Envolvimento em ocupações sustentáveis: mudanças nos hábitos de vida a partir de espaços de práticas educativas

Envolvimento em ocupações sustentáveis: mudanças nos hábitos de vida a partir de espaços de práticas educativas

Autores:

Fabiana Caetano Martins Silva e Dutra,
Williane Martinho Roberto,
Bruna Lopes Coelho,
Ricardo Almeida

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional

versão On-line ISSN 2526-8910

Cad. Bras. Ter. Ocup. vol.26 no.2 São Carlos abr./jun. 2018

http://dx.doi.org/10.4322/2526-8910.ctoao1143

1 Introdução

O conceito de sustentabilidade, com o enfoque que conhecemos hoje, surgiu na década de 1970, em especial após a publicação do Relatório Brundtland, no qual desenvolvimento sustentável foi conceituado como o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades (JACOBI, 2005). O desenvolvimento sustentável foi reconhecido em 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, quando a comunidade internacional adotou a ideia de que o desenvolvimento socioeconômico e o meio ambiente devem ser geridos de uma forma mutuamente benéfica (LIMA, 2006). Até então, estes conceitos eram tratados separadamente.

Em 1983, foi estabelecida a Comissão Mundial das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que investigou os graves e negativos impactos das atividades humanas sobre o Planeta. Esta comissão identificou como os padrões de crescimento e desenvolvimento poderiam se tornar insustentáveis caso os limites dos recursos naturais não fossem respeitados (BARBOSA, 2008). Já em 1992, o conceito de desenvolvimento sustentável se tornou o pilar da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92), realizada no Rio de Janeiro, Brasil. Este encontro foi um marco internacional que reconheceu o desenvolvimento sustentável como o grande desafio dos dias atuais e também assinalou a primeira tentativa internacional de elaborar planos de ação e estratégias neste sentido (JACOBI, 2005; BARBOSA, 2008).

De forma geral, sustentabilidade é um termo usado para definir ações e atividades que visam suprir as necessidades atuais dos seres humanos. Sua prática está relacionada ao desenvolvimento econômico e ao uso de materiais que não agridam o meio ambiente, usufruindo dos recursos naturais de forma inteligente. Assim, o conceito de desenvolvimento sustentável tem sua estrutura organizada sobre quatro componentes ou dimensões: ambiental, econômica, sociopolítica e cultural (BARBOSA, 2008; DIAZ-SIEFER et al., 2015).

A dimensão ambiental consiste na manutenção das funções e dos componentes dos ecossistemas para assegurar que continuem viáveis e capazes de se autorreproduzir e se adaptar a alterações, para manter a sua variedade biológica. A sustentabilidade econômica é um conjunto de medidas e políticas que visam à incorporação de preocupações e conceitos ambientais e sociais. O lucro passa a ser medido também por meio de uma perspectiva social e ambiental, o que leva à otimização do uso de recursos e à gestão de tecnologias que economizem materiais e energia (JACOBI, 2005; BARBOSA, 2008; DIAZ-SIEFER et al., 2015).

A dimensão sociopolítica é orientada para o desenvolvimento humano, a estabilidade das instituições públicas e culturais, bem como para a redução de conflitos sociais. É um veículo de humanização da economia e, ao mesmo tempo, pretende desenvolver o tecido social nos seus componentes humanos e culturais (JACOBI, 2005). Nesse sentido, a dimensão sociopolítica torna-se indissociável do processo de cidadania e, aliada à educação ambiental, constrói a possibilidade da ação política na sociedade, de modo a contribuir significativamente para formar uma coletividade mais responsável pelo mundo que habita (SORRENTINO et al., 2005).

Por fim, a quarta dimensão do desenvolvimento sustentável se refere aos aspectos culturais e leva em consideração como os povos percebem os seus recursos naturais. A integração das especificidades culturais na concepção, medição e prática do desenvolvimento sustentável é fundamental, uma vez que assegura a participação da população local nos esforços de desenvolvimento (BARBOSA, 2008). Na busca por respostas teóricas e práticas frente à crise ambiental, persistem questionamentos sobre como utilizar a educação como instrumento no processo de criação e promoção de valores, ideias e atitudes favoráveis à preservação do meio ambiente. Trata-se, portanto, de um desafio para encontrar caminhos que estimulem a reprodução de uma cultura capaz de socializar os aspectos da vida humana e da natureza, visando à transformação de uma herança cultural em que predominam processos de degradação social e ambiental (LIMA, 2009).

Neste contexto, a sustentabilidade socioambiental ultrapassa o enfoque economicista do desenvolvimento e aponta para mudanças que ressignificam práticas sociais e econômicas já estabelecidas na sociedade. O desafio de um desenvolvimento sustentável necessariamente contempla as inter-relações do meio natural com o social, incluindo os diferentes atores envolvidos. Assim, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável são conceitos que poderiam abordar a relação entre as atuais ocupações humanas e suas consequências para o amanhã (PERSSON; ERLANDSSON, 2014). Dito de outra forma, as ocupações diárias dos seres humanos podem ou não contribuir de forma sustentável, criativa e saudável para o Planeta, tanto em um contexto micro quanto macrossocial.

