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Estudo da relação entre o grau de incômodo de pacientes com zumbido e a presença de hiperacusia

Estudo da relação entre o grau de incômodo de pacientes com zumbido e a presença de hiperacusia

Autores:

Alexandre Caixeta Guimarães,
Guilherme Machado de Carvalho,
Márcia Maria de Freitas Dias Voltolini,
Carlos Eduardo Monteiro Zappelini,
Raquel Mezzalira,
Guita Stoler,
Jorge Rizzato Paschoal

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.80 no.1 São Paulo jan./fev. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/1808-8694.20140007

Introdução

O zumbido é definido como a percepção sonora por um indivíduo na ausência de uma fonte geradora externa.1,2 Acomete entre 14% e 32% da população,3 podendo causar repercussões negativas na qualidade de vida, interferir na concentração, no sono, nas atividades sociais e até na estabilidade emocional.1,4,5 É um sintoma complexo, pois costuma estar associado a outras queixas otoneurológicas, como perda auditiva, tontura e hiperacusia.2

A hiperacusia é uma hipersensibilidade ao som, em que um estímulo sonoro comum é sentido como extremamente intenso ou desconfortante.6 Jastreboff e Hazell definiram a hiperacusia como a manifestação de um ganho central aumentado das vias auditivas compreendida como um estado pré-zumbido, e em alguns casos o zumbido pode ser secundário a esse ganho aumentado.7 A prevalência mais alta de hiperacusia em pacientes com zumbido, mesmo na ausência da perda de audição, sugere que há uma origem comum entre esses dois sintomas. Tanto a hiperacusia quanto o zumbido teriam origem no aumento do ganho central das vias auditivas, sendo o zumbido resultante do ganho central espontâneo e a hiperacusia do ganho central por estímulo sonoro.8-10

Existem diferentes métodos de avaliação do incômodo pelo zumbido e pela hiperacusia, de escalas numéricas a escalas visuais analógicas (EVA). O Tinnitus Handicap Inventory (THI) é o método mais aceito para avaliar o zumbido, por ser de fácil aplicação, interpretação e por abordar vários aspectos da qualidade de vida do paciente.11,12 Contudo, estudos prévios já demonstraram que a EVA, na qual o paciente classifica seu incômodo relacionado ao zumbido de 1 a 10, apresenta boa correlação com o THI.11-15

O incômodo causado pelo zumbido pode ser bastante variável, e existem alguns fatores que parecem estar associados ao maior grau de incômodo, como a presença de estresse, transtornos psiquiátricos16,17 e gênero feminino.18-20 A idade também parece ter correlação com o grau de incômodo pelo zumbido, sendo pior em pacientes com mais de 50 anos.21 Outro estudo mostrou que o grupo com idade entre 45 e 59 anos apresentou mais incômodo do que pacientes mais jovens ou mais idosos.19

A relação da hiperacusia com o zumbido ainda não está clara. Encontram-se estudos que não mostram associação entre a presença da hiperacusia e o grau de incômodo pelo zumbido,20,22 e outros em que o incômodo pelo zumbido foi maior nos pacientes com hiperacusia.21,23

Este estudo tem o objetivo de avaliar a prevalência da hiperacusia em pacientes com zumbido e a sua relação com o grau de incômodo do mesmo.

Materiais e métodos

Foram estudados pacientes do ambulatório de otoneurologia de um hospital universitário terciário atendidos nos últimos oito anos com queixa principal de zumbido na primeira consulta. Todos foram submetidos a questionário e a avaliação clínica e audiológica. O questionário se propôs a caracterizar tipo, presença de uni ou bilateralidade do zumbido, presença e grau de incômodo da hiperacusia, entre outras informações (fig. 1). A avaliação clínica incluiu exame otorrinolaringológico e neurológico, e a avaliação audiológica consistiu em audiometria tonal, logoaudiometria e imitanciometria.

Figura 1 Questionário utilizado para avaliação dos pacientes com zumbido. 

PROTOCOLO DE ZUMBIDO E HIPERACUSIA
IDENTIFICAÇÃO:
Nome:   REG. HC:
Idade: Sexo: Raça: Profissão Tel:  
Endereço:  
Data:  
HISTÓRIA:  
1) Tempo de Z: a) < 1 ano c) 2-3 anos e) 5-10 anos
b) 1-2 anos d) 3-5 anos f) > 10 anos
2) Localização: a) O.D. / O.E. / ambos / cabeça b) lado pior: D / E / não  
3) Tipo: a) único / múltiplo c) pulsátil / clique e) descrição:__________
b) flutuação de volume d) objetivo
4) Evolução: a) súbito / progressivo b) constante / intermitente  
5) Fatores de piora: a) manhã / noite c) álcool / cigarro e) exercício
b) barulho / silêncio d) nervosismo f) jejum
6) Fatores de melhora: a) rádio / TV / fundo b) medicamentos c) rot. cervical: ( ) ipsi ( ) contra
7) Interferência: a) sono c) Emotional  
b) concentração d) Social  
8) Hipoacusia: a) D / E / bilateral / não c) ambiente ruidoso e) hiperacusia / fonofobia / recrutamento
b) progressiva / estável / flutuante d) plenitude D / E / bilateral f) proteção auricular
9) Efeito do barulho: a) nenhum b) melhora c) piora (minutos / horas / dias)
10) Otalgia / otorréia: a) O.D. b) O.E. c) não
11) Tonturas: a) vertigem / instabilidade c) piora com______  
b) minutos / horas / dias d) melhora com______  
12) Gravidade: Zumbido 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10    
Hipoacusia 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10    
Hiperacusia 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10    
Tontura 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10    
13) Cirurgia otológica prévia:______________________________________________________
14) Dx. otológico:__________________________________________________
15) Cefaléia: a) não b) sim:__________________________
16) Cervicalgia: a) com irradiação b) sem irradiação c) não
17) ATM: a) dor c) bruxismo  
b) estalos d) não  
18) Nariz: a) normal c) rinite  
b) obstrução d) roncos  
19) Hábitos: a) tabagismo / elitismo b) café / chocolate c) doces / compulsão

Além do questionário, o paciente graduava o grau do incômodo do zumbido e da hiperacusia com base na escala visual analógica.

