Equivalência semântica e confiabilidade da versão em português da Bergen Facebook Addiction Scale

Equivalência semântica e confiabilidade da versão em português da Bergen Facebook Addiction Scale

Autores:

Hugo Rafael de Souza e Silva,
Kelsy Catherina Nema Areco,
Paulo Bandiera-Paiva,
Pauliana Valéria Machado Galvão,
Anália Nusya de Medeiros Garcia,
Dartiu Xavier da Silveira

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.64 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000052

ABSTRACT

Objective

To evaluate the semantic equivalence and confiability of the Bergen Facebook Addiction Scale into Portuguese (Brazil).

Methods

The process consisted of five steps: translation; back-translation; technical review and evaluation of semantic equivalence by professionals; evaluation instrument as verbal comprehension by a professional sample (n = 10) and students (n = 37); analysis of internal consistency and stability through Cronbach coefficient and intraclass correlation coefficient (ICC) respectively, in a sample of 359 undergraduate students.

Results

The instrument presented at the end an excellent level of verbal comprehension by the target population, Cronbach’s alpha of 0.92 and ICC of 0.81.

Conclusion

The adapted version of the instrument for use in our environment resulted in an equivalent instrument from the point of view of semantic equivalence, ensuring the transfer of general and referential meaning, maintaining satisfactory levels of reliability.

Key words: Cross-cultural comparison; internet; scales; validation studies

INTRODUÇÃO

O Facebook é um site de rede social (RS) criado em 20041, e desde então seu número de usuários cresce exponencialmente, tornando-se o site de RS mais popular em todo o mundo2. As estimativas são de que existam 1,19 bilhão de usuários cadastrados e 728 milhões de conexões diárias. O Brasil possui a terceira posição em número total de usuários (76 milhões), ficando atrás apenas dos Estados Unidos (EUA) e da Índia3,4.

As estatísticas relativas ao uso do Facebook têm revelado que alguns indivíduos podem fazer uso excessivo de suas funcionalidades, permanecendo conectados on-line tempo suficiente para prejudicar suas atividades diárias5-8.

A adicção ao Facebook é um fenômeno recente, não possuindo critérios diagnósticos definidos e encontrando resistência entre alguns pesquisadores8. No entanto, alguns países, principalmente os asiáticos, vêm considerando as adições tecnológicas (internet, videogames, redes sociais) um problema de saúde e promovendo a abertura de centros de tratamentos especializados para o transtorno9.

A adicção ao Facebook compartilha características comuns, com outros quadros aditivos [dependência química (DQ) e jogo patológico (JP)]6, tais como saliência, modificação do humor, tolerância, abstinência, recaídas e conflitos interpessoais e intrapsíquicos10,11. Para Griffiths, essas características compõem o aspecto central das dependências comportamentais10,12. Além dessas características, estudos neuropsicológicos e de neuroimagem estrutural e funcional têm encontrado similaridades entre DQ, JP e a adicção à internet13, da qual a adicção ao Facebook pode ser considerado um subtipo14.

Do ponto de vista neuropsicológico, estudos têm sustentado que a adicção à internet apresenta redução nos mecanismos de controle dos impulsos do córtex pré-frontal e outras funções executivas similar àquela encontrada em outros transtornos aditivos13. Um dos aspectos neuropsicológicos mais estudados é a tomada de decisão. Usuários excessivos de internet, quando avaliados pelo Iowa Gambling Task, apresentam pior desempenho, ou seja, pior tomada de decisão15. Outro estudo aponta que adictos a jogos pela internet têm mais propensão a riscos e escolhas desvantajosas16. Esses aspectos também são vistos em outros transtornos aditivos.

Outras similaridades entre a adicção à internet, particularmente os adictos a jogos pela internet, e outros transtornos aditivos são verificados nos estudos de neuroimagem. Estudo comparando indivíduos que jogavam frequentemente jogos pela internet e aqueles não frequentes encontrou aumento do volume da substância cinzenta da região ventrolateral esquerda do striatum e maior ativação da região ventral do striatum em jogadores frequentes em comparação com os infrequentes. Os autores concluem que essas mudanças na região ventral do striatum podem refletir mudanças no sistema de recompensa cerebral17.

