Evidências da circulação de conhecimento filosófico-natural sobre o Brasil em um manuscrito de 1763 de António Nunes Ribeiro Sanches

Evidências da circulação de conhecimento filosófico-natural sobre o Brasil em um manuscrito de 1763 de António Nunes Ribeiro Sanches

Autores:

Gisele C. Conceição

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.24 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702017000200012

O enredo de um manuscrito anônimo

Desde o início do século XVIII, no reinado de dom João V, podemos observar maior circulação de livros, ideias e correspondência entre os mais variados agentes, seja em Portugal, em países do norte da Europa ou nas colônias (Furtado, 2012). Os conteúdos dessas cartas eram os mais variados, e, por meio delas, o conhecimento circulava e era validado. Esse cenário não se modificou na segunda metade do século XVIII, muito pelo contrário, intensificou-se. O volume de trabalhos relacionados às questões políticas, econômicas e científicas, e por vezes à averiguação das potencialidades naturais das colônias, especialmente o Brasil, é inegavelmente maior. Havia um grande interesse do Estado português, que, por sua vez, levou ao aumento do número de agentes a estudar a natureza colonial em ordem a promover mecanismos que pudessem ser empregados pela Coroa para incrementar o conhecimento e o uso dos recursos naturais para o comércio e a ciência. Motivado por interesses políticos, econômicos e acadêmicos, o Estado português aumentou o número de indivíduos que estudavam a geografia, as populações indígenas, ou o ambiente natural das colônias, apresentando mecanismos que deveriam ser utilizados pela Coroa para potencializar o conhecimento e a utilização dos recursos naturais para o comércio e para as ciências (Kury, jan.-jun. 2015; Furtado, 2012; Pataca, 2006).

Nesse panorama de circulação de textos, agentes, conhecimento e ideias, podemos destacar a figura de António Nunes Ribeiro Sanches, nascido em 1699, em Penamacor, uma vila no centro de Portugal. Cristão-novo, deixou o país ainda jovem e nunca mais regressou. Seus estudos foram iniciados na Universidade de Coimbra, em princípios do século XVIII, transferindo-se mais tarde para a Universidade de Salamanca, Espanha, onde recebeu, em 1724, o título de doutor em medicina. Sua vida e sua obra foram exaustivamente estudadas pelo médico e professor de história da medicina na Universidade do Porto Maximiano Lemos (1860-1913), sendo ainda hoje objeto central de diversos campos da pesquisa histórica, dada a importância dos impactos de seus pensamentos e suas obras em algumas das principais reformas implementadas na educação e na saúde, sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII.

A peregrinação de Ribeiro Sanches por grandes centros intelectuais da Europa e as influências que absorveu vindas desses centros podem ser claramente identificadas em seus trabalhos. Em seu périplo europeu, passou por Gênova, Montpellier, Bordéus e Londres, onde esteve em contato com intelectuais locais e pôde apreender novas vertentes científicas e exercer a medicina. Depois partiu para a Holanda, onde conviveu e foi discípulo do célebre médico Hermann Boerhaave (1668-1738). Mais tarde, em 1731, sendo recomendado pelo próprio Boerhaave, Ribeiro Sanches partiu para a Rússia a fim de exercer a função de médico do Exército, ganhando fama e prestígio, o que o levou a ser nomeado médico pessoal da czarina Ana Ivanovna (1693-1740). Em 1739, foi nomeado membro da Academia de Ciências de São Petersburgo e, no mesmo ano, da Academia de Ciências de Paris (Furtado, 2012; Lemos, 1911; Boto, 1998; Ramos Jr., 2013).

