Estresse ocupacional e fatores associados em trabalhadores bancários, Vitória – ES, Brasil

Estresse ocupacional e fatores associados em trabalhadores bancários, Vitória – ES, Brasil

Autores:

Glenda Blaser Petarli,
Eliana Zandonade,
Luciane Bresciani Salaroli,
Nazaré Souza Bissoli

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.12 Rio de Janeiro dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320152012.01522015

Introdução

Os processos de reestruturação produtiva e globalização da economia de mercado têm acarretado mudanças significativas na organização e gestão do trabalho1. No setor bancário estes processos foram consolidados através da combinação de demissões em massa, automação e terceirização, reengenharia de negócios com redução de níveis hierárquicos, a precarização do trabalho e tarefas multifuncionais2.

Todas essas transformações, além de acarretarem impactos significativos nas condições de trabalho, emprego, salário3, também afetaram diretamente a saúde dos trabalhadores bancários4. O estresse ocupacional passou a ser uma das principais causas de adoecimento5, constituindo-se como um importante fator de risco ao bem-estar psicossocial do individuo, afetando diretamente a saúde e a qualidade de vida afetiva, social e profissional, tendo como consequências o baixo desempenho, alta rotatividade, absenteísmo e violência no local de trabalho6.

Os aspectos do ambiente laboral associados ao estresse ocupacional envolvem fatores da organização, administração e sistema de trabalho e da qualidade das relações humanas7. Os principais estressores organizacionais identificados na literatura são os de origem física, que envolvem questões como barulho, ventilação e iluminação do local de trabalho, ou psicossocial, relacionado às funções desempenhadas, fatores intrínsecos ao trabalho, relacionamento interpessoal, a autonomia/controle na execução das tarefas e os fatores relacionados ao desenvolvimento da carreira8. Em virtude desta diversidade de fatores, diversas são as abordagens para o estudo do estresse no ambiente laboral. Entre eles, estão os propostos por Siegrist9, Lipp10 e o modelo demanda-controle desenvolvido por Robert Karasek11. Este último tem sido largamente utilizado, e tem proporcionado base comparativa importante para os estudos no campo de saúde e trabalho12, fornecendo elementos-chave para intervenções nas principais políticas internacionais sobre o estresse ocupacional13.

Neste contexto, o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência de estresse ocupacional em funcionários de uma rede bancária da Grande Vitória/ES e verificar sua associação com variáveis socioeconômicas, demográficas e características do trabalho.

Métodos

O presente estudo constitui-se de uma investigação observacional transversal e seus dados foram derivados de outro que investigou síndrome metabólica, resistência à insulina e fatores associados em bancários14. A amostra foi constituída de funcionários de uma rede bancária do estado do Espírito Santo, com idade entre 20 a 64 anos, de ambos os sexos, que trabalhassem na região da Grande Vitória e estivessem em plena atividade laboral. A coleta de dados ocorreu no período de agosto de 2008 a agosto de 2009.

Para o cálculo do tamanho amostral, considerou-se como população do estudo, todos os 1410 bancários da instituição onde foi realizada a pesquisa, prevalência de estresse ocupacional esperada de aproximadamente 50%15 (considerando os níveis de maior exposição ao estresse e mais nocivos a saúde do trabalhador – alta exigência e trabalho passivo), nível de significância de 5%, erro amostral de 6% e efeito do desenho igual a dois (efeito dos conglomerados das agências). O cálculo foi realizado pelo programa Epidat Versão 4.0, utilizando-se a fórmula para estimar uma prevalência. O tamanho mínimo da amostra calculada foi de 450 funcionários. Como forma de compensar as possíveis perdas considerou-se todos os 525 bancários sorteados aleatoriamente para o projeto original.

As variáveis sociodemográficas utilizadas neste estudo foram: sexo, faixa etária, escolaridade, raça/cor, classe socioeconômica e estado civil. A classe socioeconômica foi estabelecida de acordo com o critério de classificação econômica do Brasil16.