Uma perspectiva macrossocial de análise do desenvolvimento sustentável enfoca o avanço do conhecimento científico sobre como indivíduos e grupos são influenciados por suas ocupações, normas e circunstâncias contextuais. O desafio envolve entender como as ocupações diárias dos seres humanos podem ou não contribuir de forma sustentável para uma vida humana, criativa e saudável para todos. Assim, parece importante, a partir de uma perspectiva de ciência ocupacional, explorar a sustentabilidade observando como os seres humanos ocupam seu tempo e seu lugar neste planeta (PERSSON; ERLANDSSON, 2014).

Tradicionalmente, terapeutas ocupacionais analisam o envolvimento em ocupações como primordial para a construção da identidade, possibilitando que as pessoas satisfaçam suas necessidades básicas para a sobrevivência e saúde, permitindo ganho ou manutenção da saúde e bem-estar físico, mental e social (AMERICAN..., 2015). Terapeutas ocupacionais reconhecem que a manutenção da saúde está relacionada com a capacidade dos indivíduos de envolver-se em ocupações significativas na casa, na escola, no local de trabalho e na vida comunitária (AMERICAN..., 2015).

Esta perspectiva permite avançar no uso da Ciência Ocupacional como abordagem base para o estudo das maneiras pelas quais as pessoas se ocupam como seres humanos e o impacto que este engajamento tem sobre seus corpos, as comunidades e o mundo (CLARCK; LAWLOR, 2011). Este foco está relacionado ao engajamento dos atores sociais nas ocupações dentro de contextos sociais, culturais, políticos e históricos, assim como com condicionantes ecológicos (CLARCK; LAWLOR, 2011; ALGADO, 2012). Inicia-se então, de forma inovadora, uma discussão sobre o impacto das ocupações humanas na saúde do meio ambiente e dos sistemas planetários (ALGADO, 2012; CAPON, 2014).

A partir desta proposta, avanços no campo do desenvolvimento sustentável devem ocorrer com a participação direta de todos os atores envolvidos, buscando mudanças em hábitos e ocupações. Participar de espaços de práticas sustentáveis pode contribuir para o desenvolvimento de novos hábitos e o envolvimento em ocupações com atitudes mais sustentáveis. Os hábitos e ocupações se inter-relacionam com o cotidiano das pessoas, oportunizando ações sustentáveis. Na literatura, espaços de práticas sustentáveis têm um caráter educativo, realizados a partir de dinâmicas abertas e vivenciais, e têm se revelado importantes na produção de uma cultura de desenvolvimento de ações socioambientais (JACOBI; TRISTÃO; FRANCO, 2009).

Assim, avançando na discussão sobre educação ambiental, é importante discutir o papel das práticas educativas como meios de promover conhecimento em educação ambiental, além de introduzir, na realidade de grupos específicos, a temática do desenvolvimento sustentável. Neste sentido, surgem algumas questões: (1) A participação em espaços de práticas socioeducativas muda os hábitos cotidianos e o envolvimento em ocupações? (2) Os participantes destas práticas conseguem perceber que seus hábitos e ocupações causam impactos no meio ambiente? (3) As atividades cotidianas, habituais do ser humano, realmente são transformadas com esta proposta? (4) Os participantes de espaços de práticas socioeducativas percebem mudanças em seus hábitos e ocupações após sua inserção nesses projetos?

A partir do exposto, buscou-se documentar a percepção de participantes de espaços de práticas sustentáveis sobre mudanças em hábitos e no envolvimento em ocupações do cotidiano.

2 Método

Trata-se de um estudo exploratório com abordagem qualitativa, em que se buscou analisar, entre participantes de projetos de educação ambiental, como a participação em espaços de práticas sustentáveis muda os hábitos cotidianos e o envolvimento em ocupações. Para compor a população-alvo, foram selecionados alunos de diferentes cursos que participam de projetos de extensão, realizados na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), com o foco em desenvolvimento de práticas sustentáveis a partir de espaços educativos. Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética da UFTM (parecer n.º 1.417.189; CAAE: 50117215.6.0000.5154) e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A UFTM está localizada em Minas Gerais, Região Sudeste do Brasil e, recentemente, aprovou seu Plano de Gestão de Logística Sustentável (PLS) (UNIVERSIDADE..., 2014). O PLS é uma ferramenta de planejamento que orienta a Universidade no estabelecimento de práticas de sustentabilidade e racionalização de gastos e processos em toda a sua estrutura administrativa e operacional. Dentre os nove programas de sustentabilidade apresentados no PLS, destaca-se o Programa de Educação Ambiental, que estimula o desenvolvimento de ações e projetos que buscam conscientizar e engajar as pessoas em ações sustentáveis.