Um estudo realizado com 18 adolescentes adictos à internet verificou diminuição do volume da substância cinzenta em diversas regiões do lobo frontal – córtex pré-frontal dorsolateral, córtex orbitofrontal, área motora suplementar –, bem como em partes posteriores do cérebro – cerebelo e córtex cingulado anterior rostral à esquerda. Os autores concluíram que essas mudanças podem estar associadas com o prejuízo das cognições relacionadas ao controle inibitório e que essas mudanças são similares àquelas encontradas em dependentes químicos18. Outros estudos precisam ser feitos dando ênfase às alterações neuropsicológicas e neurobiológicas nos adictos a redes sociais, tendo em vista a ampliação do entendimento desse fenômeno.

Embora a compreensão atual dessa adicção ainda não esteja completa, não é possível ignorar o problema. A demora em reconhecer e avaliar esse fenômeno permitirá a sua silenciosa propagação, afetando milhões de pessoas, especialmente crianças e adolescentes.

Para avaliar a adicção ao Facebook, um instrumento psicométrico foi desenvolvido por pesquisadores noruegueses. A BFAS, composta por 18 itens, os quais investigam as seis dimensões das dependências comportamentais10,12, apresentou alfa de Cronbach 0,83, coeficiente de correlação intraclasse (CCI) de 0,82 e estrutura fatorial satisfatória. Foi validada em uma amostra de estudantes universitários, entretanto os autores sugerem que a BFAS pode ser usada tanto em estudos epidemiológicos de base comunitária como em cenários clínicos11.

A adicção ao Facebook é um fenômeno que precisa de mais estudos, sobretudo nas populações que apresentam os maiores indicadores de uso dessa RS. Ainda não existe nenhum estudo que tenha investigado ou validado instrumentos psicométricos para rastreio do uso problemático de Facebook pela população brasileira. O primeiro passo para que isso aconteça é a elaboração ou adaptação transcultural (ATC) de um instrumento psicométrico para esse fim. Por isso, o objetivo deste trabalho foi avaliar a equivalência semântica (ES) e a confiabilidade da BFAS traduzida para o português (Brasil).

MÉTODOS

A ES foi verificada em uma amostra de conveniência de 37 estudantes da Universidade de Pernambuco, dos cursos de Medicina, Enfermagem, Odontologia, Educação Física e Ciências Biológicas, com idade média de 19,49 anos (DP = ±2,3), sendo 64,86% (n = 24) do sexo feminino. A confiabilidade foi estimada em uma amostra de 359 estudantes dos mesmos cursos com idade média de 19,55 anos (DP = ±2,37), sendo 75,5% (n = 271) do sexo feminino. A escolha de realizar o estudo em uma população de estudantes de Saúde foi no intuito de replicar outros estudos de validação da BFAS que usaram amostras de universitários de outras áreas do conhecimento. Embora sempre validado em amostras de universitários, o instrumento também tem sido utilizado em populações adultas.

Para essa análise, utilizou-se a abordagem recomendada por Herdman et al.19 e Reichenhein e Moraes20, que preconiza uma abordagem universalista para os estudos de ATC. Outros estudos20-22 seguiram o mesmo guideline e foram utilizados como referencial metodológico.

O instrumento original em inglês foi inicialmente traduzido para o português (Brasil) por dois tradutores independentes20,21, em seguida foi gerada uma versão síntese. Posteriormente, essa versão foi retraduzida para inglês por dois tradutores, sendo um deles cidadão nativo de país língua inglesa; as duas versões foram comparadas pelos tradutores, que procederam à elaboração de uma versão-síntese da retradução.