Em relação às características do trabalho foi utilizado o local de trabalho, cargo/função, tempo de trabalho no banco, tempo de trabalho na função atual e horas diárias de trabalho. Nos dados referentes ao trabalho, a variável cargo/função foi dicotomizada em “Agência” e “Unidade Administrativa”. Os indivíduos classificados como “Agência” correspondiam àqueles indivíduos que desempenhavam funções nas agências bancárias, tais como serviços de caixa e gerência. Os classificados como “Unidade administrativa” correspondiam àqueles indivíduos que desempenhavam cargos administrativos e de direção geral, realizando suas atividades sem contato direto com o público externo, em um prédio considerado a unidade administrativa, com estrutura física desvinculada das agências.

Todas as variáveis foram coletadas, no estudo original, através de um questionário estruturado aplicado por entrevistadores treinados.

Para determinação do estresse ocupacional utilizou-se a versão reduzida e adaptada para o Brasil do Job Stress Scale17, instrumento desenvolvido para investigação do estresse ocupacional de acordo com o modelo demanda-controle18. Segundo Karasek e Theorell19, as atividades que envolvem altas demandas psicológicas e baixo controle geram alto desgaste (jobstrain) no trabalhador, favorecendo o adoecimento físico e psicológico19. Também é prejudicial a situação que conjuga baixas demandas e baixo controle (trabalho passivo), na medida em que podem gerar desinteresse e perda de habilidades17. Os quadrantes de menor risco à saúde do trabalhador são os referentes ao trabalho ativo e ao de baixa exigência.

A versão reduzida da Job Stress Scale possui 17 questões, cinco para avaliar a demanda psicológica do trabalho (variando de 5 a 20 pontos), seis para avaliar o controle sobre o trabalho (variando de 6 a 24 pontos) e seis para o apoio social (variando de 6 a 24 pontos). Cada dimensão gerou um escore por meio da soma dos pontos atribuídos a cada uma das perguntas, que foi dicotomizado em “baixo” e “alto” de acordo com a mediana.

Posteriormente, procedeu-se à interseção destes grupos para a definição dos quatro quadrantes do modelo demanda-controle: Alta exigência (alta demanda e baixo controle, correspondendo ao quadrante de maior exposição ao estresse ocupacional), trabalho passivo (baixa demanda e baixo controle), trabalho ativo (alta demanda e alto controle) e baixa exigência (baixa demanda e alto controle - situação ideal de trabalho).

Para a definição do apoio social, procedeu-se ao estabelecimento da mediana dos escores dessa dimensão, categorizando, posteriormente, em “alto” e “baixo” apoio social. Essa variável foi avaliada no grupo das referentes às características do trabalho.

Os dados foram organizados e analisados no programa SPSS® (Statistical Package of Social Sciences for Windows), versão 18.0. Para verificação de possíveis associações entre estresse ocupacional (considerando seus quatro quadrantes) e as demais variáveis, utilizou-se o teste qui-quadrado. Nos casos de significância estatística de até 10% no teste qui-quadrado, calculou-se o odds ratio ajustado pelo modelo de regressão logística múltipla, considerando a categoria “Baixa exigência” como padrão. O cálculo do odds ratio ajustado foi estimado para as categorias “trabalho ativo”, “trabalho passivo” e “alta exigência”, separadamente. O nível de significância final considerado foi de 5%.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo como complementação do estudo original.

Resultados

Dos 525 bancários convidados para participar do estudo, 521 (99,3%) completaram todos os questionários, e, portanto, foram efetivamente incluídos nas análises.

O escore geral da dimensão demanda psicológica variou de 5 a 20, com mediana de 15, e o da dimensão controle, variou de 6 a 24 com mediana de 17. A partir da classificação dos trabalhadores bancários de acordo com a exposição ao estresse ocupacional segundo o modelo demanda-controle, verificou-se que a maioria foi classificada no quadrante de trabalho passivo (34,4%, n = 179), considerado uma categoria de exposição intermediária ao estresse ocupacional, seguido do quadrante de trabalho de baixa exigência (26,3%, n = 137) e trabalho ativo (20,5%, n = 107). O quadrante considerado de maior risco para o estresse ocupacional apresentou o menor número de indivíduos (18,8%, n = 98).