2.1 Participantes

A seleção dos participantes foi por conveniência e ocorreu em três etapas. Na primeira etapa, solicitaram-se, aos professores coordenadores, os nomes e contatos (e-mails) dos estudantes participantes de projetos voltados para ações sustentáveis e educação socioambiental. Ao todo, 30 estudantes participavam destes projetos na época da coleta de dados e foram convidados a participar da pesquisa. Foram excluídos os participantes que passaram a integrar os projetos há menos de seis meses e os que, no mês anterior à entrevista, faltaram nas atividades desenvolvidas no projeto. A segunda etapa consistiu no envio de e-mails aos alunos, convidando-os a participar da pesquisa. Por último, foi enviado um novo e-mail aos discentes que aceitaram participar da pesquisa, agradecendo pela disponibilidade e agendando um horário para a realização da entrevista. Desta forma, o processo de seleção resultou em 10 discentes, pertencentes ao sexo feminino, que cumpriram os critérios de inclusão.

2.2 Procedimentos

O procedimento metodológico utilizado para a coleta de dados foi a entrevista aberta, sendo as técnicas de coleta de informações aplicadas em dois momentos. Inicialmente, as participantes preencheram um questionário com informações sociodemográficas e educacionais, para caracterização das discentes. Em um segundo momento, foi realizada entrevista aberta, baseada em um roteiro desenvolvido pelos próprios autores, que abordava perguntas sobre: (1) hábitos e comportamentos cotidianos das participantes antes e depois do ingresso nos projetos; (2) ocorrência de mudanças nos hábitos e comportamentos após o seu ingresso, bem como os possíveis fatores desencadeadores destas mudanças, e (3) percepções a respeito da sua participação em um espaço de educação socioambiental.

A entrevista é considerada uma técnica qualitativa de apreensão da percepção e da vivência pessoal das situações e eventos do mundo. Trata-se de um momento em que o participante fala livremente sobre o tema abordado e as perguntas são feitas para dar maior profundidade às reflexões (MINAYO, 2008). Neste estudo, as entrevistas foram registradas por meio de gravador de dispositivo móvel (celular da marca Motorola®, modelo G3) e posteriormente transcritas ipsis litteris, com autorização das participantes. Foram realizadas 10 entrevistas e o critério utilizado para interrupção foi o momento em que o surgimento de novos dados tornou-se raro e as informações foram suficientemente confirmadas, conformando a saturação ou ponto de redundância (MINAYO, 2008).

2.3 Análises

De acordo com Minayo (2008), a presença de determinados temas leva a valores de referência, além de modelos de comportamento presentes no discurso das participantes do estudo. Assim, após a realização e transcrição das entrevistas, estas foram submetidas à análise de conteúdo por unidades temáticas, entendidas como “unidades de significação que se libertam de um texto analisado” (BARDIN, 2011). A análise das narrativas seguiu os seguintes critérios: (1) pré-análise: fase em que o material bruto foi submetido à organização em unidades temáticas, retomando os objetivos iniciais da pesquisa; (2) exploração do material: quando o material selecionado na primeira leitura foi reorganizado em categorias, e (3) tratamento dos resultados obtidos e interpretação: etapa em que se buscou ultrapassar o nível de descrição das falas e de observações, para chegar à interpretação das informações. A interpretação é uma sequência da análise e sua meta é a busca de sentidos das falas e das ações, para alcançar uma compreensão além dos limites do que é descrito (BARDIN, 2011). Na apresentação dos resultados deste estudo, os nomes das dez participantes foram substituídos por nomes de personagens, heroínas femininas, escolhidas pelos autores para preservar as identidades das entrevistadas.

3 Resultados e Discussão

Os resultados deste estudo exploraram como estudantes universitárias percebem mudanças em seus hábitos cotidianos e em suas ocupações, a partir de sua participação em projetos de práticas educativas relacionadas com sustentabilidade. Foram entrevistadas 10 discentes da UFTM, sendo sete do curso de Engenharia Ambiental, duas cursando Terapia Ocupacional e uma do curso de Psicologia. Essas alunas estavam entre o terceiro e o quinto ano da graduação, e tinham entre 20 e 25 anos de idade. A UFTM, localizada na região do Triângulo Mineiro, tem sede em uma cidade de médio porte, que corresponde à sétima economia do Estado, e é conhecida como polo universitário e centro mundial de melhoramento genético de raças zebuínas (UBERABA, 2017). Em relação aos hábitos e ocupações cotidianos, todas relataram envolvimento em atividades típicas do adulto jovem e de universitárias que estudam em período integral, com atividades de estudo, cuidado com a casa, descanso e sono, e atividades de recreação e lazer, como sair com amigos, namorar e ir a bares, shows e cinema.

As participantes estão distribuídas, conforme o perfil na Tabela 1, em três projetos relacionados a sustentabilidade e educação ambiental. O primeiro projeto, intitulado “Educar para Reciclar”, tem como objetivo realizar ações de educação ambiental na universidade e em instituições de ensino da cidade, visando conscientizar e sensibilizar as pessoas para a necessidade da adoção de atitudes e hábitos sustentáveis. O segundo projeto refere-se à “Assessoria de Eventos Sustentáveis (ASES)”, que se dedica a assessorar os eventos realizados na UFTM ou vinculados à Instituição. Por último, o projeto “Sustentabilidade e Inovação”, que tem como objetivo reciclar banners usados e apresentar alternativas para sua reutilização.

