enfermagem em Emergência e GSSE III, ministradas na 4ª série do curso.

O Quadro 1 apresenta os oito tópicos do guia da OMS e sua distribuição entre as séries e UCs apontados pelos docentes do curso de graduação em Enfermagem.

Quadro 1 Panorama dos tópicos do guia da Organização Mundial da Saúde sobre o ensino em Segurança do Paciente e distribuição entre as sérias e Unidades Curriculares.  

Tópico 1ª. série 2ª. série 3ª. série 4ª. série
O que é a Segurança do Paciente - - - -
Por que empregar fatores humanos é importante para a Segurança do Paciente - - -
A compreensão dos sistemas e do efeito de complexidade no cuidado ao paciente - A B C D E
Atuar em equipe de forma eficaz F G H I E J
Aprender com os erros para evitar danos - - - -
Compreender e gerenciar os riscos clínicos - K - -
Usar métodos de melhoria da qualidade para melhorar a assistência L G C E J
Envolver pacientes e cuidadores F K B -
Prevenção e controle de infecções F L G M -
Segurança do Paciente e procedimentos invasivos - - N O -
Melhorar a segurança no uso da medicação - G O -

Nota: A = Administração Geral e Economia; B = Enfermagem na Promoção à Saúde da Criança e do Adolescente; C = Gerenciamento de Serviços de Saúde e Enfermagem II; D = Integralidade da Assistência à Saúde; E = Enfermagem em Emergência; F = Fundamentos, Métodos e Técnicas de Ensino; G = Enfermagem Clínica; H = Gerenciamento de Serviços de Saúde e Enfermagem I; I = Legislação e Ética; J = Gerenciamento de Serviços de Saúde e Enfermagem III; K = Enfermagem em Saúde Mental; L = Epidemiologia; M = Enfermagem na Saúde Neonatal; N = Enfermagem em Pediatria Clínica e Cirúrgica; O = Sistemas e Tecnologias da Informação e Comunicação em Saúde.

Os conteúdos apontados foram diversos e se distribuem de modo heterogêneo, por vezes repetidos, na matriz curricular. Destacam-se, no tópico “A compreensão dos sistemas e do efeito de complexidade no cuidado ao paciente”, conteúdos que abordam a estrutura organizacional, o sistema de saúde, os processos de trabalho, a interdisciplinaridade e as defesas e barreiras nos sistemas, ministrados a partir da segunda série do curso.

O tópico “Atuar em equipe de forma eficaz” é abordado ao longo da formação do estudante, com conteúdos relacionados a o que é a equipe, diferentes tipos de equipes encontrados na atenção à saúde, coordenação de equipe, avaliação do desempenho do trabalho em equipe, liderança eficaz e resolução de conflitos.

O tópico “Compreender e gerenciar os riscos clínicos” aborda aspectos relacionados à organização e ambiente de trabalho, comunicação e má-comunicação e estresse, pontuados na segunda série do curso e em uma UC.

O tópico “Usar métodos de melhoria da qualidade para melhorar a assistência” trata do uso de indicadores, processos de melhoria da prática clínica, melhoria de processos e utilização de ferramentas de qualidade e acontece ao longo de toda a matriz curricular.

O tópico “Envolver pacientes e cuidadores” traz conteúdos relacionados a direitos do usuário, consentimento informado, privacidade e autonomia do paciente, respeito às diferenças entre os pacientes, implicações legais do erro, formas de envolver o paciente e profissionais nas decisões de saúde e são ensinados nas três primeiras séries do curso.

Da mesma forma, o tópico “Prevenção e controle de infecções” aborda os temas referentes às infecções relacionadas à assistência à saúde em diversos cenários de assistência, incluindo aspectos relacionados a infecções comunitárias, resistência antimicrobiana, uso de equipamentos de proteção individual e coletiva, imunizações, apresentação das diretrizes atualizadas sobre o tema.

O tópico “Segurança do Paciente e procedimentos invasivos” aborda assuntos relacionados à Segurança do Paciente cirúrgico, eventos adversos relacionados aos procedimentos cirúrgicos e outros procedimentos invasivos, complicações no sítio cirúrgico e gerenciamento do paciente em sala operatória.

