Equidade de sexo e gênero na pesquisa e na publicação científica

Equidade de sexo e gênero na pesquisa e na publicação científica

Autores:

Leila Posenato Garcia,
Elisete Duarte

ARTIGO ORIGINAL

Epidemiologia e Serviços de Saúde

versão impressa ISSN 1679-4974versão On-line ISSN 2237-9622

Epidemiol. Serv. Saúde vol.26 no.3 Brasília jul./set. 2017

http://dx.doi.org/10.5123/s1679-49742017000300001

Neste número, a Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do Sistema Único de Saúde do Brasil (RESS) publica a versão em português das diretrizes sobre Equidade de Sexo e Gênero em Pesquisa (Sex and Gender Equity in Research - SAGER),1 em atendimento a sua política de promoção da integridade na pesquisa e na publicação científica.2,3 As diretrizes SAGER destinam-se principalmente a orientar os autores na preparação de seus manuscritos, e incluem orientações para o relato das informações sobre sexo e gênero no desenho do estudo, na análise de dados, nos resultados e na interpretação dos achados. Não obstante a submissão de artigos a periódicos ocorra geralmente depois da finalização da pesquisa e da análise dos dados, o processo de revisão, desempenhado por editores e revisores ad hoc, tem grande potencial para aprimoramento dos manuscritos.1

A equidade de sexo e gênero é um dos aspectos fundamentais a serem considerados nos estudos epidemiológicos, uma vez que o sexo e o gênero são importantes determinantes da saúde. Geralmente, o sexo é classificado como feminino ou masculino, enquanto o gênero engloba um espectro de definições sobre como os indivíduos se identificam e expressam seu gênero. Ou seja, sexo é um atributo biológico, enquanto gênero refere-se a identidades socialmente construídas. O gênero influencia a maneira como os indivíduos se percebem, se comportam e se relacionam, além de estar relacionado à distribuição de recursos e poder na sociedade.1

As iniquidades decorrentes da ordem patriarcal de gênero se manifestam por diversos meios, incluindo diferentes formas de violência,4 assim como oportunidades desiguais no mercado de trabalho, geralmente com prejuízo às mulheres e indivíduos não identificados com o sexo masculino, o que implica também disparidades na pesquisa e na publicação científica.5,6

No último Dia Internacional da Mulher (8 de março de 2017), a editora multinacional Elsevier publicou relatório sobre gênero no cenário global da pesquisa, contendo resultados de análises de dados bibliométricos da base Scopus.7 Brasil e Portugal se destacaram por serem os países onde, de 2011 a 2015, as mulheres constituíram a maior proporção da população de pesquisadores (49%) entre os 12 países estudados. Não obstante os avanços observados nos indicadores relacionados ao gênero na pesquisa e na publicação, no conjunto das áreas de pesquisa, as mulheres tiveram um volume de produção menor do que os homens, embora o impacto medido em termos de citações e acessos a artigos - indicadores que podem ser interpretados como reflexo da qualidade da produção - seja similar. Além disso, as mulheres tiveram menor participação do que os homens em artigos com colaborações internacionais e menor mobilidade internacional do que eles.

No Brasil, as mulheres são maioria na pós-graduação. Dados da Coordenação de Desenvolvimento de Pessoal de Nível Superior (Capes) revelam que, em 2015, 55% do total de matriculados e titulados em cursos de mestrado e doutorado eram mulheres.8 Segundo estatísticas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),9 no mesmo ano, foi atingida a igualdade entre sexos na distribuição de bolsas de pesquisa no Brasil, com 50% delas concedidas a mulheres e a mesma proporção a homens. Contudo, a distribuição de bolsas de produtividade em pesquisa permanece bastante desigual. No mesmo ano, as mulheres receberam somente 35,5% do total de bolsas de produtividade e 24,6% daquelas de nível 1A. Esse fenômeno, observado globalmente, é denominado “telhado de vidro”, e remete à existência de uma barreira à ascensão das mulheres na carreira acadêmica, bem como à invisibilidade das mulheres no meio.10

Na área da saúde, as mulheres são maioria na pós-graduação. Em 2015, elas foram beneficiárias de 68% das bolsas de pós-graduação concedidas pelo CNPq nesta área.9 Essa proporção, com representação feminina de aproximadamente dois terços, também é observada nos indicadores referentes aos artigos submetidos e publicados na RESS. Em 2016, as mulheres representaram 72% do total de autores dos artigos submetidos (N=1.809), 66% do total de autores dos artigos publicados (N=441) e 72% dos revisores ad hoc (N=209). Valores semelhantes foram observados em anos anteriores (2013-2015). O monitoramento das desigualdades de gênero na pesquisa e na publicação científica é fundamental para subsidiar políticas voltadas a seu enfrentamento. Aparentemente, a participação feminina na RESS tem refletido sua participação na pós-graduação na área da saúde.

Embora as desigualdades de gênero venham recebendo atenção crescente e, especificamente na área da saúde, assim como na epidemiologia,11 o número de mulheres tenha superado o de homens, ainda existem barreiras importantes para a participação feminina na pesquisa e na publicação, dado que os avanços necessários têm sido demasiadamente lentos. Nesse contexto, reitera-se o papel dos periódicos científicos, e de todos os envolvidos na publicação científica - editores, revisores, financiadores e autores -, para a promoção da qualidade e da transparência dos estudos publicados, assim como para a promoção da equidade de sexo e gênero para além da pesquisa e da publicação científica, de modo que toda a sociedade seja beneficiada.

REFERÊNCIAS

1. Heidari S, Babor TF, Castro P, Tort S, Curno M. Equidade de sexo e gênero na pesquisa: fundamentação das diretrizes SAGER e uso recomendado. Epidemiol Serv Saude. Ahead of print 2017.
2. Galvão TF, Silva MT, Garcia LP. Ferramentas para melhorar a qualidade e a transparência dos relatos de pesquisa em saúde: guias de redação científica. Epidemiol Serv Saude . 2016 abr-jun;25(2):427-36.
3. Garcia LP. Revisão sistemática da literatura e integridade na pesquisa. Epidemiol Serv Saude. 2014 jan-mar;23(1):7-8.
4. Saffioti HIB. Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero. Cad Pagu. 2001;(16):115-36.
5. Rodrigues JG, Guimarães MCS. A Fundação Oswaldo Cruz e a ciência no feminino: a participação feminina na prática e na gestão da pesquisa em uma instituição de ensino e pesquisa. Cad Pagu. 2016;(46):197-222.
6. Leta J,Carisey M, SechetP, OhayonP.As mulheres na pesquisa, no desenvolvimento tecnológico e na inovação: uma comparação Brasil/França. Rev Serv Publico. 2006;57(4):531-47.
7. Elsevier Research Intelligence. Gender in the global research landscape: analysis of research performance through a gender lens across 20 years, 12 geographies, and 27 subject areas. [placeunkown]: Elsevier; [date unkown] [Cited 2017 Apr 4]. Available from: Available from:
8. Ministério da Educação (BR). FundaçãoCapes. Mulheres são a maioria na pós-graduação brasileira [Internet]. Brasília: Ministério da Educação; 2017 [citado 2017 abr 4]. Disponível em: Disponível em:
9. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Estatísticas [Internet]. Brasília: Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações; 2017 [citado 2017 abr 4]. Disponível em: Disponível em:
10. Vaz DV. O teto de vidro nas organizações públicas: evidências para o Brasil. Econ Soc. 2013 dez;22(3):765-90.
11. Reshma, J. Gender Equity in Epidemiology: Miles to Go. Epidemiol. 2017 Mar; 28(2):169-171.
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