Escolares residentes em área impactada por aterro sanitário e seu conhecimento sobre poluição

Escolares residentes em área impactada por aterro sanitário e seu conhecimento sobre poluição

Autores:

Rosangela Maiara Vindoura-Gomes,
Volney de Magalhães Câmara,
Delma Perpétua Oliveira de Souza

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.23 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X201500060119

Abstract

This article presents an evaluation of educational activities developed for adolescents from a school located in an area impacted by inadequate disposal of solid waste through the comparison of the previous and posterior knowledge of these students on pollution and health effects. This cross-sectional study was conducted in two phases including respectively 84 and 93 elementary school students from the rural area in the city of Cuiabá, 2013. Data on the school and the concepts of pollution were obtained through a self-reported questionnaire. Chi-square test was performed for statistical analysis. There was a significant increase in the knowledge about environmental pollution after the implementation of the educational activities. We concluded, although the political and pedagogical project of the school developed environmental themes, additional activities should be implemented for the association of these environmental hazards with the human health among the scholars.

Key words: scholar; pollution; environmental education; environmental health

INTRODUÇÃO

Desde o final do século passado, observa-se grande interesse de conhecimento dos organismos internacionais sobre os efeitos do ambiente na saúde humana em decorrência de padrões de produção e consumo das sociedades contemporâneas. Tais padrões culminam numa distribuição desigual induzida pelos processos de consumo entre as diferentes classes e segmentos sociais e também a produção excessiva de lixo, notadamente nos ambientes urbanos1,2.

A partir das atividades humanas, são gerados os resíduos sólidos de duas formas: uma como sendo parte inerente do processo produtivo e a outra quando termina a vida útil dos produtos. Assim, o destino ofertado ao lixo produzido torna-se um problema sério para o ambiente com efeitos nocivos à saúde humana3.

Postergou-se 21anos para que fosse aprovada a Lei 12.305/2010 que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Tal lei preconiza que em 2014 os resíduos sólidos recebam destinação adequada, pondo fim à existência dos lixões. Como principal instrumento da PNRS está o Plano Nacional de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, que compreende o diagnóstico da situação atual dos resíduos, cenários, metas, diretrizes e estratégias para o cumprimento das metas4,5.

A PNRS considera que a destinação final adequada dos resíduos sólidos seja oaterro sanitário, que faz uso de técnicas apropriadas, não causando danos à saúde pública e à segurança das pessoas que trabalham no local, utiliza princípios de engenharia para confinar e reduzir o volume dos resíduos, sendo ao final coberto por camada de terra e o solo completamente impermeabilizado, evitando infiltrações ou escoamento do chorume4-6.

Dentre as técnicas não adequadas e frequentes para disposição final dos resíduos estáo aterro controlado, em que o cuidado realizado é a cobertura da massa de resíduos com terra. E por fim os lixões, local em que os resíduos são depositados no solo sem medida de controle ou técnica. Para as duas últimas formas de disposição dos resíduos, não há impermeabilização do solo nem sistema de tratamento do chorume, ou seja, são fontes potenciais de contaminação do solo e do lençol freático4,6.

Os impactos ambientais causados pelos resíduos sólidos podem ser classificados de acordo com a área afetada, podendo ser: (a) área diretamente afetada: corresponde à área do empreendimento sanitário; (b) área de influência direta: afeta as bacias hidrográficas, fauna e flora circunscrita ao empreendimento; e (c) área de influência indireta: referente aos ecossistemas e ao sistema socioeconômico impactado, considerando a extensão territorial do município7.

Embora exista legislação sobre a destinação correta dos resíduos sólidos, a meta de acabar com os lixões está longe de ser realidade. Apesar da imprecisão estatística, estima-se que no Brasil existam 2.906 lixões, que empregam o processo de incineração dos resíduos, gerando grande quantidade de fumaça e poluição8. A poluição é entendida como “qualquer alteração em um meio, de modo a torná-lo prejudicial ao ser humano e às outras formas de vida que esse ambiente abriga, ou que prejudique um uso previamente definido para ele”9.

