Estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral: perspectiva dos enfermeiros de unidades de terapia intensiva

Estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral: perspectiva dos enfermeiros de unidades de terapia intensiva

Autores:

Jamila Geri Tomaschewisk-Barlem,
Cláudia Denise Schallenberger,
Aline Marcelino Ramos-Toescher,
Edison Luiz Devos Barlem,
Laurelize Pereira Rocha,
Janaína Sena Castanheira

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.24 no.3 Rio de Janeiro 2020 Epub 27-Abr-2020

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2019-0311

Resumen

Objetivo

conocer estrategias para el desarrollo de la sensibilidad moral desde la perspectiva de las enfermeras que trabajan en unidades de cuidados intensivos.

Método

investigación cualitativa, exploratoria, descriptiva, realizada con 19 enfermeras que trabajan entres unidades de cuidados intensivos de un hospital filantrópico em el Sur de Brasil a través de entrevistas semiestructuradas, analizadas mediante análisis textual discursivo.

Resultados

surgieron dos categorías: desarrollo de la sensibilidad moral de la formación académica y desarrollo de la sensibilidad moral de la experiência profesional. Entre lãs estrategias verificadas, discusiones y reflexiones sobre problemas éticos, se destacó la experiencia de actividades extracurriculares, comunicación efectiva, trabajo multidisciplinario, reuniones, búsqueda de conocimiento y educación permanente em salud.

Conclusiones e implicaciones para la práctica

el desarrollo de la sensibilidad moral de lãs enfermeras puede ayudarlas a reconocer y hacer frente a situaciones éticamente inapropiadas, a fin de favorecer el ejercicio de la autonomía y lacapacidad de lidiar com los conflictos éticos que surgen del contexto laboral. En este estudio, también fue posible saber que priorizar los espacios de reflexión y discusión colectiva em los entornos de educación y desempeño em enfermería, brinda oportunidades para fortalecer la toma de decisiones éticas, coherentes, autónomas y eficientes.

Palabras clave:  Desarrollo moral; enfermería; la ética em enfermería; cuidados críticos

INTRODUÇÃO

Sensibilidade moral é descrita como uma 'atenção' para os valores morais envolvidos em uma situação de conflito, tendo como pressupostos a autoconsciência do próprio papel e a responsabilidade dos envolvidos nessa situação.1-3 Dessa forma, a sensibilidade moral é compreendida como uma habilidade pessoal necessária para o processo de deliberação moral, o qual se caracteriza pela busca por decisões prudentes e sempre concretas diante de problemas éticos, a partir da ponderação sobre as consequências que tais decisões terão diante de determinadas situações.1-3

Todavia, a sensibilidade moral não é apenas uma questão de sensibilidade (isto é, contando com emoções para identificar um conflito moral), ela precisa ser fundamentada em experiências e ações pessoais que embasam o ser e o fazer do profissional para “sentir” o significado moral em uma determinada situação.2,4 Tal condição exige do enfermeiro a capacidade de resgatar a sensibilidade moral e colocar-se no lugar do outro, assegurando um cuidado efetivo e que envolva a tríade, família, paciente e profissional.4-6

Desse modo, o ato de discernir os problemas éticos no trabalho da enfermagem de outros problemas cotidianos não depende apenas de uma questão de posse de conhecimentos teóricos, mas sim, da capacidade de distinguir sentimentos, fatos e valores.2,4

Em vista disso, a sensibilidade moral precisa ser reforçada entre os enfermeiros, especialmente, quando se trata das unidades de terapia intensiva (UTI), pois nesses ambientes os problemas éticos emergentes de situações de final de vida podem ser percebidos com maior intensidade e frequência por esses profissionais. Assim, o ambiente de UTI se constitui de uma área crítica, em que pacientes permanecem na dependência de acompanhamento contínuo e vigilante realizado por uma série de profissionais capacitados, dentre eles, os enfermeiros.4-6