Por motivos políticos, pois acabou sendo envolvido em intrigas de Estado, Ribeiro Sanches partiu de São Petersburgo para Paris (onde viveu até a sua morte, em 1783), e ali teceu importantes conexões com a mais alta intelectualidade francesa, participando ativamente na construção de um novo ambiente científico em Portugal. Nesse período, foi extenso o número de textos que escreveu, e sua fama intelectual ganhou ainda mais destaque. Suas principais obras abordaram temas relacionados com a medicina, a educação e a história natural. Ainda em Portugal, Ribeiro Sanches escreveu, em 1726, o Discurso sobre as águas de Penha Garcia. A convite de Diderot, escreveu o verbete sobre doenças venéreas para a Encyclopedie (Furtado, 2012; Lemos, 1911; Boto, 1998; Ramos Jr., 2013). Nos anos seguintes, o médico português publicou suas principais obras para o âmbito político e científico português: em 1756, o Tratado da conservação da saúde dos povos; em 1760, as Cartas sobre a educação da mocidade (uma das mais importantes para o período); em 1763, o Método para aprender e estudar a medicina; em 1779, a Mémoire sur les bains de vapeur en Russie (Lemos, 1911).

Ribeiro Sanches tinha uma influente rede de contatos pela qual expunha seus pensamentos e seus trabalhos. Nela, segundo Júnia Ferreira Furtado (2012), estavam dom Luís da Cunha (1662-1749), Denis Diderot (1713-1784), Buffon (1707-1788), Leonhard Paul Euler (1707-1783), Herman Boerhaave (1668-1738), D’Alembert (1717-1783), o marquês de Pombal (1699-1782); Joseph-Nicolas Delisle (1688-1768), Étienne-Maurice Falconet (1716-1791), além de outros, como seu sobrinho, o médico José Henriques Ferreira.

Assim que chegou a Paris, Ribeiro Sanches estabeleceu uma importante ligação com dom Luís da Cunha. As ideias de ambos confluíam em vários pontos, e uma parceria se firmou. Tal conexão de pensamentos pode ser verificada no texto escrito em 1730 por dom Luís da Cunha Método com que se deve estudar e ensinar a filosofia e medicina moderna, no qual recebeu colaboração de Ribeiro Sanches. Segundo Júnia Ferreira Furtado (2012, p.142), nesse texto de dom Luís da Cunha é possível notar alguns elementos que depois foram implementados pelo marquês de Pombal em suas reformas (1750-1777).

Mesmo que nunca tenha retornado a Portugal, Ribeiro Sanches foi figura de importante destaque na composição de muitas das políticas científicas e educacionais implementadas em Portugal ao longo do século XVIII. Conectando-se com figuras centrais do Estado português, como dom Luís da Cunha e o marquês de Pombal, suas ideias (mesmo que não na totalidade) puderam ser incorporadas nas reformas pombalinas. Ribeiro Sanches participou ativamente na construção das bases políticas e científicas para uma restruturação da Universidade de Coimbra, em particular no currículo de medicina (Furtado, 2012; Lemos, 1911; Boto, 1998). Militou para que a Coroa portuguesa aumentasse os incentivos para que os intelectuais fizessem o périplo europeu, no intuito de estabelecer conexões com proeminentes intelectuais e as mais recentes ideias e conceitos (Furtado, 2012).

Suas ideias circularam por meio de trabalhos publicados em várias línguas e de inúmeras cartas trocadas com indivíduos de sua extensa rede de contatos. Algumas delas cruzaram o Atlântico, chegando às colônias. Ele escreveu sobre virtualmente tudo, e, dentro do conjunto de seus trabalhos, alguns tratavam do Brasil, de sua natureza, de suas potencialidades naturais, especialmente das que poderiam ser úteis para o comércio, para a medicina e para a história natural. É nesse aspecto que o nosso interesse repousa.

O enredo em torno do manuscrito aqui tratado envolve não somente a circulação de ideias entre seu autor e seu interlocutor, mas, também, sua circulação no Brasil.

Em 1911, Maximiano Lemos, em sua obra Ribeiro Sanches, a sua vida e a sua obra, afirmou que o médico havia escrito e enviado ao embaixador português em Paris, dom Vicente de Sousa Coutinho (1726-1792), em 1763, 25 páginas manuscritas sobre as colônias. Segundo ele:

A colocação em Paris de D. Vicente de Sousa Coutinho como nosso ministro teve uma feliz influência sobre a vida do nosso ilustre compatriota. Pouco tempo depois de sua chegada, Sanches dirigiu-lhe um manuscrito sobre as colônias, que Innocêncio conseguiu ver, mas cujo paradeiro não pudemos averiguar. A seu respeito encontramos esta nota entre os papéis do médico português: Diz Sanches: ‘Disto escrevi 25 folhas de papel para o Sr. Dom Vicente de Sousa Coutinho no anno de 1763: queira Deus que valha alguma coisa para o serviço da humanidade e de Portugal’ (Lemos, 1911, p. 176).