Mesmo que os locais de destinação dos resíduos possam estar localizados em áreas distantes dos grandes aglomerados populacionais, tal fato não impede que suas consequências alcancem as pessoas nos centros urbanos, pois os riscos desconhecem as demarcações fronteiriças. A mesma lógica acontece com os agravos à saúde provenientes destes locais10.

O domínio deste contexto e suas consequências para a saúde de diferentes segmentos da população ainda é pouco conhecido11. No entanto, estudos têm sido realizados voltados para a educação ambiental no Estado de Mato Grosso12,13, bem como o estabelecimento de políticas públicas, entre elas a contida no Plano de Política de Educação do Estado de Mato Grosso, em conformidade com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Estas políticas objetivam a formação de comportamentos com a responsabilidade da preservação do meio ambiente, para que este forneça condições favoráveis à promoção da saúde14-16.

Uma das preocupações presentes no município de Cuiabá está relacionada à disposição final dos resíduos sólidos, pois apresenta condições divergentes das assinaladas na PNRS4,5,17. Impactos ambientais já estudados apontam para a contaminação do subsolo e dos cursos de água superficiais pelo chorume18,19 e fissuras profundas que atingem reservatórios subterrâneos de água20. Relacionado com a saúde da população circunscrita ao local de armazenamento inadequado dos resíduos, está o lençol freático, comprometendo o consumo da água de poços contaminados pelo chorume19. Outro fato relevante para a saúde de populações é a contaminação das nascentes que compõem a sub-bacia hidrográfica, pois a área de abrangência de destinação dos resíduos abriga uma sub-bacia hidrográfica, a do Ribeirão do Lipa7, conforme Figura 1.

Figura 1 Localização da área de estudo. Fonte: Faria24  

No município de Cuiabá, consta funcionamento de um aterro sanitário para dar destinação adequada aos resíduos sólidos. No entanto, estudos recentes apontam falhas que comprometem tal denominação ao local, tendo em vista que o resíduo coletado está superior à sua capacidade operacional e, como consequência direta a este fato, o aterro sanitário está operando como lixão, não atendendo à PNRS7,17, conforme as Figuras 2-4.

Figura 2 Resíduos sólidos armazenados de forma inadequada e catadores. Fonte: Ministério Público do Estado de Mato Grosso17  

Figura 4 Chorume no local de armazenamento dos resíduos sólidos. Fonte: Ministério Público do Estado de Mato Grosso17  

A realidade da comunidade que reside próxima a este local merece atenção no que diz respeito às ações relativas à educação dos jovens ali inseridos, pois o gerenciamento inadequado destes resíduos gera impacto tanto no ambiente como na saúde da população circunscrita a este espaço9.

Nesta perspectiva, observa-se uma lacuna na política de educação do Estado de Mato Grosso no tocante à integração dos efeitos do ambiente degradado com a saúde humana. É importante discutir com os escolares questões relacionadas à exposição e aos efeitos que o ambiente em áreas de depósitos inadequados de resíduos sólidos pode exercer sobre o bem-estar físico, mental e social, tendo em vista que a adolescência é uma fase considerada crítica, pois quase dois terços das mortes prematuras e um terço da carga de doenças em adultos são atribuídos ao comportamento que tiveram início na adolescência9,21.

Neste sentido, o artigo apresenta a avaliação de um programa educativo que teve como objetivo identificar e discutir o conhecimento prévio dos escolares sobre poluição e os efeitos à saúde provocados por um ambiente impactado pela existência de um local que armazena de forma inadequada os resíduos sólidos.

MÉTODO

Este artigo é parte integrante do projeto matriz “Saúde de adolescentes escolares em área impactada por aterro sanitário: avaliação do risco para a saúde e estudo da aplicabilidade de um programa de educação para a saúde”, desenvolvido pelas Universidades Federais do Rio de Janeiro e de Mato Grosso.

