Espaço Temático

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Autores:

Adriana Cavalcanti de Aguiar

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.30 no.12 Rio de Janeiro dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311xco021214

Quem acompanha a trajetória do atual Reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia, Prof. Naomar Almeida Filho se beneficia de suas provocações, por exemplo por ocasião do livro de título instigante, Epidemiologia sem Números 1, em 1989. Versátil nos seus interesses e agudo em seus questionamentos, o autor se dedica a pensar o papel da universidade e formular alternativas desejáveis para a formação profissional no campo da saúde. Nos apresenta agora uma reflexão sobre a obra de seu conterrâneo, o Prof. Anísio Teixeira, advogando sua potencial contribuição para o enfrentamento de desafios universitários contemporâneos. No percurso analisa a obra deste eminente scholar baiano, resgatando a contribuição do filósofo pragmatista norte-americano John Dewey, e polemiza as interpretações ingênuas sobre a obra de Abraham Flex ner no Brasil. Ao longo de todo o texto propõe o aprofundamento no estudo da educação superior, demandando uma atitude de vigilância epistemológica, teórico-metodológica e político- institucional.

Embora o diálogo entre educação e saúde no Brasil venha se fortalecendo, alguns mitos tendem a persistir. O próprio Almeida Filho analisou criticamente um desses aqui em Cadernos de Saúde Pública, em 20102. A demonização do chamado "modelo biomédico flexneriano" a qual se reporta o autor é de fato emblemática, e denuncia a pouca leitura do (longo) original do famoso Relatório Flexner, datado de 1910. Almeida Filho critica a caricatura que é feita da obra de Flexner, e dos "males" causados pelo (equivocadamente denominado) "paradigma" flexneriano. Quem acompanha o debate sobre educação médica sabe que Flexner (tantas décadas depois) de fato é acusado de favorecer uma "abordagem reducionista do conhecimento", através de um ensino "hospitalocêntrico, individualista e tendente à superespecialização" e consequente "fomento à mercantilização da medicina". Dificilmente Flexner poderia antever acusações de que iria prejudicar a qualidade da prestação de serviços de saúde na longínqua América do Sul em pleno século XXI.

Ao enfocar similaridades entre "modelos flexnerianos de renovação da universidade" e a "contribuição potencial da obra anisiana para os debate político-pedagógicos atuais sobre formação profissional e acadêmica em saúde", Almeida Filho tangencia vários elementos de contexto que balizaram a produção de Flexner, com nuances acadêmicas e políticas aprofundadas por exemplo, por Kemp & Edler3, para entender a recepção de suas ideias no Brasil. No fim do século XIX como agora, algumas premissas se mantém: "os modelos médicos educacioanis [...] são expressões de determinados arranjos políticos, quer no contexto em que se originaram, quer naqueles por onde se expandiram posteriomente"3 (p. 573).

Cabe então a nós, à luz do contexto atual, problematizar a contribuição de Flexner para o ensino na saúde. Problematizemos por exemplo a organização do currículo em ciclos: se o modelo biomédico, com sua forte característica de produção experimental do conhecimento (e prerrogativa de controle das variáveis de estudo) já não se sustenta como única "base" para a formação em saúde, faz sentido questionar a dicotomia entre ciclos "básico" e "clínico". Isso não nos exime, no entanto, de planejar o ensino de modo a facilitar a aprendizagem significativa, lembrando que alguns conteúdos (e vivências práticas) se prestam melhor como "âncoras" para estruturação da rede semântica (e desenvolvimento de atitudes adequadas à boa prática) de alunos de graduação e pós-graduação. Estes conteúdos podem anteceder outros conteúdos e lhes servir de "base". Cabe compreender que a natureza dessa base, para ser sólida, é diversa: além do conhecimento biomédico, há de contar também com conteúdos das ciências humanas e sociais, e das ciências exatas (especialmente nos componentes que informam o conhecimento epidemiológico).