O tópico “Melhorar a segurança no uso da medicação” apresenta conteúdos relacionados ao sistema de medicação e processo de prescrição, distribuição e administração, acesso do usuário aos medicamentos, efeito colateral, reação adversa ao medicamento, erros de medicação e seus tipos, conciliação medicamentosa, medicamentos de alta-vigilância e sistemas de apoio à decisão bastante aprofundados nas segunda e terceira séries do curso.

Do total de tópicos do guia da OMS, três não tiveram nenhum conteúdo identificado, a saber: “O que é a Segurança do Paciente”, “Por que empregar fatores humanos é importante para a Segurança do Paciente” e “Aprender com os erros para evitar danos”, evidenciando lacunas no PP.

Quanto às metodologias de ensino e avaliação, os docentes relataram diferentes formatos. Para o tópico “A compreensão dos sistemas e do efeito de complexidade no cuidado ao paciente”, foi apontada a utilização da leitura de artigos e texto, palestra interativa, pequenos grupos de atividades com tutor e seminários para o ensino. Para a avaliação, solicitava-se a entrega de relatórios, realizava-se a observação direta do contexto da prática simulada e real e a verificação de portfólio.

Para o tópico “Atuar em equipe de forma eficaz”, foram referidas as estratégias de ensino que incluíam a análise e discussão de caso, aprendizagem baseada em problemas, aula expositiva, palestra por convidados, simulação de alta e baixa fidelidade e tribunal de júri simulado. Para as avaliações, utilizavam-se a apresentação de projeto, apresentação oral, autoavaliação, avaliação formal com perguntas abertas e fechadas e participação no tribunal de júri simulado.

As metodologias de discussão de caso, demonstrações práticas e dramatização estavam relacionadas ao ensino do tópico “Compreender e gerenciar os riscos clínicos” e a entrega de relatório de estudo de caso, participação na reunião clínica e autoavaliação eram utilizadas para sua avaliação.

No tópico “Usar métodos de melhoria da qualidade para melhorar a assistência”, foram indicados como métodos de ensino a aula expositiva, discussão de caso, leitura de textos, estudo dirigido - modalidade à distância, palestra por convidados e visita às unidades de internação de pacientes e outros serviços. Para sua avaliação, os docentes utilizavam a apresentação de estudo de caso e trabalhos, entrega de relatórios, exame escrito e exercícios.

Encontrou-se como estratégias para o ensino do tópico “Envolver pacientes e cuidadores” o método de projetos, observação, exposição dialogada, supervisão clínica e seminários. E como estratégias de avaliação foram citadas aquelas realizadas por pares com instrumento estruturado para o método de projetos, avaliação formal e informal, o cumprimento do roteiro de observação direta na prática real e a autoavaliação.

No tópico “Prevenção e controle de infecções”, observou-se a utilização da aprendizagem baseada em problemas, demonstração prática, estudo de caso, aula expositiva, discussão de artigos e visitas clínicas com discussão dos casos como estratégias didáticas. Para a avaliação desse tópico, foram citadas as estratégias de apresentação de estudo de caso e relatórios, observação direta do contexto da prática real, avaliação por pares com instrumento estruturado, avaliação formal com perguntas abertas e fechadas e avaliação oral.

Em relação à “Segurança do Paciente e procedimentos invasivos”, os docentes relataram utilizar a aula teórica, demonstrar sistemas e aplicativos, prática e leitura de artigos para o ensino e elencaram a avaliação formal com testes, participação em chats, foros e tarefas - modalidade à distância e avaliação formal com perguntas fechadas como estratégias de avaliação.

Para o ensino do tópico “Melhorar a segurança no uso da medicação”, foram citadas as estratégias de demonstração de sistemas e aplicativos, discussão de artigos, estudo de caso, seminários e visita clínica com discussão dos casos. A avaliação formal com testes, participação em chats, foros e tarefas - modalidade à distância, avaliação oral, apresentação de seminários e autoavaliação foram mencionadas como forma de avaliar o tópico.