A pesquisa foi realizada na escola do distrito do Coxipó do Ouro, localizado em área rural no município de Cuiabá. Somada a população do Coxipó do Ouro e das 11 comunidades próximas, totalizam-se aproximadamente 1.890 habitantes, sendo que 230 são crianças e adolescentes matriculados na referida escola. Dentre as principais atividades econômicas, estão pequenas comunidades de agricultura de subsistência, chácaras de lazer, pecuária, criação de peixes e estabelecimentos para turismo22,23.

A comunidade do Coxipó do Ouro deu origem ao município de Cuiabá há 296 anos e está localizada no entorno da unidade de conservação do Parque Nacional de Chapada dos Guimarães22,23. Está situada em área rica em recursos hídricos, tendo destaque a sub-bacia hidrográfica do Ribeirão do Lipa e córregos que deságuam no Rio Cuiabá, responsável pelo abastecimento de água de Cuiabá7,24 (Figura 1).

Há 33 anos esta comunidade convive com a presença do espaço para o qual os resíduos sólidos de Cuiabá são destinados. No período de 1982-1997, funcionava, sem estudo técnico prévio, como local para destinação dos resíduos sólidos24. A partir de 1997, foi criado, ao lado do antigo lixão, um espaço para armazenar de forma adequada os resíduos sólidos oriundos de Cuiabá. O local concebido para dar destinação correta aos resíduos sólidos não está cumprindo com os requisitos preconizados pela PNRS7,17.

Decorrente deste fato, há problemas sociais no local onde o lixo é depositado, como o trabalho infatojuvenil e catadores submetidos a trabalho em condições insalubres17,25. Como questões ambientais, verificam-se no local: falha na impermeabilização do solo, inexistência no recobrimento diário e cobertura final dos resíduos, deficientes sistemas de coleta, drenagem de líquidos e sistema de coleta de tratamento dos gases. O chorume, líquido tóxico oriundo da decomposição da matéria orgânica contida nos resíduos fica represado em locais não impermeabilizados e escoa de forma aleatória, sendo absorvido pelas infiltrações7,17, conforme as Figuras 2, 3, 4.

Figura 3 Catadores de lixo. Fonte: Ministério Público do Estado de Mato Grosso17  

Diante do contexto apresentado, realizou-se estudo transversal, tendo como população-alvo os adolescentes matriculados no ano de 2013 em escola do Ensino Fundamental (5º ao 9º) entre 10 e 17 anos de idade da comunidade do Coxipó do Ouro. O instrumento de coleta foi validado por Câmara et al.26 e empregado em estudos anteriores27. A metodologia foi realizada pelos pesquisadores em quatro momentos no mês de outubro de 2013. Nesse processo, os alunos foram conduzidos a momentos de reflexão, concentração, identificação e socialização.

No primeiro momento, os adolescentes respondem ao questionário, sendo que as variáveis de interesse deste trabalho foram: idade, série, sexo e definição de poluição e sua relação com a saúde humana. Foi considerada correta a resposta que tinha a palavra ambiente. Para a validação da resposta correta, houve o consenso de três avaliadores.

Em seguida, foi discutida a relação do ambiente no qual os adolescentes estão inseridos e como este pode influenciar de forma negativa a saúde. Utilizaram-se fotos extraídas de sites de compartilhamento de imagens da internet que representavam alguns riscos presentes na localidade.

No segundo momento, os adolescentes foram solicitados a buscar em seus contextos de vida situações do ambiente que consideravam ser fontes de poluição. Também foram orientados a apresentar estas informações para os colegas de turma, cabendo a estes decidir sobre estratégias para abordar o tema ambiente e seus efeitos na saúde. Para este momento, foi dedicado um dia em que os adolescentes escolheram os temas e a divisão em grupos para a realização do trabalho.