Ainda, a UTI pode ser descrita como um cenário de inovação e atendimento especializado e de alta complexidade, o que demanda a necessidade constante de um profissional com perfil ético e capaz de raciocinar crítica e clinicamente, harmonizando o serviço entre tecnologia e assistência.7

No ambiente de UTI, é notável que os problemas éticos decorrentes da discordância sobre as condutas terapêuticas estabelecidas e sobre o uso dos recursos tecnológicos para o prolongamento da vida em pacientes sem possibilidade de cura podem gerar sofrimento moral para os enfermeiros, uma vez que esses podem ter suas crenças e valores confrontados.8

Desse modo, a sensibilidade moral dos enfermeiros pode se mostrar como um importante recurso para favorecer o reconhecimento dos problemas éticos no âmbito da UTI e oportunizar que o enfermeiro tome decisões no sentido de auxiliar o paciente no esclarecimento de suas metas e valores, defendendo seus direitos e minimizando o sofrimento moral decorrente de tais problemas.9

Desse modo, faz-se necessário que sejam identificadas e implementadas estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral dos enfermeiros, especialmente, no âmbito da UTI, o que possibilitará o reconhecimento e a tomada de decisões efetivas diante de problemas éticos, que podem repercutir no cuidado aos pacientes.9

Entre tais estratégias, na literatura internacional é possível verificar a existência de pesquisas que visam despertar já nos estudantes o conhecimento ético e sensibilizá-los para a percepção da sensibilidade moral nos diferentes contextos em que irão atuar como futuros profissionais, tornando-os hábeis para enfrentar situações éticas nos diferentes cenários.10-13

No contexto brasileiro, o panorama de pesquisas sobre sensibilidade moral ainda se mostra frágil, uma vez que muitas pesquisas vêm sendo desenvolvidas no âmbito da ética em enfermagem,4,8 mas com pouca ênfase na sensibilidade moral e, consequentemente, nas estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral dos enfermeiros, o que justifica a realização deste estudo.

Desse modo, apresenta-se como questão de pesquisa: quais estratégias são necessárias para oportunizar o desenvolvimento da sensibilidade moral na perspectiva dos enfermeiros que atuam em unidades de terapia intensiva? Teve-se como objetivo do estudo: conhecer estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral na perspectiva dos enfermeiros que atuam em unidades de terapia intensiva.

METODOLOGIA

Pesquisa qualitativa, do tipo exploratório descritiva, realizada em três Unidades de Terapia Intensiva de uma instituição filantrópica do Sul do Brasil, que se caracteriza como um Complexo Hospitalar composto por três hospitais, com um total de 541 leitos.

A “UTI 1” caracteriza-se como uma UTI geral, contando com 11 leitos, dos quais quatro são de UTI Intermediária, destinados para o atendimento de pacientes do Sistema único de Saúde (SUS) e, caso necessário, para pacientes conveniados. O foco do atendimento dispensado volta-se principalmente para os diagnósticos de politraumatizados, acidente vascular cerebral, hipertensos, diabéticos, pós-cirúrgicos, pacientes oncológicos, entre outros.

A equipe de enfermagem é composta por uma enfermeira administrativa com uma carga horária de 40 horas/semanais, uma enfermeira assistencial de 36 horas/semanais atuante nos turnos manhã e tarde e quatro enfermeiras assistenciais de seis horas/dia distribuídas nos turnos manhã, tarde, noite I e noite II, uma enfermeira para realização do trabalho no período das folgas e uma para realização no período das férias. Cada um dos quatro turnos conta com a atuação de sete técnicos de enfermagem.