Tabela 1 Perfil sociodemográfico e educacional das participantes do estudo. 

Nome Sexo Idade (anos) Curso Período Projeto
Helena Pêra F 20 Engenharia Ambiental 5.º Sustentabilidade e Inovação
Diana de Medeiros F 25 Engenharia Ambiental 10.º ASES*
Natasha Romanoff F 24 Engenharia Ambiental 10.º ASES
Carol Susan F 22 Terapia Ocupacional 7.º Sustentabilidade e Inovação
Anna Marie F 21 Engenharia Ambiental 5.º Sustentabilidade e Inovação
Monica Rambeau F 21 Terapia Ocupacional 6.º Sustentabilidade e Inovação
Jean Grey F 21 Engenharia Ambiental 9.º ASES
Susan Richards F 21 Psicologia 8.º Educar para reciclar
Gina Carano F 22 Engenharia Ambiental 7.º ASES
Selina Kyle F 23 Engenharia Ambiental 10.º Sustentabilidade e Inovação

*ASES: Assessoria de Eventos Sustentáveis.

A análise de conteúdo das entrevistas permitiu identificar a presença de amplos temas envolvendo a relação entre sustentabilidade e mudanças de hábitos, os quais foram agrupados em quatro principais categorias: (1) mudanças de hábitos cotidianos; (2) aprendizado e aquisição de novos conhecimentos; (3) barreiras para implantação de práticas sustentáveis, e (4) importância da participação em projetos de extensão universitária. Estas categorias proporcionam a análise do ponto de vista das entrevistadas sobre sua participação em espaços de práticas sustentáveis, fornecendo informações que permitem uma melhor compreensão das vivências e mudanças envolvidas neste processo.

3.1 Mudança de hábitos cotidianos

As práticas educativas devem apontar para propostas pedagógicas centradas na construção contextualizada e coletiva de conhecimento, por meio de oportunidades educacionais participativas e voltadas para mudanças de hábitos, atitudes e práticas sociais (DIAZ-SIEFER et al., 2015; BOEVE-PAUW et al., 2015). As práticas voltadas para educação ambiental apresentaram impacto sobre as participantes e sobre suas ações, com o desenvolvimento de comportamentos considerados pró-ambientais. Este impacto promovido pelas práticas educativas foi observado entre as entrevistadas que relataram mudanças de hábitos e comportamentos após sua participação nos projetos desenvolvidos na Universidade. Os relatos abaixo mostram algumas mudanças percebidas pelas entrevistadas:

A gente começa a criar um costume, um hábito de tentar fazer sempre as coisas melhores, tentar produzir menos lixos, tentar achar uma destinação melhor para aquilo que vai para lixo (Seline Keyle).

Eu fiquei muito mais obcecada com o que eu estou jogando fora, se não dá para aproveitar, usar de outra forma (Diana de Medeiros).

Eu não fazia a separação e hoje eu faço dentro de casa (Natasha Romanoff).

O conhecimento sobre a ocupação e sua importância para o bem-estar e a saúde do indivíduo é amplamente discutido na literatura da terapia ocupacional. O envolvimento em ocupações contribui para um estilo de vida equilibrado e funcional, proporcionando aos indivíduos saúde e bem-estar físico, mental e social (AMERICAN..., 2015). No entanto, o papel das ocupações e o envolvimento em atividades significativas passam a ser analisados não apenas em uma perspectiva microcontextual, voltada ao bem-estar do indivíduo, mas amplia-se o campo de visão para uma perspectiva ocupacional sobre os vínculos entre a saúde das pessoas, dos lugares e do Planeta (CAPON, 2014). As ocupações humanas passam a ser entendidas como importante fator que afeta a saúde dos sistemas planetários.

Os hábitos estruturam-se a partir de um arcabouço de funções cognitivas básicas, com as quais os indivíduos organizam suas vidas (AMERICAN..., 2015). Estes fazem com que o envolvimento em ocupações ocorra em forma de padrões recorrentes. De maneira prática, são formas quase automáticas pelas quais aprendemos a realizar determinadas atividades, a partir da experiência. À medida que entendemos os hábitos cotidianos como fator importante para a compreensão da saúde da população e propulsor de mudanças ambientais (CAPON, 2014), existe a necessidade urgente de uma transição para modos de vida que respondam às necessidades de saúde das pessoas e do meio ambiente, e que estejam em sintonia com essas necessidades.

Proença et al. (2012) afirmam que os processos educativos são agentes de transformação que fortalecem o potencial de mudanças de hábitos. As mudanças de hábitos, apresentadas nas falas das entrevistadas, podem ser entendidas como uma ferramenta para aumentar o envolvimento atual em ocupações mais sustentáveis. Este ponto destaca uma contribuição importante da ciência ocupacional para a questão do desenvolvimento sustentável, na qual, de um lado, analisam-se as escolhas cotidianas e ações do indivíduo e, por outro lado, as consequências e as contribuições que estas escolhas e ações representam em termos ambientais e sociais (PERSSON; ERLANDSSON, 2014).