O historiador Victor de Sá (1980) afirmou algo semelhante. Segundo ele, Ribeiro Sanches havia escrito um texto, em 1763, intitulado Discursos sobre as colônias, sobre a América portuguesa e sobre a agricultura. Victor de Sá (1980, p.117) ainda acrescentou que: “A respeito deste manuscrito, que Innocêncio descreve (no Dicionário bibliográfico português), afirmava Maximiano Lemos desconhecer-se o seu paradeiro, situação que ainda hoje perdura”.

O Innocêncio mencionado pelos dois autores é Innocêncio Francisco da Silva (1810-1876), importante colecionador de livros e bibliógrafo. No seu Dicionário bibliográfico português, fez menção aos tais papéis escritos por Ribeiro Sanches sobre o Brasil, dizendo:

A segunda obra é um trabalho econômico-político, e de notável importância para aquele tempo, acerca da América Portuguesa, ‘empreendido e concluído em 1763, a instância do ministro Conde de Oeiras, depois Marquês do Pombal’, que, como se sabe, tinha em grande consideração a ciência e conhecimentos do doutor Sanches, e não se declinava de consultá-lo com frequência sobre negócios de variado interesse público (Silva, 1876, p.146; destaque nosso).

Depois de uma breve leitura do documento “Apontamentos para descobrir na América portuguesa aquelas produções naturais que podem enriquecer a Medicina e o Comércio, Paris, Outubro de 1763”, localizado na secção de manuscritos da Biblioteca Nacional de Portugal, sem assinatura ou nomeação de destinatário, encontrei, na página 11, a chave para identificar o autor:

Instruções e qualidades dos que haviam de indagar as produções das terras de Ultramar. ... Já nas Cartas que escrevi sobre a Educação da Mocidade, como também no Método para aprender e ensinar a Medicina, mostrei evidentemente, me parece, que jamais se introduziu em Portugal a Ciência da Física Geral ... (Apontamentos..., 1763).

É evidente que o texto anônimo foi escrito por Ribeiro Sanches e que se trata de um dos manuscritos citados por Maximiano Lemos em 1911, Victor de Sá em 1980 ou por Innocêncio Francisco da Silva em 1876. Não é possível afirmar se o manuscrito depositado na Biblioteca Nacional é o que foi endereçado a dom Vicente de Sousa Coutinho ou ao marquês de Pombal; o que de fato podemos dizer é que se trata do texto sobre o Brasil que se acreditava estar perdido. Além disso, sabemos agora que Ribeiro Sanches não escreveu apenas um, mas pelo menos dois textos sobre o mesmo tema e endereçou a agentes diferentes.

Algumas particularidades sobre os conteúdos do manuscrito

O texto de Sanches disserta sobre as vantagens dos conhecimentos em história natural para a economia, agricultura e ciência. Para isso, exemplificou como alguns países, Inglaterra, Holanda e Espanha entre eles, puderam enriquecer seu comércio e sua ciência por meio de estudos sobre a história natural de suas colônias. Sanches escreveu sobre o ensino de medicina e a importância da história natural para a prática médica. Em relação à botânica, disse ser necessário o conhecimento das potencialidades naturais das colônias, e que os médicos deveriam ter conhecimentos sobre seus usos e aplicações na medicina. Como solução para que o Reino português tivesse maior aproveitamento econômico e científico de seus territórios coloniais, em especial o Brasil, Sanches dissertou sobre a importância do ensino superior e da reforma proposta por ele em relação à Universidade de Coimbra. Ainda ressaltou a importância de haver intercâmbio de conhecimento e de pessoas entre Portugal e os países do norte, evidenciando que a circulação de agentes promoveria um maior enriquecimento da ciência portuguesa.