A versão-síntese da retradução foi submetida à revisão técnica e à análise da ES por dois psicólogos experientes em ATC de instrumentos psicométricos; os profissionais compararam o original em inglês com a versão-síntese retraduzida, enfatizando a transferência do significado referencial e geral do instrumento21; nessa etapa o instrumento foi aprimorado e a versão produzida foi submetida à avaliação da compreensão verbal por 10 especialistas em saúde mental (dois psiquiatras, quatro psicólogos e quatro enfermeiras).

A compreensão verbal foi avaliada para cada item por meio de um questionário que perguntava: “Você entendeu o que está sendo perguntado?”. As respostas eram do tipo Likert: 0 – não entendi nada; 1 – entendi só um pouco; 2 – entendi mais ou menos; 3 – entendi quase tudo, mas tive algumas dúvidas; 4 – entendi quase tudo; 5 – entendi perfeitamente e não tenho dúvidas. Para que o item seja classificado com grau de compreensão adequado, ele deve obter 80% de respostas 4 e 5. Para os itens com compreensão verbal insuficiente, foi solicitado aos participantes que sugerissem modificações, as quais deveriam ser justificadas23, e por fim foi produzida a versão pré-final.

A versão pré-final foi aplicada a uma amostra de 37 estudantes, com objetivo de avaliar a compreensão verbal, seguindo o mesmo procedimento metodológico realizado com o grupo de 10 profissionais. Após análise das respostas, uma versão final da BFAS-BR foi redigida.

A versão final foi aplicada a uma amostra de 359 estudantes para análise da confiabilidade do instrumento.

O poder discriminativo dos itens indica o grau em que um item distingue indivíduos que obtêm pontuações altas e baixas24. A análise do poder discriminativo dos itens foi realizada por meio do coeficiente de correlação total dos itens e da correlação ponto bisserial, que são as medidas da correlação entre cada item e o escore total do instrumento25,26. Esse tipo de análise serve para a tomada de decisão sobre a permanência ou exclusão de um determinado item, ao apontar o quanto de contribuição o item ofereceu ao seu domínio. Determinou-se 0,30 como valor mínimo para inclusão25.

Para verificar a estabilidade do instrumento no tempo, optou-se pela técnica de teste-reteste. Desse modo, a cada cinco entrevistas iniciais, um sujeito foi convidado a participar de uma nova entrevista, depois de decorridos 15 dias, até que ao menos 20% da amostra inicial fossem contatados. Ao final, 72 indivíduos compareceram à segunda entrevista. A partir da obtenção do escore total da BFAS-BR em dois momentos distintos no tempo, determinou-se a estabilidade do instrumento por meio do CCI. A reprodutibilidade seria considerada adequada para CCI maior que 0,7027.

A consistência interna do instrumento foi verificada por meio do alfa de Cronbach, sendo considerados bons indicadores valores variando entre 0,8-0,928.

A análise estatística foi realizada com o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS, v. 20). A correlação ponto bisserial foi estimada pelo software estatístico Winsteps.

Considerações éticas

Este estudo seguiu a Resolução no 196/96, do Conselho Nacional de Saúde para pesquisa em seres humanos. Todos os participantes assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sob o CAAE n° 10900712.0.0000.5505 e Parecer n° 173.337/12.

RESULTADOS

Adaptação transcultural

Durante o processo de tradução e retrotradução, algumas palavras ou expressões necessitaram ser adequadas para garantir a transferência do sentido denotativo e conotativo das dos termos em questão (Tabela 1):

Tabela 1 Comparação entre a versão original em inglês, tradução, retrotradução e a versão final 