Considerando essa perspectiva ocupacional, as falas, descritas na sequência abaixo, apontam para a conexão entre a perspectiva atual de sustentabilidade e os hábitos. O que se percebe nestas falas é como o conhecimento que o terapeuta ocupacional tem sobre a ocupação pode ser usado como ferramenta para abordar questões de sustentabilidade em relação a futuras ocupações voltadas para o bem-estar nos níveis individuais e populacionais (PERSSON; ERLANDSSON, 2014; CAPON, 2014). Uma análise detalhada das falas das participantes remete à forma como o conhecimento do ser humano como um ser ocupacional pode contribuir para o envolvimento em hábitos mais sustentáveis e para o encontro de soluções para crises ecológicas em nível local e global.

Antes eu não tinha muito a mania de fazer essa questão de reciclagem, de separar lixos ou fazer alguma coisa com o lixo, né! Quando eu comecei a participar do projeto eu comecei a fazer essas atividades no dia a dia (Carol Susan).

Eu já consegui mudar por conta do projeto, substituir coisas bobas, julgadas bobas, mas que fazem uma grande diferença. Um desse exemplo eu acho que é a carona. Tomar banho e fechar o chuveiro. Eu fazia isso às vezes. Agora eu faço sempre, porque eu vi uma grande necessidade nisso depois que a gente se toca da falta que faz (Gina Carano).

Se você não mudar seus hábitos no sentido de se envolver com as questões ambientais, a sustentabilidade para você não vai significar nada (Susan Richards).

Estes fragmentos lançam luz para uma potencial importância do terapeuta ocupacional em relação à crise ecológica mundial nos dias atuais (SIMÓ; ABREGÙ, 2015). A análise das condições sociopolíticas, econômicas e ecológicas permite ao terapeuta ocupacional trabalhar a promoção de mudança em ocupações significativas entre indivíduos, grupos e/ou comunidades, associando o desempenho ocupacional e os hábitos com problemas no meio ambiente. Esta proposição envolve o conceito de ecologia ocupacional, proposta por Algado (2012). A ecologia ocupacional seria um importante campo de ação política e profissional do terapeuta ocupacional. Esta é definida como um movimento de ação dupla que envolve a consciência da crise ecológica que enfrentamos e a tomada de medidas proativas, por meio de mudanças no envolvimento em ocupações significativas, para restaurar o equilíbrio com o meio ambiente (ALGADO, 2012).

Outro aspecto identificado nas entrevistas e importante a ser analisado é como as participantes, ao entrarem em contato com as orientações, informações e atividades, expandiram as mudanças dos hábitos e do comportamento ocupacional entre seus familiares e amigos. A participação nos projetos de práticas sustentáveis colaborou na formação de agentes multiplicadores para o processo de sensibilização da comunidade local para o seu papel corresponsável nas ações de proteção ambiental (RIBAS et al., 2014). A partir do momento em que as participantes se engajam ativamente nos projetos, elas passam a processar as informações que recebem (orientações, atividades, exemplos), analisando-as para promover mudanças. Dito de outra forma, as participantes tornaram-se proativas na elaboração de ações e o projeto assumiu o lugar de facilitador das mudanças em seu cotidiano. Estes apontamentos podem ser identificados nos relatos abaixo:

Eu passo para meus pais como está o projeto, ‘pai olha essa prática’, ‘olha que legal isso que a gente pode sugerir’. E eles acabam passando para outras pessoas também (Gina Carano).

Passo para a minha família sim, minha mãe também não fazia e hoje ela faz separação dos lixos (Natasha Romanoff).

A gente sempre compartilha porque é bonitinho e quer mostrar né e, meus pais adoram e eles falam graças a Deus que você recicla porque assim não tem que comprar outro, né! (Carol Susan).

O fragmento acima aponta para uma reflexão do impacto econômico que as práticas sustentáveis geram no cotidiano. Uma análise dos hábitos de docentes, técnicos administrativos e acadêmicos da UFTM apontou que a comunidade interna reflete pouco sobre a possibilidade de reutilizar resíduos produzidos no cotidiano antes de jogá-los no lixo e que há pouquíssimas práticas sustentáveis relacionadas com a reciclagem do lixo produzido (ALMEIDA; SCATENA; LUZ, 2017). O consumo cada vez maior de bens e serviços, acompanhado de elevados níveis de desperdício, reflete negativamente em todas as dimensões da sustentabilidade, na medida em que intensifica a geração de resíduos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2010) aponta a não geração dos resíduos ‒ ou, pelo menos, a sua redução ‒ como prioritária para a gestão e o gerenciamento destes. Porém, uma vez os resíduos gerados, é possível, por meio de processos de reutilização ou reciclagem, não apenas minimizar os impactos ao meio, mas propiciar impactos econômicos benéficos. Um exemplo prático é o reaproveitamento de materiais através de práticas sustentáveis, por apresentar relação direta com a redução do consumo e, consequentemente, com a redução de gastos com a compra de materiais equivalentes. Além disso, o reaproveitamento de resíduos transforma-os em produtos com valor agregado, com potencial de geração de renda e emprego.