O terceiro momento foi marcado pelo desenvolvimento das atividades propostas na segunda fase. Os adolescentes escolheram apresentar entrevistas realizadas com moradores da localidade, produção de cartazes, apresentação em forma de seminário e dramatização.

Num quarto momento, os adolescentes foram avaliados com a reaplicação do mesmo questionário da primeira fase. Para as análises dos questionários, dividiu-se o programa em duas fases: uma anterior à realização das atividades e uma posterior, quando os adolescentes já haviam identificado em seu contexto fontes de poluição.

Os dados foram digitados em duplicata, com conferência manual dos questionários. Para tratamento e análise dos dados, empregou- se o software SPSS for Windows, versão 18.0. Para caracterizar a população estudada, foram determinadas as frequências absolutas (n) e relativa (%). Utilizou-se o teste Quiquadrado com nível de 0,05 de significância. Quando a frequência esperada das variáveis foi menor que cinco, empregou-se o teste do Quiquadrado com Correção de Yates.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário Júlio Müller da Universidade Federal de Mato Grosso (Parecer 179.024/2012) e todos os adolescentes assinaram o Termo de Assentimento, e os responsáveis pelos adolescentes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Dos 114 (cento e catorze) alunos matriculados, se obteve respectivamente na primeira e na segunda fase a participação de 73,7% e 81,6% dos escolares. As perdas ocorridas são atribuídas ao fato de a coleta dos dados ter sido feita no final do ano letivo, período do ano que coincide com a ocorrência da evasão escolar, fenômeno este que tem marcado o contexto escolar brasileiro28, bem como a falta às aulas no dia da aplicação da atividade.

Os adolescentes foram distribuídos por fase do programa (anterior e posterior), segundo sexo, faixa etária e série (Tabela 1). Na primeira fase, participaram 84 alunos, sendo 48 (57,1%) do sexo masculino e 36 (42,9%) do sexo feminino. Na fase posterior, participaram 93 alunos, sendo 54 (58,1%) do sexo masculino e 39 (41,9%) do sexo feminino. Para ambos os sexos, houve o predomínio da faixa etária dos 13 aos 17 anos.

Tabela 1 Distribuição dos escolares por fase do programa, segundo sexo, faixa etária e série escolar, Município de Cuiabá, MT- 2013 

Sexo Faixa etária Série escolar Fase anterior Fase posterior
n (% por sexo) n (% por sexo)
Masculino ≥12 anos 5ª e 6ª Séries
7ª e 8ª Séries
9 ª Série
11 (13,1)
01 (1,1)
-
11 (11,8)
02 (2,1)
-
13-17 anos 5ª e 6ª Séries
7ª e 8ª Séries
9 ª Série
4 (4,8)
18 (21,4)
14 (16,7)
05 (5,4)
21 (22,6)
15 (16,1)
Subtota l 48 (57,1) 54 (58,0)
Feminino ≥12 anos 5ª e 6ª Séries
7ª e 8ª Séries
9 ª Série
15 (17,9)
01 (1,1)
-
15 (16,1)
01 (1,1)
-
13-17 anos 5ª e 6ª Séries
7ª e 8ª Séries
9 ª Série
03 (3,6)
10 (11,9)
07 (8,4)
05 (5,4)
11 (11,8)
07 (7,6)
Subtotal 36 (42,9) 39 (42,0)
Total 84 (100,0) 93 (100,0)

Quanto à escolaridade da população feminina, predominaram, em ambas as fases escolares, a 5ª e 6ª séries (21,5% nas duas fases). Já na população masculina predominaram a 7ª e 8ª séries (respectivamente 22,5% e 24,7%) para ambas as fases.