A Tabela 1 apresenta os valores absolutos e percentuais das variáveis socioeconômicas e demográficas segundo o total da amostra e os quadrantes de Karasek. Os resultados revelaram equilíbrio entre os sexos, com 51,4% (n = 268) dos bancários sendo do sexo masculino, predominância de indivíduos na faixa etária entre 30 a 50 anos (61,6%, n = 321), e de elevada escolaridade, uma vez que 74,1% (n = 386) possuíam ensino superior ou pós-graduação. A maioria dos bancários era casada ou vivia com companheiro (64,3%, n = 335) e pertencia a classe socioeconômica A ou B (55%, n = 289). Com relação à raça/cor 58% (n = 302) se declararam de cor branca. A escolaridade (p = 0,001), a classe socioeconômica (p = 0,008), e o estado civil (p = 0,015) apresentaram associação estatisticamente significante com os quadrantes.

Tabela 1 Valores absolutos e percentuais das variáveis sociodemográficas segundo o total da amostra e os quadrantes do modelo demanda-controle em bancários da Grande Vitória (ES), Brasil. 

* Teste qui-quadrado. ** p < 0,05.

Com relação às características do trabalho (Tabela 2), 55% (n = 236) dos bancários desempenhavam suas funções na “unidade administrativa”, e a maior parte (73%, n = 381) trabalhava no banco há mais de cinco anos. Em contrapartida, apenas 43% (n = 222) relataram trabalhar na função atual há mais de cinco anos. Do total, 59% (n = 309) trabalhavam mais de seis horas diárias e 66% (n = 343) dos bancários residiam na mesma cidade de trabalho. O baixo apoio social foi verificado em 52% (n = 269) da população avaliada. Houve diferenças estatisticamente significativas entre os quadrantes de Karasek e as variáveis cargo/função (p = 0,001), tempo de trabalho no banco (p = 0,038), horas diárias de trabalho (p = 0,001) e apoio social (p = 0,001).

Tabela 2 Valores absolutos e percentuais das variáveis de trabalho segundo o total da amostra e os quadrantes do modelo demanda-controle em bancários da Grande Vitória (ES), Brasil. 

* Teste qui-quadrado. ** p < 0,05.

A Tabela 3 apresenta os resultados da regressão logística múltipla, considerando as variáveis associadas aos quadrantes de Karasek na análise bivariada. Foram calculados os valores de Odds Ratio para as categorias trabalho ativo, trabalho passivo e alta exigência quando comparados com a categoria baixa exigência. Mantiveram-se associados aos quadrantes de Karasek, a escolaridade, o estado civil, o cargo/função, as horas diárias de trabalho, o tempo de trabalho no banco e o apoio social.

Tabela 3 Regressão logística múltipla, considerando as variáveis associadas aos quadrantes do modelo demanda-controle e a categoria de baixa exigência como padrão, em bancários da Grande Vitória (ES), Brasil. 

LI: Limite inferior; LS: Limite superior; OR: Odds ratio; em negrito: valores estatisticamente significantes

No grupo de variáveis socioeconômicas, a baixa escolaridade aumentou em 3,6 vezes a chance (IC 1,64 – 8,28) dos bancários pertencerem ao quadrante de trabalho passivo. Com relação ao estado civil, ser casado ou viver com companheiro reduziu as chances de pertencer ao quadrante de trabalho ativo (Odds 0,46; IC 0,22-0,29) e trabalho passivo (Odds 0,35; IC 0,18 – 0,69). Ser separado, divorciado ou viúvo também reduziu as chances dos bancários pertencerem ao quadrante de trabalho ativo (Odds 0,34; IC 0,11 – 1,00).