Jacobi e Besen (2011) estudaram os desafios da gestão integrada e sustentável de resíduos sólidos urbanos e concluíram que uma solução sustentável deve necessariamente contribuir para a mudança de padrões de consumo e o envolvimento da população na gestão dos resíduos. A realidade brasileira demanda muito compromisso dos dirigentes municipais na escolha de soluções adequadas de baixo custo, mas não é suficiente equacionar problemas de toda ordem sem antes definir estratégias para promover a redução de resíduos nas fontes geradoras, por meio de educação ambiental permanente.

3.2 Aprendizado e aquisição de novos conhecimentos

O avanço do conhecimento e da conscientização ambiental é potencializado pelo uso da práxis no processo de ensino-aprendizagem das práticas socioeducativas (JACOBI, 2013). Os projetos nos quais as participantes estavam inseridas eram prioritariamente desenvolvidos para estimularem a prática da interdisciplinaridade e os modos de ser e agir de cada estudante. Assim, a participação nos projetos se configurou em oportunidades de receber orientações e novos aprendizados. Durante as práticas, as participantes aprenderam como fazer a separação dos resíduos, o que pode ser reutilizado e o processo de coleta dos materiais recicláveis. Este é um importante aspecto a ser analisado, uma vez que aponta como as participantes, ao entrarem em contato com as orientações, informações, exemplos e atividades desenvolvidas nos projetos, integraram novos conhecimentos em seu cotidiano.

Neste sentido, as práticas educativas extrapolam os limites da sala de aula e ampliam as possibilidades de desenvolvimento de um trabalho pedagógico centrado em um modelo reflexivo, voltado para a problemática socioambiental (JACOBI; TRISTÃO; FRANCO, 2009). As oportunidades de espaços de práticas impulsionam uma formação de profissionais apoiada na perspectiva do ‘fazer junto’. Portanto, trata-se de um desafio em que alunos e educadores buscam uma formação com ênfase em uma aprendizagem ampliada. Nos relatos a seguir, pode-se observar como as participantes veem as orientações e as atividades desenvolvidas como processo de aprendizagem e busca por transformações em seu cotidiano:

Nossa eu aprendi muito no projeto, primeiro sobre o banner em si, a destinação do banner que ele pode ter. Depois que você apresenta o trabalho (em eventos), você não usaria ele para mais nada. Então você pode transformar ele em várias coisas interessantes (Seline Keyle).

Eu não sabia mesmo era como as pessoas sobrevivem da reciclagem, como que eles sobrevivem disso. Como é o processo de separação, de recolha, como que eles sobrevivem a partir da recolha desse material (Susan Richards).

A gente sempre pode usar uma coisa que você considera lixo para algo novo, foi o principal que aprendi. Quando que eu ia pensar que um banner ia virar uma bolsa que eu pudesse levar ao mercado para carregar as coisas? Ou como os retalhos daquelas bolsas pudessem fazer brinquedos que serviriam para as crianças? (Helena Pêra).

Estes relatos apontam como é fundamental pensar na importância da educação socioambiental, por meio de um trabalho prático, grupal e pautado em metodologias participativas, para promover um espaço coletivo de troca de informações e experiências, e de construção de conhecimentos. As práticas educativas, ambientalmente sustentáveis, permitem novas formas de conhecimento, criando espaços de convivência que promovem mudanças de percepção e de valores, gerando um saber solidário aberto à possibilidade de construir e reconstruir novas possibilidades de ação (JACOBI, 2013).

Desta forma, os espaços de práticas de educação ambiental construídos nos projetos em que as participantes estavam envolvidas permitiram um processo contínuo de aprendizagem e de formação de cidadãos mais reflexivos, conscientes e ativos sobre questões socioambientais. Para além do conhecimento relacionado com práticas socioambientais, a participação das alunas nos espaços educativos também promoveu aprendizagem e amadurecimento pessoal e profissional. As participantes relatam que aprenderam a trabalhar em equipe e a se relacionar com pessoas de diferentes áreas.

Não tem muito a ver com a sustentabilidade, mas me fez crescer muito. Eu sou muito tímida, aí com o projeto eu aprendi a me comunicar melhor com as pessoas, perder um pouco da vergonha, ficar mais calma (Gina Carano).

Acho que o espírito de liderança, cresci muito. Coordenar grupo não é fácil, porque tem pensamentos diferentes, ideias diferentes tem gente que é mais esquentadinho, tem gente que é mais devagar (Diana de Medeiros).

Eu acho que o principal foi trabalhar em equipe com pessoas que eu não tinha contato, de diferentes áreas, formas de pensar completamente diferentes (Helena Pêra).