De um modo geral, observa-se que o conhecimento sobre poluição sofreu expressiva modificação após a realização das atividades do programa (Tabela 2). Em relação ao sexo, verificou-se maior proporção de acertos e diferença estatisticamente significativa da definição de poluição para ambos os sexos em todas as faixas etárias (p<0,05). Em relação à série escolar, observou-se maiores acertos da segunda aplicação em relação à primeira, sem diferença estatisticamente significativa apenas entre os escolares do nono ano (p>0,05). A diferença geral de acertos entre as fases anterior e posterior foi de 42,8% para 79,5%, um aumento de 36,7% (p<0,0001).

Tabela 2 Definição correta de poluição por fase do programa, segundo sexo e faixa etária, Município de Cuiabá, MT- 2013 

Fase anterior Fase posterior
Sexo Adolescentes (n) Respostas corretas (%) Adolescentes (n) Respostas corretas (%) p valor
Masculino 48 25 (52,0) 54 45 (83,4) <0,001
Feminino 36 18 (50,0) 39 30 (76,9) 0,015
Faixa etária
≥12 anos 28 13 (46,4) 29 22 (75,8) 0,022
13-17 anos 56 30 (53,5) 64 53 (82,3) <0,001
Série escolar
5ª e 6ª Séries 33 10 (30,3) 36 26 (72,3) <0,001
7ª e 8ª Séries 30 12 (40,0) 35 29 (82,8) <0,001
9 ª Série 21 14 (66,7) 22 19 (86,4) 0,243*
Total 84 36 (42,8) 93 74 (79,5) <0,001

*Yates

A Tabela 3 aponta para a proporção de acertos sobre a associação de poluição com a saúde, sendo que na primeira fase o resultado foi de 2,4% e, após a atividade, os acertos passaram para 24,7%, apresentando associação significativa (<0,001).

Tabela 3 Definição de poluição e sua relação com a saúde por fase do programa, segundo sexo e faixa etária, Município de Cuiabá, MT- 2013 

Fase anterior Fase posterior
Sexo Adolescentes (n) Respostas corretas (%) Adolescentes
(n)
Respostas corretas (%) p valor*
Masculino 48 2 (4,2) 54 12 (22,2) 0,018
Feminino 36 - 39 11 (28,2) 0,001
Faixa etária
≥12 anos 28 - 29 6 (20,7) 0,034
13-17 anos 56 2 (3,6) 64 17 (26,5) 0,001
Série escolar
5ª e 6ª Séries 33 - 36 9 (25,0) 0,006
7ª e 8ª Séries 30 1 (3,3) 35 10 (28,5) 0,017
9 ª Série 21 1 (4,7) 22 4 (18,1) 0,370
Total 84 2 (2,4) 93 23 (24,7) <0,001

*Yates

Depois de serem estimulados pelo programa a reconhecerem os fatores de poluição no ambiente em que residem, os escolares aumentaram as respostas corretas sobre a relação do ambiente com a saúde em 22,3% (p<0,001) entre as fases. Na população feminina, a proporção nas fases foi de 0% para 28,2% (p= 0,001) e para o sexo masculino de 4,2 para 22,2 (p=0,018). Para a faixa etária de escolares ≥12 anos, houve um acréscimo de 20,7% (p=0,034) e, entre 13 e 17 anos de idade, houve um acréscimo de conhecimento sobre poluição e sua influência na saúde de 22,9% (p=0,001). Na análise das séries, houve melhor rendimento na assimilação entre o ambiente e a saúde da primeira para a segunda fase para as séries da 5ª e 6ª (p=0,006) e 7ª e 8ª (p=0,017).

Nos dados informados pelos escolares como sendo fonte de poluição, notou-se a repetição de termos entre as fases, que foram: lixo (41,7% e 64,5%), degradação ambiental (14,3% e 14,3%), queimadas (13,4% e 19,3%), fumaça (5,9% e 6,5%), respectivamente.