A “UTI 2” caracteriza-se como uma UTI Geral, contando com sete leitos destinados a pacientes conveniados acometidos pelas mais diversas patologias. A equipe de enfermagem é constituída pela enfermeira administrativa com 40hs/semanais, quatro enfermeiras assistenciais com carga horária de 36hs/semanais distribuídas nos turnos manhã, tarde, noite I e noite II, e uma enfermeira para realização do trabalho no período das folgas. Nessa unidade, atuam ainda 16 técnicos de enfermagem distribuídos nos turnos manhã, tarde, noite I e II.

Por fim, a “UTI 3” constitui-se de uma Unidade de Terapia Intensiva Pós-Operatória (UPO) com nove leitos, que atende pacientes do SUS e demais convênios, com ênfase no atendimento dos diagnósticos cardiovasculares. A equipe de enfermagem é constituída por uma enfermeira administrativa com 40hs/semanais, quatro enfermeiras assistenciais com carga horária de 36hs/semanais distribuídas nos turnos manhã, tarde, noite I e noite II, e uma enfermeira para realização do trabalho no período das folgas e uma para realização no período das férias. A unidade conta com a atuação de 24 técnicos de enfermagem distribuídos nos turnos manhã, tarde, noite I e II.

Foram participantes do estudo 19 enfermeiros, atuantes nas três unidades de terapia intensiva da instituição acima relacionada, de acordo com a, presença no local de estudo e disponibilidade para participar da pesquisa no momento da coleta de dados.

Os critérios para a seleção dos participantes restringiram a ser enfermeiro das UTI selecionadas para o estudo, atuar profissionalmente na unidade há mais de seis meses e, ter disponibilidade para responder o instrumento da coleta de dados. Os critérios de exclusão dos participantes foram limitados a: situação de férias, afastamento ou licença dos enfermeiros participantes.

A coleta de dados ocorreu no período de agosto e setembro de 2016, realizada no horário e local de trabalho dos participantes em sala específica para tal, garantindo a privacidade do entrevistado. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, gravadas, com duração média de 30 minutos, contendo questões fechadas, para a caracterização dos participantes, e questões abertas, enfocando aspectos relacionados às ações e tomadas de decisões dos enfermeiros para enfrentar problemas éticos, com base na sensibilidade moral.

A análise dos dados, obtidos através das entrevistas, foi realizada a partir da análise textual discursiva, a qual compreende uma metodologia de análise de dados qualitativos que tem por finalidade produzir novas compreensões sobre discursos e fenômenos, através de um processo auto-organizado que abrange uma sequência de três etapas: a unitarização; a categorização e comunicação.14

Durante a categorização, foram identificadas relações entre as unidades de significado, comparando-as e realizando o agrupamento de elementos de significação próximos em categorias intermediárias e, após, em duas categorias finais: desenvolvimento da sensibilidade moral a partir da formação acadêmica e desenvolvimento da sensibilidade moral a partir da experiência profissional.

A última etapa da análise, captação do novo emergente, englobou a descrição e interpretação dos sentidos e significados construídos a partir do texto, o que permitiu a produção de novos entendimentos sobre as estratégias utilizadas pelos enfermeiros para o desenvolvimento da sensibilidade moral.

Os aspectos éticos foram respeitados, conforme as recomendações da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. O artigo faz parte do macroprojeto intitulado “Sensibilidade moral na enfermagem: relações entre advocacia do paciente e sofrimento moral (processo PQ 306119/2015-3)”, do qual este estudo é parte integrante, foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa local, tendo sido aprovado (Parecer nº67/2016). Os participantes foram identificados no estudo pela letra E, seguida de um número sequencial (E1 a E19) conforme a ordem das entrevistas.

RESULTADOS

Em relação às características dos 19 participantes da pesquisa, verificou-se que a idade variou entre 25 e 49 anos e todos eram do sexo feminino. O tempo de formação profissional variou de nove meses até 22 anos e o tempo de atuação profissional variou de seis meses e 20 anos. Das 19 enfermeiras, dez possuíam a graduação como titulação máxima, oito possuíam título de especialização e uma de residência.