As práticas educativas nascem de um movimento pedagógico que parte dos espaços cotidianos e de suas demandas reais. As participantes mostram que estes espaços, com sua dinâmica própria, facilitam a oportunidade de diferentes contextos de aprendizagem, além dos livros didáticos e quadros de giz (JACOBI, 2013). Na prática, estes espaços educativos permitiram o desenvolvimento de competências e habilidades, as quais instrumentalizaram as alunas para responder às necessidades pessoais e profissionais exigidas na sociedade.

3.3 Barreiras para implantação de práticas sustentáveis

Existem alguns fatores que dificultam o desenvolvimento de práticas sustentáveis e o envolvimento em ocupações mais saudáveis, tanto em nível micro quanto aquelas relacionadas com níveis macroambientais. Silveira et al. (2014) descrevem as dificuldades de internalização do real significado de desenvolvimento sustentável pelas pessoas e os problemas de caráter econômico, devido à falta de recursos financeiros para aquisição de tecnologias sustentáveis, como as principais barreiras à incorporação de práticas sustentáveis. Estas barreiras também podem ser identificadas no fragmento da narrativa de Jean Grey, que destaca a falta de informações e conhecimento sobre educação ambiental:

O que é primordial assim eu acho que é a falta das pessoas buscar essas informações, o que pode minimizar esses impactos que ela causa no ambiente; a falta de educação ambiental (Jean Grey).

Com relação ao nível de conhecimento sobre sustentabilidade, apenas 26,16% da comunidade interna da UFTM afirmou ter domínio ou deter muito conhecimento sobre o assunto (ALMEIDA; SCATENA; LUZ, 2017). O pouco conhecimento, como fator apontado nas entrevistas, implica na necessidade de se multiplicarem práticas sociais que fortaleçam o acesso à informação e à educação ambiental. É primordial adicionar aos conteúdos educacionais meios de fomentar o acesso à informação socioambiental (JACOBI, 2003). A desresponsabilização da população decorre principalmente pela falta de informação, falta de consciência ambiental e falta de práticas comunitárias baseadas na participação e no envolvimento dos cidadãos. A educação ambiental se mostra, então, como condição necessária para modificar a degradação socioambiental. No entanto, a educação ambiental mostra-se ainda insuficiente, levando a comportamentos ocupacionais e hábitos pouco sustentáveis. De acordo com a percepção das participantes, outras barreiras que limitam a implementação de práticas sustentáveis são a ausência de opções de espaços adequados para descarte do lixo e o comodismo das pessoas e autoridades.

Eu acho que é a questão do lixo que as pessoas jogam em qualquer lugar, não se importam. Não se importam em cortar uma árvore, acha que se plantar outra vai resolver o problema. Mas não. E as pessoas não estão se preocupando com isso (Helena Pêra).

Achar que os recursos naturais não vão se esgotar, que aquela água que chega na sua casa brota de dentro da sua casa mesmo. E você acaba negligenciando o uso da agua, os materiais que você usa, você descarta de qualquer maneira (Diana de Medeiros).

Conversar com os amigos. Tentar montar um grupo. Acho que isso ajuda, porque mobiliza as pessoas e isso não acontece porque as pessoas são acomodadas. Acho que é o principal hábito que influencia nesse processo de sustentabilidade de modo geral (Monica Rambeau).

Jacobi (2003) destaca a necessidade de responsabilidade de cada um para construir uma sociedade mais equitativa e ambientalmente sustentável. A falta de conscientização das pessoas para diminuir os problemas ambientais causados pela sociedade e a atual falha nas estruturas e nos programas dos municípios voltados para ações sustentáveis podem ser identificadas nos relatos acima. Embora normas federais estabeleçam a necessidade de tratamento de resíduos, um dos maiores problemas ambientais encontrados nas cidades ‒ e citado pelas entrevistadas ‒ é a falta de locais apropriados para o descarte final dos resíduos. Como formas de responder a estas barreiras, torna-se importante o desenvolvimento de políticas e programas socioambientais nos municípios. Dessa forma, constituem prioridades e deveriam estar na agenda de governos e da própria sociedade: (1) a redução de resíduos nas fontes geradoras e na disposição final no solo; (2) a maximização do aproveitamento, da coleta seletiva e da reciclagem; (3) a compostagem, e (4) a recuperação de energia (JACOBI; BESEN, 2011).

O consumo também foi apontado como uma barreira para mudanças de hábitos e ocupações. Natasha Romanoff destaca: “acho que é o consumo (...) consumir exageradamente, a pessoa não preocupa”. Este fragmento da entrevista mostra uma tomada de conscientização da aluna quanto ao impacto ambiental do produto a ser adquirido e em relação ao consumo exagerado. Outras participantes também destacaram a relação entre consumo e sustentabilidade, como pode ser visto nos relatos abaixo:

Consumismo e comodismo. É mais fácil eu ir ali comprar uma marmita (marmitex) do que eu ir na minha casa e ter que fazer o arroz, o feijão, a salada. E essa marmita (marmitex) vai vir com isopor, alumínio e eu vou acabar jogando no lixo (Seline Keyle).