Original em inglês Síntese das traduções Síntese das retrotraduções Versão final
1. Spent a lot of time thinking about Facebook or planned use of Facebook? Passou muito tempo pensando no Facebook ou planejando usá-lo? Have you spent much time thinking about Facebook or planning to use it? Passou muito tempo pensando sobre o Facebook ou planejando usá-lo?
2. Thought about how you could free more time to spend on Facebook? Pensou sobre como você poderia fazer para ter mais tempo para passar no Facebook? Have you thought about what you could do to have more time to spend on Facebook? Pensou sobre como você poderia fazer para ter mais tempo para passar no Facebook?
3. Thought a lot about what has happened on Facebook recently? Pensou muito sobre o que aconteceu no Facebook recentemente? Have you thought a lot of what has happened on Facebook lately? Pensou muito sobre o que aconteceu no Facebook recentemente?
4. Spent more time on Facebook than initially intended? Passou mais tempo no Facebook do que você pretendia inicialmente? Have you spent more time on Facebook than you originally intended? Passou mais tempo no Facebook do que você pretendia inicialmente?
5. Felt an urge to use Facebook more and more? Sentiu necessidade de usar o Facebook mais e mais? Have you felt the need to use Facebook more and more? Sentiu necessidade de usar o Facebook mais e mais?
6. Felt that you had to use Facebook more and more in order to get the same pleasure from it? Sentiu que precisava usar o Facebook cada vez mais para obter o mesmo prazer que antes? Have you felt the need to use Facebook more to obtain the same pleasure as before? Sentiu que precisava usar cada vez mais o Facebook (por mais tempo e/ou mais vezes) para obter o mesmo prazer?
7. Used Facebook in order to forget about personal problems? Usou o Facebook a fim de esquecer problemas pessoais? Have you used Facebook to forget personal problems? Usou o Facebook a fim de esquecer problemas pessoais?
8. Used Facebook to reduce feelings of guilt, anxiety, helplessness, and depression? Usou o Facebook para reduzir sentimentos de culpa, ansiedade, impotência ou depressão? Have you used Facebook to reduce feelings of guilt, anxiety, helplessness or depression? Usou o Facebook para reduzir sentimentos de culpa, ansiedade, incapacidade ou depressão?
9. Used Facebook in order to reduce restlessness? Usou o Facebook para reduzir inquietações? Have you used Facebook to reduce anxieties? Usou o Facebook para reduzir o estresse?
10. Experienced that others have told you to reduce your use of Facebook but not listened to them? Foi aconselhado por outros a reduzir seu uso do Facebook, mas não os escutou? Have you been advised by others to reduce your use of Facebook but not listened to them? Foi aconselhado por amigos e/ou familiares a reduzir seu uso do Facebook, mas não os escutou?
11. Tried to cut down on the use of Facebook without success? Tentou reduzir o uso do Facebook, mas não obteve sucesso? Have you tried to reduce the use of Facebook, but without success? Tentou reduzir o uso do Facebook, mas não obteve sucesso?
12. Decided to use Facebook less frequently, but not managed to do so? Decidiu usar o Facebook com menos frequência, mas não conseguiu diminuir a frequência? Have you decided to use Facebook less frequently, but could not decrease the frequency? Decidiu usar o Facebook com menos frequência, mas não conseguiu?
13. Become restless or troubled if you have been prohibited from using Facebook? Ficou inquieto ou incomodado quando foi proibido de usar o Facebook? Have you ever become restless or bothered when you were forbidden to use Facebook? Ficou inquieto ou incomodado quando foi proibido de usar o Facebook?
14. Become irritable if you have been prohibited from using Facebook? Ficou irritado quando foi proibido de usar o Facebook? Have you become irritated when you were forbidden to use Facebook? Ficou irritado quando foi proibido de usar o Facebook?
15. Felt bad if you, for different reasons, could not log on to Facebook for some time? Sentiu-se mal quando não pôde acessar o Facebook por algum tempo? Have you felt bad, for different reasons, when you could not access Facebook for a while? Sentiu-se mal quando não pôde acessar o Facebook por algum tempo?
16. Used Facebook so much that it has had a negative impact on your job/studies? Usou tanto o Facebook que teve um impacto negativo nos seus estudos/trabalho? Have you used Facebook so much that it has had a negative impact on your studies/work? Usou tanto o Facebook que teve um impacto negativo nos seus estudos/trabalho?
17. Given less priority to hobbies, leisure activities, and exercise because of Facebook? Deu menos prioridade aos hobbies, atividades de lazer e exercícios por causa do Facebook? Have you given less priority to hobbies, leisure activities and exercises because of Facebook? Deu menos prioridade aos hobbies, atividades de lazer e exercícios por causa do Facebook?
18. Ignored your partner, family members, or friends because of Facebook? Ignorou seu/sua parceiro(a), familiares ou amigos por causa do Facebook? Have you ignored your partner, family or friends because of Facebook? Ignorou seu/sua parceiro(a), familiares ou amigos por causa do Facebook?