Foram excluídos do estudo os pacientes com zumbido para-auditivo, presença de doença infecciosa em orelha média ou externa em tratamento e preenchimento incompleto do questionário.

O grau de incômodo da hiperacusia e do zumbido foi classificado utilizando a EVA (fig. 2).

Figura 2 Modelo de escala visual analógica utilizada. Quanto maior a escala numérica, mais acentuado o grau de incômodo. 

Para a análise estatística foi utilizado o programa IBM SPSS 19. Foi realizado o teste não paramétrico de Mann -Whitney para avaliar a correlação entre hiperacusia e incômodo pelo zumbido, e o teste Qui-quadrado para avaliar a presença da hiperacusia de acordo com o gênero, considerando significante o valor de p < 0,05.

O estudo foi aprovado pelo CEP da instituição sob protocolo nº 914/2011.

Resultados

Foram analisados prontuários de 309 pacientes, 169 (54,7%) do sexo feminino e 140 (45,3%) do sexo masculino (fig. 3). A idade variou de 17 a 90 anos, com mediana de 52 anos.

Figura 3 Distribuição por gênero dos pacientes com zumbido. Gráfico ilustra a distribuição dos pacientes por gênero, sendo 140 homens e 169 mulheres. 

O grau de incômodo do zumbido variou de 1 a 10, sendo a mediana de 7 (mínimo de 1 e máximo de 10). Em 186 (60,2%) pacientes o zumbido estava presente bilateralmente, em 46 (14,9%) apenas na orelha direita e em 77 (24,9%) apenas na orelha esquerda.

A hiperacusia foi detectada em 57 (18,4%) pacientes, com intensidade variando de 1 a 10 e mediana de 5. presença da hiperacusia foi mais frequente no sexo masculino, estando presente em 31 (22,4%) homens e em 26 (15,3%) mulheres. Não houve diferença estatisticamente significante entre os gêneros (p = 0,12) (tabela 1).

Tabela 1 Distribuição dos pacientes por gênero entre os grupos estudados 

  Com hiperacusia Sem hiperacusia Total
Homens 31 109 140
Mulheres 26 143 169
Total 57 252 309

p = 0,12.

Não houve correlação significante entre a presença de hiperacusia e o grau de incômodo do zumbido, sendo este semelhante em pacientes com ou sem hiperacusia, com mediana de 7 em ambos os grupos (p = 0,587) (tabela 2).

Tabela 2 Comparação do grau de incômodo pelo zumbido entre os pacientes de acordo com a presença de hiperacusia 

  n Min Máximo Mediana Desvio Padrão
Com hiperacusia 57 2 10 7 2,00
Sem hiperacusia 252 1 10 7 2,01

p = 0,587.

Discussão

A hiperacusia pode ocorrer em diversas condições, como após estapedectomia,24 episódio de paralisia facial,25 trauma acústico,26 em indivíduos com audição rebaixada ou normal.

A hiperacusia é mais frequente em pacientes com zumbido.27 A prevalência de hiperacusia em pacientes com zumbido é bastante variável, porque existem diversas formas de se avaliar a hiperacusia e a correlação entre os meios de avaliação é em geral baixa.6 Portanto, a prevalência da hiperacusia pode variar de 7,3%-79% dos pacientes com zumbido.20,21,28-30

A relação do incômodo pelo zumbido com a presença de hiperacusia é controversa. Alguns autores não encontraram correlação significativa entre a gravidade do zumbido e a hiperacusia20,22 enquanto Goldstein et al. descreveram essa correlação no seu grupo de estudo.30 Em estudo com 37 pacientes, o grau de incômodo pelo zumbido avaliado pelo THI teve correlação com a presença de hiperacusia e com a presença de distúrbios do sono.23 Outro estudo mostrou que a intensidade e o incômodo pelo zumbido foram maiores em pacientes com hiperacusia, vertigem ou perda auditiva.21

Em nosso estudo com 309 pacientes não observamos correlação entre a presença de hiperacusia e o grau do incômodo pelo zumbido, assim como Dauman et al.,20 e de Magalhães et al.,22 embora os últimos tenham utilizado uma escala com quatro graduações para classificação do incômodo causado pelo zumbido e pela hiperacusia.

Vale ressaltar que este estudo avaliou pacientes com zumbido e que a hiperacusia nesses pacientes foi definida com base na anamnese. Não foram realizados testes como o LDL (loudness disconfort level), assim como em outros artigos de revisão sobre o tema.20-23 Outros estudos com o a hiperacusia definida pelo LDL e com o uso de outros métodos para avaliação do grau de incômodo podem apresentar resultados diferentes dos aqui encontrados.

Consideramos que mais estudos são necessários para definir a relação do incômodo do zumbido com a hiperacusia, que ainda permanece controversa.

Conclusão

A hiperacusia esteve presente em 18,4% dos pacientes com zumbido. O grau de incômodo pelo zumbido nos pacientes com hiperacusia foi semelhante ao dos pacientes sem hiperacusia.

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