No que se refere às unidades de atuação das 19 enfermeiras, oito atuavam na UTI 1, seis atuavam na UTI 2 e oito atuavam na UTI 3. A carga horária de trabalho semanal predominante foi de 36 horas, sendo que, duas enfermeiras possuíam uma carga horária de 40 horas semanais. Quando questionadas sobre a realização de reuniões na unidade, 17 enfermeiras responderam que na unidade onde trabalham ocorrem reuniões periódicas para capacitações e resolução de problemas.

A partir da análise dos dados, obtidos a partir das questões abertas da entrevista, emergiram duas categorias: Desenvolvimento da sensibilidade moral a partir da formação acadêmica; e Desenvolvimento da sensibilidade moral a partir da experiência profissional.

Desenvolvimento da sensibilidade moral a partir da formação acadêmica

Nessa categoria, encontram-se as estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral dos enfermeiros relacionadas à formação acadêmica, entre as quais se destacam as discussões e reflexões acerca de problemas éticos realizadas em sala de aula ou nas atividades práticas e estágios e, ainda, a vivência de atividades extracurriculares. Tais estratégias foram identificadas pelos enfermeiros como fundamentais para o processo de reconhecimento e tomada de decisões diante dos problemas éticos que ocorrem durante o cotidiano profissional no ambiente de UTI.

Os enfermeiros evidenciaram que a realização de discussões e reflexões sobre os problemas éticos, que permeiam o trabalho da enfermagem e saúde durante o curso de graduação em enfermagem, constitui-se em um importante recurso para auxiliar no desenvolvimento da sensibilidade moral. Assim, as discussões e reflexões pautadas em situações reais ou próximas da realidade auxiliam no fortalecimento dos valores pessoais e profissionais dos enfermeiros, os quais são componentes fundamentais para a tomada de decisões diante dos problemas éticos.

Na graduação se conversava, refletia sobre como enfrentar os problemas éticos no ambiente de trabalho. Embora naquele momento eu não percebesse, hoje percebo que a reflexão me ajudou a construir meu pensamento, a ter responsabilidade, ter uma equipe, ter os pacientes e que eu iria passar por esses conflitos (E18).

A UTI desperta o conhecimento, querer aprender, ler, entender, buscar o aprofundamento das diferentes patologias que se apresentam, pois aqui sempre tem algo novo e para o desenvolvimento da sensibilidade moral é preciso antes de tudo, estudar também sobre esse ambiente e os principais problemas emergentes (E7).

Além disso, os enfermeiros relataram que a vivência de atividades extracurriculares contribui para o reconhecimento e enfrentamento dos problemas éticos no cotidiano de trabalho, uma vez que permitem visualizar de forma mais próxima e participativa a realidade profissional repleta de conflitos. Tais conflitos, muitas vezes, não são abordados de forma satisfatória pelos docentes nas aulas teóricas e práticas, o que pode comprometer a formação ética dos enfermeiros.

Alguns professores da graduação estimulam o reconhecimento e enfrentamento de problemas éticos, mas o que me ajudou de fato foram os projetos de extensão desenvolvidos junto aos profissionais enfermeiros. Isso me ajudou bastante, pois o tempo de permanência além das atividades curriculares na UTI fizeram toda a diferença na minha formação, principalmente por proporcionar melhor visualização da dinâmica de trabalho (E15).

Apesar de reconhecerem que a formação acadêmica compreende importantes estratégias para auxiliar no desenvolvimento da sensibilidade moral, os enfermeiros relataram que a dimensão real dos problemas éticos e suas implicações para o paciente apenas são percebidas durante o exercício profissional. Contudo, evidenciou-se que a formação acadêmica favorece o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades para o reconhecimento de problemas éticos, os quais serão componentes fundamentais durante o exercício profissional.

Durante a graduação, a gente não sabe a dimensão e nem o que é assumir um plantão. A responsabilidade não se compara a prática e isso também se refere as relações interpessoais (E16).

