EPIDEMIOLOGIA DA SAÚDE BUCAL. Antunes JLF, Peres MA, organizadores. 2a Ed. São Paulo: Editora Santos; 2013. 738p. ISBN: 978-85-412-0272-5

EPIDEMIOLOGIA DA SAÚDE BUCAL. Antunes JLF, Peres MA, organizadores. 2a Ed. São Paulo: Editora Santos; 2013. 738p. ISBN: 978-85-412-0272-5

Autores:

Rui Arantes

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.31 no.3 Rio de Janeiro mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311xre020315

O modelo assistencial de saúde bucal, em construção a partir da reforma sanitária e da criação do SUS, coloca a epidemiologia como eixo estruturante para as estratégias de gestão de serviços de saúde que deve ser universalizado e equitativo. Diferente daquele até então hegemônico, excludente, baseado nos sistemas escolares e de livre demanda. Entretanto, a estruturação de um modelo de atenção com base epidemiológica tem constituído um desafio na implementação do SUS.

Nas últimas décadas, o esforço federal em criar base de dados nacionais em saúde bucal por meio de inquéritos epidemiológicos (Projeto SB Brasil) tem aberto novas possibilidades de aproximar a epidemiologia dos serviços de saúde bucal. Os dados gerados a partir do SB Brasil de 2003 forneceram subsídios importantes para a construção da Política Nacional de Saúde Bucal, proposta em 2004, que passou a ser conhecida como Brasil Sorridente. Entretanto, a incorporação da epidemiologia como modelo de vigilância da saúde bucal ainda não está efetivada nos serviços de saúde. A produção de dados epidemiológicos em saúde bucal nos serviços de saúde é rara, e quando ocorre geralmente é desvinculada das estratégias de planejamento e avaliação 1.

O livro Epidemiologia da Saúde Bucal organizado por Antunes & Peres, agora em sua segunda edição, constitui um instrumento de capacitação teórico-metodológica importantíssimo para incorporar o conhecimento epidemiológico na saúde bucal coletiva. O uso da epidemiologia e do conhecimento científico na saúde pública, conhecido como saúde pública baseada em evidências, possibilita, por meio da coleta e análise sistemática de informações, a criação e o acompanhamento de indicadores, a implantação de mecanismos de avaliação de serviços e programas de saúde que venham a atender realmente as necessidades da população.

A primeira edição, de 2006, foi atualizada e ampliada nesta segunda. O livro cobre praticamente todo o campo da epidemiologia direcionada à saúde bucal e conta com cerca de sessenta colaboradores. Mantém a mesma estrutura da primeira versão, dividido em três partes. A primeira, voltada para a discussão dos "agravos e condições bucais", inicia com a apresentação dos conceitos básicos de epidemiologia, e segue identificando para o leitor todas as etapas de desenvolvimento de um levantamento epidemiológico em saúde bucal, desde o planejamento até sua execução, e posteriormente descreve um panorama sobre os levantamentos nacionais de saúde bucal realizados no Brasil, destacando a evolução metodológica e analítica, seus principais resultados, contextualizando-os no cenário político e da saúde bucal coletiva nacional das últimas décadas. Os capítulos seguintes abordam individualmente os principais, ou praticamente todos, os agravos de saúde bucal, discutindo seus determinantes mais importantes, seus fatores de risco, com informações e dados epidemiológicos atualizados. Nesta segunda edição ainda foi inserido um capítulo inédito sobre lesões de tecidos moles.

Na segunda parte do livro, Temas Emergentes e Tópicos Especiais, os organizadores reuniram diferentes assuntos ou objetos de interesse da pesquisa epidemiológica que reforçam o caráter multidisciplinar e abrangente da disciplina e sua importância para o campo da saúde bucal coletiva. Os capítulos, revistos e atualizados nesta segunda edição, levam o leitor a uma viagem enriquecedora sobre o desenvolvimento do conhecimento epidemiológico. Desde a teoria miasmática até a epidemiologia social moderna. Nesse trajeto, as diferentes correntes epidemiológicas foram sendo social e historicamente construídas de acordo com os diferentes métodos de observação e análise do processo saúde/doença. A construção do pensamento epidemiológico ocorre juntamente com o desenvolvimento de outras áreas do conhecimento científico que fornecem novas ferramentas à epidemiologia. Desde a invenção do microscópio, que permitiu o desenvolvimento da teoria dos germes, até as técnicas modernas de análise de inferências causais, realizadas usando-se modelos estatísticos complexos, a epidemiologia vem reforçando sua característica multidisciplinar, moldada pelo contexto histórico e político.