No grupo de variáveis relativas às características do trabalho, desempenhar atividades nas agências bancárias aumentou em 2,55 vezes (IC 1,36 – 4,77) a chance de pertencer ao quadrante de maior desgaste e em 2 vezes (IC 1,10 - 3,68) a chance de pertencer ao quadrante de trabalho ativo. Os indivíduos com tempo total de trabalho no banco maior que cinco anos, apresentaram 3,32 vezes (IC1,89 - 5,81) mais chance de pertencer ao trabalho passivo quando comparados aos bancários com menos de cinco anos. No que se refere às horas de trabalho, trabalhar até seis horas diárias aumentou as chances de o indivíduo enquadrar-se no trabalho ativo. O baixo apoio social aumentou em mais do que o dobro as chances dos bancários pertencerem ao quadrante de trabalho de alta exigência (IC 1,45 - 4,56) e de trabalho ativo (IC 1,25 - 3,71), não estando associado, no entanto, ao quadrante de trabalho passivo.

Discussão

Na presente investigação, constatou-se que um maior número de bancários, 179 (34,5%), situou-se no quadrante de trabalho passivo que, apesar de nocivo à saúde do trabalhador19, é considerado um quadrante de risco intermediário ao estresse. Estudo conduzido por Silva e Barreto15 envolvendo 2500 trabalhadores de uma rede bancária brasileira, encontrou predomínio de bancários no quadrante de baixa exigência (n = 672, 32,7%), seguido pelo de alta exigência (n = 672, 32,7%) e trabalho ativo (n = 300, 14,6%). O quadrante de trabalho passivo foi aquele com menor número de bancários (n = 300, 14,6%).

Comparando-se com outras categorias profissionais, o predomínio do trabalho passivo também foi verificado em profissionais de enfermagem6,20,21, funcionários técnico-administrativos22, trabalhadores de empresas multinacionais da Malásia23 e em médicos cirurgiões de hospitais da Alemanha24

O efeito negativo do trabalho passivo deve-se ao fato de que, por conjugar baixas demandas psicológicas e baixo controle, poderia levar a uma atrofia gradual no aprendizado e desenvolvimento de habilidades. A falta de desafios no trabalho e as rígidas restrições impediriam que o indivíduo pudesse utilizar suas próprias ideias para melhorar seu processo de trabalho, culminando a longo prazo com uma extrema desmotivação, insatisfação e redução na produtividade19.

O quadrante considerado de maior risco para o estresse ocupacional (alta exigência) foi o que apresentou menor número de bancários neste estudo. Estes resultados foram diferentes do esperado, tendo em vista que a realidade atual do trabalho bancário, caracterizado por rigorosas metas, concorrência acirrada, redução nos postos de trabalho, exigências de qualificação constante, intensificação e sobrecarga de tarefas e aumento do controle e pressão sobre os trabalhadores4,25, elevaria os riscos de estresse ocupacional nesta categoria profissional.

Deve-se destacar que o modelo demanda-controle avalia o risco de estresse centrando-se na forma de organização do trabalho17, não levando em consideração outros aspectos importantes no desenvolvimento e na percepção do estresse ocupacional, o que pode ter limitado uma avaliação mais ampla do nível de estresse da população estudada. Além disso, deve-se destacar que o estudo reflete apenas a realidade de uma rede bancária e, consequentemente, a forma como esta organiza seus processos de trabalho, limitando, portanto, a generalização dos resultados encontrados.

Analisando-se as variáveis sociodemográficas após regressão logística, ser casado ou viver com companheiro, em relação ao solteiro, reduziu o risco dos indivíduos pertencerem às categorias intermediárias de estresse ocupacional, fato que reforça a idéia de que o apoio do companheiro pode atenuar o estresse26. O núcleo familiar atuaria, portanto, como suporte social, mediando à percepção dos indivíduos sobre os estressores ambientais27. Apesar disso, no presente estudo, ser separado ou divorciado também reduziu as chances de pertencer ao quadrante de trabalho ativo.

Ainda no grupo das variáveis sociodemográficas, possuir apenas o primeiro ou segundo grau aumentou em mais de três vezes a chance dos bancários pertencerem ao quadrante de trabalho passivo. Resultados semelhantes foram encontrados por outros autores em profissionais de enfermagem20,28.