Verificou-se que algumas estratégias de ensino são similares entre si, como aula teórica ou aula teórica dialogada. Foram apontadas metodologias que se referem a uma abordagem mais tradicional, como aula expositiva, leitura de textos e artigos. Outras retratam uma abordagem mais inovadora, como dramatização, tribunal de júri simulado, simulação de alta e baixa fidelidade, metodologia de projetos e pequenos grupos de atividades com o tutor.

Considerando o ensino no curso de Enfermagem, observou-se que algumas abordam aspectos teóricos, como a discussão de artigos e seminários, e outras contemplam o desenvolvimento prático, como observação, visitas clínicas com análise e discussão dos casos e supervisão clínica. Verificou-se, ainda, a utilização da aprendizagem baseada em problemas, metodologia que prima pelo desenvolvimento de habilidades críticas de pensamento e resolução de problemas nos estudantes. Os docentes indicaram a utilização de recursos tecnológicos para auxílio no ensino, como sistemas e aplicativos ou modalidade à distância.

Os participantes relataram também utilizar avaliações mais tradicionais, como avaliação formal, avaliação oral ou com abordagem mais inovadora, como a participação em tribunal de júri simulado ou chats, foros e tarefas na modalidade à distância. Além de avaliações que primam pelo aspecto teórico, algumas estratégias foram contempladas para a avaliação da parte prática, como a apresentação de estudo de caso clínico, observação direta do contexto da prática real ou simulada e autoavaliação. Verificou-se, também, que estratégias utilizadas para avaliação são tanto de ensino, como o portfólio.

DISCUSSÃO

A pesquisa permitiu ampliar o conhecimento sobre como se ensina Segurança do Paciente em um curso de graduação em Enfermagem de uma escola pública, como também identificar as estratégias de ensino e de avaliação, permitindo conhecer melhor o processo formativo por meio das informações dos docentes.

Verificou-se que um contingente grande de conteúdo é ensinado pelos professores, e dado semelhante foi encontrado em estudo documental que analisou os currículos de Escolas de Enfermagem no município de São Paulo12.

A despeito do número de inserções sobre o tema, na escola estudada não houve uma discussão para a modificação do PP no que concerne à Segurança do Paciente. No entanto, entende-se ser esse um passo fundamental para o atendimento da Resolução nº 569/2017, que reforça que os núcleos de conhecimento e práticas considerem essa temática em sua matriz13. Um estudo demonstrou a heterogeneidade dos PP dos cursos de graduação em Enfermagem, seja no Brasil seja nos demais países da América Latina e do Caribe, e apresentou inúmeras recomendações, dentre as quais, a revisão periódica dos currículos e o desenvolvimento de monitoramento da qualidade na avaliação, no relato de avaliação e nos planos de aperfeiçoamento, como recomendado pela OMS8.

Corrobora essa informação um estudo que avaliou a implementação dos temas de segurança nos cursos da área da Saúde, em países de baixa e média renda, revelando que a maioria deles (69%) estava considerando a possibilidade de implementar um novo currículo baseado no guia da OMS sobre o ensino de Segurança do Paciente. No entanto, mesmo reconhecendo a necessidade de melhorar a educação dos estudantes nesse aspecto, foram apontadas barreiras para a mudança curricular, como a falta de compromisso governamental, parcos recursos financeiros, indefinição de ferramentas de avaliação, falta de lideranças com conhecimento e habilidade para fazê-lo e também informações insuficientes para permitir que o corpo docente participe de sua construção18.

Um estudo apresenta o Guia da OMS como um referencial importante para as mudanças curriculares concernentes à implantação de conteúdos sobre Segurança do Paciente, revelando-se ser culturalmente apropriado para diferentes países em diferentes continentes17.

Notadamente, a pesquisa apresenta o engajamento dos docentes de diversas UC no desenvolvimento de conteúdos sobre Segurança do Paciente. No entanto, não se reconhece, claramente, integração entre elas, entre as séries, nas formas de ensino ou de avaliação. O ensino sobre Segurança do Paciente não está explicitado no PP15.