DISCUSSÃO

Entre as medidas adotadas no Brasil para os efeitos da poluição no ambiente, existem as ações de prevenção inseridas no Currículo da Educação Básica normatizado pela LDB14 e, especificamente no Plano da Política do Estado de Mato Grosso. Nesta perspectiva, ao analisar a primeira fase deste estudo, constatou que os escolares possuíam conhecimento sistematizado sobre o ambiente, no tocante a sua preservação, porém sem associação com a saúde, evidenciado na afirmação dos escolares de que a poluição é resultante da degradação ambiental, do lixo, das queimadas e da fumaça, ratificando os aprendizados na área da Educação Ambiental, contida nos Parâmetros Curriculares dentro da temática meio ambiente14, bem como, no âmbito estadual no Plano de Educação15,16.

Ainda nesta fase se observou a ausência da relação do ambiente com a saúde, embora esta seja contemplada nos Parâmetros Curriculares como sendo um tema transversal. Os temas transversais foram eleitos por “envolverem problemáticas sociais atuais e urgentes, consideradas de abrangência nacional e até mesmo de caráter universal”15.

Sugere-se que os escolares não tenham relacionado o ambiente com a saúde devido à forma como estes temas são trabalhados no Plano de Educação do Estado de Mato Grosso cujos princípios estão consubstanciados na Agenda 21, especificamente, na Agenda Verde, que tem como foco a proteção da biodiversidade, preocupações com a queimada, com a integridade dos ecossistemas, cuidados com as matas ciliares, preocupação com as indústrias madeireiras e a monocultura16.

Interessante observação refere-se à ampliação dos conceitos elaborados pelos escolares da Agenda Verde para a Agenda Marrom, que aborda temáticas referentes ao lixo e saneamento básico. Os temas constantes na Agenda Marrom não ganharam o mesmo destaque que a Educação Ambiental no Plano Estadual de Saúde16, no entanto, com a proximidade do aterro sanitário os escolares ressaltaram, de forma expressiva, essa problemática durante a realização das atividades.

Com a aplicação das atividades previstas, denominada segunda fase do programa, os escolares incorporaram conhecimentos sobre os riscos de adoecer por exposição a fatores ambientais, observado nas diferenças significativas da primeira fase em relação à segunda. Este dado sugere que o ensino da Educação Ambiental é trabalhado com os escolares, entretanto este fato não garantiu a compreensão integrada dos efeitos do ambiente na saúde humana na prática educacional dos adolescentes29.

A transversalização dos temas deveria resgatar as relações existentes entre os conhecimentos de ambiente e sua relação com a saúde, todavia saúde e ambiente são vistos numa ótica fragmentada e, assim, deixa-se de estabelecer nexos e trata-se a doença como fato unicausal. Embora a consciência relativa à preservação do ambiente tenha crescido nas últimas décadas, a saúde e sua relação com o ambiente continuam negligenciadas na prática do ensino do ambiente e sua interface com a saúde30,31.

Nas escolas, a temática saúde entra por dois caminhos: serviços de saúde escolar ou através dos Parâmetros Curriculares Nacionais, sendo que o último fica a critério dos professores, que não recebem durante a formação subsídios para atuar de forma transdisciplinar nesta temática29.

A ausência no ensino-aprendizagem da Educação Básica numa abordagem transdisciplinar da temática saúde e ambiente tem propiciado a fragmentação do conhecimento e do modo de pensar dos sujeitos32. Os problemas ambientais estão interligados aos problemas de saúde e precisam ser trabalhados de forma integrada e na sua totalidade para auxiliarem na busca de soluções dos desafios atuais relacionados à saúde ambiental32,33.

Os temas referentes ao ambiente que ganharam destaque nas respostas dos adolescentes ao descreverem o que entendem como fontes de poluição evidenciam que assuntos relacionados ao ambiente estão em destaque entre o conhecimento dos escolares, pois estes assuntos são trabalhados nas disciplinas de Ciências e Biologia29. No caso da comunidade estudada, estar próximo ao local de destinação dos resíduos sólidos fez com que os escolares contextualizassem tal experiência junto à realização das atividades previstas na segunda fase.

