Espessamento da parede traqueal

Espessamento da parede traqueal

Autores:

Edson Marchiori,
Bruno Hochhegger,
Gláucia Zanetti

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.43 no.4 São Paulo jul./ago. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s1806-37562017000000074

Paciente feminina, 63 anos, queixando-se de poliartrite recorrente há mais de 1 ano, com aparecimento de tosse seca há 3 meses. Os exames laboratoriais estavam normais. O exame físico mostrava deformidade em ambas as orelhas, com sinais inflamatórios. A TC de tórax evidenciava espessamento difuso das paredes da traqueia e dos brônquios principais (Figura 1). O parênquima pulmonar era normal.

Figura 1 TCs em corte axial (em A e B) e reconstrução coronal (em C) mostrando espessamento difuso da parede anterior da traqueia e dos brônquios principais, com calcificações (setas). Notar que a parede posterior (cabeças de seta) está preservada.  

O espessamento difuso da parede traqueal tem um número grande de possíveis etiologias - amiloidose; policondrite recidivante (PR); traqueopatia osteocondroplástica (TOC); infecções, como tuberculose, paracoccidioidomicose e rinoscleroma; granulomatose com poliangeíte; sarcoidose; linfomas; dentre outras. Algumas características de imagem podem ser úteis para estreitar o diagnóstico diferencial, como a presença de calcificações, e definir se o acometimento é de toda a circunferência da traqueia ou se a lesão preserva a parede membranosa posterior, acometendo apenas a porção cartilaginosa. No caso apresentado, duas características chamam a atenção no exame tomográfico: o espessamento parietal apresenta calcificações em toda a sua extensão longitudinal, e a porção membranosa posterior da parede traqueal está preservada.

Calcificações nas paredes traqueais podem ser observadas em pacientes sadios, relacionadas à senilidade. Contudo, calcificações associadas ao espessamento parietal podem ser vistas em amiloidose, TOC e PR. Na amiloidose, o comprometimento é circunferencial, envolvendo também a parede membranosa posterior. Desta forma, o diagnóstico diferencial no caso apresentado fica restrito a duas doenças: TOC e PR.

A TOC é uma doença de etiologia desconhecida, que se caracteriza pela formação de pequenas nodulações submucosas, em geral calcificadas, fazendo protrusão para a luz traqueal. É uma doença restrita à árvore traqueobrônquica. Pode ser assintomática, ou cursar com tosse, dispneia, sibilos ou, eventualmente, hemoptise.

A PR é caracterizada por episódios recorrentes, potencialmente graves, de inflamação nos tecidos cartilaginosos, incluindo a cartilagem das orelhas, do nariz, das articulações periféricas e da árvore traqueobrônquica. Os sintomas das vias aéreas incluem dispneia progressiva, tosse, estridor e rouquidão, que ocorrem pela destruição e fibrose dos anéis cartilaginosos laríngeos e traqueais, criando colapso luminal, e também pelo estreitamento das vias aéreas devido a inflamação e fibrose cicatricial.

Nossa paciente apresentava, além das alterações tomográficas traqueobrônquicas características, um quadro de artropatia soronegativa e condrite auricular. Com esses elementos, o diagnóstico de PR foi firmado. Na maioria dos casos, a biópsia não é necessária para a confirmação diagnóstica.

REFERÊNCIAS

1 Marchiori E, Pozes AS, Souza Junior AS, Escuissato DL, Irion KL, Araújo Neto Cd, et al. Diffuse abnormalities of the trachea: computed tomography findings. J Bras Pneumol. 2008;34(1):47-54.
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