Na graduação, aconteciam discussões, havia observação e, como acadêmica, apontava os problemas visualizados. Hoje, percebo que o que eu, muitas vezes, apontava como acadêmica, hoje, se apresenta pra mim como problema, e, em alguns momentos, eu não tenho a solução. Consigo através da experiência perceber o quão difícil, muitas vezes, o é (E5).

Na faculdade, foi falado muito sobre problema ético, mas a gente vai saber lidar com isso só na prática. Falado foi muito: “tratar o paciente como você gostaria de ser tratado”, mas viver isso, sentir na pele, na alma, só quando a gente está de frente com o problema (E14).

Desenvolvimento da sensibilidade moral a partir da experiência profissional

Nessa categoria são descritas as principais estratégias relacionadas ao exercício profissional no ambiente de UTI elencadas pelos enfermeiros como fundamentais para o processo de desenvolvimento da sensibilidade moral. Entre essas estratégias, destacam-se: a comunicação efetiva, o trabalho multidisciplinar, a realização de reuniões, a busca pelo conhecimento e a educação permanente em saúde.

Em relação à comunicação efetiva e ao trabalho multidisciplinar, verificou-se que o diálogo e o compartilhamento de ideias e experiências favorecem o desenvolvimento da sensibilidade moral, proporcionando um cuidado voltado às reais necessidades dos pacientes internados na UTI. Logo, a oportunidade de que os enfermeiros estabeleçam o diálogo com outros membros da equipe de saúde, somando esforços na busca de instrumentalizar a si e ao outro, constitui-se de um fator fundamental para desenvolvimento da sensibilidade moral e consequente realização de um cuidado de enfermagem ético.

Em relação à equipe eu chamo para conversar, e com relação a médicos, tem médicos que são mais tranquilos que aceitam bem o que tu queres, tuas propostas, e tem médico que não dá para conversar. Mas, graças a Deus, a maioria é tranquilo, assim, tu pode ter tuas opiniões e talvez eles vão te escutar, muitas vezes, não, mas pelo menos falar eu posso falar. Posso pedir, porque, muitas vezes, eu peço mesmo, porque o “não” eu já tenho certo, então, às vezes, eu tento. E com a família é a mesma coisa, eu tento me colocar a disposição, assim, no que a gente puder ajudar, porém, muitas vezes, não é o suficiente (E9).

A comunicação eficaz com os demais membros da equipe para esclarecimento da problemática, buscando resolver a situação de forma mais adequada possível. Compartilhando de informações e ideias que proporcionem conhecimento e sejam plausíveis as necessidades do paciente (E3).

Outra estratégia referida pelos enfermeiros são as reuniões, as quais objetivam problematizar e resgatar as rotinas e condutas adotadas no cotidiano do trabalho em UTI, possibilitando que todos os profissionais participem das decisões, resultando em benefícios tanto para o paciente quanto para a própria equipe de saúde. Logo, as reuniões também constituem um importante instrumento para auxiliar na busca pelo conhecimento, resultando na articulação de saberes e práticas multiprofissionais capazes de proporcionar um cuidado individualizado e mais efetivo aos pacientes.

Uma das estratégias, além de demonstrar o conhecimento e o benefício que traz para o paciente, é o exemplo do enfermeiro, que precisa ter a capacidade e o conhecimento. E outra estratégia que funciona, é ter reuniões e conversas com a equipe, para melhorar a relação entre a equipe e o que vai acabar melhorando a relação com o paciente (E18).

Muitas vezes, não só eu, mas os colegas fisioterapeutas, a gente busca artigos que falam sobre cuidado com paciente, não necessariamente esse tema, mas estamos sempre buscando o conhecimento e trazendo para a equipe em reuniões de equipe. A gente também traz alguma questão que gostariam de discutir (E14).