Dimensões da BFAS-BR: Saliência: 1, 2, 3; Tolerância: 4, 5, 6; Alteração do humor: 7, 8, 9; Recaída: 10, 11, 12; Abstinência: 13, 14, 15; Conflito: 16, 17, 18.

Todas as questões possuíram as mesmas opções de respostas; trata-se de uma escala do tipo Likert, com valores de 1 a 5: (1) Muito raramente, (2) Raramente, (3) Às vezes, (4) Muitas vezes, (5) Muito frequentemente.

  • O termo Facebook®, por se tratar de nome próprio, não foi traduzido para o português;

  • No item 8, o termo “helplessness”, traduzido como “impotência”, foi adaptado para a palavra “incapacidade”;

  • No item 17, a expressão “hobbies” não foi traduzida para o português falado no Brasil, sendo mantido ipsis litteris como na versão original em inglês.

Avaliação do instrumento

A análise da escala BFAS-BR pelos profissionais de saúde mental revelou valores médios de compreensão verbal, variando entre 4,4 e 5,0 (Tabela 2). Apenas o item 6 não demonstrou um bom grau/nível de compreensão verbal, apresentando, pelos profissionais, uma taxa de respostas 4 e 5 inferior a 80%, portanto, conforme estabelecido na metodologia deste estudo, o item necessitou ser redigido novamente com base nas considerações dos profissionais, na tentativa de garantir bom nível de compreensão verbal. A redação final do item 6 ficou: “Sentiu que precisava usar cada vez mais o Facebook (por mais tempo e/ou mais vezes) para obter o mesmo prazer?”.

Tabela 2 Avaliação da compreensão verbal 

Itens BFAS-BR Profissionais (n = 10)
Estudantes (n = 37)
Grau de compreensão Média (DP*) % de respostas 4 e 5 profissionais Grau de compreensão Média (DP*) % de respostas 4 e 5 estudantes
1 4,5 (0,85) 80% 4,8 (0,39) 97,3%
2 4,6 (0,84) 80% 4,5 (1,01) 83,8%
3 4,6 (0,84) 80% 4,8 (0,70) 94,6%
4 5 (0) 100% 4,9 (0,36) 97,3%
5 4,8 (0,63) 90% 4,8 (0,51) 97,3%
6 4,4 (0,96) 70% 4,5 (1,12) 86,5%
7 5 (0) 100% 4,7 (1,15) 94,6%
8 5 (0) 100% 4,6 (1,23) 91,9%
9 4,5 (0,85) 80% 4,7 (1,02) 91,9%
10 5 (0) 100% 5 (0) 100%
11 4,8 (0,63) 90% 4,8 (0,65) 97,3%
12 5 (0) 100% 4,9 (0,16) 100%
13 5 (0) 100% 4,9 (0,49) 97,3%
14 5 (0) 100% 4,8 (0,60) 94,6%
15 4,9 (0,31) 100% 4,9 (0,32) 97,3%
16 5 (0) 100% 4,9 (0,32) 97,3%
17 4,8 (0,63) 94,4% 4,9 (0,16) 100%
18 5 (0) 100% 4,9 (0,49) 100%
Total 4,8 (0,21)   4,8 (0,15)  

* DP: desvio-padrão.

Após essa alteração, a escala foi aplicada a um grupo de estudantes para verificar os índices de compreensão verbal, que variou entre 4,5 e 5,0 (Tabela 2), tendo alcançado todos os itens um bom grau de compreensão verbal, portanto não necessitando de mais nenhum ajuste semântico.

