Entendendo os testes diagnósticos. Parte 1.

Entendendo os testes diagnósticos. Parte 1.

Autores:

Juliana Carvalho Ferreira,
Cecilia Maria Patino

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.43 no.5 São Paulo set./out. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s1806-37562017000000330

CENÁRIO PRÁTICO

Um grupo de pesquisadores fez um estudo para determinar a acurácia dos níveis séricos de procalcitonina para diagnosticar derrame pleural parapneumônico (DPP) e diferenciá-lo de outras causas de derrame pleural. Eles constataram que a procalcitonina (com valor de corte de 0,195 ng/ml) apresentou sensibilidade de 83% e especificidade de 80% para diagnosticar DPP e foi capaz de diagnosticar com acurácia indivíduos com DPP.1

USANDO TESTES DIAGNÓSTICOS NA PRÁTICA CLÍNICA

Os clínicos frequentemente enfrentam o desafio de diagnosticar uma doença com base nos resultados de testes diagnósticos. No entanto, a maioria dos testes diagnósticos usados na prática clínica não é perfeita e produz resultados falso-positivos (o teste é positivo, mas o paciente não tem a doença) e resultados falso-negativos (o teste é negativo, mas o paciente tem a doença). Portanto, aprender a interpretar as propriedades dos testes diagnósticos é uma competência essencial para clínicos e pesquisadores. Neste artigo, discutimos sensibilidade e especificidade. Nas próximas partes discutiremos valores preditivos positivos e negativos, bem como curvas ROC.

A sensibilidade e a especificidade são medidas importantes de um teste diagnóstico porque nos dão uma ideia de quão bom é o desempenho de um novo teste diagnóstico em comparação com o de um teste padrão ouro existente. Sensibilidade é a proporção de indivíduos que têm a doença e apresentam teste positivo. No exemplo apresentado na Tabela 1, o número de verdadeiro-positivos (n = 39) dividido pelo total de indivíduos com a doença (n = 47) resulta em 83%. A especificidade é a proporção de indivíduos que não têm a doença e apresentam teste negativo. No exemplo, o número de verdadeiro-negativos (n = 81) dividido pelo total de indivíduos sem a doença (n = 101) resulta em 80%.

Tabela 1 Desempenho diagnóstico da dosagem sérica de procalcitonina na identificação de derrame pleural parapneumônico. 

Resultado DPP Total
+
PCT+ a = 39 b = 20 59
PCT− c = 8 d = 81 89
Total 47 101 148

Dados extraídos de He et al.1 PCT: procalcitonina; DPP: derrame pleural parapneumônico. Sensibilidade (coluna cinza claro) = a/(a + c). Especificidade (coluna cinza escuro) = b/(b + d).

Quando um novo teste diagnóstico é avaliado, o pesquisador estabelece um ponto de corte que define se o teste é positivo ou negativo, e há sempre uma troca entre sensibilidade e especificidade. Em nosso exemplo, se o ponto de corte para que a dosagem sérica de procalcitonina fosse considerada positiva diminuísse de 0,195 ng/ml para 0,095 ng/ml, é possível que mais casos de DPP fossem detectados, diminuindo a taxa de resultados falso-negativos e aumentando a sensibilidade; no entanto, haveria também mais resultados positivos em indivíduos sem DPP, aumentando a taxa de resultados falso-positivos e diminuindo a especificidade. Essa troca entre sensibilidade e especificidade em diversos pontos de corte possíveis pode ser usada para traçar uma curva ROC e descrever o desempenho geral do teste de discriminar entre presença e ausência da doença; a sensibilidade e a especificidade também podem ser usadas para calcular as razões de verossimilhança, como veremos mais adiante nesta série.

Sensibilidade e especificidade são medidas úteis para avaliar o desempenho de um teste diagnóstico, mas não são muito úteis para ajudar a tomar decisões clínicas personalizadas.2 Quando um clínico tem um paciente cujo teste apresentou resultado positivo, a pergunta mais importante é a seguinte: dado que o teste é positivo, qual é a probabilidade de o paciente ter a doença? A sensibilidade do teste não nos diz isso, mas sim a probabilidade de um resultado positivo, dado que o paciente tem a doença. Discutiremos medidas clínicas de diagnóstico mais relevantes na parte 2 desta série.

REFERÊNCIAS

1 He C, Wang B, Li D, Xu H, Shen Y. Performance of procalcitonin in diagnosing parapneumonic pleural effusions: A clinical study and meta-analysis. Medicine (Baltimore). 2017;96(33):e7829.
2 Altman DG, Bland M. Diagnostic tests. 1: Sensitivity and specificity. BMJ. 1994;308(6943):1552.
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