Além da importância da realização das reuniões e da busca pelo conhecimento no desenvolvimento da sensibilidade moral dos enfermeiros, a educação permanente em saúde foi evidenciada como um importante instrumento capaz de problematizar os conflitos éticos que emergem no cotidiano de trabalho e transformar práticas já instituídas. Assim, a educação permanente foi ressaltada como um instrumento que pode auxiliar no desenvolvimento de valores éticos que orientam a conduta dos enfermeiros, favorecendo o desenvolvimento pessoal e profissional e instigando a participação ativa na tomada de decisões diante dos problemas éticos vivenciados no ambiente de UTI.

Os problemas que me incomodam estou tentando transformar, faço uso da minha pedagogia para transformar de forma criativa. É preciso saber o momento certo para sensibilizar os seus funcionários. E eu não gosto que as coisas sejam no automático, os funcionários precisam entender porque a partir de então não pode mais ser desta forma a rotina que vinham fazendo até então (E13).

DISCUSSÃO

Foi possível evidenciar que as estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral dos enfermeiros, estão associadas à formação acadêmica e a experiência profissional adquirida no ambiente de trabalho. Tais estratégias foram identificadas pelos enfermeiros como fundamentais para o processo de desenvolvimento de sensibilidade moral e, consequentemente, reconhecimento e tomada de decisões diante dos problemas éticos que ocorrem durante o cotidiano profissional no ambiente de UTI.

Nesse sentido, destaca-se que diferentes estudos sobre sensibilidade moral realizados com estudantes de graduação em enfermagem ou enfermeiros atuantes na prática assistencial em países como Turquia, China e Coreia do Sul evidenciaram que o desenvolvimento da sensibilidade moral requer investimentos na área da educação e formação profissional. Do mesmo modo, a educação ética deve ser estimulada tanto no período de formação profissional quanto nas atividades de educação permanente para os profissionais já atuantes no âmbito assistencial.10,11,15

Nas unidades de terapia intensiva, os problemas éticos resultam, principalmente, de diferentes perspectivas sobre os objetivos de tratamento, especialmente ao se buscar o equilíbrio entre um certo tratamento agressivo e o benefício que esse tratamento pode trazer para o paciente. Muitas vezes, os pacientes acreditam que o tratamento tem caráter curativo, mesmo quando seu prognóstico declara o contrário.6

Estudos realizados no contexto brasileiro com enfermeiros atuantes em unidades de terapia intensiva evidenciaram que entre os principais problemas éticos vivenciados, estão: pacientes em situação de terminalidade; futilidade terapêutica; transfusão de sangue em caso de restrição religiosa; uso exacerbado da tecnologia; discordância de tomadas de decisão entre os membros da equipe de saúde; não aceitação do processo de morte pela família do paciente e diversidade de valores entre os envolvidos no cuidado.7,8

Destarte, a imersão dos estudantes de graduação no ambiente de UTI, recordada pelos enfermeiros, propicia melhor reconhecimento dos problemas éticos ainda no período de formação e fortalece a dimensão ética dos profissionais. Assim, no que se refere às vivências relacionadas à formação acadêmica, destacaram-se a sensibilidade moral, as discussões e reflexões acerca de problemas éticos realizadas em sala de aula ou nas atividades práticas e estágios e, ainda, a vivência de atividades extracurriculares.

Conforme verificado em pesquisa com estudantes de enfermagem, as habilidades percepção e sensibilidade moral devem ser desenvolvidas e aprimoradas na formação profissional com base nos valores éticos e morais, a partir de reflexões acerca dos problemas éticos vivenciados.10 Assim, da mesma forma como são treinados na academia para o desenvolvimento do raciocínio lógico durante as práticas clínicas, os futuros enfermeiros devem ser estimulados para desenvolver a sensibilidade moral.16