A análise da confiabilidade por meio da consistência interna revelou alfa de Cronbach para o instrumento de 0,92; já as dimensões apresentaram alfa de Cronbach variando entre 0,74-0,86. Considerando o alfa se algum item fosse deletado, observou-se que não houve nenhum acréscimo no alfa total de escala. A correlação total dos itens do instrumento estava adequada, variando entre 0,47 e 0,91. A correlação ponto bisserial também foi adequada, variando entre 0,47 e 0, 70 (Tabela 3)

Tabela 3 Consistência interna, correlação total dos itens e correlação ponto bisserial 

Itens Correlação total dos itens Correlação ponto bisserial Alfa se item excluído
Saliência α de Cronbach 0,79
1 0,69 0,67 0,91
2 0,91 0,53 0,92
3 0,64 0,59 0,92
Tolerância α de Cronbach 0,77
4 0,52 0,70 0,92
5 0,71 0,67 0,91
6 0,60 0,57 0,91
Alterações do humor α de Cronbach 0,84
7 0,74 0,56 0,92
8 0,70 0,53 0,92
9 0,68 0,63 0,92
Recaída α de Cronbach 0,86
10 0,62 0,53 0,91
11 0,83 0,60 0,91
12 0,79 0,60 0,91
Abstinência α de Cronbach 0,84
13 0,73 0,58 0,91
14 0,81 0,56 0,91
15 0,61 0,63 0,91
Conflitos α de Cronbach 0,74
16 0,47 0,49 0,92
17 0,64 0,49 0,92
18 0,59 0,47 0,92
α de Cronbach total 0,92

Para a estabilidade no tempo, o instrumento apresentou alto grau de concordância com CCI, igual a 0,81.

DISCUSSÃO

O objetivo deste estudo foi verificar a equivalência semântica e estimar os indicadores de confiabilidade da versão em português (Brasil) da BFAS. A versão adaptada para a população brasileira possui equivalência semântica com o instrumento original em inglês e níveis aceitáveis de consistência interna e estabilidade no tempo.

Na etapa de tradução, a palavra “Facebook” não foi traduzida. Um dos tradutores argumentou que, por ser o nome próprio de uma empresa, não haveria tradução; desse modo, optou-se por mantê-lo igual à versão original. Nas demais etapas revisão técnica, análise da equivalência semântica e avaliação da compreensão verbal (profissionais e estudantes), não houve contestação. Embora o termo tenha sido compreendido pela população-alvo, a literatura científica apresenta críticas à manutenção desse termo, argumentando que a BFAS foi desenvolvida para avaliar a adicção a uma companhia comercial particular mais do que a atividade em si (social networking)8. Por outro lado, argumenta-se que o conceito de sites de RS não é mais específico do que Facebook, assim adicção ao Facebook em vez de adicção à RS é defensável29. De qualquer modo, os pesquisadores devem considerar que o Facebook é um entre muitos outros sites de RS, portanto recomendamos cautela para usar a BFAS na avaliação da adicção para outros sites ou redes sociais de maneira mais ampla.

A avaliação do significado geral e referencial foi realizada durante todo o processo de ES, assegurando que os termos traduzidos do inglês para o português transmitissem a carga subjetiva esperada, como observado nos itens 8 e 17. Na tradução do item 8, o termo “helplessness” foi traduzido como impotência, no entanto a mera tradução do termo seria incapaz de transferir o significado geral esperado para o termo na população-alvo, tendo em vista que o termo “impotência” tem um significado cultural distinto para a população brasileira, às vezes carregado de preconceito; por isso, optou-se pelo termo sinônimo “incapacidade”, o qual apreende o significado esperado para o termo. No item 17, a palavra “hobbies” foi mantida como no original em inglês por dois motivos: (1) a palavra já está incorporada à cultura-alvo, como observado em vários textos jornalísticos, e constitui um estrangeirismo frequente entre a população brasileira; (2) o termo “hobbies” consegue transferir o significado referencial e geral desejado para o item em questão.