A incorporação da Segurança do Paciente no ensino de graduação em Enfermagem ainda enfrenta muitos desafios em todo o mundo e, por isso, há a necessidade de um olhar atento para essa questão. Dentro de uma instituição de ensino, é necessário que haja consenso sobre os elementos que devem ser abordados, quais metodologias devem ser adotadas para o desenvolvimento dos conteúdos, quais competências serão desenvolvidas no estudante, permitindo combinar os aspectos teóricos e práticos da formação19. Reforça-se, com isso, a necessidade de desenvolver e integrar a Segurança do Paciente ao currículo em ambiente de aprendizagem desafiador e, para isso, é necessário preparo dos professores e recursos disponíveis para que o ensino seja promovido em todos os contextos de formação.6

Neste estudo, foram encontradas lacunas no ensino que impedem uma visão global sobre Segurança do Paciente, como cultura da culpa, modelos de segurança, eventos adversos, custos humanos e econômicos, ambiente de trabalho, ergonomia nos cuidados ao paciente, fadiga e estresse no desempenho profissional, como aprender com erros, notificação de erros que dizem respeito aos tópicos “O que é a Segurança do Paciente”, ”Por que empregar fatores humanos é importante para a Segurança do Paciente” e “Aprender com os erros para evitar danos”. Uma pesquisa realizada com estudantes de dois cursos de graduação em enfermagem apontou para as fragilidades do ensino de determinados conteúdos e destacou a importância de se abordarem temas, como a cultura da culpa para impedir a continuidade da cultura da punição e possibilitar a compreensão do erro como uma oportunidade de aprendizado, estimulando reflexões para a melhoria dos processos de trabalho da enfermagem.11

Estudo internacional apontou para esses itens como bastante difíceis de implementar em um currículo da área da saúde e ainda acrescentou o tópico “Atuar em equipe de forma eficaz”, sendo um dos mais complexos, diferentemente do achado nesta pesquisa.18

Os resultados indicaram o desenvolvimento do conhecimento por parte dos alunos em relação a “Prevenção e controle de infecções”, “Segurança do Paciente e procedimentos invasivos” e “Melhorar a segurança no uso da medicação”, demonstrando alinhamento com os desafios globais propostos pela OMS e PNSP.6-7 Em um estudo documental sobre os PP dos cursos de Enfermagem, os autores apontaram para a importância desses tópicos, referindo serem frequentes nos conteúdos programáticos e destacando a necessidade de estarem articulados ao longo do curso e com as demais disciplinas que compõe o PP12.

Os resultados revelaram que os conteúdos sobre Segurança do Paciente são abordados desde a primeira série do curso, e o estudante tem contato com eles ao longo de sua formação. Estudos destacam a importância de se formarem enfermeiros competentes em Segurança do Paciente, enfatizando a necessidade de esses aspectos serem lecionados desde o início do curso e que seja um procedimento continuado durante todo o processo formativo. Dessa forma, há um melhor desenvolvimento de conhecimentos, atitudes, valores, habilidades e práticas que conscientizem os futuros profissionais a promover e melhorar o cuidado seguro do paciente19-20.

A pesquisa identificou a utilização de diferentes metodologias de ensino, sendo, inclusive, diversas dentro de uma mesma UC. Ficou clara a coexistência de metodologias tradicionais e inovadoras, não havendo clareza de uma orientação dos referenciais teórico-metodológicos que conduzem a atividade docente. Um estudo demonstrou a necessidade de modificar a visão tradicional do processo ensino/aprendizagem voltada à Segurança do Paciente por meio da inserção de metodologias ativas, mais favoráveis e efetivas na formação dos profissionais.9 Corrobora essa afirmativa outro estudo sobre a educação em Enfermagem que recomenda a utilização, pelo corpo docente, de estratégias para promover a aprendizagem ativa8.

Em relação ao ensino sobre Segurança do Paciente, a OMS orienta que o professor adote as estratégias que julgue funcionar bem e o façam se sentir confortável. O que se deseja é que o professor desenvolva habilidades para formular atividades de aprendizagem envolventes, levando em consideração o tempo e os recursos disponíveis6,21. Essas recomendações vão ao encontro da necessidade de transformações no ensino ao se adotarem novas práticas cognitivas permeadas pelas múltiplas inteligências individuais e de forma integrada4,22.