Um estudo desenvolvido sobre a sensibilidade moral, angústia moral e coragem moral com os graduandos nas Filipinas afirma que cada acadêmico percebe de forma diferente a sensibilidade moral e irá responder diferente ao lidar com os problemas éticos. Todavia, é necessário que os estudantes de graduação sejam instrumentalizados sobre as diferentes situações que exacerbam a sensibilidade moral e os façam criar estratégias para seu desenvolvimento.17

Contudo, o desenvolvimento da sensibilidade moral e o consequente enfrentamento dos problemas éticos pelos enfermeiros pode estar fragilizado nos diferentes ambientes de cuidado à saúde, em virtude do ensino da ética se apresentar fragmentado, descontextualizado e desenvolvido em uma carga horária insuficiente na maior parte dos cursos de graduação em enfermagem.18

Nesse sentido, um estudo desenvolvido para conhecer a percepção dos estudantes, quanto ao seu preparo profissional, salienta a importância do estudante demonstrar interesse para suprir possíveis lacunas encontradas no ensino, principalmente por meio das atividades extracurriculares, para que possa visualizar de forma mais integral a realidade repleta de conflitos, por vezes, não abordadas em sala de aula e nem nas aulas práticas.19

Além disso, destaca-se a necessidade de despertar nos futuros profissionais de enfermagem a capacidade de lidar com os conflitos éticos nas inter-relações com a equipe, entre pacientes e enfermeiros, para que dessa forma possam agir com maturidade moral, a qual é um processo que conduz a sensibilidade moral.10 Para tanto, faz-se necessário utilizar intervenções educativas baseadas em múltiplas estratégias de ensino para despertar nos estudantes a sensibilidade moral, a qual pode ser considerada o passo inicial para o desenvolvimento da formação ética e para que possam estar cientes de seus papéis e responsabilidades.11

Assim, apesar da educação ética obtida por meio da formação acadêmica ser apontada como fundamental para o desenvolvimento da sensibilidade moral, os enfermeiros evidenciaram, que a habilidade para reconhecer e enfrentar os problemas éticos é desenvolvida de forma mais efetiva durante o exercício profissional.3 Nesse sentido, em relação às estratégias associadas ao ambiente de trabalho, destacaram-se a comunicação efetiva, o trabalho multidisciplinar, a realização de reuniões, a busca pelo conhecimento e a educação permanente em saúde.3

Conforme verificado em um estudo sobre problemas éticos, a comunicação efetiva da equipe desempenha um papel fundamental na prevenção de tais problemas durante os cuidados intensivos com pacientes críticos.20 Todavia, entre os desafios encontrados para a comunicação efetiva no trabalho multidisciplinar está a diversidade na formação dos profissionais, a tendência de uma mesma categoria profissional se comunicar mais entre si, o efeito da hierarquia, geralmente o médico ocupando posição de centralidade, o que pode inibir os demais membros da equipe multidisciplinar de expressar suas opiniões e posicionamentos mediante o cuidado prestado.21

Assim, a comunicação efetiva requer um processo participativo e dialógico das equipes multidisciplinares de cuidado, uma vez que o trabalho multidisciplinar em equipe requer mais do que o agrupamento de profissionais distintos no mesmo ambiente de trabalho, devendo haver colaboração e comunicação efetivas entre agentes, com troca de saberes e complementaridade de ações.22 Outra estratégia evidenciada pelos enfermeiros foram as reuniões em equipe, as quais buscam problematizar as ações e atividades profissionais, a fim de suscitar decisões participativas, beneficiando tanto paciente quanto a equipe de saúde.