Até mesmo na hora de comprar alimentos, tem alimentos sustentáveis no mercado, mas, você opta pelos normais por comodismo ou até mesmo porque os sustentáveis costumam ser um pouco mais caro (Diana de Medeiros).

O consumo sustentável aparece como uma proposta que, além de incentivar as inovações tecnológicas e as mudanças nas escolhas individuais de consumo, enfatiza as ações coletivas e as mudanças políticas, econômicas e institucionais, para fazer com que os padrões e os níveis de consumo tornem-se mais sustentáveis (CAMARGO; VELHO, 2012). As mudanças de hábitos das participantes também podem ser observadas nas práticas de consumo. Esta transformação é vista atualmente como a base para reformulação dos padrões de produção e de consumo, com o objetivo de dar suporte à crescente demanda de recursos naturais e serviços ambientais da população humana.

3.4 Importância da participação em projetos de extensão universitária

As práticas educativas ambientalmente sustentáveis nos apontam para propostas pedagógicas centradas na criticidade e na emancipação dos sujeitos, com vistas à mudança de comportamento e atitudes. No contexto desta pesquisa, estas práticas foram desenvolvidas em projetos e programas de extensão universitária. No Brasil, a extensão universitária é definida como o processo educativo, cultural e científico que articula ensino e pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre universidade e sociedade (FÓRUM..., 2012). A relação entre o ensino e a extensão está vinculada ao processo de formação de pessoas e de geração de conhecimento, tendo o estudante como protagonista de sua formação.

Ao longo da graduação, os estudantes que participam de projetos de extensão aprofundam seu conhecimento sobre a realidade e levam a experiência desses projetos para sua prática profissional. Além dos aprendizados teóricos e práticos adquiridos em um projeto de extensão, há a oportunidade de conhecer e se relacionar com pessoas de diferentes áreas, a partir de uma prática interdisciplinar. Como pode ser visto nos relatos abaixo, as participantes ressaltam aprendizado técnico para obtenção de competências necessárias à atuação profissional, mas também uma oportunidade de formação mais cidadã:

O projeto me mostrou que tudo pode ser realmente reaproveitável. Até o que a gente acha que realmente não tem como, que vai ter que jogar no lixo, ainda deve ter uma solução para aquilo, você ainda pode encontrar uma destinação melhor (Seline Keyle).

O projeto abriu um leque muito grande né, que além da gente conhecer curso novo, pessoas novas, a gente participou de feira, que foi um aprendizado acadêmico no qual a gente vê novas oportunidades na Engenharia Ambienta (Anna Marie).

Eu acho que o principal foi trabalhar em equipe com pessoas que eu não tinha contato, de diferentes áreas, formas de pensar completamente diferentes. Ter contato com o pessoal da Terapia Ocupacional e ver o quanto é interessante o trabalho que fazem, eu realmente não conhecia o curso, conheci através do projeto (Helena Pêra).

Neste contexto citado pelas alunas, a extensão universitária permitiu a formação de um profissional cidadão, crítico e capaz de trabalhar de forma interdisciplinar. A aproximação das estudantes com a atividade extensionista, essencialmente prática e em parceria com pessoas de diferentes áreas, proporcionou uma maneira eficiente de trocar conhecimentos e experiências. Nota-se a importância da extensão como um processo de ensino com papel fundamental na formação humana, com destaque para o aprendizado da vida e de relações mais horizontais entre profissionais.

4 Conclusões e Recomendações

A participação das estudantes em projetos com temas socioambientais estruturados a partir de práticas educativas mostrou-se uma ferramenta importante para a mudança de hábitos e no envolvimento em ocupações. Estas práticas permitiram reflexão sobre a relação das atividades humanas cotidianas e os fatores ecológicos. Notou-se grande aprendizado sobre sustentabilidade, bem como desenvolvimento de novas habilidades relacionadas tanto a aspectos profissionais quanto pessoais, na vida das estudantes. O aprendizado e a aquisição de novos conhecimentos, assim como a incorporação de novos hábitos, não se restringiram às participantes dos projetos, uma vez que disseminaram os conhecimentos adquiridos entre seus familiares e amigos.

Os resultados corroboraram barreiras históricas à implementação de práticas sustentáveis, dentre as quais: pouco conhecimento sobre educação ambiental; ausência de espaços adequados para descarte do lixo; consumo exagerado, e comodismo das pessoas e autoridades. Este estudo assinala como o desenvolvimento de estratégias pedagógicas interativas ‒ como os projetos de extensão nos quais as estudantes foram inseridas ‒ estimulou vivências que possibilitaram reflexão sobre os hábitos e ocupações, capacitando as estudantes a realizarem escolhas e transformações por meio da educação socioambiental.

Especificamente para terapeutas ocupacionais, que têm como foco a participação ativa dos indivíduos em ocupações significativas, descortina-se um campo de novas possibilidades para a área de conhecimento e prática profissional. A ocupação humana passa a ser entendida como um fator-chave na gênese do problema ecológico e, ao mesmo tempo, como uma oportunidade para incentivar indivíduos e comunidades a envolverem-se em ocupações mais sustentáveis.

REFERÊNCIAS

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