Eugenia, crise e as incertezas do futuro

Eugenia, crise e as incertezas do futuro

Autores:

Robert Wegner

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2019 Epub 28-Nov-2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000400022

Professor de história da medicina e das ciências da vida na Universidade de Toronto, Canadá, Nikolai Krementsov cultiva uma experiência de mais de trinta anos em pesquisas sobre eugenia. A biografia, escrita em 1865, do médico Vasilii Florinskii (1834-1899), foi o caminho pelo qual escreveu uma história das ideias eugênicas da Rússia. Por meio de With and without Galton percorremos 150 anos de história dos estudos de hereditariedade, da genética médica e da eugenia no país.

Doutor em medicina pela Academia Imperial Médico-Cirúrgica de São Petesburgo, aos 30 anos Florinskii escreveu Human perfection and degeneration , texto publicado pela primeira vez durante 1865 em uma revista literário-científica, Russian Word , caracterizada pela intervenção no debate público. Especialmente após o aparecimento de A origem das espécies (1859), os publicistas russos, tal como o editor da Russian Word , viam na ciência uma arma política poderosa para a democratização do Império, em um contexto de reformas modernizantes simbolizadas pelo fim da servidão (1861). Com conhecimento médico na área obstétrica fermentado por seus anos de aprendizagem na Europa Central, Florinskii era alguém capaz de traduzir as ideias darwinistas para o contexto russo. Em uma síntese entre o darwinismo e o higienismo, o médico desenvolveu o argumento central de que o caminho da perfeição humana estava na mistura entre indivíduos de diferentes estratos sociais, confissões religiosas, características físicas e talentos. Com sua ênfase no casamento, Krementsov desenvolveu uma proposta que chamou de eugamia. No entanto, o texto de Florinskii caiu na obscuridade e foi esquecido.

Human perfection and degeneration voltou a ser publicado após a Revolução Bolchevique de 1917. Nesse momento, enquanto os marxistas afirmavam a prevalência do “social”, os geneticistas defendiam a teoria mendeliana, que negava a herança dos caracteres adquiridos, e faziam a balança pesar para a “natureza”. Mikhail Volotskoi (1893-1944), antropólogo marxista e um dos fundadores da Sociedade Russa de Eugenia, procurou conciliar as duas correntes por meio da republicação de Human perfection and degeneration , em 1926. Em oposição a Galton, Florinskii seria o precursor da eugenia “proletária”, e por meio do seu lamarckismo seria possível estabelecer uma ponte entre o marxismo, como explicação da evolução social, e o darwinismo, como teoria da evolução biológica do homem. No entanto, Volotskoi não conseguiu unir os filósofos marxistas e seus colegas biólogos em torno de uma eugenia “biossocial”. De todo modo, o livro de Florinskii se tornou uma peça importante no debate político e científico sessenta anos após seu lançamento.

Com a “revolução por cima” conduzida por Stálin e a preponderância de Trofim Lysenko (1898-1976) nas pesquisas em biologia e agricultura, o tema da hereditariedade humana tornou-se suspeito, e o livro de Florinskii retornou ao ostracismo. Já nos anos 1950, durante a campanha de desestalinização, a comunidade acadêmica de geneticistas voltou à cena, e, por meio de Ivan Kanaev (1893-1984), um geneticista que vinha se tornando historiador da biologia, Florinskii foi redescoberto. Nesse momento, ele foi colocado ao lado de Galton como um dos precursores dos estudos de hereditariedade.

A Perestroika (1985) e o desmantelamento da União Soviética (1991) foram momentos de crise e fomentaram um interesse pelo passado, até por meio de genealogias. Um geógrafo que lecionara na Universidade de Tomsk na década de 1950 descobriu Florinskii em sua árvore genealógica e o papel fundamental de seu antepassado na criação da sua universidade, bem como na organização do ensino na região da Sibéria. Assim, redigiu uma biografia de Florinskii, que, pouco depois, Valerii Puzyrev (1947-), diretor do Instituto Tomsk de Genética Médica, fez publicar em 1994. Seria ele também que, no ano seguinte, conduziria uma nova edição de Human perfection and degeneration , elegendo Florinskii como fundador da genética médica e mobilizando sua memória para afirmar a importância da especialidade para a saúde pública.

Com a profunda crise econômica superada na Era Putin, iniciada em 2000, movimentos nacionalistas passaram a atribuir importância à grandeza e pureza russas supostamente esquecidas no passado. Assim, Human perfection and degeneration voltaria a ser publicado em 2012 e disponibilizado na internet, dessa vez por um ideólogo racista. Na interpretação de Vladimir Avdeyev (1962-), a principal conclusão de Florinskii teria sido que o Estado deve regular a pureza racial. Ao mesmo tempo que o livro se tornou mais acessível ao público, talvez nunca tenha estado tão distante das intenções originais de seu autor.

Krementsov prossegue ainda com reflexões sobre a historiografia da eugenia. Destaco dois pontos. Em primeiro lugar, o título do livro – “com ou sem Galton” – é uma forma de enfatizar que, por mais que os movimentos eugenistas, geralmente, reconheçam o britânico como um precursor e sustentem, quase sempre, a palavra “eugenia” por ele cunhada, não significa que falemos de um movimento unificado. Se a importância de estudar as várias versões nacionais do movimento foi apontada desde o livro The wellborn science , organizado por Mark Adams (1990) – a quem o autor presta tributo –, Krementsov realiza uma sugestiva interpretação sobre a dinâmica transnacional do movimento, que implica constantes “traduções” ( Krementsov, 2018 , p.424-435, 474-481).

Em segundo lugar, após ter explorado a diversidade de interpretações a que o tratado de Florinskii foi submetido, Krementsov reflete sobre o que há em comum entre os contextos em que as ideias eugênicas e o livro de Florinskii são retomados. Em 1860, 1920, 1960, 1990, 2010, a Rússia (ou a União Soviética) viveu momentos de crise em que se instaurou uma dialética entre a sensação de quebra com o passado e a angústia com o futuro. Momentos em que muitos tentam se agarrar a um passado idealizado. Essa reflexão de Krementsov talvez nos permita compreender, além do caso russo, também o revival de ideias racistas, ideais eugênicos e nacionalismos xenófobos em outras partes do mundo, como nos Estados Unidos e no Brasil.

REFERÊNCIAS

ADAMS , Mark B. The wellborn science : eugenics in Germany, France, Brazil, and Russia . New York : Oxford University Press . 1990 .
KREMENTSOV , Nikolai . With and without Galton : Vasilii Florinskii and the fate of eugenics in Russia . Cambridge, UK : Open Book Publishers . 2018 .
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