Conforme verificado por um estudo, acerca da comunicação na equipe de enfermagem, as reuniões de equipe são um espaço para transmitir uma mensagem, partilhar uma informação, um momento de reflexão e análise das naturalizações que podem ocorrer; para, assim, discutir e amadurecer os questionamentos e as condutas,23 bem como tomar decisões necessárias para o cuidado ao paciente. Ainda, cabe destacar que a realização de reuniões se mostra importante, uma vez que maior percepção de sofrimento moral já foi constatada nos ambientes em que se realizam reuniões, o que demonstra que as mesmas auxiliam no reconhecimento e enfrentamento de problemas éticos.8

A busca pelo conhecimento também foi evidenciada como estratégia utilizada para o desenvolvimento da sensibilidade moral, uma vez que é através do conhecimento que os enfermeiros se percebem aptos para questionar a realidade e reconhecer situações moralmente inadequadas no cotidiano da profissão. Nesse sentido, um estudo realizado com enfermeiros de UTI acerca dos problemas éticos ressaltou que durante o exercício profissional é preciso construir-se e desconstruir-se permanentemente, fazendo do ambiente de trabalho um incentivador para a busca de conhecimentos, resgatando o compromisso com a vida e com a formação profissional.20

Cabe destacar que a busca pelo conhecimento pode ser concretizada a partir da educação permanente em saúde, a qual também foi identificada como uma importante estratégia capaz de auxiliar no desenvolvimento da sensibilidade moral, a partir da problematização dos conflitos éticos que emergem no cotidiano de trabalho e da transformação de saberes e práticas.24

É imperativo considerar que o setor da saúde sofre constantes mudanças, transformações e avanços no conhecimento, através da pesquisa e introdução de novas tecnologias, assim, é essencial que os profissionais de saúde se atualizem e desenvolvam um plano de educação permanente, tendo como objetivo oferecer assistência de qualidade e uma prática baseada em evidências científicas.24,25

A Política Nacional de Educação Permanente salienta que a educação permanente pode ser entendida como aprendizagem-trabalho, pois acontece no cotidiano das organizações e é realizada a partir das especificidades e problemas enfrentados em cada realidade. Ainda, considera o conhecimento e as experiências que as pessoas já possuem e objetiva a transformação das práticas profissionais e da própria organização do trabalho.26

Portanto, a educação permanente agrega o conhecimento adquirido ao longo da experiência profissional e fomenta a busca por novos conhecimentos que poderão subsidiar as transformações necessárias ao ambiente de trabalho, bem como, o desenvolvimento da sensibilidade moral.

CONSIDERAÇÕES FINAIS E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

Foi possível perceber que o desenvolvimento da sensibilidade moral entre os enfermeiros compreende estratégias que perpassam a formação acadêmica e a experiência profissional adquirida no ambiente de trabalho. A importância das discussões e reflexões sobre as questões éticas que permeiam o cotidiano da enfermagem, ainda na graduação, oportunizam o fortalecimento da autonomia dos enfermeiros para o enfrentamento dos problemas éticos que poderão vivenciar em seus ambientes de trabalho.

Do mesmo modo, priorizar espaços para a reflexão e discussão coletiva nos diferentes ambientes de atuação da enfermagem, como os ambientes de terapia intensiva, com ênfase na problematização das situações vivenciadas na prática profissional, é fundamental para que os enfermeiros possam tomar decisões éticas, coerentes, autônomas, eficazes e eficientes.

O reconhecimento das estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral dos enfermeiros constitui-se em um avanço na área da enfermagem, uma vez que oportuniza subsídios para auxiliar no preparo desses profissionais para o reconhecimento e enfrentamento de problemas éticos vivenciados nas unidades de terapia intensiva.

Nesse sentido, parece relevante questionar: os resultados deste estudo seriam semelhantes em outras unidades de terapia intensiva? Desse modo, sugere-se a realização de outros estudos que corroborem para o aprofundamento do conhecimento acerca das estratégias para o desenvolvimento da sensibilidade moral de enfermeiros no contexto brasileiro.

Este estudo teve como limitação ter sido realizado apenas nas Unidades de Terapia Intensiva de um hospital filantrópico de um município do Sul do Brasil, de forma que existe a necessidade de se investigar o fenômeno em outras realidades do contexto nacional e internacional.

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