Neste sentido, observou que é pouco trabalhado com escolares questões de saúde inerentes ao contexto em que estão inseridos, tornando-se necessário romper com práticas de ensino que são insuficientes para a compreensão significativa do conhecimento. É importante considerar os escolares como sendo parte do processo educativo e como sujeito de ação, criando situações de maior envolvimento dos alunos na construção de conhecimentos que levarão para a vida29,34.

Ao se tornarem sujeitos da ação, os escolares destacaram que o lixo, além de influenciar no processo saúde/doença, traz incômodo para os residentes do entorno. Estudos demonstram que o lixo ocupa papel estratégico no perfil epidemiológico das comunidades que estão próximas a estes locais. Pode transmitir doenças provocadas pela ação de vetores e na interface com as questões ambientais, contaminando o ar, águas subterrâneas e superficiais e o solo34.

Na análise dos escolares, como sendo moradores de uma área exposta aos riscos ambientais provenientes de um depósito inadequado de resíduos sólidos, nota-se que estão inseridos num território vulnerável aos riscos, ocorrendo à subestimação destes devido aos modos degradados de produção, que, por vezes, desconsideram medidas de prevenção em prol do crescimento econômico. Não é incomum a presença de territórios que abarcam em seu contexto situações que trazem risco à saúde da população11,33.

Comunidades brasileiras como a que foi estudada passam por situações semelhantes. Em Belo Horizonte-MG, há lixões que servem como fonte de trabalho para a população e trazem em seu bojo uma carga ambiental negativa devido ao funcionamento inadequado35. Em se tratando de aterro controlado, a cidade de Duque de Caxias-RJ possui as mesmas características relacionadas à degradação ambiental e problemas sociais36. Estes são dois municípios utilizados para exemplificar a problemática dos riscos ambientais advindos da destinação final inadequada dos resíduos sólidos, capilarizada em todo o território brasileiro.

Uma das estratégias de enfrentamento dos problemas provenientes do ambiente modificado pelo homem é trabalhar de forma transdisciplinar a saúde ambiental dentro das escolas, fazendo com que os escolares possuam uma visão integrada deste assunto desde o princípio da vida escolar37.

Os Parâmetros Curriculares, quando trabalhados de forma a atender às necessidades da comunidade, fornecem subsídios para responder aos problemas locais, permitindo reconhecer os riscos que possam vir a impactar a saúde. Também é importante superar as lacunas na formação dos escolares e buscar novas alternativas metodológicas que estejam em sintonia com a realidade dos sujeitos29.

Construir junto com os escolares um panorama, em que são considerados sujeitos participantes do processo de identificação do que pode influenciar o processo saúde/doença mostrou-se positivo, levando em consideração que, ao adotar práticas ativas de ensino-aprendizagem, mesmo que apenas durante a realização da pesquisa, rompeu com a prática de educação fragmentada31.

CONCLUSÃO

As atividades dos escolares, com a aquisição de novos conhecimentos, proporcionaram uma reflexão crítica sobre o ambiente e como este pode impactar a saúde humana. Verificou-se que é importante respeitar o saber acumulado dos sujeitos para seguir uma nova discussão, que integre os conhecimentos já existentes com os obtidos por meio da atividade de intervenção.

Como um avanço deste estudo, cabe destacar que a metodologia utilizada nesta pesquisa, além de apresentar resultados positivos nas associações, mostrou ser um caminho para que escolares pudessem ter acesso ao conhecimento sobre saúde ambiental e contribuíssem para a preservação do ambiente e da saúde.

A não continuidade das ações reflexivas com os adolescentes mostra-se como uma das limitações do estudo, que necessita ser suprida com ações contempladas nas Políticas de Educação, tanto nos níveis Federais como locais.

REFERÊNCIAS

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