A adaptação envolveu a análise da compreensão verbal dos itens por um grupo de profissionais de saúde mental e por estudantes de graduação da área da Saúde. Para o grupo de profissionais, o item 6 apresentou grau de compreensão verbal insuficiente. Após análise das sugestões dos profissionais para esse item, percebeu-se que havia a necessidade de explicitar de alguma forma a dimensão frequência em que o fenômeno ocorre, o que garantiria maior compreensibilidade do que está sendo avaliado. A análise da compreensão verbal feita pelos estudantes, incluindo o item 6 modificado, revelou que a BFAS-BR foi adequadamente compreendida pelos alunos, não havendo mais necessidade de nenhuma adequação na BFAS-BR, o que garante boa compreensão verbal da versão em português do instrumento.

O alfa de Cronbach para o instrumento adaptado foi de 0,92, superior ao verificado por Andreassen et al.11. Da mesma forma, as dimensões apresentaram alfa de Cronbach satisfatório, sendo assim os itens estavam consistentemente reunidos para medir suas respectivas dimensões. O alfa de Cronbach deve variar entre 0,80 e 0,9028, pois valores superiores a 0,90 são sugestivos de redundância ou duplicação no conjunto de itens, isto é, a existência de itens praticamente iguais escritos de forma diferente, o que deve ser verificado a posteriori em estudo das propriedades psicométricas da BFAS-BR.

A análise de discriminação dos itens refere-se à propriedade de que os itens da escala discriminem a amostra em categorias, sejam elas de alta ou baixa e leve, moderada ou alta performance. A capacidade de discriminação de um item é uma das principais características psicométricas relativa à qualidade de uma questão30. Dois dos indicadores do poder de discriminação dos itens são a correlação total dos itens e a correlação ponto bisserial26,30. Itens com correlações inferiores a 0,3 devem ser excluídos do teste, uma vez que indicam baixo poder discriminativo e repercutem negativamente na consistência interna do teste. A BFAS-BR apresentou todos os itens com correlações item total e ponto bisserial acima de 0,47, indicando que todas as questões do instrumento contribuem satisfatoriamente para discriminar indivíduos com níveis baixo e alto de adicção ao Facebook.

A estabilidade do instrumento no tempo foi verificada por meio do CCI, que foi de 0,81, valor próximo ao encontrado no estudo original de Andreassen et al.11, que foi de 0,82. Cabe destacar que neste estudo o intervalo de tempo entre o teste e o reteste foi de duas semanas e no estudo de Andreassen et al.11 o intervalo foi de três semanas. Esses achados sugerem que a BFAS-BR é estável no tempo.

Embora não haja consenso metodológico sobre a ATC de instrumentos psicométricos, as abordagens que consideram a dimensão cultural20 têm recebido atenção da comunidade acadêmica. A equivalência semântica e a mensuração (confiabilidade) são apenas duas das etapas requeridas pela ATC, sendo as únicas realizadas em alguns estudos21,31, o que sugere aceitação desse procedimento no campo científico. É importante enfatizar que essas etapas e suas respectivas estratégias devem ser rigorosamente descritas e cumpridas para garantir a veracidade e a qualidade da informação apresentada32, o que foi rigorosamente cumprido neste estudo.

CONCLUSÃO

Conclui-se, com base no rigor metodológico executado na avaliação da equivalência semântica, que a tradução da BFAS para o português (Brasil) conseguiu transferir o significado geral e referencial do instrumento e que apresentou compreensão verbal satisfatória pelos grupos de profissionais e estudantes. Além disso, mostrou-se um instrumento com bons indicadores de confiabilidade. Os itens, de fato, parecem medir o construto adicção ao Facebook e cada uma de suas respectivas dimensões. O instrumento foi estável no tempo.

Este estudo não encerra a adaptação transcultural do instrumento, pois ainda é necessário verificar outras qualidades psicométricas do instrumento. Dessa forma, recomendamos cautela no uso do instrumento; neste ponto ele serve como ferramenta apenas para nortear o uso em indivíduos com adicção ao Facebook.

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