Estes achados podem ser avaliados à luz das mudanças produtivas do setor bancário que acarretaram a elevação do nível de escolaridade exigido para a categoria, com consequente desqualificação dos funcionários com baixa escolaridade remanescentes29. Uma vez que o baixo nível de instrução apresenta-se associado ao baixo controle sobre as atividades desenvolvidas no ambiente laboral6, esta “marginalização” pode ter reduzido o número de atribuições destinadas a esses profissionais, ao mesmo tempo em que pode ter contribuído para a redução do controle sobre a execução das mesmas, fato que poderia justificar os resultados encontrados.

No que se refere às características do trabalho, desempenhar as atividades nas agências revelou-se como fator de risco ao estresse ocupacional, com aumento nas chances de pertencer ao trabalho de alta exigência e trabalho passivo. Deve-se considerar que nas agências bancárias da instituição avaliada há o predomínio das funções de gerente e caixa. Apesar de inerentes a toda a categoria bancária, estas funções caracterizam-se por contato mais direto com o público externo, maior exposição ao risco de assaltos, insultos e agressões físicas e à problemática e dificuldade das pessoas atendidas30,31. Além disso, as estratégias mercadológicas dos bancos impõem a estes trabalhadores, metas geralmente estabelecidas por níveis hierárquicos superiores, e não raramente consideradas inatingíveis, incluindo a necessidade de venda de produtos financeiros, o que aumenta consideravelmente a pressão imposta a estes trabalhadores, que nem sempre, apesar de todas as demandas a serem cumpridas, possuem controle suficiente sobre a forma de execução dos trabalhos30,31.

No caso dos gerentes, o maior controle sobre os processos de trabalho acaba sendo acompanhando pelo aumento de seus encargos e responsabilidades e, em consequência, a pressão emocional a que está submetido32. Assim, a liberdade proveniente do maior controle, acompanhada das grandes demandas às quais os gerentes são submetidos, pode agir como estressor e não como uma variável de satisfação no trabalho33.

O maior tempo de trabalho no banco elevou em 3,31 vezes o risco de pertencer ao quadrante de trabalho passivo quando comparado ao de baixa exigência. Era de se esperar que quanto maior o tempo no emprego, maior seria o aprendizado proveniente das experiências vivenciadas, o que tornaria o indivíduo mais bem preparado para executar as tarefas de trabalho34, minimizando, consequentemente, as chances de pertencer a um quadrante nocivo à saúde, como o de trabalho passivo. No entanto, a incorporação constante de novas tecnologias no âmbito das atividades bancárias, e a contratação de pessoas cada vez mais qualificadas, provoca uma desqualificação dos funcionários mais antigos que apresentam dificuldades para ajustar-se a estas mudanças, tanto em nível tecnológico, quanto em termos de desempenho de funções32, o que poderia torna-los, mais estressados e mais susceptíveis ao desgaste, conforme demostrando nos resultados encontrados.

Em relação às horas trabalhadas, uma jornada de até seis horas aumentou as chances dos bancários pertencerem ao quadrante de trabalho ativo. Deve-se considerar que a maior propensão ao estresse neste grupo comparado com o quadrante de menor exigência, pode ser devido à ausência de pausas ou tempo muito reduzido para descanso durante a jornada de trabalho. Estes intervalos, segundo Karasek e Theorell19, além da liberdade de ação, também atuariam como mecanismos para aliviar as tensões durante o dia de trabalho. Apesar disso, trabalhar até seis horas não aumentou os riscos para o quadrante de trabalho passivo e de alta exigência, considerados mais prejudiciais à saúde quando comparado com os demais.

A influência da carga horária no desenvolvimento do estresse também pode estar relacionada às características das atribuições dos cargos/funções desempenhados pelos bancários que realizam até 6 horas, no entanto, este aspecto não foi avaliado neste estudo.

O importante papel desempenhado pelo apoio social, considerada a variável situacional mais bem conhecida contra a tensão de trabalho35, foi evidente no presente estudo. O baixo apoio social elevou em 2,55 vezes a chance dos bancários pertencerem ao quadrante de alta exigência. A capacidade preditiva desta variável na redução do estresse ocupacional também é consistente com outras pesquisas6,20,36.