Diferentemente da contribuição de Flexner, muito criticada no Brasil, a obra de Anísio Teixeira padece de esquecimento, conforme nos alerta Almeida Filho. Pouquíssima apropriação ocorreu, pelos estudiosos da formação profissional em saúde, apesar do ilustre professor baiano haver tratado de temáticas como a relação entre teoria e prática e a relação entre ensino e pesquisa, estratégicas no debate sobre a formação de profissionais para atender as necessidades de saúde de nossa população.

Por Que Não Lemos Anísio Teixeira? é precisamente o subtítulo da obra de Zaia Brandão & Ana Waleska Mendonça4, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, num esforço de aprofundar temas históricos de modo a "construir interpretações mais abertas às ambiguidades e contradições"4 (p. 129). Os contextos político-institucionais (e suas contradições) enfrentados por Anísio Teixeira foram muitos, o que aborda Almeida Filho. Sua contribuição incluiu a criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), profícua análise da problemática da formação de professores, a institucionalização da pós-graduação mediante organização da Capes, entre outras iniciativas. Apesar disso, Almeida Filho observa, seu nome aparece nas bases bibliográficas da saúde predominantemente por compor o nome do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), do qual assumiu a direção em 1952. Não deixa de ser irônico, pois a implicação do INEP na avaliação dos cursos de graduação (inclusive na saúde) o leva a aparecer com frequência nas conversas de docentes, gestores e militantes da formação profissional em saúde, não necessariamente associado a uma imagem institucional particularmente aberta ao debate.

Kemp & Edler3, ao analisarem correlações de forças políticas que influenciaram a medicina europeia do fim do século XIX referem-se a interesses corporativos e privilégios profissionais que informam a análise de currículos e da relação teoria-prática na educação superior. Nos tempos atuais, o crescimento exponencial do conhecimento científico e a concomitância entre educação e trabalho demanda repensar o continuum educacional, desde a graduação, passando pela pós-graduação, chegando aos desafios da educação continuada e permanente no Sistema Único de Saúde. Certamente elementos do que seria inovador nas primeiras décadas do século XX como proposto por Flexner, um bom exemplo sendo o hospital como lócus privilegiado para o estudo das doenças, não devem ser tomados ao pé da letra num contexto como o nosso, de envelhecimento populacional e adoção de uma concepção ampliada de saúde doença.

A oportunidade de realizar formação acadêmica (mestrado e doutorado) na área da Educação, sendo oriunda da medicina, me ajudou a dimensionar como esse campo de conhecimento e práticas sofre sucessivas releituras a depender das injunções políticas. Como gestora de processos de formação profissional em saúde nos últimos 14 anos acompanho o esforço dos companheiros docentes da Medicina, Enfermagem, Odontologia, Nutrição, Psicologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, e demais carreiras da área de saúde, incluindo a jovem graduação em Saúde Coletiva, na incorporação de leituras e debates do campo da Educação. Abertura para tal nunca tivemos tanta. Agora cabe facilitar o acesso a boas referências sobre currículo, ensino-aprendizagem, avaliação, debatendo a universidade que queremos construir, mantendo em mente que, como alerta Almeida Filho, "corporações, segmentos sociais e instituições tradicionais, hegemônicos, posicionam-se contra a renovação ideológica e pedagógica da universidade". Cenários diversos de ensino-aprendizagem, a inserção dos estudantes em ações comprometidas técnica e eticamente com os serviços, a pesquisa integrada ao ensino em constante processo de problematização já são realidade em muitas instituições de nosso país. Provavelmente agradaria a Anísio Teixeira.

REFERÊNCIAS

1. Almeida Filho N. Epidemiologia sem números: introdução crítica a ciência epidemiológica. Rio de Janeiro: Editora Campus/ABRASCO; 1989.
2. Almeida Filho N. Reconhecer Flexner: inquérito sobre produção de mitos na educação médica no Brasil contemporâneoo. Cad Saúde Pública 2010; 26:2234-49.
3. Kemp A, Edler F. A reforma médica no Brasil e nos Estados Unidos: uma comparação entre duas retóricas. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2004; 11:569-85.
4. Brandão Z, Mendonça AW. Uma tradição esquecida : por que não lemos Anísio Teixeira? Rio de Janeiro: Editora Ravil; 1997.
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