Fato é que esse manuscrito, assim como outros escritos por Sanches, pode ser relevante para demonstrarmos de que maneira se dava a circulação de conhecimentos no Império português. Os agentes produtores de conhecimento científico muitas vezes validavam suas ideias pela troca de correspondência. Podemos supor que Sanches sabia que, se escrevesse para dom Vicente de Sousa Coutinho e para o marquês de Pombal, poderia ter suas ideias mais facilmente aceitas e assimiladas pela “República de Letras”. Os mesmos argumentos dessa carta de 1763, sobre a prioridade que deveria ser dada aos estudos filosófico-naturais no Brasil, ficaram registrados em uma outra carta, escrita por Ribeiro Sanches e enviada para seu sobrinho que residia no Brasil, o médico José Henriques Ferreira. Tal carta foi transcrita e levada a público no trabalho de Ferreira (1788) sobre a cochonilha.

A complexa rede de contatos e trocas de correspondências e trabalhos gerou um extenso volume de textos científicos, e críticos, a respeito da história natural do Brasil. Ideias, críticas e conhecimento circulavam para além das fronteiras entre a metrópole e a colônia. Ribeiro Sanches, que nunca voltou a Portugal e tampouco esteve no Brasil, escreveu nesse texto de 1763, por exemplo, sobre alguns produtos naturais do Brasil, suas qualidades e meios de produção, como a quina, a ipecacuanha e o óleo de copaíba. Esse tipo de informação chegou até ele mediante trabalhos escritos por outros agentes, o que demonstra que o conhecimento a respeito do ambiente natural brasileiro circulava de maneira ampla no século XVIII, principalmente na segunda metade do século.

Para o século XVIII, apesar de ser escasso o número de trabalhos impressos quando comparados com o volume de manuscritos, isso não significou menor circulação de conhecimento, nem dentro do Império português nem entre ele e outras regiões (Furtado, 2012). O conhecimento que circulava entre agentes de diferentes locais era validado, às vezes, aplicado e reconfigurado por eles.

O manuscrito

A transcrição foi feita a partir dos originais, que estão depositados na Secção de Manuscritos Reservados da Biblioteca Nacional de Portugal (COD 6941).

REFERÊNCIAS

APONTAMENTOS...Apontamentos para descobrir na América Portuguesa aquelas produções naturais que podem enriquecer a Medicina, e o Comércio. Sessão dos Reservados, COD. 6941//4 (Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa). 1763.
BOTO, Carlota. Enciclopedismo de Ribeiro Sanches: pedagogia e medicina na confecção do Estado. História da Educação, n.4, p.107-117. 1998.
FERREIRA, José Henriques. História do descobrimento da cochonilha no Brasil, da sua natureza, geração, criação, colheita e utilidades. Série Azul de Manuscritos reservados, COD 375 (30) (Academia das Ciências de Lisboa). 1788.
FURTADO, Júnia Ferreira. Oráculos da geografia iluminista: Dom Luís da Cunha e Jean-Baptiste Bourguignon D’Anville na construção da cartografia do Brasil. Belo Horizonte: UFMG. 2012.
KURY, Lorelai. O naturalista Veloso. Revista História, n.172, p.243-277. jan.-jun. 2015.
LEMOS, Maximiano. Ribeiro Sanches, a sua vida e a sua obra. Porto: Tavares Martins. 1911.
PATACA, Ermelinda Moutinho. Terra, água e ar nas viagens científicas portuguesas (1755-1808). Tese (Doutorado) – Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2006.
RAMOS JR., Nelson de Campos. Mediador das Luzes: concepções de progresso e ciência em António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783). Dissertação (Mestrado em história social) – Universidade de São Paulo, São Paulo. 2013.
SÁ, Victor de. Ribeiro Sanches: “Dificuldades que tem um Reino Velho para emendar-se” e outros textos. Seleção, apresentação e notas de Victor de Sá. Lisboa: Livros Horizonte. 1980.
SILVA, Innocêncio Francisco da. Dicionário bibliográfico português: estudos de Innocêncio Francisco da Silva aplicáveis a Portugal e ao Brasil. Tomo VIII (1º suplemento). Lisboa: Imprensa Nacional. 1876.
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