A avaliação é parte integrante de qualquer currículo e, no presente estudo, verificou-se uma diversidade de estratégias utilizadas. Muitas delas estão relacionadas à uma abordagem mais tradicional, que objetiva verificar a reprodução do conteúdo comunicado em sala de aula para evidenciar o quanto de informação foi apreendida23.

O estudo demonstrou também que são adotadas estratégias com abordagens mais inovadoras em que a avaliação consiste em verificar se o estudante aprendeu, atingindo os objetivos propostos pela UC. Esse tipo de avaliação é visto como parte integrante das próprias condições para a ocorrência da aprendizagem e está relacionado a conhecer se os comportamentos finais desejados foram adquiridos4,6.

O processo avaliativo é importante pois a Segurança do Paciente não deve ser um aspecto pontual dentro do currículo da Saúde, por ter repercussões nas práticas assistenciais ao longo da vida profissional23. A avaliação sobre ser competente em Segurança do Paciente é tão ou mais complexa do que aquelas que ocorrem ao longo dos cursos da área em Saúde. Não se trata apenas de dizer que o estudante realizou bem determinada atividade, mas se há um desenvolvimento contínuo de conhecimentos e habilidades nesse aspecto. Como a Segurança do Paciente depende de um complexo conjunto de fatores e pessoas, um dos principais desafios enfrentados pela educação é encontrar instrutores ou profissionais de saúde adequados para ensinar a Segurança do Paciente no ambiente da prática4,9.

CONCLUSÃO E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

Verificou-se um número expressivo de conteúdos sobre Segurança do Paciente desenvolvidos ao longo da matriz curricular do curso de graduação em Enfermagem baseados no guia da Organização Mundial da Saúde. Os tópicos não são ensinados como um curso autônomo, mas são incorporados a diversas e diferentes unidades curriculares.

O estudo demonstrou que os docentes estão envolvidos com o tema, mas que não há integração entre unidades curriculares e séries no intuito de estabelecer um consenso sobre os elementos que devem ser abordados, além do alinhamento e desenvolvimento dos conteúdos com metodologias apropriadas.

Os estudantes de Enfermagem têm um engajamento com a Segurança do Paciente desde a primeira série do curso, o que pode representar um impacto significativo no desenvolvimento e na moldagem de seus conhecimentos, habilidades e comportamentos para a prestação de cuidados seguros.

Foi observado que são utilizadas diversas metodologias de ensino, tanto tradicionais quanto inovadoras. Embora se recomende a utilização de diferentes estratégias, as que dizem respeito às metodologias ativas devem ser incorporadas ao ensino de Segurança do Paciente.

As estratégias de avaliação mencionadas também refletem a coexistência de aspectos tradicionais e inovadores e a avaliação voltada à Segurança do Paciente não deve ser um aspecto pontual dentro do currículo da saúde, uma vez que traz repercussões nas práticas assistenciais ao longo da vida do futuro profissional.

A pesquisa traz contribuições para o ensino de graduação, considerando o movimento mundial para a adequação curricular. Entende-se ser importante uma avaliação do projeto pedagógico da escola para alinhar os tópicos apontados pelo guia da Organização Mundial da Saúde, discutir as metodologias de ensino e estratégias de avaliação para possibilitarem o desenvolvimento pleno dessa temática no curso em si e também nos demais cursos da área da Saúde.

Como limitação da pesquisa, considera-se que os participantes que representaram a população do estudo foram identificados a partir dos dados de uma pesquisa documental realizada previamente no projeto pedagógico do curso de Enfermagem, podendo ter ocorrido perdas na amostra retratada.

Sugerem-se novos estudos sobre o ensino da Segurança do Paciente em cursos de graduação em Enfermagem, utilizando-se outros métodos de pesquisa que estimulem a participação dos docentes e discentes e que possiblitem realizar avaliações sobre as modificações implantadas nos projetos pedagógicos dos cursos e seus impactos na assistência à saúde.

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