Nos capítulos que seguem, o leitor percebe que a relação entre a epidemiologia e a saúde bucal coletiva tem como denominador comum a saúde coletiva que é um campo abrangente em que o processo saúde/doença é resultado da interação das dimensões políticas, sociais, econômicas. Os fatores sociais têm sido considerados um dos principais determinantes de saúde. Conhecer os mecanismos pelos quais os fatores socioeconômicos interferem na saúde bucal é imprescindível para a implementação de políticas públicas efetivas voltadas para a redução das desigualdades. Nesse sentido, o livro reforça o uso da epidemiologia como ferramenta importante para compreender a dinâmica desse complexo processo de determinação social da saúde e das desigualdades em saúde. Ainda, destaca a importância dos estudos longitudinais prospectivos para entender a dinâmica entre as condições de vida e saúde e suas repercussões ao longo da vida. Fica, portanto, bastante claro ao leitor, nesta segunda parte do livro, que as ferramentas que a epidemiologia fornece são úteis não só no que diz respeito ao estudo da distribuição das doenças, mas também importantes na vigilância da saúde, no controle de agravos, nos estudos de casos, nas definições de prioridades, no planejamento da intervenção, na organização e avaliação dos serviços. Ainda, estão presentes entre os tópicos especiais desenvolvidos nesta parte do livro, dois assuntos bastante discutidos atualmente, as questões éticas na pesquisa epidemiológica em saúde bucal e as relações entre doenças periodontais e doenças sistêmicas.

A terceira parte apresenta um conteúdo bastante útil para realização de pesquisa epidemiológica em saúde bucal. Denominada Métodos e Técnicas, os capítulos seguem uma sequência lógica das etapas do desenvolvimento de um estudo epidemiológico. Inicia com um capítulo que fornece ao leitor informações sobre a criação do instrumento de coleta de dados, o seguinte trata da validação do instrumento seguida da estruturação e organização de banco de dados nos principais softwares utilizados para análise, e a utilização de ferramentas estatísticas básicas para análise dos resultados da pesquisa de saúde bucal. Ou seja, todas as etapas estão contempladas. Além da atualização do conteúdo, em relação à primeira edição, há um capítulo novo, inserido nessa parte referente à reprodutibilidade e validade de testes diagnósticos.

A epidemiologia contemporânea vem procurando encontrar estratégias de análises integradoras que deem conta de entender a complexa interação entre as diferentes dimensões do processo saúde/doença. O refinamento dos atuais estudos epidemiológicos, estruturados em modelos multidimensionais e dinâmicos que tentam integrar diferentes níveis de determinação, do macro ao micro, pode e deve ser utilizado como uma poderosa ferramenta para intervir no processo saúde/doença de forma impactante para redução das desigualdades em saúde. Não obstante, é necessário que o conhecimento epidemiológico saia do meio acadêmico e se aproxime dos serviços de saúde, é preciso uma apropriação maior da epidemiologia pelos serviços de saúde, pelos gestores e trabalhadores. Nesse sentido, o livro Epidemiologia da Saúde Bucal traz uma contribuição considerável, pois como instrumento de capacitação teórico-metodológica, pode ser utilizado como uma ferramenta importante na formação de recursos humanos para o SUS por meio de programas de qualificação, de pós-graduação ou de mestrados profissionalizantes.

A primeira edição do livro foi esgotada, sinal de que foi muito bem recebida. Não resta dúvida de que esta segunda edição será tão útil quanto a primeira, tendo em vista a excelente qualidade do material e todo o cuidado e dedicação empregados na formulação, atualização e organização do conteúdo desta edição, que certamente se reafirma como referência para a saúde bucal coletiva brasileira.

REFERÊNCIAS

1. Roncalli GA. Epidemiologia e saúde bucal coletiva: um caminhar compartilhado. Ciênc Saúde Coletiva2006; 11:105-14.
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