A integração social, a confiança no grupo e a ajuda na realização das tarefas por parte de colegas e superiores, verificado em situações de alto apoio social, poderiam atuar como protetores dos efeitos do desgaste no trabalho sobre a saúde37, apresentando-se, portanto, como uma importante estratégia na redução da percepção dos níveis de tensão. De fato, maior concentração de cortisol, hormônio liberado em situações de estresse, foi encontrado em mulheres com baixo apoio social38, fato que fortalece as evidências do efeito protetor advindo do mesmo.

Estudo conduzido por Noblet et al.39, revelou que nem todas as fontes de apoio social são preditores na redução da tensão do trabalho. Embora a família e os amigos possam ser capazes de fornecer apoio emocional valioso que auxilia o indivíduo a lidar com períodos mais exigentes, apenas as chefias, os colegas de trabalho e os subordinados são capazes de preparar ou fornecer a assistência necessária para reduzir efetivamente a carga de trabalho. Diferente dos achados de Sargent e Terry40 que sugerem que diferentes fontes de apoio social, incluindo o suporte promovido fora do ambiente de trabalho, são importantes na atenuação dos efeitos negativos do trabalho com altos níveis de estresse.

Como limitações deste estudo, pode-se destacar o delineamento transversal, que não permite o estabelecimento de relação temporal entre os eventos estudados. Além disso, para as analises estatísticas deste artigo, utilizou-se o cálculo do Odds Ratio que não é apropriado para um estudo transversal. Apesar disso, é considerada a melhor medida de aproximação do risco neste tipo de estudo para o tipo de desfecho utilizado. O presente estudo foi conduzido com trabalhadores de um banco específico e, por isso, a generalização destes achados para outros colaboradores do setor financeiro ou para as demais categorias profissionais é limitada. Destaca-se ainda que o modelo demanda-controle, utilizado neste artigo para identificação do estresse, por focar-se predominantemente na forma como o trabalho é organizado, não capta todos os aspectos relativos à produção do estresse no trabalho. Por isso, tendo em vista a realidade complexa e subjetiva da percepção do estresse, sua compreensão pode ser ampliada com a utilização de metodologias que avaliem o estresse ocupacional levando em consideração a influência de outros aspectos, como as características individuais, a sintomatologia somática e psicológica desenvolvida e as relações entre os esforços empregados no desenvolvimento das funções e as recompensas recebidas10,41,42. A avaliação de questões subjetivas também deve ser considerada, podendo ser de grande valia, a utilização de metodologias qualitativas como entrevistas individuais e grupos focais33.

Considerações finais

No presente estudo, observou-se o predomínio de bancários no quadrante de trabalho passivo, considerado nocivo à saúde dos trabalhadores. Além disso, esta investigação reforça as evidências da associação entre variáveis sociodemográficas e características do trabalho com o estresse ocupacional avaliado segundo o modelo demanda-controle. Estiveram associados aos quadrantes de maior risco para o estresse ocupacional, considerando a categoria de baixa exigência como padrão, a baixa escolaridade, trabalhar nas agências bancárias, trabalhar no banco há mais de cinco anos, ter carga horária diária de trabalho de 6 horas e, principalmente, apresentar baixo apoio social. Ser casado/viver com companheiro ou ser separado/divorciado/viúvo quando comparado com os solteiros, apresentou-se associado à redução nos riscos de estresse ocupacional.

Os achados deste estudo podem servir como base teórica para a proposição de estratégias organizacionais que visem minimizar o estresse no trabalho e, consequentemente, o seu impacto sobre a saúde do trabalhador. É de suma importância, que estas estratégias tenham como pilar, a reestruturação dos processos, de modo a promover, sempre que possível, a autonomia do funcionário, a inexistência de demandas contraditórias, o equilíbrio no volume de tarefas a serem executadas e, imprescindivelmente, o fortalecimento do apoio social no ambiente de trabalho.

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